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⊙ A Morada dos Dias

{ Horizontes. Olhares. Rumos Cruzados. Palpitações. Compassos dos Dias. }

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06
Mai13

A Moeda da Discórdia

Oskar Lafontaine, um dos fundadores do euro quando era ministro das Finanças da Alemanha, apelou ao fim da moeda única como um alívio da opressão face aos países do sul. O projeto notou-se, à nascença, que seria um nado-morto, pelo simples facto de partir de uma assunção errónea: de que os países europeus são economicamente homogéneos. Qualquer dona de casa compreendeu que a adesão à moeda única foi um travestismo político, porquanto os portugueses, por exemplo, continuaram a receber na ordem do escudo e a pagar na ordem do euro-deutsch. Os cinquenta escudos passaram a cinquenta cêntimos numa ordem direta ilusória, que colocava o valor dos produtos no dobro. A ilusão durou enquanto as famílias subsistiam presas ao recurso ao crédito bancário. 

Não é, pois, de estranhar o pedido de Lafontaine, cujo projeto que abraçou se viu como uma verdadeira fábula que bem lhe traja no nome. Vale a pena ler a entrevista de João Ferreira do Amaral ao 'i' (excertos aqui, brevemente). Entretanto, e porque vale a pena revisitar os escritos, trago aqui um texto meu de 17 de novembro de 2012, intitulado "This is the end, my friend":

 

Compreende-se mal que tenha durado ainda um ano a conversa de que os países do sul viveram a cima das suas possibilidades. O argumento amplamente difundido pela Europa “ela mesma” (assim se vêm os alemães e suas adjacências) foi bem aceite em Portugal pela família política de Angela Merkel. O governo português entrou numa espiral perigosa e pouco coerente: atirar as culpas para cima de José Sócrates, por um lado, e para cima dos portugueses, por outro. Os cidadãos haviam vivido da maneira que não podiam. O discurso funcionava bem até Christine Lagarde ter compreendido que o staff do FMI havia calculado a austeridade sobre pretensos comportamentos. Recuou, tarde diga-se, e fazendo o mea culpa alertou para os perigos da austeridade como programa governativo. Vítor Gaspar, o homem dos números e dos cálculos em Portugal, fez-se de autista e mantém o finca-pé nos seus cálculos – a austeridade é que é o caminho. Vítor Gaspar assemelha-se a uma mãe que vê o filho na parada militar a marchar para o lado errado e se indigna os restantes e com as chefias pelo crasso erro de não terem seguido o filho. Passos Coelho que não sabe bem para onde vai até que lhe seja apontado o caminho, mantém o discurso do “custe o que custar” que casa perfeitamente com o erótico Ulrich que diz que o povo “aguenta, aguenta”.

As falhas continuariam a ser dos países do sul, incompetentes, impreparados e preguiçosos, se não tivesse havido o detalhe da zona euro ter entrado em recessão oficial. Em 2013, mantendo o criminoso caminho traçado, a zona euro vai colapsar e o perigo das bancarrotas irá triplicar. Portugal está já nos 46%. Há uma equação básica que não é levada em conta pelo simples facto de que Merkel e os fantasmas que a alimentam politicamente não o permitirem: a austeridade necessita de uma desvalorização monetária.

Mas os portugueses não são preguiçosos. Nunca o foram, basta ver o sucesso que alcançam quando emigram. Trabalhamos mais horas do que os alemães e pagamos mais impostos que a maioria dos países da Europa, mesmo quando o nosso salário mínimo mensal é equivalente ao auferido semanalmente noutros países. Nós não vivemos acima das nossas possibilidades, os governos é que viveram. A moeda única procurou nivelar países amplamente diferentes. Passámos a pagar em euros mas continuámos a receber em escudos. Os resultados nefastos não se fizeram sentir mais cedo pelo simples facto dos portugueses terem sido obrigados a viver do crédito – pedia-se aos bancos dinheiro para as despesas correntes.

Por isso, dentro de pouco tempo teremos a moeda única como peça de museu, entre o corredor das utopias e do sadismo. As velhas moedas nacionais irão regressar, o problema será renivelar a Europa e repensar o modelo de governação. Isto, se a meio caminho não eclodir nenhuma guerra. Dez anos de moeda única poderão ser sinónimo de vinte ou trinta de reordenação da Europa. Passos largos ajudam-nos a chegar mais depressa, mas também podem ser o suficiente para uma queda fatal.

"E naquela casa, que ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias".

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