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⊙ A Morada dos Dias

{ Horizontes. Olhares. Rumos Cruzados. Palpitações. Compassos dos Dias. }

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20
Set17

A mudança de sexo aos 16 anos

 © TheFoxAndTheRaven

Ao contrário do que afirma Pedro Afonso, médico psiquiatra que, muito provavelmente, segue uma escola próxima àquela que considerou, durante décadas, as religiões não-cristãs uma patologia social, e os fenómenos de transe religioso casos de histeria ou esquizofrenia, a diversidade de género não remete para um ideologia. Mesmo que o psiquiatra não queira, o género é um dado natural, respeitante à natureza psico-emocional dos sujeitos. Em rigor, aquilo que a Antropologia nos tem dado a compreender, felizmente, é que o género tem sido condicionado, ao longo da história, por atavismos culturais. Ao contrário do que querem fazer crer os mais conversadores -- para quem a sociedade é concebida como estanque --, a apologia da liberdade sexual e da diversidade de género, não resulta de uma predisposição política eufórica da «esquerda» com fins eleitorais, muito menos com o propósito de "acabar com os rapazes e as raparigas", para citar Pedro Afonso. As palpitações deste batem ao ritmo da ala política evangélica brasileira, que por este dias conseguiu que a homossexualidade fosse considerada doença, coisa que, aliás, o psiquiatra português subscreve. Graças às ciências sociais, sabemos que as sociedades são mutáveis, reciclam-se, ressignificam-se, que as tradições são invenções com fins de instituir uma dada memória coletiva, uma determinada ideologia ou narrativa mítica. É, pois, graças a séculos de um modelo político-ideológico judaico-cristão que o género tem sido condicionado, bem como, nota-se, o pensamento de Pedro Afonso. A vitória do binómio masculino-feminino expressa em homem e mulher, da monogamia e do monoteísmo, correm lado-a-lado com a consolidação de uma sociedade judaico-cristã, e não reproduzem as formas multiversas pelas quais as sociedades se expressam. 

 

Dito isto, tenho as minhas reticências a propósito da proposta do BE de que os filhos possam processar os pais que se recusem a autorizar a mudança de sexo aos 16 anos de idade. Entenda-se, não me oponho à mudança de sexo, princípio que se coaduna com a liberdade e a autodeterminação. O sujeito é livre de fazer o que quiser com o seu corpo, desde que em estado psicológico que revele compreensão do ato. Ou seja, uma pessoa que se deseje mutilar deve ser livre de o fazer, desde que esteja consciente dos efeitos. Ora, o que está em causa, penso, é a limitação da autoridade parental e a gestão dos deveres e direitos familiares. De que forma é possível garantir o direito à identidade sexual (ou outra) do adolescente sem, com isso, obrigar o núcleo parental a aceitar algo com que não concorda? Eventualmente pela emancipação do menor. Todavia, reconhecendo que muitas pessoas, desde crianças, se consideram aprisionadas num corpo que não é seu, é necessário que uma mudança de sexo num contexto adolescente seja acompanhada de profunda revisão psicológica, pois que a adolescência corresponde a um período de turbilhão emocional e busca de identidade, sendo a mesma permanentemente objeto de revisão, negação, negociação por parte do sujeito adolescente. Entre os 16 e os 18 anos, altura em que se atinge a maioridade, vai um período adequado para a reflexão. Afinal há inúmeros fatores em equação, que passam pela irreversibilidade do processo e, a título de exemplo, a mudança escolar, a fim de evitar o bullying decorrente. 

 

O nosso património cultural mainstream deve ser cautelosamente invocado, sem que para tanto haja um aprisionamento das liberdades individuais, pois que podemos ser todos iguais em ditadura, mas somente em democracia somos livres.

