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⊙ A Morada dos Dias

{ Horizontes. Olhares. Rumos Cruzados. Palpitações. Compassos dos Dias. }

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08
Jun17

No Flowers in May

Os ingleses mais velhos e os inadaptados à globalização deram o seu aval ao projeto isolacionista inglês, depositando, novamente, o poder nas mãos de Theresa May. Teremos um reforço do anti-europeísmo britânico e um namorico com o descompassado ocupante da Casa Branca. O resultado era previsível, uma vez que os efeitos do brexit ainda não se tinham feito sentir e os ataques terroristas deram o input final. O resto é história, e esta repete-se.

05
Jun17

O Combate ao Terrorismo

"Conhecido das autoridades", assim são descritos, invariavelmente, os autores dos ataques terroristas. Na base estão denúncias à linha de combate ao terrorismo da polícia britânica. O dedo é sempre apontado: as autoridades, avisadas, de dentro da comunidade islâmica, nada fizeram. Esta situação coloca-nos num cenário delicado, em que as autoridades não têm competência para atuar com base em comportamentos tendenciais, apenas podendo agir perante atos, ou seja, depois do atentado ou tentativa de atentado. Como combater, então, este problema? A solução mais óbvia, apresentada pela extrema-direita europeia é a expulsão dos muçulmanos da Europa. A Esquerda contesta, e bem, que esta medida se baseia na violação dos direitos humanos, da salvaguarda do direito à mobilidade, do dever da integração e das mais-valias do multiculturalismo. Ficamos, portanto, num impasse. Ou não. Correndo o risco de ofender as "religiões do Livro", baseadas num princípio de detenção da verdade e de intenções prosélitas, seja a "boa nova", seja a "verdadeira doutrina", parece possível atuar preventiva se o proselitismo fosse proibido. Naturalmente que o primeiro pensamento que ocorre é que tal medida condiciona a liberdade religiosa. Mas não o faz. Visto de outro prisma, a proibição do proselitismo é, em primeiro lugar, o garante do direito de consciência e o fim da legitimação de discursos de «autenticidade religiosa», assegurando o direito aos cidadãos de não serem abordados com a tentativa de conversão religiosa. Que impacto isto tem no radicalismo islâmico no Ocidente? Não resolvendo o problema, permite que tentativas de sedução para a causa sejam alvo de punição legal, particularmente se a proibição do proselitismo for associada a correntes fundamentalistas. Ora, sabendo que o Islão não é uma religião de abordagem direta de conversão, será mais fácil mapear atividades proto-terroristas pela via do proselitismo. 

