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⊙ A Morada dos Dias

{ Horizontes. Olhares. Rumos Cruzados. Palpitações. Compassos dos Dias. }

05
Fev16

Um País de Interior Órfão

A propósito deste texto de Francisco José Viegas, sobre Torre do Moncorvo, dei por mim a regressar a lugares da infância e de outras tantas viagens. Recordei os verões quentes na planície alentejana de Vila Nova de Milfontes, quando o alcatrão se acaba e a terra leva os tons das gentes, o turbilhão turista é menor, os cafés reúnem os mesmos de sempre, em torno dos caracóis, do ciclismo na televisão, de um copo de vinho meio entornado no balcão, e o baloiço cá fora abana sozinho. Lembro de me sentar no silêncio de um nada, com o telemóvel na mão à espera do sms do amigo de sempre, com palavras sobre coisa alguma. Quando a praia ficava para trás o lugar mergulhava em si mesmo, em pó, na companhia de um walkman e de uma bicicleta a grandes velocidades. Não é preciso mais do que um passo de memória para subir a serra da Lousã e dar comigo entre verdes e águas, na balbúrdia de uma verão vazio, cada vez mais despido de gentes. São muitos os rostos que partiram e nem nos dias quentes voltam. O abandono do interior é gritante, marcado pela voz do silêncio nas montanhas e nas planícies, o verão é cada vez menos uma promessa de algo diferente, o inverno uma certeza eterna de infindáveis dias cinzentos. Os casais formam-se de entre os que sobram, os velhos seguem a rotina, os padres veem as igrejas vazias. Ninguém chega, só parte. As estradas levam mais do que trazem. O país litoraliza-se quando não se esvazia, novamente, para outras paragens. É o país que vai.