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A Morada dos Dias

"E naquela casa, que ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias".

12
Mai17

Fado, Futebol e Fátima

O galego Carlos Taibo, no seu livro Compreender Portugal, publicado em 2015, afirma que a sociedade portuguesa, no seu mais amplo sentido, deslocou-se da “trilogia dos três F” – fado, futebol e Fátima, para uma nova trilogia, composta por futebol, FMI e Facebook. Sem negar a importância recente do FMI e o lugar central do Facebook na vida quotidiana dos portugueses (num continuum universal que não produz dimensões particulares portuguesas), considero que os clássicos três F, das guitarras portuguesas, da bola sobre a relva e do culto mariano permanecem profundamente operatórios, enraizados na identidade nacional. Tratam-se de atavismos culturais impressos na memória histórica coletiva. Recordando Júlio Pimentel Pinto, “a memória é esse lugar de refúgio, meio história, meio ficção, universo marginal que permite a manifestação continuamente atualizada do passado”. Nesse sentido, a memória coletiva permite a revivência de determinados eventos, a instituição de determinados acontecimentos como marcos que solidificam a identidade de um grupo. A memória, efetivamente, une os sujeitos, os atores sociais, porque ela interliga-se, beneficia-se das memórias alheias, porque a memória individual só se emaranha na memória coletiva se, como escreveu Halbwachs, concordar com a memória dos outros. Para León e Receba Grinberg a identidade emerge da interseção do tempo, do espaço e do grupo, mecanismos que conjugados produzem um manual de valores que se solidificam no grupo. São tradições inventadas, como teorizou Hobsbawm, que necessitam, na ideia de José Mattoso, do Estado para se criarem, porque a portugalidade é devedora, sem dúvida, do intenso movimento do Estado Novo de estabelecer uma “identidade nacional”, de que os “três F” são o expoente máximo. 

As romarias com a sua religiosidade assente nos ex-votos, na devoção mariana e nas práticas de cura, o futebol com as suas outras romarias de domingo, em que as famílias iam ao estádio e sempre alguém pedia “vizinho, deixe-me entrar consigo”, na época dos bilhetes com direito a acompanhante, e no fado, a “canção nacional” que transporta o ideal de um povo vivente de tristeza, amargura, devoto e honroso. O português de Jorge Dias é “um misto de sonhador e de homem de acção [...] o Português é, sobretudo, profundamente humano, sensível, amoroso e bondoso, sem ser fraco”. 

Mas se o português é uma série de lugares-comuns instituídos na memória coletiva, ele também é muitas outras coisas, porque o quotidiano não se compadece com chavões ideológicos. No entanto, porque a memória se reaviva em acontecimento determinantes, contribuindo para a fabricação de um sentimento comunitário, o 13 de maio de 2017 oferece as condições essenciais para o reavivar da memória nacional, agora amplificada nos meios de comunicação social, com transmissões diárias de notícias e reportagens em torno da vinda do Papa Francisco, publicação de artigos de opinião e livros sobre a vida e a mensagem de Bergoglio. A mediatização da visita papal e a cobertura das peregrinações tem oferecido terreno para um reavivamento católico, para um ressurgimento do catolicismo como idioma cultural nacional, ao qual se junta o facto de no próximo dia 13, o Benfica provavelmente se sagrar campeão, o clube português com o maior número de adeptos, e que opera, assim, como um símbolo instituído de Portugal, conjugando-se a Fátima, reatualizando o mito do país católico e benfiquista, relegando para segundo plano o multiculturalismo, a diversidade religiosa, a diversidade clubística, para renovar, pelo gesto nostálgico, o Portugal do Estado Novo, agora, no dia 13, sem o fado, mas com Salvador Sobral e o Festival Eurovisão.

 

post também no blog Changing World do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE (link).

