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A Morada dos Dias

"E naquela casa, que ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias".

Jesus "Histórico"

Falar de Jesus enquanto personagem histórica implica um necessário salto de fé. Este cenário de coincidentia oppositorum, espelha bem a dimensão civilizacional da figura central do Cristianismo. Até que ponto Jesus existiu mesmo? Até que ponto Jesus não reúne todos os predicados de um conjunto de pregadores mais ou menos contemporâneos e alinhavados num todo-coerente teológico? Até que ponto a fé de Paulo de Tarso, o grande formatador do pensamento Cristão a partir das categorias de pensamento grego, num Profeta não fizeram deste uma personagem religiosa de maior amplitude do que a realmente vivenciada? Como bem afirma Rafael Galvão, "o fato de ele precisar da bênção de João Batista para se legitimar indica que aquele que transformaram em seu primo era a verdadeira grande liderança religiosa popular da época, naquele espaço específico". Aliás, diria eu, que não é mais destabilizador para um católico do que pensar em Jesus como judeu, e pensar no Deus bíblico como uma seleção de diferentes deuses da mesma área geográfica. Pior, lidar com o facto de que Deus do Antigo Testamento não é um mas vários.

Mas quem são, já agora, as pessoas que necessitam de falar de um Jesus-histórico por oposição a um Jesus-Messias? Em primeiro lugar, religiosos que na apologia de Jesus apelam à historicidade do personagem para justificar a sua existência para além da narrativa mítica. Em segundo lugar, sujeitos culturalmente católicos mas que por um processo de intelectualização ou escolha civilizacional, não são católicos convencionais mas reconhecem valor simbólico à narrativa mítica propagada pelo personagem. Em terceiro lugar, todos os que escrevem livros ou realizam documentários televisivos sobre o tal Jesus histórico e que alimentam e se alimentam o e do mercado. 

O novo velho Brasil é o amanhã

A imprensa portuguesa demorou para olhar este processo revolucionário brasileiro como aquilo que ele é: um golpe de Estado. As tendências conversadoras dos órgãos de comunicação social portugueses foi névoa sobre os olhos dos seus membros. As ligações do PT a casos de corrupção configuram um cenário problemático. O termo de posse emitido por Dilma a Lula, evitando a sua prisão conferem uma áurea nada positiva ao governo brasileiro, enfraquecendo a legitimidade governativa sob o altar das fidelidades. Mas o pano de fundo deste golpe não é, de modo algum, a corrupção que terá gerado um desgaste governativo de Dilma Rousseff. Esse é um problema estrutural dos sucessivos governos brasileiros. No panorama da corrupção o PT figura como um partido que roubou com uma mão e deu com a outra, tirando milhões de pessoas da pobreza, promovendo a mobilidade social, a escolaridade para todos, a abertura religiosa, a reparação cultural face às tradições ameríndias e africanas. E é, precisamente, aí que reside o problema. O governo que, eventualmente, se segue, liderado por Eduardo Cunha com o apoio de criminosos como Jair Bolsonaro, será um governo que roubará com as duas mãos, para dentro de um bolso das elites políticas e sociais brasileiras, em favor da reposição do status quo histórico brasileiro - demarcada segregação racial e fosso social entre ricos e pobres. A mobilidade social tem sido entendida como um cancro pelas classes altas e médias conversadoras brasileiras. Negros na Universidade, em empresas e outras funções de visibilidade económica, política, cultural e social, atentam contra o ideal dos golpistas. Ademais, o fator religioso não pode ser descorado. O golpe em marcha pretende não apenas reforçar a separação racial e repor a ordem de dominação branca como ainda visa estabelecer uma teocracia evangélica. O projeto de branqueamento social e cultural brasileiro está de volta. 

O aperto de mão da discórdia

A mutabilidade cultural é um dado histórico das sociedades. Nenhuma permanece igual e todas possuem os seus fatores de mudança, a maioria dos quais em resposta a elementos exógenos. O crescimento das populações islâmicas nas sociedades ocidentais e o seu empowerment crescente estão na base de enormes dilemas culturais em inúmeras cidades do ocidente, porque colocam em cena as mudanças não como produto de processos de negociação diluída no tempo mas como processos políticos de imposição de novos sujeitos do espaço social. São atores sociais de espaços e padrões culturais distintos que não se diluem no conjunto geral mainstream mas que procuram o ajustamento dos seus modelos mesmo nos casos contrastativos. A decisão do setor educativo de Therwil na Suíça de dispensar os estudantes muçulmanos de cumprimentar as professoras, ritual educativo helvético, pode parecer um pequeno gesto de boa vontade das autoridades suíças mas não impede de pensar a decisão como uma precedência legal para outras imposições. Todos estes acontecimentos obrigam a pensar o que constitui processo negocial cultural, quais são os limites da ação legal nos processos de acomodação cultural em comunidades migrantes cujos backgrounds culturais não são maleáveis à adaptação. Sob a bandeira do acolhimento até onde podem recuar as sociedades ocidentais nos seus padrões diante de comunidades oriundas de países onde os migrantes não são alvo de quaisquer políticas de ajustamento mas de imposição? O diálogo cultural só é possível na base das mútuas disponibilidades.