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A Morada dos Dias

"E naquela casa, que ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias".

Do burkini à laicidade

Um dos mais problemáticos conceitos do nosso tempo, ao jogar com a busca pela separação entre religião, Estado e espaço público, preservando, simultaneamente, substrato cultural nacional e abrindo portas à pluralidade que compõe o tecido social das nossas sociedades. É um desafio tremendo para os nossos Estados. 
Como lidar com a diversidade sem violar as liberdades individuais e o direito à expressão das identidades culturais e religiosas? A proibição dos minaretes em várias cidades europeias deveria ter sido feito acompanhar da proibição do uso de sinos por parte das igrejas católicas. Os Estados ou são laicos ou não são, e se o são devem ser na igual medida para todos. Fora isso o que temos são Estados tendencialmente laicos. Não pode acontecer a proteção de uma religião por razões históricas e o controlo de outras. Da mesma forma que movimentos e partidos políticos não devem fazer uso do chavão da "minoria" sem olharem para o quadro geral. É inegável que a laicidade portuguesa, por exemplo, nas suas dimensões ideológicas à extrema-esquerda, se consubstancia na apologia do islão sob todas as formas e no ataque ao catolicismo em todas as vertentes. Defender uma religião e condenar outra não é ser laico.
Quando um pedaço de pano ameaça toda uma sociedade significa que este pedaço de pano encerra um problema maior. O burkini não é o burkini, infelizmente. Sem dúvida que tratado por si só, o burkini está ao abrigo da reserva de direito de traje e expressão cultural. O direito à diversidade só faz sentido quando garantido em todas as suas dimensões. No entanto, da outra margem encerra-se uma preocupação legítima - a do avanço político do islão no Ocidente e do recuo da diversidade cultural que seria o primeiro intento. Recordemos a frase de Yusuf al-Qaradawi, clérigo egípcio e presidente da união islâmica de académicos -- "We will colonize you with your democratic laws." Nesse cenário, como será possível proteger a diversidade? 
Disto isto, aguentamos bem o burkini, a Liberdade não será ofendida por um pedaço de pano, nem o seria com um minarete, mas não hajam dúvidas que todo o avanço extremo, seja qual for, merece ser travado. Há uns meses, no Canadá, a comunidade islâmica de uma pequena cidade, reclamou o fim da carne de porco nas cantinas escolares. Na Suíça crianças islâmicas recusaram-se cumprimentar os professores por razões religiosas. É urgente um meio-termo. A laicidade positiva necessita de empenho de todas as partes. A liberdade não é um dado adquirido.

Dilma novamente golpeada.

Toda a ilusão de que o Senado brasileiro poderia cumprir outro papel que não o de carrasco, em nome de um projeto político perigosíssimo, esfumou-se no sol do último dia de agosto. De nada valeram os apelos ao bom senso. O "não vai ter golpe" esbarrou num muro bem edificado pela Direita brasileira, com total conivência mediática, em particular da rede Globo. Chega ao fim uma batalha desleal. Tem início um novo velho capítulo da democracia brasileira. A mão conservadora e teocrática de Temer e companhia colocará, definitivamente, em marcha o seu projeto, já devidamente iniciado -- fim dos programas de combate à iliteracia, fim dos programas de combate à pobreza e discriminação, fim dos programas de fomento de igualdades e liberdades raciais, culturais, de género e religiosas, fim das bolsas sociais, fim dos programas médicos para áreas distantes das grandes cidades, fim das bolsas de estudos para o estrangeiro, fim do programa de cotas raciais... Com que propósito? Cavar o fosso entre brancos e negros/mulatos, entre ricos e pobres, estrangulando a classe média-baixa que emergiu dos inúmeros programas dos governos do PT, restituindo as classes pobres históricas ao seu papel subalterno. Foi o golpe dos que querem as domésticas (diaristas) sem carteira profissional, sem almofadas sociais, simplesmente subjugadas. Dos que não querem negros nas faculdades e empresas. Dos que não querem "as macumbas" com direitos religiosos, dos que não querem as comunidades quilombolas protegidas, dos que não querem antropólogos, historiadores e outra "gentalha" académica estudando e publicando trabalhos científicos sobre tais impuras heranças africanas. É a vitória do obscurantismo. Foi golpe sim!

Adeus Avô

E depois do adeus, a vida continua. Acabo de saber, avô, que te foste. Não foste na paz tão desejada, foste em meio a sofrimento, mais ou menos como escolheste levar a vida. A felicidade já te havia fugido pelos dedos, os dias eram apenas horas em sucessão, num compasso lento de agonia de quem se aguenta sem saber bem porquê. Talvez pela "borboleta", com que escolheste fazer vida e casulo.

Partilhámos o insondável gosto pelos livros, pelas letras impressas a papel que nos fazem sonhar e nos transportam a outros mundos. Trocámos impressões honestas sobre o mundo. Apesar de o vermos a partir de diferentes colinas, de olharmos o horizonte com diferentes filtros, com ideologias políticas tão distantes, sempre houve, da minha parte, um total respeito por quem se edificou noutros tempos, se fez homem sobre outras geografias e sensibilidades. Era difícil perceber que aquele homem pequenino, de ascendência judaica bem presa ao apelido Ferreira, Ferreira do Porto, com qualquer coisa britânica ali metida, fosse admirador das utopias arianas, e ao mesmo tempo um homem bom, que tirou sempre de si em prol dos outros, e dedicou os seus dias e a sua saúde em favor da família. 

Vale recordar a história que sempre me contava. Havia um patrão, na Maia, na década de 1940, extremamente baixo, que, certa vez, ao visitar a sua fábrica, se cruzou com um trabalhador muito alto, o qual parou a olhar o patrão, de cima. O patrão, do andar de baixo mirou-o e disse - "Estás a olhar, parece que queres que te dê sociedade. Diz-me quanto tens, eu digo-te quanto vales, nada tens, nada vales". Terminava a narrativa sempre dizendo que ainda hoje é assim, valemos sempre aquilo que temos. 

Até para sempre, avô, em cores azuis-e-brancas, carago!