04
Jun17

Cultura, Religião e Globalização


A DIMENSÃO CULTURAL da globalização é um factor fundamental na análise dos localismos globalizados e das globalizações localizadas. Apesar disso, importa referir que cultura, na maioria dos lugares, é pelo menos parente de religião, o que significa que a cultura identitária tem um carácter profundamente religioso. Importa referir que a globalização é um processo impulsionado por forças económicas e tecnológicas, ao mesmo tempo que significa um aumento exponencial das possibilidades de comunicação entre um número crescente de pessoas em todo o mundo, dos mais altos cargos políticos ao cidadão comum, passando claro pelas organizações religiosas, ideológicas e criminosas.
TORNOU-SE, neste processo, consensual que a globalização tem um pendor cultural expresso. Assume-se que existe uma cultura global emergente e dominante, um localismo globalizado, cujo foco de emissão é os Estados Unidos da América, razão pela qual é frequente se falar numa americanização do mundo. Para muitos, esse localismo globalizado significa uma exportação de padrões de vida elevados e que culminará na criação de uma sociedade civil internacional assente na democracia como sistema político. Para outros, essa exportação significa uma expansão de um modelo de vida superfícial, trivial e até mesmo como uma conspiração neo-imperialista ao serviço de um capitalismo predatório. Esta última leitura é a fonte alimentadora dos movimentos anti-americanos como sinónimos de resposta anti-globalização. Seja como for é factual que a globalização tem uma feição norte-americana notória, marcada inclusive pela padronização das comunicações no inglês americano.
APESAR DE imensamente explorada, a reflexão em torno de uma cultura global é recente, embora se relacione com um assunto mais arcaico: modernização. Um dos principais aspectos desta modernização é a afirmação de um valor formulado com o Renascimento - individualização - que se configura na subtração do indivíduo da sua condição de parte integrante de uma identidade tradicional expressa pela identidade de grupo ou nação. Esta individualização abandona o ser humano à sua própria condição de liberdade do uso dos seus meios e recursos.
IMPORTA REFERIR que essa cultura globalizada não é inexorável, isto é, não se trata de um rolo compressor ao qual é impossível resistir nem tão-pouco é linear. Ela comporta contrariedades que se lhe tornaram características, como a comida fast-food e a comida tradicional dos diversos pontos do globo, o ateísmo e a procura das religiões tradicionais, a sexualidade desmoralizada e a virtude evangélica. Apesar dessas contrariedades que lhe são típicas, a globalização significa uma uniformização de modos de vestir (mesmo os diferentes estilos são padronizados), de linguagens corporais e de quadros referenciais.
NESSA GLOBALIZAÇÃO RESISTENTE cabe tudo o que a padronização e a resistência simbolizam. Os valores religiosos são em larga medida os mais significativos elementos das fragilidades do rolo compressor, ou pelo menos, das nuances que este contém. A Índia é um exemplo desses contrastes da globalização. A sua população adere às tendências das novas tecnologias, às tendências ocidentais de comportamentos sociais como as despedidas de solteiras com strippers, ao mesmo tempo que as castas e a fé hindu continuam a ter papel intocável nos códigos e sistemas de organização.


{image copyright} | (texto redigido em 2011)

01
Jun17

Trump deita-se à sombra do carvão

Donald Trump acaba de anunciar o previsível, o abandono dos Estados-Unidos do Acordo de Paris, respeitando o compromisso de aplicar o seu programa eleitoral. Não nos devemos chocar. Donald Trump sempre afirmou, e hoje voltou a afirma-lo, que o aquecimento global é um embuste criado pela China para reduzir a capacidade industrial norte-americana. Trata-se de uma teoria esquizofrénica que encaixa, perfeitamente, na personalidade messiânica e dada a teorias da conspiração do ocupante da Casa Branca. Em segundo lugar, verifica-se um alinhamento entre as pretensões político-ideológicas de Donald Trump e os seus financiadores da indústria petrolífera e do carvão, que não tardaram a emitir a fatura dos 90 milhões injetados na sua campanha. Portanto, num só golpe Trump destrói um acordo que levou uma década a ser firmado, e coloca em risco a sustentabilidade do planeta, deixando perfeitamente visível a ausência de compromisso ético e moral da sua gestão. A narrativa de Trump, a "história da carochinha" sobre emprego, crescimento económico e conspiração chinesa, é operatória, unicamente, num eleitorado com dificuldade em compreender o que está em causa com o aquecimento global, resumidamente um eleitorado de baixa escolaridade a quem Trump conta belas mentiras. A rutura com o Acordo de Paris servirá para abrir a já de si significativa fissura na sociedade americana, evidenciando o problema do modelo eleitoral presidencial onde não basta ter o maior número de votos. Durante mais quanto tempo Donald Trump conseguirá sustentar uma governação baseada no binómio "eles contra nós" e no slogan "make America great again"?

