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⊙ A Morada dos Dias

{ Horizontes. Olhares. Rumos Cruzados. Palpitações. Compassos dos Dias. }

16
Nov17

A limpeza da governação Trump

Com efeito, Maria Teixeira Alves está certa em relação ao modelo político-económico e diplomático adotado por Donald Trump. O presidente norte-americano não apenas mantém um modelo já anteriormente privilegiado como não tem sido um cowboy nas relações internacionais. No entanto, olhar este ano de governo de Donald Trump apenas pela via económica é perigoso e, acima de tudo, preocupante, porque revela um pensamento acantonado (ou assim parece) à supremacia dos fatores económicos sobre os sociais. A agenda de Trump para o multiculturalismo, para a diversidade sexual, étnica e religiosa ficou bem clara com a supressão dessas pastas do site oficial da Casa Branca. A saída dos Estados-Unidos do acordo de Paris e a recusa de Trump em assumir uma agenda ecológica, rejeitando as alterações climáticas e defendendo a necessidade de aquecimento global -- o que aliás serve para garantir a estabilidade das indústrias poluentes que são a base económica da sua presidência -- são sintomáticas do perigo histórico do seu período à frente dos EUA. Por fim, as suas ligações à extrema-direita e ao KKK completam um quadro nada simpático, que só por teimosia se pode negar. 

13
Jul17

O género da discussão

O texto que se segue foi publicado no Delito de Opinião. Agradeço ao Pedro Correia o convite, depois da participação na primeira ronda de bloggers convidados, em 2010.  

O género é um dos temas inquietantes da Antropologia. Talvez por isso seja desagradável darmos com confusões entre Direitos das Mulheres/Igualdade entre Homens e Mulheres e Igualdade de Género. Esta confusão voltou a terreno, por estes dias, no Festival de Cannes, em que a propósito da igualdade entre homens e mulheres no cinema, assim como noutros sectores, foi discutida sobre a lapela da "igualdade de género". Este facto resulta de um problema histórico em que o género emergia culturalmente da distinção do que se concebia por dados biológicos: masculino e feminino como macho e fêmea.
 
Este pressuposto resultou numa atribuição cultural de significados de género a objectos, lugares da casa, elementos vários do quotidiano, como destacava Bourdieu em The Logic of Practice. Ora, esta ideia não traduz a complexidade cultural do corpo como produto sociológico, no qual se jogam memórias culturais, sentidos de identidade e expectativas normativas e alternativas por contestação.
 
A religião enquanto instituição que imprime códigos de conduta e moral nos sujeitos não está independente deste processo de construção de papéis sociais, de normatividades tendencialmente estanques, que se desejam eternas por sua intenção cultural de fixarem-se como contínuo social. Por outras palavras, a religião, partindo de um conjunto de padrões morais, pretende a sociedade como uma renovação desse conjunto de pressupostos, considerando as alternativas como contra-normativas. 
 
O que temos, portanto, é um conjunto de ideias acerca do corpo e do seu uso social e sexual, em que os jeitos de ser homem e mulher resultam da sociedade, mas é nela que se reciclam e permitem ressignificar-se. Assim, quando falamos de género precisamos reconhecer que este é um conceito complexo e dinâmico, em permanente reflexão, fruto de reformas sociais, como os movimentos feminista e LGBT. É, então, perigoso confinar o conceito à distinção entre homens e mulheres, pois que há mulheres cujo género é masculino, e vice-versa, e há, inclusive, novas formas de género e trânsitos entre géneros como formas de constituição de identidade.
 
Se em lugares remotos do nosso Portugal ser homem se constrói nos cafés, nos trabalhos pesados, e o ser mulher se edifica nas atividades domésticas, esse Portugal é apenas uma paisagem entre as várias, porque as fronteiras são muito mais diluídas, e um pai de família pode-se trajar de mulher para um perfil falso numa rede social qualquer, e uma mãe de família, na calada da noite, assistir a pornografia lésbica. Porque a sociedade é a movimentação permanente, ideias conservadoras tendem a reportar a intenções políticas mais do que a factos sociais. 
06
Mai17

Le Pen já ganhou, haja o que houver

Às portas do desfecho das eleições francesas, é tempo de olhar o quadro social em que as mesmas se desenrolam. Inúmeros lugares-comuns são visitados e reciclados em favor da campanha eleitoral, numa França multicultural e profundamente instável. Os problemas de ordem sociológica que afetam a França são conhecidos. Dificuldades de assimilação e acomodação cultural por parte de imigrantes provenientes do mundo árabe, segundas gerações em encruzilhadas identitárias que derivam em crises, que por sua vez se desenrolam em radicalismos. É inquestionável o efeito nefasto que a guetização teve na sociedade francesa. O multiculturalismo e a globalização exigem muito mais esforço concertado do que o enclausuramento fronteiriço, físico e cultural. É muito fácil perante a diversidade cerrar fileiras identitárias, arreigando-se a chavões culturais que formalizam uma espécie de ‘identidade nacional’, que mais não é que um aglomerado de práticas estabelecidas como autênticas e tradicionais. Aquilo que Jean-Louis Triaud, em Lieux de mémoire et passés composés, chamava de «memórias instituídas» e o já clássico Eric Hobsbawm cunhou como «invenção da tradição».

