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A Morada dos Dias

"E naquela casa, que ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias".

Um corte de cabelo diferente

 Sempre fui um consumidor da nostalgia, ainda antes e bem antes do seu boom mais recente. Por isso é uma delícia ir a estas barbearias revivalistas, impregnadas de objetos vintage. No entanto, por contingências de agenda e geografia, fui a um salão unissexo de uma jovem de cabelos às cores, oriunda do Norte da Roménia, mais para os lados da Hungria. Faltou-me, claro, a toalha quente, a oferta da cerveja que não bebo, e toda aquela parafernália retro. Mas no fim, o corte de cabelo ficou exatamente igual e fiquei a saber um pouco mais da Roménia, escapando ao cliché do "olha-me aquela do outro lado da estrada", conversa que só interessa a avulso ou numa saída à noite.

Fátima

Achei imensa graça ao post de Guida, no blogue Aspirina B, a propósito da visita papal a Fátima. Não replico a questão mercadológica do santuário, mas chamo à atenção da importância sociológica dos fenómenos marginais católicos na configuração da identidade católica portuguesa. É impossível pensar o catolicismo popular sem as oferendas, os votos, as trocas simbólicas dos ex-votos, sem os cultos dos santos e santas que se renovam nos ciclos anuais e nas suas romarias. São aspetos que alimentam o catolicismo e sem os quais o catolicismo não se reconhecer em contexto ibérico. 

Porque elegerá a França Le Pen?

Aproximam-se, vertiginosamente, as eleições francesas, com escândalos em torno dos principais candidatos, com exceção para Marine Le Pen. Não é por acaso. Marine Le Pen não tem esqueletos no armário, porque tudo o que é mau ela está evidente, é parte da sua ação pública como política, verdadeira continuação da estratégia do seu pai, Jean-Marie Le Pen, antigo dirigente da Frente Nacional. Marine Le Pen é, portanto, produto de uma socialização em torno do fascismo, dos ideias da extrema-direita anti-semita, anti-imigração, e nacionalista. É o espólio ideológico dos derrotados da II Guerra Mundial, os que não se inconformaram com a queda do ideal nazi, aos quais se juntam os descamisados da globalização, os sem rosto e sem sorte das últimas décadas, os que viram passar o capitalismo sem o cavalgar. Sem referenciais, sem ingresso na ordem mundial globalizada, de classes sociais desfavorecidas e altamente instáveis, são os adeptos fáceis das teorias do medo que elegeram Donald Trump, da culpabilização do «outro», da rejeição do multiculturalismo. 

A estes redneck franceses vão-se juntando os que abdicam da liberdade em troca de segurança, diante do medo contínuo do terrorismo de feição islamista. O «outro» já não é apenas culturalmente diferente, é o que se apropria do fundo de maneio da segurança social francesa, registando mais de cinco filhos, para passar o dia no banco de jardim, é o que se guetiza -- narrativa que se esquiva de fazer a reflexão sobre os efeitos da guetização de imigrantes na construção de uma ideologia de exclusão e reforço de referenciais de contraste --, que se coloca à margem e se recusa a aderir aos padrões franceses. Numa França em ebulição, em debate interno sobre a imigração, o multiculturalismo e as fronteiras identitárias, receosa do terrorismo, conhecedora da narrativa do Daesh de exportação de terroristas a partir do fluxo migratório, a resposta democrática, a integração, as políticas de inclusão social, deixam de ser alternativa, em particular porque os seus efeitos são mais demorados, e a alternativa extremista de fechamento de fronteiras e reforço do nacionalismo francês, voltam à tona com nova energia. E a cada dia que passa a "paz kantiana" e os sonhos da União Europeia vão se desmanchando, dando lugar a um cenário em tudo idêntico aos pré-guerras mundiais.