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⊙ A Morada dos Dias

{ Horizontes. Olhares. Rumos Cruzados. Palpitações. Compassos dos Dias. }

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23
Mar16

Bruxelas: a oportunidade para refundar a Europa?

 Vivemos um momento crítico. Não é um dado novo no Velho Continente, onde as tensões marcaram a agenda internacional desde sempre. Sempre conhecemos melhor a 'paz armada' do que a paz kantiana, que a União Europeia se propôs ser. Da minha parte, sempre me propus ver a Europa pelos olhos do otimismo, pela lente da pertença regional, mais do que pela diferença local. A Europa em si é um mar de possibilidades, inclusive para velhos planos germânicos de controlo regional, em que o «espaço vital» se converteu pela moeda. 

No entanto, independentemente das diferenças políticas, a Europa desejou ser um espaço de encontros, de multiculturalismos dialogantes e menos de choques. Para tanto, era preciso saber conjugar o projeto europeu de fronteiras abertas com políticas de imigração positivas. O que sempre foi tentado. O passado colonial pesa sobre os países do Velho Continente e serve tanto para a culpabilização própria como de arma-de-arremesso quando se pretendem impor paradigmas culturais anti-democráticos mas com as vantagens sociais da democracia. Na verdade, foram políticas de desculpabilização social e cultural, embrulhadas em teorias sociológicas, a maioria delas, infelizmente, de esquerda, que promoveram o caldo sociológico responsável pelo estado atual de coisas. É claro que a guetização como paradigma urbano promovido pela direita fez o resto.

Todo o povo tem direito à manifestação dos seus atavismos culturais. A diferença é a base da riqueza humana que a Antropologia tem sabido -- depois de deixar as teorias evolucionistas caírem -- expor. Por isso ela deve ser celebrada mas recontextualizada, como foi o caso dos costumes africanos transpostos ao Novo Mundo durante o comércio de escravos, os quais diante dos grandes constrangimentos e infortúnios sociais, políticos e económicos, souberam sobreviver e adaptar-se. O multiculturalismo é a aceitação de todos, não a imposição de uma minoria sobre os demais. O Ocidente é o locus do bem-sucedido melting pot, não o novo território para a sharia com os benefícios locais. Não se chama adaptação exigir os direitos e abdicar dos deveres. Mesmo como turistas temos de nos adaptar a países árabes, porque estes como emigrantes não têm de o fazer? Felizmente há muitos países, como Portugal, onde a convivência é exemplar, com as devidas adaptações e capacidades de acolhimento.

Portanto, refundar a Europa jamais deverá passar por repensar a supressão de fronteiras e ainda menos as culturas europeias. A cultura europeia adaptou-se, soube conviver com a diferença, mantém-se mutável e permanentemente revisora dos seus paradigmas de modo a saber acolher a diferença. É preciso que a diferença tenha interesse sem se adaptar, porque a modernidade é um jogo de adaptações, seleções de elementos e escolhas culturais dos povos em movimento. 

"E naquela casa, que ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias".

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