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⊙ A Morada dos Dias

{ Horizontes. Olhares. Rumos Cruzados. Palpitações. Compassos dos Dias. }

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02
Dez14

Das diferenças entre o relato jornalístico e o relato etnográfico.

Este texto é subsidiário para, em tentativa e utopia, melhorar a forma de se fazer jornalismo e, segundo, para desmistificar a ideia de que não há diferenças entre o relato jornalístico e o relato etnográfico. 

 

DE FORMA SIMPÁTICA já fui confrontado com a indagação se, em rigor, há alguma diferença entre o relato jornalístico e o relato etnográfico. Percebo a questão, embora toda ela venha carregada de desconhecimento e de leve provocação. Em termos gerais o jornalismo busca transmitir a realidade, os acontecimentos, com a maior atualidade possível de uma forma que chegue ao maior número possível de leitores, numa linguagem entendível por todos, estando condicionado não apenas pela necessidade de imediatismo como também pela linha editorial do jornal, revista, rádio, etc., ao qual pertence. O relato jornalístico está dependente ainda de um método de construção de discurso e preso a uma tendência mecânica do jornalista partir para o «campo», isto é, para a o facto que pretende apurar já com uma ideia preconcebida do que quer salientar, retalhando os depoimentos de modo a que estes caibam, melhor ou pior, naquilo que o jornalista já concebia como real e que pretendia levar ao público. É por isso que quando entrevistados e posteriormente confrontados com o produto final que é a peça jornalística temos quase sempre a sensação de que não fomos exatamente nós a dizer aquilo ou pior de que aquilo não foi assim que foi dito, que a frase está fora do contexto, que há uma inversão dos dados, e que há um reordenar dos discursos e acontecimentos, porque há "dados irrelevantes" para a construção da narrativa coerente, como já ouvi respondido. 

Por seu turno, o relato etnográfico embora dependente da subjetividade inalterável do sujeito, é um discurso demorado, que parte da observação demorada da realidade, do levantamento do maior número possível de depoimentos, que valoriza as contrariedades como particularidades do fenómeno em observação, que não busca por isso a linearidade clean da narrativa, possui um compromisso com os factos e parte de propostas de leitura e de questões preliminares e que da análise da realidade subtrairá resultados, conclusões, a partir das quais fará a sua narrativa dos 'factos sociais'. 

Em suma, o relato jornalístico é necessariamente, em favor do imediatismo do noticioso, apressado, resulta de uma ideia geral do repórter do objeto, ideia essa que buscará confirmar a partir da montagem dos depoimentos. O relato etnográfico, por seu turno, parte de uma ideia e de um conjunto de questões para da observação da realidade e do levantamento dos discursos subtrair uma ou mais conclusões, a partir de dados não raras vezes contraditórios. Ou seja, o relato jornalístico parte de um "facto" para a partir dos dados recolhidos construir a confirmação do mesmo, ao passo que o relato etnográfico parte de questões para da observação, da indagação e dos dados recolhidos subtrair um ou mais factos. 

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"E naquela casa, que ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias".

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