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⊙ A Morada dos Dias

{ Horizontes. Olhares. Rumos Cruzados. Palpitações. Compassos dos Dias. }

04
Mar13

A Menina na Falésia.

Em A Menina na Falésia Lucinda Riley imprime toda sua sensibilidade feminina à narrativa e, não menos importante, a sua experiência de vida em palcos e ecrãs de televisão. Ali, o decorrer da ação chega-nos numa encruzilhada cinematográfica em que os cenários e o tempo se vão alterando e, particularmente notório, a trama desenrola-se nas últimas páginas com uma intensidade que contrasta com a exposição demorada e contextual dos primeiros capítulos.
Não haja dúvida de que A Menina na Falésia é uma estória poderosa e Lucinda Riley consegue, sem ser uma notável escritora, imprimir uma grande densidade psicológica às suas personagens. Neste romance somos colocados diante de uma narrativa que cruza personagens ao longo de cem anos, colocando em palco estórias de grande dramatismo e discorrendo com grande eloquência sobre as paixões da existência de personagens que de tão vivas nos fazem sentir-lhes a dor. Numa época marcada pela experiência visual como expoente máximo sensorial é louvável que um livro nos consiga arrebatar as emoções e fazer-nos sofrer com as suas agruras e celebrar com as suas pequenas alegrias. A capacidade de gerar emoções é amplamente mais importante que a perfeição técnica da escrita. A Menina na Falésia é prova disso mesmo.
A Menina na Falésia é uma estória de mulheres fortes e de acontecimento em cadeia, os quais são, em boa medida, externos às personagens – eles não conseguem conter o seu destino tendo de gerir as suas decisões em função de acontecimentos que lhes são incontroláveis. Este é também um romance que consegue fugir aos clichés dos finais felizes e cor-de-rosa, criando empatia entre as personagens e o leitor mais do que deixando uma nuvem de sonhos e fantasias.
A forma como toda a ação desemboca em Aurora e a poderosa revelação da sua vida é o clímax de um romance que é por vezes demasiado óbvio. Lucinda Riley vai deixando demasiadas pistas para que os acontecimentos não sejam, em variados momentos, os mais expectáveis. Claro que a autora consegue contornar essas falhas oferecendo-nos algumas surpresas: a tragédia de Aurora, o plano de Charley ou o desfecho da vida de Anna; contrastando com o mais ou menos óbvio plano de Mary, com o suicídio expectável de Jeremy ou com a identidade percetível de Anna.
Claro que A Menina na Falésia não é uma obra de uma geração, nem parece ser esse o desejo de Lucinda Riley. Todavia, ela consegue oferecer-nos uma narrativa bem regada a emoções fortes, personagens de grande densidade psicológica e dramática e uma Aurora celestial e sobre a qual desemboca a ação de uma forma poderosa, comovente e cativante.