13
Nov16

Lendo Blogues #3


  • Assertivo post de Pedro Rolo Duarte sobre as eleições americanas e a ilusão diferencial europeia (link). 

  • Apreensivo post de Rui Bebiano sobre os rumos da Europa entre a América de Trump e a Rússia de Putin (link).

17
Out16

Lendo Blogues #2

Não depende de ti acordares, e de cada vez que o fazes é como se uma membrana densa te envolvesse e não te deixasse respirar plenamente, empurrando-te de volta para o sono. Mas resistes a essa força invisível, e tentas com toda a tua vontade mover um braço, uma perna, estender os músculos, permitir que a sua função se cumpra, assentar os pés no chão, palmas duras no chão frio, e caminhar, aos tombos, em direcção à casa de banho. Mas depois voltas, não chegaste a sair da cama, o movimento é descendente mas sentes que trepas um penhasco vertical preso de finos fios, sem a ajuda de cordas nem de grampos, mãos procurando tenazmente segurar-se a cada saliência, reentrância, planta seca rompendo da rocha. O esforço é de tal modo violento que todas as veias do teu corpo se empertigam, sangue golfando, e o sangue cai das mãos, a pele rasgada pelo gume das pedras. 
»» ler todo | Sérgio Lavos, Aubade
02
Mar16

Três Anos a Morar nos Dias

Faz três anos que me instalei nos blogs do Sapo e criei este A Morada dos Dias, entre outros projetos. Inaugurei o espaço com um postal sobre A Herdeira de Henry James, romance clássico da literatura norte-americana, seguindo-se um punhado de outros comentários sobre livros e uma nota sobre as confusões governativas a propósito do tribunal constitucional. Março celebra ainda, valendo o que vale, os meus 13 anos de blogatividade. A adolescência da escrita na rede. 

Para comemorar a data, inverto o processo corrente na plataforma e entrevisto o Pedro Neves, um dos mentores do Blogs.sapo, e quem me acolheu nos primeiros momentos na casa batráquia:

 

1. O que motiva a equipa dos Blogs do Sapo?
Uma equipa reúne diferentes pessoas, personalidades e talentos. Por isso, todos temos motivações diferentes e fizemos caminhos diferentes para aqui chegar. O "aqui" é uma plataforma que funciona, segura e, esperamos nós, confortável para quem quer partilhar com o mundo aquilo em que está pensar, sentir e ver.

2. Qual é o critério na escolha de um post para destacar?
O tema dos destaques é muito comentado pela comunidade. Isso é bom sinal, porque mostra que as pessoas valorizam essa visibilidade. Os destaques são isso mesmo, uma forma de dar pistas sobre o que está a acontecer no SAPO Blogs. Não é possível destacar todos, na medida em que não conseguimos ler tudo e todos, mas fazemos o nosso melhor. Explicamos mais em detalhe esse trabalho no nosso blog de equipa (http://blogs.blogs.sapo.pt/187339.html), onde também pedimos feedback e sugestões dos nossos visitantes.
 
3. A equipa de Blogs é também uma equipa de blogueiros?
Sim, mas nem todos e nem sempre :) Internamente, usamos a plataforma para planear o nosso trabalho e usamos vários blogs como ferramentas de gestão (os destaques, por exemplo, são feitos inteiramente com recurso a um blog).

 

4. no contexto do Facebook o blogue é uma ferramenta com futuro ou cada vez mais se escreve para o vazio?
O blog é um formato que revolucionou a forma de publicar conteúdos em linha e, à sua maneira, abriu a internet a muita gente. O facebook fez o mesmo, mas de uma forma diferente, que resolve necessidades diferentes, não tanto de publicação, mas de interação e sociabilidade virtual. É requente encontrar a analogia do Google como a auto-estrada da internet. O facebook podia ser as zonas de descanso dessa auto-estrada, onde as pessoas param para conversarem e comentarem sobre o que viram e encontraram. Ou seja, não é um destino final nem um substituto para tudo o resto na internet. É por isso que todos nós que trabalhamos no digital nos esforçamos para que os nossos conteúdos sejam facilmente partilháveis por lá. Nós queremos que os nossos conteúdos cheguem lá e a todas essas pessoas que o facebook soube reunir no mesmo lugar. Isso não substitui os blogs, mas também não resolve a questão, colocada na pergunta, de saber se todos os blogs encontram os seus leitores. Nesse sentido, os bloggers não são diferentes dos jornalistas, escritores, artistas, em suma, de qualquer produtor de conteúdos que se interroga sobre como pode fazer chegar o seu trabalho a mais pessoas. A resposta passa por muita dedicação, originalidade e, no mundo dos blogs, por uma plataforma que se esforça por dar visibilidade aos seus autores :)

