Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

⊙ A Morada dos Dias

{ Horizontes. Olhares. Rumos Cruzados. Palpitações. Compassos dos Dias. }

28
Jan15

Bárbara, Carrilho e a violência doméstica, en passant

Em matéria do caso Bárbara Guimarães vs Manuel Maria Carrilho, e a propósito do texto de Carla Hilário Quevedo (CHQ) sobre o assunto, abro o tom dizendo que o caso é necessariamente do foro jurídico e não público. Todo o mediatismo -- que revela um aproveitamento jornalístico muito pouco ético -- em redor dos acontecimentos retira a questão do domínio dos factos. O julgamento do caso em praça pública, ou ao menos a discussão do mesmo como «interesse público», tende a deturpar os contextos e a abrir espaço para uma opinião pública orientada, pois como bem diz a Carla as vítimas são silenciosas e coube a Carrilho o aproveitamento do espaço mediático em seu favor. Mais uma razão, então, para o caso não ser objeto mediático. Quem gosta de acompanhar a vida dos outros e opinar sobre ela deve fazê-lo recorrendo aos programas televisivos onde os sujeitos se oferecem para estar na vitrina, como a Casa dos Segredos e outros da mesma natureza. 

Seja como for, e não retirando a razão dos argumentos a CHQ, devo dizer que é perigoso avançar -- ainda que a título opinativo -- com conclusões de que o marido maltratante não ama a mulher. Há todo um caldo sociológico e psicológico envolvido nestes episódios de violência que não pode ser esterilizado. É importante levar em consideração as articulações entre exclusão social e violência doméstica (fatores económicos influenciam, por exemplo, a inversão da violência doméstica, i.e., fazendo de homens vítimas), as alterações aos paradigmas sociais que geram tensões simbólicas e os processos de mudança familiar. Há um mar de questões sociais e psicológicas que importa visitar para compreender o fenómeno, horrendo naturalmente, mas que não permite considerar a ausência de uma noção de amor, ainda que distorcida.