18
Set17

Rentrée Académica

Chegar ao ISCTE-IUL e encontrar o turbilhão de um novo ano letivo que começa. A dúvida, a ansiedade, a incerteza, a motivação, o reencontro, os perdidos no labirinto, o melting pot que carateriza esta casa de ensino, tudo num só. As primeiras chuvas que justificam as capas académicas fechadas, as praxes por aqui e acolá, os que ainda se inscrevem, os que têm dúvidas, os que travam as primeiras amizades. Quase que o tempo suspende e voltamos a ser estudantes. Mas como "O tempo não para! Só a saudade é que faz as coisas pararem no tempo...", como escrevia Mário Quintana, há uma bolha entre eles e nós, entre os que efetivamente se dirigem para as salas de aula e os que ficam envoltos em textos e reuniões.

12
Set17

Lugares despidos de turismo

© arquivo pessoal  

Gosto de ouvir a cacofonia das vozes de múltiplas paisagens na nossa Lisboa ou no nosso Porto. Ao contrário de muitos lisboetas aprecio a circulação de gentes. Ainda assim, reconheço os contratempos causados pela inflação, quando as cidades se tornam para eles e não para nós. Gosto, também, que descubram o Portugal para além do Algarve que já tomaram de vez como seu, mas apraz-me que permaneçam geografias caladas, lugares que sejam apenas nossos, livres da mácula do turismo, inclusive o interno. Gosto que o meu lugar, de onde agora escrevo, permaneça com as suas águas límpidas, invioladas, gélidas de puras, passíveis de beber, que beijam as margens cobertas pela sombra da vegetação. É o meu rio, sereno e profundo. Por isso o evito em época de loucura. É o meu escritório onde escrevi as mais poéticas páginas da minha tese de doutoramento. E com isto me aborrecem as vozes abatatadas da grande bretanha, e até as vozes lusas de várias paragens. Gosto disto sim, como é, sem pegada humana dos plásticos, dos papéis, das beatas, que às águas não se misture mais nada que as folhas, sem deslocamentos das pedras que ali pertencem, que a mó rode sem lixo, e me deixem entregue ao silêncio dos pássaros e ao bailado das águas. É importante que possamos ter lugares que a humanidade ainda não destruiu, porque o turismo quando se alastra não arrasta apenas registos fotográficos e olhares cativados, carrega o nefasto consigo.

08
Set17

O racismo que parece não haver

           Joana Gorjão Henriques tem feito um excelente trabalho, trazendo ao Público e a público, fenómenos que contradizem um mito racial em Portugal. O país dos brandos costumes tem em si muitos preconceitos, mesmo que os vá manifestando brandamente. Ser-se cristão, branco e falar português são indicadores essenciais para a aceitação mais alargada do imigrante. Efetivamente sabemos que o francês, o inglês ou alemão que vem viver para Portugal não é um «imigrante», é um francês, inglês ou alemão que veio viver para Portugal. Imigrante não é o Monsieur Cantona ou a Madonna, são o Sergiy, o Weverson ou o Djaló. 

          A histórica presença africana em Lisboa, que Isabel Castro Henriques tem batalhado para fazer caber na memória histórica nacional, é um facto ignorado, silenciado em favor de uma narrativa, daquilo que Triaud chama de memória instituída e que é, toda ela, politicamente intencional. Não é, pois, de estranhar ler posições de pessoas notoriamente (o notoriamente deriva das suas posições pró-Trump e anti-islão) xenófobas e racistas afirmando que Portugal não é um país racista nem xenófobo. É verdade que temos um historial de miscigenação e encontros culturais exemplares. Mas isso não apaga a marca do preconceito, da escravidão e da segregação. Com rigor, temos um mapa social que se organiza em clusters e estereótipos: os "pretos", os "chinocas", os "de leste", os "zucas", os "chungas", os "tios", os "Avecs", etc. Trata-se de uma ordenação social que instituindo fronteiras imaginadas confere um conforto ilusório a quem a contrói. Basta tomar em conta a cristalização do português "trolha" e da portuguesa "porteira" que paira no imaginário francês, e que coube tão bem no hilariante "A Gaiola Dourada".

        Porque os estereótipos e atitudes preconceituosas resultam das geografias, onde não é de estranhar que na Lisboa do Restelo ou da Lapa estes se revelem mais determinantemente, contrastando com o melting pot dos arredores, onde todos os "outros" se cruzam e misturam, produzindo o verdadeiro tecido social português. Com efeito, nenhuma sociedade é estanque, ela reconfigura-se permanentemente, negociando-se dentro de si mesma. 

