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⊙ A Morada dos Dias

{ Horizontes. Olhares. Rumos Cruzados. Palpitações. Compassos dos Dias. }

⊙ A Morada dos Dias

{ Horizontes. Olhares. Rumos Cruzados. Palpitações. Compassos dos Dias. }

01
Ago17

Porque te odeio, Agosto.

 

Dado à nostalgia, quer como sentimento quer como tema de olhar científico, não posso deixar de ter uma relação emocional com as estações. Por sua natureza cíclica, elas remetem-nos para as paisagens da memória, para a recuperação dos fragmentos que reatualizamos pelo gesto saudosista. Como afirma Stephen Legg, no seu texto "Reviewing geographies of memory/forgetting", cada recordação é uma recordação tanto do evento em si quanto da última vez que o mesmo foi lembrado. Por essa mesma razão, a memória é uma sobreposição de memórias, um processo cumulativo. Quando regressamos, sucessivamente, a lugares onde fomos felizes (e sabemos que há quem nos aconselhe a não o fazer) somos confrontados com as vicissitudes do tempo, com as marcas impressas em nós e nos lugares, forçando-nos a paisagem a recordar o que já ali vivemos. É por isso que a memória tende a necessitar da bengala do espaço para se fazer ouvir. É por tudo isso que odeio tanto Agosto, apesar de adorar o frenesim dos mergulhos, o sal na pele, ou a leveza fluvial, o dourado do bronze, os chinelos, as toalhas, a areia, os gelados, o cansaço das corridas à beira-mar, os livros lidos entre rochas. E odeio-o porque me obriga a recordar, porque me arrasta sonâmbulo pelas margens da memória, pelo rio de vivências que me faz recuperar. O que foi feito, o que gostaríamos de ter feito, o que não deveríamos ter feito. Tantas coisas.

O Verão mostra-nos que quando não se vai é pior. Ficar em casa, deitados à sombra do Verão não vivido, é obrigarmos-nos a reviver Verões passados. Mesmo aqueles marcados pela tristeza morna estival, hoje vemos-los com nostalgia, com a saudade do idílico e do maravilhoso. O Agosto em que não fui, mergulhado no triste escuro de um quarto em maratona televisiva, e tardes na escola vazia entre balizas e cestos de basket, contém o tempero da saudade. Os Agostos em que fui, em que fiz balizas com chinelos e raquetes, em que estive na água até à hipotermia, em que tomei pequenos-almoços de gelados, em que corri canaviais a fora e estradas de chão de terra em cima de uma bicicleta e com o meu velho walkman, em que joguei finais contra mim mesmo, em que fiz de um tudo e um tanto. Por isso não posso deixar de pensar em Svetlana Boym e a frase com que a autora, entretanto falecida, termina o seu The Future of Nostalgia: «Sobreviventes do século XX, somos todos nostálgicos de um tempo em que não éramos nostálgicos». 

18
Jul17

Homossexualidade, Gentil Martins ou de como o conservadorismo é uma falácia

Sabemos vivermos tempos líquidos, fugazes, em que as alterações sociais se dão num fluxo acelerado, em que ao tempo não se dá corda, mas antes se vê passar o frenético digital dos números nos gadgets. Esta fluidez faz crer que se trata de um fenómeno novo, esse da mudança social, como se a humanidade tivesse estado parada até ao apogeu da globalização e do capitalismo. O que de facto a História nos ensina é que isso jamais aconteceu, razão pela qual a Antropologia advoga a mutabilidade das estruturas sociais, a permeabilidade dos conceitos, a inexistência de dados estanques, a maleabilidade das fronteiras e dos valores sociais. As sociedades são feitas de negociações, de valores mudados e questionados. É precisamente pela consciência da mudança que se dão as crises nostálgicas. A própria nostalgia, urdida nos lapsos de memória, nas memórias instituídas e nas coincidências relembradas, é uma tentativa de fixar imagens estáticas de um tempo, razão pela qual ela é, essencialmente, estética, aprisionada em sons e produtos culturais reciclados. 

       Dessa forma, o conservadorismo não seria, senão, uma falácia, uma tentativa de fixar um tempo incerto, um punhado de valores que em dado momento da história foram degenerações sociais, mudanças. Da incapacidade de cavalgar a onda, o conservador aspira por um tempo romanceado, por uma nostalgia tecida no tear da utopia, porque não se pode conservar o que está em permanente mudança. Por essa razão, o conservadorismo não é linear como quer ser, é a seleção de elementos com um fim ideológico. É a opção entre muitos passados, entre a multiversidade do «antigamente», é a seleção de frames com vista à composição de uma narrativa. Nesse sentido, o problema dos conservadores com a homossexualidade não parece residir na vivência sexual alheia, mas antes no facto daquela contestar a história que eles querem contar a si mesmos - a história de uma sociedade estanque, imutável, que se apega aos bons e velhos costumes, selecionados, pois, de entre os muitos velhos costumes. Cozinhados no forno da moralidade religiosa, os velhos costumes não são factos históricos, são memórias cálidas de uma infância tingida. Como escreveu Rosa Montero no seu A Louca da Casa, «são tão iguais estas paradisíacas infâncias russas que uma pessoa não pode deixar de as julgar uma mera recriação, um mito, uma invenção».