12
Mai17

Fado, Futebol e Fátima

O galego Carlos Taibo, no seu livro Compreender Portugal, publicado em 2015, afirma que a sociedade portuguesa, no seu mais amplo sentido, deslocou-se da “trilogia dos três F” – fado, futebol e Fátima, para uma nova trilogia, composta por futebol, FMI e Facebook. Sem negar a importância recente do FMI e o lugar central do Facebook na vida quotidiana dos portugueses (num continuum universal que não produz dimensões particulares portuguesas), considero que os clássicos três F, das guitarras portuguesas, da bola sobre a relva e do culto mariano permanecem profundamente operatórios, enraizados na identidade nacional. Tratam-se de atavismos culturais impressos na memória histórica coletiva. Recordando Júlio Pimentel Pinto, “a memória é esse lugar de refúgio, meio história, meio ficção, universo marginal que permite a manifestação continuamente atualizada do passado”. Nesse sentido, a memória coletiva permite a revivência de determinados eventos, a instituição de determinados acontecimentos como marcos que solidificam a identidade de um grupo. A memória, efetivamente, une os sujeitos, os atores sociais, porque ela interliga-se, beneficia-se das memórias alheias, porque a memória individual só se emaranha na memória coletiva se, como escreveu Halbwachs, concordar com a memória dos outros. Para León e Receba Grinberg a identidade emerge da interseção do tempo, do espaço e do grupo, mecanismos que conjugados produzem um manual de valores que se solidificam no grupo. São tradições inventadas, como teorizou Hobsbawm, que necessitam, na ideia de José Mattoso, do Estado para se criarem, porque a portugalidade é devedora, sem dúvida, do intenso movimento do Estado Novo de estabelecer uma “identidade nacional”, de que os “três F” são o expoente máximo. 

As romarias com a sua religiosidade assente nos ex-votos, na devoção mariana e nas práticas de cura, o futebol com as suas outras romarias de domingo, em que as famílias iam ao estádio e sempre alguém pedia “vizinho, deixe-me entrar consigo”, na época dos bilhetes com direito a acompanhante, e no fado, a “canção nacional” que transporta o ideal de um povo vivente de tristeza, amargura, devoto e honroso. O português de Jorge Dias é “um misto de sonhador e de homem de acção [...] o Português é, sobretudo, profundamente humano, sensível, amoroso e bondoso, sem ser fraco”. 

Mas se o português é uma série de lugares-comuns instituídos na memória coletiva, ele também é muitas outras coisas, porque o quotidiano não se compadece com chavões ideológicos. No entanto, porque a memória se reaviva em acontecimento determinantes, contribuindo para a fabricação de um sentimento comunitário, o 13 de maio de 2017 oferece as condições essenciais para o reavivar da memória nacional, agora amplificada nos meios de comunicação social, com transmissões diárias de notícias e reportagens em torno da vinda do Papa Francisco, publicação de artigos de opinião e livros sobre a vida e a mensagem de Bergoglio. A mediatização da visita papal e a cobertura das peregrinações tem oferecido terreno para um reavivamento católico, para um ressurgimento do catolicismo como idioma cultural nacional, ao qual se junta o facto de no próximo dia 13, o Benfica provavelmente se sagrar campeão, o clube português com o maior número de adeptos, e que opera, assim, como um símbolo instituído de Portugal, conjugando-se a Fátima, reatualizando o mito do país católico e benfiquista, relegando para segundo plano o multiculturalismo, a diversidade religiosa, a diversidade clubística, para renovar, pelo gesto nostálgico, o Portugal do Estado Novo, agora, no dia 13, sem o fado, mas com Salvador Sobral e o Festival Eurovisão.

 

post também no blog Changing World do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE (link).

