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A Morada dos Dias

"E naquela casa, que ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias".

Lendo Blogues #3


  • Assertivo post de Pedro Rolo Duarte sobre as eleições americanas e a ilusão diferencial europeia (link). 

  • Apreensivo post de Rui Bebiano sobre os rumos da Europa entre a América de Trump e a Rússia de Putin (link).

A lição de Trump ao Partido Democrata.

Democrats did it themselves, é uma conclusão acertada para o desfecho das eleições norte-americanas. O Partido Democrata precisa, com seriedade, fazer uma reflexão sobre os caminhos que pretende trilhar doravante, para que os erros, cuja fatura foi agora emitida, não se repitam. O primeiro erro foi desvalorizar a candidatura de Trump e ter, por portas e travessas, dado uma mão ao agora eleito presidente, numa tentativa de dividir o eleitorado republicano, esperando que o tempo cumprisse o seu papel de fazer cair a paródia donáldica. Menosprezar a capacidade de Trump cavalgar a onda foi um erro colossal, e os media, por seu turno, não estão isentos de responsabilidade. Donald Trump é one man show numa América onde uma fatia significativa da população elege o presidente como um concurso de popularidade. Em segundo lugar, e verdadeiramente mais importante ainda, foi desvalorizar o seu próprio eleitorado, oferecendo-lhe a candidata Hillary Clinton como se os democratas não dessem pela diferença face a Bernie Sanders. Uma desfaçatez dos corredores democratas, que optaram pela sua candidata mais conservadora e cuja imagem não se deslocava da administração do seu marido e dos interesses de Wall Street. É preciso, portanto, respeitar o eleitorado, quando era evidente que os eleitores democratas queriam uma transição governativa pacífica, com um presidente com uma imagem clean e independente dos vícios políticos, e verdadeiramente de esquerda. Bernie Sanders reunia todos os predicados como candidato (uma vez que Michelle Obama não apareceu à corrida, e bem a meu ver). O partido desinteressou-se disso, partindo do errado pressuposto que qualquer candidato serviria ao seu eleitorado. É claro que o eleitorado democrata cometeu o erro de não ir votar, esperando que os seus concidadãos flutuantes e até republicanos não cometessem o erro de eleger Donald Trump. Mas cometeram. Um golpe inesperado geminado com o brexit, e que deixa a América num caos político, num turbilhão social, entregue ao lado mais negro do Partido Republicano. Serão quatro penosos anos. Ao menos que seja uma lição profunda para o Partido Democrata -- é preciso deixar o eleitorado escolher. 

Soaram as Trumpetas

 Tocqueville em "Da Democracia na América" alertava para a ilusão da maioria, sobre os limites democráticos de supor que a maioria resumia a razão. As eleições presidenciais norte-americanas tornam-se paradigma de que as pessoas em tempos incertos abrem facilmente a mão da razoabilidade em troca de pretensa segurança, regra-geral alavancada em discursos populistas, maniqueístas e preconceituosos. A vitória de Donald Trump comprova a teoria de que dizer coisas banais aos gritos produz maior resultado do que dizer coisas sensatas pausadamente. Trump já o havia experimentado quando replicou algumas ideias de Obama mas de forma tresloucada. 
Acordamos, então, chocados. Uma campanha vista com um olhar humorístico transformou-se num caso de eleição presidencial. Será difícil, convenhamos, não olhar com ceticismo para o povo americano. Um povo que é capaz de eleger-me Donald Trump como presidente – e que já elegeu Bush filho – é capaz das maiores barbaridades, vendo-se desabitado de sensatez. The old west não está circunscrito e atacou os boletins de voto elegendo um presidente preconceituoso, medíocre, com profundos tiques fascistas e para quem a paz é sinónimo de recurso às armas. A Idade Média que circulava pelos EUA veio à tona. God save America.