        Assim, o conservadorismo é a capacidade de olhar para as corridas de Ascot e ver apenas os chapéus e ignorar os comportamentos ébrios de quem os transporta. É, no fundo, uma expetativa quase esquizofrénica de conservar, de aprisionar, um momento, aquele pedaço de tempo antes da dentada na maçã do paraíso, uma história que se conta a si mesmo para afastar os monstros debaixo da cama. 

13
Jul17

O género da discussão

O texto que se segue foi publicado no Delito de Opinião. Agradeço ao Pedro Correia o convite, depois da participação na primeira ronda de bloggers convidados, em 2010.  

O género é um dos temas inquietantes da Antropologia. Talvez por isso seja desagradável darmos com confusões entre Direitos das Mulheres/Igualdade entre Homens e Mulheres e Igualdade de Género. Esta confusão voltou a terreno, por estes dias, no Festival de Cannes, em que a propósito da igualdade entre homens e mulheres no cinema, assim como noutros sectores, foi discutida sobre a lapela da "igualdade de género". Este facto resulta de um problema histórico em que o género emergia culturalmente da distinção do que se concebia por dados biológicos: masculino e feminino como macho e fêmea.
 
Este pressuposto resultou numa atribuição cultural de significados de género a objectos, lugares da casa, elementos vários do quotidiano, como destacava Bourdieu em The Logic of Practice. Ora, esta ideia não traduz a complexidade cultural do corpo como produto sociológico, no qual se jogam memórias culturais, sentidos de identidade e expectativas normativas e alternativas por contestação.
 
A religião enquanto instituição que imprime códigos de conduta e moral nos sujeitos não está independente deste processo de construção de papéis sociais, de normatividades tendencialmente estanques, que se desejam eternas por sua intenção cultural de fixarem-se como contínuo social. Por outras palavras, a religião, partindo de um conjunto de padrões morais, pretende a sociedade como uma renovação desse conjunto de pressupostos, considerando as alternativas como contra-normativas. 
 
O que temos, portanto, é um conjunto de ideias acerca do corpo e do seu uso social e sexual, em que os jeitos de ser homem e mulher resultam da sociedade, mas é nela que se reciclam e permitem ressignificar-se. Assim, quando falamos de género precisamos reconhecer que este é um conceito complexo e dinâmico, em permanente reflexão, fruto de reformas sociais, como os movimentos feminista e LGBT. É, então, perigoso confinar o conceito à distinção entre homens e mulheres, pois que há mulheres cujo género é masculino, e vice-versa, e há, inclusive, novas formas de género e trânsitos entre géneros como formas de constituição de identidade.
 
Se em lugares remotos do nosso Portugal ser homem se constrói nos cafés, nos trabalhos pesados, e o ser mulher se edifica nas atividades domésticas, esse Portugal é apenas uma paisagem entre as várias, porque as fronteiras são muito mais diluídas, e um pai de família pode-se trajar de mulher para um perfil falso numa rede social qualquer, e uma mãe de família, na calada da noite, assistir a pornografia lésbica. Porque a sociedade é a movimentação permanente, ideias conservadoras tendem a reportar a intenções políticas mais do que a factos sociais. 
25
Jun17

Benavente e os touros de fogo

Por razões menos nobres Benavente é uma vila que circula nas bocas dos portugueses por estas horas. Tudo por um costume importado de Espanha, que passa pela colocação coerciva de fogos nos chifres dos touros em arruada. A cultura taurina imprime sentido às festividades ribatejanas, onde todos os motivos são bons para uma largada, funcionando como produto e produtora de sociabilidades, alinhando gerações e estratos sociais em torno de uma tradição, mesmo que, como todas, inventada.
"A Festa" é um elemento estruturante benaventense, representando o lúdico a partir de elementos da vida local, e o trabalho, experimentando novos significados nos seus próprios elementos constitutivos. Nessa dinâmica impõe-se a revisão dos elementos eventualmente nocivos à sua imagem pública (punindo exemplarmente transgressões), respeitando opiniões contrárias e sabendo defender os seus costumes com seriedade.

21
Jun17

125 Azul

 

"Foi sem mais nem menos que um dia selei a 125 Azul", assim diz a canção dos Trovante com que cresci, cruzando essa estrada, rumo ao Verão da Costa Alentejana, onde fui imprimindo memórias, camadas de recordações e vivências, da infância à idade adulta. E com a soma dos dias visitou-me o desejo de "sem mais nem menos" selar a 125 azul, assim, no repente do instante. E foi ontem, na celebração dos afetos de 15 anos, o peso de um tempo que não senti, que fui levado, nas correias dos amores, até ao coração das lembranças, aos cheiros, à brisa que da água sobe, aos sons, aos lugares que se mutaram e aos que se mantiveram, e é assim que a vida tem mais cor, que vai para além da soma dos dias e se faz sentir. E não resta a quem vive senão agradecer a quem faz viver. 