06
Set17

Educar para o açúcar

 O açúcar é, reconhecida e unanimemente, a droga do nosso século, e o maior veneno que consumimos, estando associado a uma percentagem elevadíssima de doenças, inclusive o cancro. No entanto, a indústria alimentar, que não tem ética nem se compadece com mais do que o lucro, sempre fez questão de nos viciar através do açúcar. É absurdo que papas para bebés e crianças, como a Nutriben e a Cerelac contenham mais açúcares por 100g (35g) do que cereais para adolescentes e adultos (Fitness 20g, Nesquik 25g, Golden Grahams 25g, Jordan's 15g, Muesli IKEA 11g). Há uma clara intenção de viciação, extremamente cómoda para os pais pois os filhos comem com gosto, ingerindo açúcar e tornando o seu organismo dependente. Mais tarde terão o vício ampliado com doces de toda a ordem, chocolate, refrigerantes e tantas outras coisas. A cultura do açúcar está impregnada na nossa sociedade, sendo extremamente grave que cereais ou bolachas, por exemplo, com mais açúcares são as mais baratas. 

Há 50 anos atrás faziam-se chuchas de açúcar com um trapo para manter as crianças caladas. Hoje há desenhos animados sobre o salvamento da fábrica do açúcar e uma indústria bem montada. A dependência do açúcar está a matar-nos, e andamos a comer com gosto maçãs envenenadas.

03
Set17

Ainda o Género e o Neutro

Uma sociedade não reflete ideologias concebidas em escritórios, gabinetes ou laboratórios. Uma sociedade é muito mais plural que o esquema "nós e os coitadinhos" concebido no altar do CDS e de uma franja significativa do PSD. Uma sociedade é movimento, por isso os conceitos de análise sociológica são transformações, ressignificações, mudança, acomodação, negociação, hegemonia, poder, entre outras. Dito isto, não há uma coincidência entre o ideal conversador de sociedade e a realidade propriamente dita. Não interessa que não se aceite a diversidade sexual, de género ou religiosa, a diversidade é um facto social.
Ora «diversidade» é a chave de uma sociedade. Por isso a transformação de uma sociedade de diversa em unívoca é um ato de poder e ideologia. Quando à luz do respeito pela diversidade se subtrai o diverso para instalar o «neutro» estamos a passar de uma hegemonia para outra. Quando se ataca uma barbearia por não atender mulheres, mas nada se diz sobre um brunch que interdita homens, quando se questionam manuais escolares que colocam tarefas domésticas no imaginário feminino, mas se ignora o papel de "bruto" sobre o masculino, quando se retiram os brinquedos femininos e masculinos e se pretende instalar brinquedos neutros, não se está a alargar a liberdade do género, mas a impor, contrariamente, o género neutro. Melhor seria deixar o menino com a sua Barbie e a menina com o camião das obras.

29
Ago17

O Facebook e o recreio da escola

 O recreio da escola, enquanto espaço de socialização por excelência, veicula, fortemente, valores comunitários, conceções sociais estruturantes como preconceitos, estereótipos e padrões comportamentais de excelência e de perigo. É um espaço de contaminação, de circulação de ideias, slogans sociais, modelações comportamentais, de soundbites e construção de clusters, em que se vão vestindo catalogações como dreadsnerds, preppy, entre outras. Nesse sentido assemelha-se ao Facebook,  com todas as suas lógicas silenciosas de ocupação de espaço, de construção de solidariedades, de amizades, de inimizades, de pretensões, de anti-status quo, de fabricação de marginalidades. Num e noutro cenário. Dificilmente não nos lembraremos daquele tipo borbulhento e estranho meio solitário, ou do rapaz vestido com roupa herdada de um tio, do cocho, do "caixa de óculos", do gordo, enfim, dos descamisados do mainstream, todos aqueles tipos que até podiam ser extremamente simpáticos, mas com os quais ninguém queria ser visto conviver, também no Facebook há quem leia muito este ou aquele mural, sem jamais fazer um like, não vá "o diabo tece-las" e ser visto pela "malta fixe" a cair no erro social de dar uma palmada nas costas no tipo menos popular do liceu.