10
Mai17

No Porto, o ano do Dragão não chega

Jorge Nuno Pinto da Costa, intitulou a sua biografia Largos Dias Têm 100 AnosSão cem anos que vive um Dragão, mas a chama um dia extingue-se ou a desolação, como a de Smaug, um dia chega. E o fogo ardente cessa, porque na vida tudo tem um tempo, e apesar de largos, os dias que fazem os anos serem cem chegam ao fim. Não se extingue a vida do homem, do herói que fez do pequeno clube portuense uma grande potência desportiva europeia, que roubou a hegemonia do futebol português aos clubes da segunda circular, que se intrometeu na luta a dois e chegou a fazer do campeonato nacional coutada sua. A dívida de gratidão dos adeptos portistas não cessa, é eterna. Mas o tempo não se compadece com as nostalgias dos homens, e após quatro épocas sem qualquer título os sinais são por demais evidentes que a Era do Velho Dragão chegou ao fim, é tempo de um novo FCP. Já não são os treinadores que precisam ser mudados -- testaram-se demasiados sem sucesso -- é toda a estrutura diretiva do clube, sob pena de ver o clube voltar a afundar-se no regionalismo, na luta pelo pódio sem nunca alcançar o título. É preciso que o clube, em grave estado financeiro, deixe de ser um entreposto de jogadores e aposte forte e sério na formação, que compre barato para potenciar talentos desconhecidos, e que aposte numa organização sólida, com um diretor desportivo forte, com um treinador português talentoso (o problema não é Nuno Espírito Santo, em última análise ele pode ficar), e com um presidente com outra energia. É tempo de parar de fingir que está tudo bem. 

07
Mai17

Abstenção: o inaceitável silêncio francês

As eleições francesas parecem registar uma taxa de abstenção superior à registada em 2012. Esse facto é, sem dúvida, perturbador, quando sabemos, claramente, que o que está em causa, e muito infelizmente, não é uma questão de maior ou menor posicionamento liberal, é algo mais essencial do que isso: o retorno ou não do fascismo como modelo de governação. Só esse facto bastaria para que os franceses, gostando ou não de Macron tivessem acorrido às urnas, massivamente. Porque o silêncio nem sempre é a melhor resposta, por vezes é preciso agir para que não se torne conivência. 

07
Mai17

Sob pingos de chuva, a inércia

Daria uma boa pesquisa, perceber os contornos psico-sociais dos portugueses que levam a considerar que a chuva impossibilita o normal funcionamento da sociedade. E assim lembro-me dos britânicos que vivem sob chuva constante, e as crianças brincam nos parques, porque a vida segue, no matter what.

06
Mai17

Le Pen já ganhou, haja o que houver

Às portas do desfecho das eleições francesas, é tempo de olhar o quadro social em que as mesmas se desenrolam. Inúmeros lugares-comuns são visitados e reciclados em favor da campanha eleitoral, numa França multicultural e profundamente instável. Os problemas de ordem sociológica que afetam a França são conhecidos. Dificuldades de assimilação e acomodação cultural por parte de imigrantes provenientes do mundo árabe, segundas gerações em encruzilhadas identitárias que derivam em crises, que por sua vez se desenrolam em radicalismos. É inquestionável o efeito nefasto que a guetização teve na sociedade francesa. O multiculturalismo e a globalização exigem muito mais esforço concertado do que o enclausuramento fronteiriço, físico e cultural. É muito fácil perante a diversidade cerrar fileiras identitárias, arreigando-se a chavões culturais que formalizam uma espécie de ‘identidade nacional’, que mais não é que um aglomerado de práticas estabelecidas como autênticas e tradicionais. Aquilo que Jean-Louis Triaud, em Lieux de mémoire et passés composés, chamava de «memórias instituídas» e o já clássico Eric Hobsbawm cunhou como «invenção da tradição».

03
Mai17

Marcelo do povo

Nunca como agora um PR foi tão popular no sentido específico de representação simbólica do «povo». Apesar da herança política e social de Marcelo Rebelo de Sousa e do seu património estético de direita, no imaginário popular, em virtude dos seus périplos pelo país, as suas passeatas governativas, o PR é percebido como um D. Quixote das causas populares, um Zorro. É por isso que em Almeida, por causa do encerramento da dependência da CGD, o povo espera a intervenção presidencial. 

"E naquela casa, que ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias".

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