 

{fotografia de Sandra Fialho}

19
Jun17

Bombeiros, heróis, nada menos do que isso

 Nos Estados Unidos existe, justamente, uma valorização particular dos bombeiros, considerados "os melhores" da sociedade. Trata-se de um reconhecimento perante um trabalho de grande altruísmo, de entrega, de risco, que exige confiança no outro, no desempenho de colegas, de coragem perante um inimigo que não dá tréguas, não se cansa, não desiste, apenas consome.
Precisamos valorizar os nossos heróis, que lutam até ao cansaço contra este inimigo, que dão o corpo às chamas pelos bens dos outros, pelo bem maior de todos nós: a Natureza e a nossa segurança. Aqui na foto os bombeiros voluntários de Tondela descansam vencidos pela exaustão, porque mesmo os Super-Heróis também se esgotam.

19
Jun17

O abraço de Marcelo

Há quem condene o abraço de Marcelo ao secretário de estado da administração interna. Para mim o gesto é resultado do reconhecimento do turbilhão emocional que o SE se prestou ao passar estas 48 horas no coração da tragédia. O que Marcelo Rebelo de Sousa encontrou foi um ser humano sem chão perante a tragédia alheia. A humanidade vive dos gestos sociais, para bonecos de corda já bastaram os anos do Cavaquismo.

18
Jun17

As lágrimas não salvam Pedrógão Grande.

 Cantou Zeca Afonso que "a morte saiu à rua num dia assim". E foi. E não nos bastam as lágrimas para extinguir o fogo, não nos bastam os braços emotivos para circunscrever as chamas e extingui-las na dor e nos afetos. A mancha negra é mais do que geográfica, é o dolo dos que nada fazem, dos que são coniventes, dos que ganham dinheiro de sangue com os incêndios. São os "doidos" que saem impunes porque não há mão pesada nestas tragédias. Porque o anterior Primeiro-Ministro, é bom recordar, retirou os incêndios dos crimes prioritários de investigação, retirando-lhe qualquer legitimidade para se embandeirar por feitos governativos cujos efeitos são vividos na atual magistratura. Um tonto. Enquanto isso estamos perto das 60 vítimas mortais. Uma tragédia sem igual, uma vergonha num país burocrático, que pune quem limpa o próprio mato. Um país onde quem planta o fogo aluga os equipamentos de combate. Um país ondem faltam meios e gente para limpar as matas, mas que não faz uso de prisediários para essas tarefas. Um país lavrado todos os anos pelas chamas, mas que por um passo de mágica de amnésia parece sempre surpreso, optando, como diz o John, por olhar para o calor e as praias, num provincianismo jornalístico absurdo. 

 

{foto RTP}

13
Jun17

Jogos sem fronteiras

 

Em finais da década de 1980, inícios de 1990, os Jogos Sem Fronteiras animavam as noites do começo de Verão, já para lá da época escolar, na RTP1. Muitas vezes era preciso um grande esforço para me manter acordado para ver JSF, uma luta por vezes inglória, perdida para o cansaço da praia. Tratavam-se de jogos engraçados, muitas vezes co-apresentados por senhoras que ficavam a sorrir para a câmara, de microfone na mão, e a narrar somente os pontos. Peculiaridades à parte, os JSF ajudaram a construir uma ideia de Europa que hoje é agredida. Ao lado do Europeu de Futebol, os JSF foi o meu primeiro horizonte nesse sentimento de união geográfica e além linhas entre Portugal e a Europa.

11
Jun17

Vasco Pulido, que Valente confusão!

 Vasco Pulido Valente escreve no Observador sobre o Islão no Ocidente. E fá-lo num emaranhado mental profundo, na sapiência morna da ignorância. Ignora que o multiculturalismo pressupõe a pluralidade e não se reduz ao binómio cristãos-muçulmanos, muito menos numa ótica bons-maus. Nenhuma sociedade ocidental é produto da visão católica conservadora que Pulido Valente parece ter adotado na época da revista "O tempo e o modo". É um facto que a sua crónica apresenta argumentos válidos, coerentes com a realidade. O problema é, por um lado, a solução apresentada por VPV, e por outro a noção obtusa de «multiculturalismo» como dizendo respeito, no Ocidente, à presença do Islão. Ignora VPV que é multiculturalismo é o kizomba e a salsa, ouvidas nos bares lisboetas, o fado em Paris, a gastronomia gourmet e as múltiplas fusões de aromas e sabores, as filosofias orientais, as múltiplas formas religiosas com que os portugueses se deparam e às quais aderem de uma forma institucionalizada ou nos trilhos da «Nova Era». A menos que VPV encerre uma sociedade dentro de si mesma, fechando as suas fronteiras, e fundamentalizando-a - coisa que parece condenar - o «multiculturalismo» será, sempre, marca d'água da construção do tecido social urbano e não apenas. Mas eventualmente VPV acredita que todos os portugueses são católicos, escutam apenas música portuguesa e comem apenas a comida das nossas avós. 

"E naquela casa, que ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias".

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