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⊙ A Morada dos Dias

{ Horizontes. Olhares. Rumos Cruzados. Palpitações. Compassos dos Dias. }

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25
Mar14

Köln, uma quase etnografia de viagem.

A cidade tem o seu charme mesmo não sendo bonita diz-me J., que vive em Bonn mas todos os dias aporta a Köln para trabalhar na muito histórica Universität que nos seus vários pólos anima a velha colónia romana. A Segunda Guerra Mundial ou simplesmente "a guerra" nas suas palavras num português com o açúcar do Rio de Janeiro, vincando fortemente o peso que o período nazi teve e ainda tem na memória coletiva alemã, fez do tecido urbano de Köln um emaranhado de história e apressada reconstrução. Estas paredes-meias entre passado e presente abraça-nos ainda no aeroporto onde a muito moderna construção que demonstra o rigor e o pragmatismo alemão - categorias que o discurso comum guarda desde os primeiros Mercedes - no seu teto metálico lembrando uma fábrica onde a componente humana é tão necessária quanto os painéis eletrónicos que nos indicam as portas de embarque, o check-in, ou as vozes que de cinco em cinco minutos nos recordam recomendando que não abandonemos as malas. Os comboios e o metro impõem-nos um horário preciso, em Köln não se compram bilhetes mas antes se adquirem viagens para uma hora exata. Pragmatismo e programação. 
Os portugueses que vão chegando abeiram-se uns dos outros em busca de apoio e orientação quando a língua é uma fronteira muito clara. M., experimentada nas viagens por terras alemãs e fluente na língua vai cumprindo o papel de encaminhamento. Está por ali com a frequência que o trabalho de curadora lhe exige, ela que expõe a rota da seda em terras da cerveja. No entanto, pode-se sempre contar com uma voz portuguesa aqui e acolá, disposta a ajudar pelo afeto da língua, afinal "dois dedos de conversa e uma ajuda não se nega a um português", bem diz A. que se anima na portuguesidade que se troca e a que se abeira uma jovem brasileira em trânsito para Düsseldorf. Há sempre uma dúvida para tirar. 

Os alemães, geralmente descritos como "frios", característica de personalidade que sempre se recorre reproduzindo continuamente a estereotipização como uma ferramenta de ordenamento do mundo, vão se disponibilizando para prestar indicações na língua franca dos tempos que correm: o inglês. 
O preço dos transportes é elevado, 1,90€, compensado pelo caráter gratuito para os estudantes e um acompanhante, depois das dezoito horas. Portanto, se ir para a Universidade pode custar dinheiro, voltar é gratuito, o que confere à Köln Universitária, que se roda em torno da Albertus-Magnus-Platz, um espírito de divertimento que cobre a noite sem chegar à madrugada. O número considerável de bares porta sim porta sim na Zülpicher straße lembrarão a qualquer lisboeta o Bairro Alto quando o dia se deita. Garrafas vazias amontoadas aqui e ali, um homem que se ajeita na bicicleta com mais garrafas do que mãos, porque beber cerveja é tão imperativo quanto respirar, e enquanto há quem coma no Habibi, há quem se junte em torno de uma banda de rua que canta canções a pedido e com um coro de improviso. 
Limitada pelo tempo que não permite atravessar uma cidade que se perde de vista, esta é uma micro-etnografia, ao sabor de quem percorre o caminho que vai do Hauptgebäude, o prédio principal, da Universität zu Köln com os seus campos relvados onde se misturam as garrafas de cerveja, os namorados ao sol, o futebol improvisado com mochilas num verdadeiro universal cultural e as bicicletas que enchem a cidade, porque pedalar é gratuito e Köln que se estende na horizontal é propícia ao exercício romântico de fazer da cidade um lugar com menos carros e com um metro menos apinhado, até à imperial Dom, a Catedral de Colónia com os seus mais de 700 anos de história e uma majestade gótica arrebatadora. 
Há igrejas imponentes, bares, restaurantes e um urinol público que mostra mais do que esconde num inesperado confronto com a dimensão mais humana no traçado urbano. Se ao redor da Catedral se sente o turismo, o mesmo não se pode dizer da demais trajetória. Köln não é pensada para o turismo mas para ser germânica, para consumo interno, para o corrupio das vidas próprias. Não há informações em inglês, nem lojas de souvenirs, as recordações de Köln são as fotos e a experiência. O Neumarkt com as suas lojas de roupa de universais marcas, com vendedores de flores, músicos de rua, vendedores de bugigangas e pedintes, vendedores de jornais e polícias, fervilha de vida, de uma vida que é tão real quanto distante do ideal germânico de progresso e prosperidade. Köln demonstra que a poderosa Alemanha é uma narrativa político-ideológica e não produto de uma sociedade equitativa. 



"E naquela casa, que ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias".

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