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⊙ A Morada dos Dias

{ Horizontes. Olhares. Rumos Cruzados. Palpitações. Compassos dos Dias. }

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Jul14

O País do Futebol ou o Brasil Repensado.

DO CARNAVAL ao futebol, passando pelo samba, pelos folguedos e pelas telenovelas, o problema da identidade brasileira é toda uma vasta literatura, discussão e não menor fábrica ideológica, desde Casa Grande e Senzala até ao mito da «Democracia Racial». Buscar a identidade nacional num território da vastidão do Brasil é um exercício elaborado e minucioso que se complica no emaranhado das múltiplas influências culturais desde os vários povos africanos, aos vários índios e aos europeus. Dos movimentos que buscavam europeizar e branquear o substrato social brasileiro e que alimentaram as perseguições aos elementos culturais e religiosos africanos até à valorização ideológica durante e no pós-ditadura das expressões culturais africanas como a culinária baiana, o candomblé, o samba, a capoeira, o maracatu, o frevo, etc., vai todo um turbilhão de redefinições identitárias que teve no futebol uma constante alimentada pela criatividade e pelo génio brasileiro. 

 

As conquistas internacionais e o sucesso do desporto fizeram do Brasil "o país do futebol". Este emblema cultural serviu para cimentar a identidade brasileira a cada nova conquista, e foram muitas. Das copas do mundo às taças intercontinentais, o futebol brasileiro espalhou charme e arte pelos palcos mundiais. Mesmo o golpe dramática do "Maracanazo" cumpriu o propósito de unir o país através das lágrimas - a dor partilhada entre classes sociais. Mas edificar a identidade nacional sobre o desporto é perigoso e limitador porquanto se revela um artifício demasiado plástico que varre a multiplicidade e as tensões para debaixo do tapete. As novas guerras dos movimentos evangélicos contra as tradições afrodescendentes ou a sempre presente corrupção que mina as instituições e a confiança pública são um problema de urgente atuação.

 

A violência simbólica da vitória germânica no Mineirão por 7x1 é um golpe profundo no mito da intemporalidade do futebol brasileiro. Apesar da imensidão do território brasileiro que se traduz numa capacidade quase única de exportação de jogadores para todo o mundo garantindo assim um filão inesgotável ao nível da formação, a verdade é que o Brasil precisa de aceitar que o futebol não pode ser a alma nacional, o elemento identificador de todo um povo sob pena de se cristalizar uma ideia de super-nação e de messianismo, e ao mesmo tempo que o mesmo já não é só arte, é preparação, é mecânica, indústria, empenho, processos. O futebol não é somente a tinta na tela, é a fabricação da tela, do pincel e das tintas.

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"E naquela casa, que ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias".

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