10
Mai17

No Porto, o ano do Dragão não chega

Jorge Nuno Pinto da Costa, intitulou a sua biografia Largos Dias Têm 100 AnosSão cem anos que vive um Dragão, mas a chama um dia extingue-se ou a desolação, como a de Smaug, um dia chega. E o fogo ardente cessa, porque na vida tudo tem um tempo, e apesar de largos, os dias que fazem os anos serem cem chegam ao fim. Não se extingue a vida do homem, do herói que fez do pequeno clube portuense uma grande potência desportiva europeia, que roubou a hegemonia do futebol português aos clubes da segunda circular, que se intrometeu na luta a dois e chegou a fazer do campeonato nacional coutada sua. A dívida de gratidão dos adeptos portistas não cessa, é eterna. Mas o tempo não se compadece com as nostalgias dos homens, e após quatro épocas sem qualquer título os sinais são por demais evidentes que a Era do Velho Dragão chegou ao fim, é tempo de um novo FCP. Já não são os treinadores que precisam ser mudados -- testaram-se demasiados sem sucesso -- é toda a estrutura diretiva do clube, sob pena de ver o clube voltar a afundar-se no regionalismo, na luta pelo pódio sem nunca alcançar o título. É preciso que o clube, em grave estado financeiro, deixe de ser um entreposto de jogadores e aposte forte e sério na formação, que compre barato para potenciar talentos desconhecidos, e que aposte numa organização sólida, com um diretor desportivo forte, com um treinador português talentoso (o problema não é Nuno Espírito Santo, em última análise ele pode ficar), e com um presidente com outra energia. É tempo de parar de fingir que está tudo bem. 

07
Mai17

Abstenção: o inaceitável silêncio francês

As eleições francesas parecem registar uma taxa de abstenção superior à registada em 2012. Esse facto é, sem dúvida, perturbador, quando sabemos, claramente, que o que está em causa, e muito infelizmente, não é uma questão de maior ou menor posicionamento liberal, é algo mais essencial do que isso: o retorno ou não do fascismo como modelo de governação. Só esse facto bastaria para que os franceses, gostando ou não de Macron tivessem acorrido às urnas, massivamente. Porque o silêncio nem sempre é a melhor resposta, por vezes é preciso agir para que não se torne conivência. 

07
Mai17

Sob pingos de chuva, a inércia

Daria uma boa pesquisa, perceber os contornos psico-sociais dos portugueses que levam a considerar que a chuva impossibilita o normal funcionamento da sociedade. E assim lembro-me dos britânicos que vivem sob chuva constante, e as crianças brincam nos parques, porque a vida segue, no matter what.

06
Mai17

Le Pen já ganhou, haja o que houver

Às portas do desfecho das eleições francesas, é tempo de olhar o quadro social em que as mesmas se desenrolam. Inúmeros lugares-comuns são visitados e reciclados em favor da campanha eleitoral, numa França multicultural e profundamente instável. Os problemas de ordem sociológica que afetam a França são conhecidos. Dificuldades de assimilação e acomodação cultural por parte de imigrantes provenientes do mundo árabe, segundas gerações em encruzilhadas identitárias que derivam em crises, que por sua vez se desenrolam em radicalismos. É inquestionável o efeito nefasto que a guetização teve na sociedade francesa. O multiculturalismo e a globalização exigem muito mais esforço concertado do que o enclausuramento fronteiriço, físico e cultural. É muito fácil perante a diversidade cerrar fileiras identitárias, arreigando-se a chavões culturais que formalizam uma espécie de ‘identidade nacional’, que mais não é que um aglomerado de práticas estabelecidas como autênticas e tradicionais. Aquilo que Jean-Louis Triaud, em Lieux de mémoire et passés composés, chamava de «memórias instituídas» e o já clássico Eric Hobsbawm cunhou como «invenção da tradição».

03
Mai17

Marcelo do povo

Nunca como agora um PR foi tão popular no sentido específico de representação simbólica do «povo». Apesar da herança política e social de Marcelo Rebelo de Sousa e do seu património estético de direita, no imaginário popular, em virtude dos seus périplos pelo país, as suas passeatas governativas, o PR é percebido como um D. Quixote das causas populares, um Zorro. É por isso que em Almeida, por causa do encerramento da dependência da CGD, o povo espera a intervenção presidencial. 

