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⊙ A Morada dos Dias

{ Horizontes. Olhares. Rumos Cruzados. Palpitações. Compassos dos Dias. }

04
Nov14

Dos Grafitis aos Não-Debates: O Fim do Princípio Universitário.

Por estes dias temos sido confrontados com o caso do ensaio sobre os graffitis políticos publicado na revista científica Análise Social, com a revelação da parceria entre a Fundação Francisco Manuel dos Santos (Pingo Doce) e o ICS (instituição editora do citado journal), e agora com o cancelamento do debate entre Rui Tavares e Pedro Mexia, intitulado "Haverá espaço para as ideologias no mundo actual?", que teria lugar na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. 

Os casos não são, entenda-se, de somenos importância. A Análise Social é uma das maiores revistas científicas portuguesas na área das ciências sociais, com enfoque sociológico-antropológico, dirigida por um dos mais conceituados antropólogos portugueses, João de Pina Cabral, e da responsabilidade de um dos mais importantes centros de investigação em ciências sociais em Portugal, o ICS. A parceria estratégica entre o ICS e a Fundação Francisco Manuel dos Santos não tem, à primeira vista, qualquer implicação negativa. A investigação deve procurar financiamentos externos e, defendo fortemente, as Universidades deveriam funcionar como fundações por forma a receberem apoios concebíveis como mecenato. O que não pode haver é ingerência e usurpação de funções em matéria de colaboração. 

A decisão de cancelar a tiragem do número da Análise Social é um problema sério. Primeiro, porque o ensaio passou pelo crivo da editorial board, segundo porque permite pensar que a liberdade científica está, definitivamente, em causa. Tudo isto se reforça com o cancelamento do debate marcado para a Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, justificado pela impossibilidade de fazer caber debates político-ideológicos no espaço universitário. 

Vivemos, pois, um período negro que marca, de forma indelével, o fim dos princípios universitários de independência, rigor, liberdade. As universidades estão estranguladas pelos orçamentos de Estado, os centros de investigação não possuem fundos e por fim os investigadores passaram a ser mendicantes/precários. O programa ideológico que governa o mundo está devotado ao assassinato das ciências sociais, ao assassinato do espírito universitário de produção de conhecimento e de pensamento. Ensejam-se por cidadãos-executantes e temem-se os cidadãos-pensantes. 

As universidades têm, hoje, medo de perturbar o poder sob pena de verem os seus parcos recursos ainda mais reduzidos. Há ainda esperança, é claro, nem que tenhamos de ser nós a ergue-la.