05
Fev16

Túnel do Tempo #2

Túnel do Tempo é uma coleta de textos que escrevi noutros blogues, há anos atrás, e que por algum motivo quis recuperar, para mim mesmo, num arquivo, numa prova de que a escrita transforma-se. 

||| "Essa Tal Questão", 18 de fevereiro de 2009, blogue A La Gauche

O Fernando Mouro puxa para a mesa de debate o casamento homossexual. É curioso como se continua a discutir a possibilidade legal e civil de duas pessoas se unirem em laços socialmente considerados. Claro que essa união tem um pendor profundamente catolizado o que legitima a Igreja a comentar e proferir palavras de desencorajamento. É óbvio, que o casamento civil entre homossexuais não deveria estar ainda em julgamente ou pior ainda ser tratado com algum receio. A homossexualidade é uma verdade pragmática, é um dado social como qualquer outro. Representa condições naturais, genéticas e psicológicas próprias, tão naturais como a heterossexualidade. Existindo naturalmente deve ser legalmente constituída como representação de união civil. A Igreja representa o papel que lhe historica e culturalmente destinado. A laicidade representa o seu. No espaço entre essa dualidade vive o social em todas as suas representações. Tudo o mais que não seja a serena passagem da confirmação laica das possibilidades de união homossexual tratam-se de manobras carregadas de oportunismo mediático, de marketing de ocasião, e de publicidade eleitoralista. Entretanto, vai entretendo os portugueses vítimas de uma crise global. Não é pão e circo mas é parecido. E ao ser parecido retira grande parte do valor simbólico da luta subjacente.

04
Fev16

Túnel do Tempo #1

Túnel do Tempo é uma coleta de textos que escrevi noutros blogues, há anos atrás, e que por algum motivo quis recuperar, para mim mesmo, num arquivo, numa prova de que a escrita transforma-se. 

[a 25 de agosto de 2005, blogue Conotações Independentes]

Será que os jovens de hoje se movem por ideais ou tão-somente vivem sem lemas e aspirações? Todos nós já ouvimos a tão gasta expressão de que “o sonho comanda a vida”. É verdade ou será que é possível vivermos sem sonhos?
Talvez os inícios dos anos 80 e 90 tenham trazido uma nova realidade social juvenil: os jovens sem utopias. Os anos 60 e 70 ficaram marcados pelas juventudes com ideais, pelos anos hippies das contestações sociais, da revolução de ideias, do amor livre, dos excessos de uma vida que procurou ser chocante, mas acima de tudo procurou ser diferente. E foi diferente porque procurou criar uma sociedade nova, mas como todas as utopias são frutos que se foram.
E hoje a juventude é um conjunto de “tribos”, de dreads, betos, freaks, neo-hippies, etc, todos diferentes, todos sem ideais, todos fingindo viver a vida por valores comuns, todos fingindo algo que não sabem bem o quê.
E o que falta aos jovens são ideais, de resto já têm tudo, e talvez por isso não tenham ideais, porque a sociedade de consumo aniquilou as motivações. Porque os ideais nascem do desejo de criar ou mudar algo… e os jovens de hoje não ousam. E porque não ousam não vivem verdadeiramente o sonho da juventude em Verões Quentes.

01
Fev16

Dias de Conversas #1

Dias de Conversas, são pequenas entrevistas com bloggers portugueses sobre a atividade blogosférica em tempos de redes sociais. Serão publicadas a ritmo semanal, às segundas-feiras. // A entrevistada de hoje é Graça Pires, autora do Ortografia do Olhar

1. O que a levou a criar um blogue?

--  Iniciei o meu blogue em 2006 porque apesar de já ter 8 livros editados a divulgação da minha poesia era muito escassa. Passei a publicar no meu blogue “Ortografia do olhar” os poemas já editados em livro e assim continua a ser (salvo raras excepções).

2. Diante do surgimento do Facebook e do Twitter, redes sociais mais imediatas, ainda se justifica ter um blogue? 

-- Não estou nas redes sociais por opção minha. Assim, continuo com o meu blogue onde os meus leitores sabem que me encontram. Passei a ter mais gente que me lê, o que é bom. Acho que faz sentido a existência de blogues apesar das redes sociais porque o blogue tem particularidades e intuitos específicos, apesar de a visibilidade não ser tão imediata e frequente.