24
Ago17

A saída do armário e a apologia do neutro

 

Há dias a secretária de Estado, Graça Fonseca, assumiu a sua homossexualidade. Este ato deve ter, em primeiro lugar, um efeito libertador no sujeito. Não é por acaso que o conceito de «sair do armário» remete para um cenário de encobrimento e claustrofobia. Ora, numa sociedade suficientemente aberta e plural para que se seja senhor(a) de si e em que os direitos dos sujeitos LGBT estão devidamente garantidos, a sexualidade não deve ser transportada para a utilidade política. Nem pardais de capela nem foliões de desfiles. Quer isto dizer que em Portugal falta encontrar um equilíbrio capaz de tornar a sexualidade um «não-assunto» e a existência de movimentos de defesa das liberdades e individualidades algo desnecessário. Compreende-se que uma sociedade será tanto mais equilibrada e justa quanto maior for o gozo da autodeterminação em matérias próprias, como a sexualidade ou a morte. Quando, por proposições sociais alavancadas em dogmas de fé, se pretende determinar a dignidade ou não do «outro» invade-se a esfera da liberdade alheia e adentra-se num cenário de evangelização moral. O edifício jurídico de uma sociedade deve dar igual valor a uma ideia de normatividade e às normatividades alternativas. O direito dos sujeitos LGBT não pressupõe que haja uma intenção de converter os heterossexuais à causa, pela mesma razão de que um cristão que tem, por direito, a convicção de que a sua religião é a que oferece o melhor caminho espiritual, não deve impor aos outros a obrigação de ser cristão. Ou outra religião qualquer. 

Em segundo lugar, o caso é pretexto para falar de uma polémica em torno de manuais escolares, brinquedos e outros afins diferenciados para meninos e meninas. Defende-se, em oposição, a existência de brinquedos indiferenciados. Ora, esta conceção de uma neutralidade de género parece-me contraproducente, porque o neutro não veicula uma identidade, mas a ausência daquela. Creio que melhor seria dar a escolher à criança entre carros e bonecas, porque pior do que uma menina não poder brincar com carros é ter de brincar com qualquer coisa neutra, facto que é, em boa medida, de uma enorme dificuldade, haja visto que construímos, enquanto sociedade, categorias de género para objetos. Parece que passámos rapidamente da saída do armário como coragem para a saída do armário como ato político, ao mesmo tempo que deixámos (idealmente, claro) de ver o género como apêndice do fisiológico e passámos a ver como plataforma para um neutro como ausência de algo, como se entre o gelado de morango e o de chocolate tivéssemos optado por um gelado sem sabor algum. 

01
Ago17

Porque te odeio, Agosto.

 

Dado à nostalgia, quer como sentimento quer como tema de olhar científico, não posso deixar de ter uma relação emocional com as estações. Por sua natureza cíclica, elas remetem-nos para as paisagens da memória, para a recuperação dos fragmentos que reatualizamos pelo gesto saudosista. Como afirma Stephen Legg, no seu texto "Reviewing geographies of memory/forgetting", cada recordação é uma recordação tanto do evento em si quanto da última vez que o mesmo foi lembrado. Por essa mesma razão, a memória é uma sobreposição de memórias, um processo cumulativo. Quando regressamos, sucessivamente, a lugares onde fomos felizes (e sabemos que há quem nos aconselhe a não o fazer) somos confrontados com as vicissitudes do tempo, com as marcas impressas em nós e nos lugares, forçando-nos a paisagem a recordar o que já ali vivemos. É por isso que a memória tende a necessitar da bengala do espaço para se fazer ouvir. É por tudo isso que odeio tanto Agosto, apesar de adorar o frenesim dos mergulhos, o sal na pele, ou a leveza fluvial, o dourado do bronze, os chinelos, as toalhas, a areia, os gelados, o cansaço das corridas à beira-mar, os livros lidos entre rochas. E odeio-o porque me obriga a recordar, porque me arrasta sonâmbulo pelas margens da memória, pelo rio de vivências que me faz recuperar. O que foi feito, o que gostaríamos de ter feito, o que não deveríamos ter feito. Tantas coisas.

