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⊙ A Morada dos Dias

{ Horizontes. Olhares. Rumos Cruzados. Palpitações. Compassos dos Dias. }

20
Jul15

A senhora que se perdeu no zoo

Poderia ser o título de um romance, mas não o é. É a vida, verdadeira como só ela. E a D. Fernanda é a protagonista.


 Forçava a entrada pelas portas giratórias da saída, no Jardim Zoológico de Lisboa, cambaleante e insegura, ostentando a incerteza do passo que traz a idade. Queria "ver os bichos". Vinha de Idanha e não encontrara o marido em casa dele, decidindo esperar por este fazendo tempo no zoo. Pela via das dúvidas, e após duas conversas trocadas com o segurança, convidamo-la a beber uma água conosco. O que parecia uma narrativa dispersa de quem já tinha deixado a demência entrar revelou-se um discurso coerente. Estava na Idanha, numa clínica médica, por comodidade e segurança. O marido, que já havia sofrido quatro acidentes vasculares cerebrais vivia ali num condomínio fechado, e tendo passado mal a empregada levou-o para o hospital. A surpresa que D. Maria Fernanda lhe queria fazer foi cancelada pelas surpresas de um tempo em que a vida se esgota. Ali, numas cadeiras e entre águas e gelados, e no caminho da unidade de saúde onde reside, foi-nos desfilando uma interessante e cheia história de vida. Se de alguma forma a ajudámos, a D. Fernanda deu-nos uma lição de coragem, perseverança e de que vale sempre a pena olhar além dos passos trôpegos da idade. 

Tendo estudado na escola comercial, trabalhou toda a vida ativa na indústria farmacêutica, mas foi em África que deixou o coração, para onde foi com um contrato temporário de trabalho, e onde viveu com o seu primeiro companheiro, um militar vinte anos mais velho, e com o qual conquistava o mato angolano participando dos rituais, tirando fotos, e acompanhando o registo etnográfico a que este se dedicava por vocação. A conquista, assegura-nos, não foi "pela aparência, nem pelo sexo", mas pela piada que lhe contou em francês e pela atração pela etnografia africana. Foram meses de paixão a espaços, vivida nas licenças daquele, entre cartas trocadas e ainda guardadas num baú, interrompida pela gravidez inesperada que arrastou Maria Fernanda para conflitos familiares, afinal, o coronel era ainda casado, e as ameaças de morte fizeram-na voltar para Portugal, e para a sua vida na indústria farmacêutica, agora com uma filha nos braços, rapariga com o destino traçado desde a conceção, e que arrastou a família para avultados gastos, na luta contra a dependência de drogas, coisa que teria herdado do pai, diz D. Fernanda, homem que sempre se dedicava aos comprimidos e ao uísque. A filha haveria de engravidar na adolescência, depois de ter forçado a saída do colégio de freiras para se entregar às drogas e a um casamento falhado, e a outro fruto das trocas entre dependentes. Gravidez de risco que empurrou D. Fernanda para uma devoção religiosa que não tinha, e a neta, "graças a Deus", diz, não veio com a dependência. O genro, que largou a droga mas mantém um pé no álcool, não é boa rês, pois "homem que não faz nada não tem valor". 

A neta, hoje já mãe, foi criada por D. Fernanda e o seu marido definitivo, que veio a conhecer em Lisboa, homem trabalhador e honesto, proprietário de uma quinta no Douro que produz vinho e amêndoas, empresa que viu surgir a concorrência com as facilidades bancárias dadas pelas mãos untadas pelas notas dos favores. 

Hoje, com quarenta e quatro anos de casada e muitas amarguras, D. Fernanda vive numa clínica à qual doou mais de mil livros, a grande maioria de culinária, a sua grande paixão. Não se entrega, contudo, à tristeza. A vida é como é, e ela viveu-a cheia. Esperemos que o esposo tenha recuperado e que volte depressa ao tão romântico costume de irem para um hotel aos fins-de-semana.