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⊙ A Morada dos Dias

{ Horizontes. Olhares. Rumos Cruzados. Palpitações. Compassos dos Dias. }

09
Ago13

A 125 Azul e as memórias.

Não gosto de auto-estradas. Para mim estas representam a economia do a to b, nada tendo a ver com o prazer da viagem e da construção de memórias. Sou e serei sempre fã das estradas nacionais, rotas que ligam o país de lés a lés levando novas a lugares longínquos, criando acontecimentos, fabricando memórias nas paragens que se vão fazendo. Viajar pela nacional é ver as terras, as gentes, experienciar o ritmo do tempo e dos lugares. Tenho no baú das memórias as viagens rumo à costa alentejana e ao Algarve pela nacional, inclusive as horas perdidas no trânsito, o pára-arranca que dava para ir ao café comprar um gelado e uma garrafa de litro e meio de água fresca. Pés de fora da janela do carro e a música no ar. Mais demorado? Certamente, mas uma outra viagem, cheia de detalhes para além das tabuletas azuis e das bombas de gasolina.

 

Invariavelmente, ao chegar a Sines entrava rádio a dentro a cassete com Rui Veloso e os Trovante. Era já a banda sonora do Verão, dos dias longos e quentes, da bicicleta, do pó e tantas outras coisas que se anunciavam. O cão de sempre - um galgo afegão preto - reconhecia a rota pelos cheiros da terra, pronto a viver a liberdade dos terrenos alentejanos por onde, ano após ano, fugia sempre. E eu, bicicleta montado, arrancava atrás dele, em vão. Lá voltava, quando a fome lhe dava ou a saudade lhe batia.

 

Mas era a nacional, sempre ela, a levar-me de Lisboa a Milfontes, embalado nas curvas, no pára-arranca, na paisagem de sempre árida e das ruínas, coisas que ainda lá estão. As dunas, o mar, o porto de Sines, o graffiti na casa em ruínas já à saída de Porto Côvo.