O Verão mostra-nos que quando não se vai é pior. Ficar em casa, deitados à sombra do Verão não vivido, é obrigarmos-nos a reviver Verões passados. Mesmo aqueles marcados pela tristeza morna estival, hoje vemos-los com nostalgia, com a saudade do idílico e do maravilhoso. O Agosto em que não fui, mergulhado no triste escuro de um quarto em maratona televisiva, e tardes na escola vazia entre balizas e cestos de basket, contém o tempero da saudade. Os Agostos em que fui, em que fiz balizas com chinelos e raquetes, em que estive na água até à hipotermia, em que tomei pequenos-almoços de gelados, em que corri canaviais a fora e estradas de chão de terra em cima de uma bicicleta e com o meu velho walkman, em que joguei finais contra mim mesmo, em que fiz de um tudo e um tanto. Por isso não posso deixar de pensar em Svetlana Boym e a frase com que a autora, entretanto falecida, termina o seu The Future of Nostalgia: «Sobreviventes do século XX, somos todos nostálgicos de um tempo em que não éramos nostálgicos». 

18
Jul17

Homossexualidade, Gentil Martins ou de como o conservadorismo é uma falácia

Sabemos vivermos tempos líquidos, fugazes, em que as alterações sociais se dão num fluxo acelerado, em que ao tempo não se dá corda, mas antes se vê passar o frenético digital dos números nos gadgets. Esta fluidez faz crer que se trata de um fenómeno novo, esse da mudança social, como se a humanidade tivesse estado parada até ao apogeu da globalização e do capitalismo. O que de facto a História nos ensina é que isso jamais aconteceu, razão pela qual a Antropologia advoga a mutabilidade das estruturas sociais, a permeabilidade dos conceitos, a inexistência de dados estanques, a maleabilidade das fronteiras e dos valores sociais. As sociedades são feitas de negociações, de valores mudados e questionados. É precisamente pela consciência da mudança que se dão as crises nostálgicas. A própria nostalgia, urdida nos lapsos de memória, nas memórias instituídas e nas coincidências relembradas, é uma tentativa de fixar imagens estáticas de um tempo, razão pela qual ela é, essencialmente, estética, aprisionada em sons e produtos culturais reciclados. 

       Dessa forma, o conservadorismo não seria, senão, uma falácia, uma tentativa de fixar um tempo incerto, um punhado de valores que em dado momento da história foram degenerações sociais, mudanças. Da incapacidade de cavalgar a onda, o conservador aspira por um tempo romanceado, por uma nostalgia tecida no tear da utopia, porque não se pode conservar o que está em permanente mudança. Por essa razão, o conservadorismo não é linear como quer ser, é a seleção de elementos com um fim ideológico. É a opção entre muitos passados, entre a multiversidade do «antigamente», é a seleção de frames com vista à composição de uma narrativa. Nesse sentido, o problema dos conservadores com a homossexualidade não parece residir na vivência sexual alheia, mas antes no facto daquela contestar a história que eles querem contar a si mesmos - a história de uma sociedade estanque, imutável, que se apega aos bons e velhos costumes, selecionados, pois, de entre os muitos velhos costumes. Cozinhados no forno da moralidade religiosa, os velhos costumes não são factos históricos, são memórias cálidas de uma infância tingida. Como escreveu Rosa Montero no seu A Louca da Casa, «são tão iguais estas paradisíacas infâncias russas que uma pessoa não pode deixar de as julgar uma mera recriação, um mito, uma invenção».

        Assim, o conservadorismo é a capacidade de olhar para as corridas de Ascot e ver apenas os chapéus e ignorar os comportamentos ébrios de quem os transporta. É, no fundo, uma expetativa quase esquizofrénica de conservar, de aprisionar, um momento, aquele pedaço de tempo antes da dentada na maçã do paraíso, uma história que se conta a si mesmo para afastar os monstros debaixo da cama. 

"E naquela casa, que ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias".

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