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⊙ A Morada dos Dias

{ Horizontes. Olhares. Rumos Cruzados. Palpitações. Compassos dos Dias. }

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Dez15

Bahia: falta um salvador à cidade de todos os santos

As agências de turismo teimam em perpetuar um mito: o de que Salvador é um bom destino de férias. A culpa não é tanto das agências de turismo quanto do governo do Estado da Bahia. Longe vai o tempo da cidade de Salvador como espaço pitoresco, como lugar de convivências, de demonstração de uma africanidade própria assente na capoeira, na música e no Candomblé, religião edificada pelo processo escravocrata de finais do séc. XVIII, inícios do séc. XIX. Não é, hoje, incomum ouvir o desagrado dos turistas, apontando o dedo às agências de viagem à publicidade enganosa. A Bahia de Jorge Amado já não existe, nem mesmo a da antropóloga norte-americana Ruth Landes, que ali chegou na década de 1930. 

 Salvador é, desde há uns anos a esta parte, uma cidade entregue ao urbanismo tosco e sujo, ao desinteresse absoluto pela preservação patrimonial, ao crime que gera um clima de insegurança avassalador. A total ausência de iniciativas governamentais de preservação e restauro dos edifícios históricos da Cidade Baixa, verdadeiros marcos de um período presente nas obras de arte e na literatura, é alarmante. Aos poucos os lugares históricos vão caindo aos pedaços. A aposta no Mercado Modelo ou a manutenção da Feira de São Joaquim, não chegam para manter a aparência de exótico-atrativo. 

A requalificação da Orla, que deveria ter sido concluída antes do Mundial de futebol de 2014, espelha a aposta num segmento de mercado em torno das praias. A Bahia não pode ser um local de turismo exclusivamente de banhos. O Pelourinho, rosto da cidade, conserva a sua capacidade atrativa, mas exige um novo paradigma, copiando o sucesso de cidades europeias com iniciativas permanentes em favor do turismo. 

Salvador não pode ser pensada, para seu próprio bem, em torno do Carnaval. Salvador é um destino permanente, seja de turistas, seja de pesquisadores, seja de estudantes internacionais, seja de diplomatas. Por essa razão, precisa ser repensada a título permanente, precisa de uma intervenção profunda de requalificação dos seus espaços históricos, de uma renovada agenda cultural, de um combate mais sério ao crime, e de uma política cultural que valorize a historicidade e a etnicidade próprias.  

Enquanto alguém que frequenta a cidade com alguma assiduidade, que desenvolve trabalho de pesquisa antropológica, reconheço que fora desse âmbito seria difícil regressar a Salvador da Bahia. A cidade de todos os Santos precisa ser repensada, com urgência. Precisa ser refundada passo a passo, em favor da sua história, reestruturando o urbanismo torto e promovendo a sua identidade própria. Salvador precisa de seguir o exemplo da Lisboa dos últimos dez anos, que foi capaz de se reestruturar em favor das demandas do turismo moderno, fazendo de si mesma um destino para o ano todo.

 

© fotografias do autor.