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⊙ A Morada dos Dias

{ Horizontes. Olhares. Rumos Cruzados. Palpitações. Compassos dos Dias. }

21
Mar16

O Brasil não muda. O Brasil mudou.

Bezerra da Silva canta "Se gritar pega ladrão, não fica um meu irmão". É um retrato realista da política governativa brasileira. Nesse capítulo, não há dúvida, o Brasil não mudou. Razões históricas e de ordem sociológica explicam a preponderância da corrupção, desde uma recente democracia, a um período de regime autoritário que viciou a sociedade num modelo de "nós contra eles", em tudo semelhante ao caso português. 

No entanto, o que se está a passar no Brasil não é tanto um levantamento social contra a corrupção como modelo político instalado de base, um grito de "basta" irrompido onde outrora havia passividade. Também o é, certamente que sim, porque a sociedade brasileira mudou, graças a políticas sociais, implementadas pelo governo do PT, que permitiram tirar mais de 20 milhões de pessoas da pobreza extrema e gerar um novo tecido social com classe média e uma maior consciência social. Todavia, muito do que está em causa deriva disso mesmo - de uma viragem no status quo social brasileiro, em que os negros e mulatos se encontravam bem instalados na sua posição de passividade, de submissão, longe das universidades, dos shopping centers, e de profissões que a direita em protesto concebia como da sua exclusividade. O que está em causa é uma intensão da maioria da direita brasileira de regresso a um modelo social de segregação racial, de separação de classe decalcada na racialidade, em que os "pobres" e "negros" não cruzem os espaços dos "brancos" e "ricos". Por essa razão é essencial que "não vá ter golpe", porque no que toca a corrupção, sabemos, é substituir uma pela outra, com todos os defeitos (e são muitos) que o PT tenha. Esta manifestação é profundamente da diferente das ocorridas recentemente, onde se gritava que "o gigante acordou" exigindo políticas sociais diante dos gastos da Copa, não um golpe político.