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⊙ A Morada dos Dias

{ Horizontes. Olhares. Rumos Cruzados. Palpitações. Compassos dos Dias. }

30
Ago16

Adeus Avô

E depois do adeus, a vida continua. Acabo de saber, avô, que te foste. Não foste na paz tão desejada, foste em meio a sofrimento, mais ou menos como escolheste levar a vida. A felicidade já te havia fugido pelos dedos, os dias eram apenas horas em sucessão, num compasso lento de agonia de quem se aguenta sem saber bem porquê. Talvez pela "borboleta", com que escolheste fazer vida e casulo.

Partilhámos o insondável gosto pelos livros, pelas letras impressas a papel que nos fazem sonhar e nos transportam a outros mundos. Trocámos impressões honestas sobre o mundo. Apesar de o vermos a partir de diferentes colinas, de olharmos o horizonte com diferentes filtros, com ideologias políticas tão distantes, sempre houve, da minha parte, um total respeito por quem se edificou noutros tempos, se fez homem sobre outras geografias e sensibilidades. Era difícil perceber que aquele homem pequenino, de ascendência judaica bem presa ao apelido Ferreira, Ferreira do Porto, com qualquer coisa britânica ali metida, fosse admirador das utopias arianas, e ao mesmo tempo um homem bom, que tirou sempre de si em prol dos outros, e dedicou os seus dias e a sua saúde em favor da família. 

Vale recordar a história que sempre me contava. Havia um patrão, na Maia, na década de 1940, extremamente baixo, que, certa vez, ao visitar a sua fábrica, se cruzou com um trabalhador muito alto, o qual parou a olhar o patrão, de cima. O patrão, do andar de baixo mirou-o e disse - "Estás a olhar, parece que queres que te dê sociedade. Diz-me quanto tens, eu digo-te quanto vales, nada tens, nada vales". Terminava a narrativa sempre dizendo que ainda hoje é assim, valemos sempre aquilo que temos. 

Até para sempre, avô, em cores azuis-e-brancas, carago!