02
Mai17

Sinais dos tempos, em França

Segundo Eduardo Pitta, as centrais sindicais francesas passaram ao lado das eleições presidenciais, nas comemorações do 1o de Maio. Nem uma palavra. O silêncio é, maioritariamente, conivência. Com ele sabemos para onde vai o substrato social francês. Usando de um termo de Arthur Danto, há um "alinhamento retrospetivo" na sociedade francesa que não augura nada de bom. De tempos a tempos "o povo" (categoria simbólica) gosta de colocar à sombra de messias.

28
Abr17

Sobre a tolerância de ponte

O catolicismo português, diluído em influências exógenas que produzem um cenário próprio, é parte do substrato nacional, enraizando-se na história da identidade nacional. Todavia, o Estado é laico, e mesmo tendo uma concordata com a Igreja Católica – justificado pela história e pelas obras sociais da Igreja –, não deve oferecer tolerância de ponte em favor de eventos religiosos católicos, sem que tal seja aplicado às demais confissões religiosas. O regime de exceção é já garantido pelos feriados religiosos.

16
Abr17

Porque salvaram Barrabás?

Nesta época os cristãos revivem os epósidos marcantes da vida, morte e ressurreição de Jesus de Nazaré. Um desses episódios relata a escolha popular por Barrabás, o "criminoso", em detrimento daquele que muitos aclamavam por Messias. Tal episódio é responsável por sentimentos de ansiedade e mágoa entre os mais devotos, uma espécie de culpa retrospetiva, uma condenação em jeito de "porquê?". No entanto, para se entender a escolha há que compreender o contexto histórico-cultural judaico de então. Entre os judeus, a figura do Rei David operava, e em boa medida ainda opera, como referencial tipológico de "messias". Num contexto em que os judeus se encontravam sob o jugo do Império Romano, opressor, cobrador de altos impostos e religiosamente distante, a figura do Rei David permitia estabelecer um horizonte de revolução, de quebra de correntes, de restauração de uma Jerusalém livre e prometida. Jesus, enquanto messias, não correspondia às caraterísticas do משיח (Mashíach) de Israel, o descendente de David, o líder guerreiro. Jesus trazia uma outra roupagem, uma mensagem baseada no reino dos céus, da paz, do amor. Nesse contexto, Barrabás reunia, de uma forma torta e imperfeita, predicados do herdeiro de David. Embora não reconhecido como messias, Barrabás dispunha-se a enfrentar o Império Romano, lançando uma série de ataques contra as forças do império, sendo provavelmente integrante do partido judaico de libertação. Não há dúvidas de que em contexto de opressão Jesus não representava o Messias ideal, pois não se dispunha a enfrentar diretamente o Império romano, mas antes oferecia uma mensagem de redenção, de vida eterna. A passagem em que afirma "dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus", contrapõe-se à disposição violenta e guerrilheira de Barrabás. Foi, então, mais fácil reconhecerem-se num homem cheio de imperfeições, mas disposto a lutar pela liberdade, do que num homem voltado ao espírito. 

20
Mar17

A Lapela de Passos Coelho: O PSD até às legislativas

Existe um país que só Pedro Passos Coelho conhece, todo ele vivente no seu imaginário. É feito de cortes permanentes, de um proletariado pobre e feliz, tecido numa nostalgia do Estado Novo. Bebe da grande marcha troikista, e vai triunfante no seu sorriso de bobo messiânico. Só ele ainda não percebeu que se mantém como líder do PSD porque o partido não goza de grande popularidade, e por isso mesmo ninguém com um mínimo de coerência e amor-próprio vai querer o lugar de PPC. Não que ele seja um homem só no poder, longe disso. O ex-primeiro-ministro é o homem certo no momento certo, alguém para ir desgastando a imagem, para oferecer os ombros nas derrotas autárquicas e nas legislativas. Depois de esgotada a imagem política de Passos Coelho surgirá quem possa oferecer uma "nova página na história do partido".