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⊙ A Morada dos Dias

{ Horizontes. Olhares. Rumos Cruzados. Palpitações. Compassos dos Dias. }

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06
Set17

Educar para o açúcar

 O açúcar é, reconhecida e unanimemente, a droga do nosso século, e o maior veneno que consumimos, estando associado a uma percentagem elevadíssima de doenças, inclusive o cancro. No entanto, a indústria alimentar, que não tem ética nem se compadece com mais do que o lucro, sempre fez questão de nos viciar através do açúcar. É absurdo que papas para bebés e crianças, como a Nutriben e a Cerelac contenham mais açúcares por 100g (35g) do que cereais para adolescentes e adultos (Fitness 20g, Nesquik 25g, Golden Grahams 25g, Jordan's 15g, Muesli IKEA 11g). Há uma clara intenção de viciação, extremamente cómoda para os pais pois os filhos comem com gosto, ingerindo açúcar e tornando o seu organismo dependente. Mais tarde terão o vício ampliado com doces de toda a ordem, chocolate, refrigerantes e tantas outras coisas. A cultura do açúcar está impregnada na nossa sociedade, sendo extremamente grave que cereais ou bolachas, por exemplo, com mais açúcares são as mais baratas. 

Há 50 anos atrás faziam-se chuchas de açúcar com um trapo para manter as crianças caladas. Hoje há desenhos animados sobre o salvamento da fábrica do açúcar e uma indústria bem montada. A dependência do açúcar está a matar-nos, e andamos a comer com gosto maçãs envenenadas.

05
Nov13

A crise fica-lhes bem.

Uma significativa fatia da crise que estourou em 2008 adveio da falência da Lehman Brothers. Foi um golpe nas ilusões da invencibilidade dos bancos e nas ilusões do capitalismo sem eira nem beira. A sede de lucros dos gestores levou à distribuição louca de crédito, ainda na onda selvagem de incentivo ao endividamento. Ora, sabendo que o modelo político-financeiro atual é herdeiro de um ideal de mercado e dos ganhos da banca e dos bancos, é sempre importante que os bancos tenham prejuízo, nem que seja por os manter à tona da vida, junto das pessoas que lutam pela sobrevivência em países cujos governos as engolem. 

17
Out13

O nosso tempo ao raio-x.

O período de incerteza que vivemos, em que o horizonte está bacento e imperceptível não é, contudo, difícil de explicar. As crises, todos sabemos, são cíclicas. Ao longo do séc. XX as mesmas foram resolvidas com guerras e consequentes planos de recuperação, dinamizando a economia e reerguendo a Europa a partir das cinzas. Hoje, diante do perigo do armamento nuclear, químico e de uma política de cooperação multilateral as guerras fazem-se na banca, na especulação e no mercado liberal. A emergência de novas potências, os acordos alemães, franceses e norte-americanos de exportação de tecnologia e da indústria automóvel obrigaram o Ocidente a abrir as portas aos produtos chineses a custos baixíssimos em função de uma mão-de-obra neo-escrava. As indústrias europeias foram, assim, assassinadas em favor de uma política temporária de um grupo de países.

A formação da União Europeia trouxe uma política agrícola e das pescas que, fabricada em Bruxelas, estrangulou as economias dos países do sul da Europa, com Portugal em particular enfoque. Os fundos europeus destinados ao desenvolvimento técnico foram distribuídos em compadrios e gastos levianamente, em automóveis, casas, estradas mil, equipamentos desportivos e culturais sem públicos, e tantos outros projetos loucos. Os bancos fomentaram o despesismo das famílias e empresas, à sombra de um paradigma de que o crescimento impõe a existência de dívida. Veio depois uma moeda única, que tratou a Europa como unidimensional e empurrou a esmagadora maioria dos países europeus para o sobreendividamento com um custo de vida insuportável - entre o escudo e o euro passámos a pagar o dobro e a ganhar o mesmo de sempre. 

Vinte anos volvidos de um capitalismo louco, de uma globalização desregulada, de projetos e ideologias tontas, estamos enterrados até ao pescoço. A austeridade que começou por ser a mãe de todas as virtudes - uma mãe com alzheimer que não sabe que a austeridade requer desvalorização monetária - rapidamente foi compreendida como a mãe de toda a miséria pelo FMI. A troika dos bancos e dos interesses alemães, contudo, mantém-se. O empobrecimento generalizado como projeto é cada vez mais claro, oferecendo aos países nobres da Europa mão-de-obra qualificada a preços de saldo. Enquanto isso os governos como o português caminham triunfantes para o suicídio. Ao menos afundam-se com orgulho. Os culpados da loucura dos anos 90 mantém-se nos governos e falam como se não tivessem estado lá. O povo esquece-se de tudo, a bem da euforia das campanhas, e volta a elegê-los. 

Sem dúvida que dentro de vinte anos - ou assim espero - os tempos que vivemos serão estudados como de loucura, em que os Estados condenaram as populações para salvar a banca, os bancos e determinados setores previligados e patrocinadores das campanhas. 

23
Set13

Alemães deixam Europa na Merkel.

Os alemães votaram no que é melhor para eles, e neste momento o melhor para a Alemanha é a continuação de Angela Merkel. Infelizmente para o resto da Europa a continuidade da Chanceler, ainda para mais tão perto da maioria absoluta, é o pior dos resultados. O cenário fica mais negro com a iminente saída do FMI da troika, deixando esta entregue ao Banco Central Europeu e à Comissão Europeia, ambas estranguladas pelo projeto germânico. O capitalismo selvagem edificado sobre o umbigo do sistema bancário mantém-se, até ao extermínio final das sociedades em redor do espaço vital alemão. Uma repetição contínua a da história. 

17
Set13

Os eternos resgatados.

A necessidade de um segundo resgate a Portugal é cada vez mais evidente. O velho plano gaspariano de "enorme aumento de impostos", a austeridade pela austeridade, o "ir além da troika", o estrangulamento da situação financeira das famílias, a subtração do poder de compra e do mercado, tudo em nome de um país livre da assistência financeira, foi afinal o já esperado grande embuste. O projeto ideológico do capitalismo selvagem marcado pelo sistema bancário é por demais evidente. Há uma moeda única mantida à força, fazendo de uma Europa assimétrica um espaço de tutela alemã, há uma Goldman Sachs a embalar os governos e as instituições internacionais, e uma loucura que assassina o Estado Social, que manda fazer as malas e emigrar, que devota a estabilidade social à precariedade em nome de um bem maior: o sistema financeiro. Há um problema maior que continua a ser varrido para debaixo do tapete, entregando uma geração ao desespero e à insustentabilidade. O capitalismo sem ética, o comércio sem regras, a globalização dos mercados, as agências de rating. Um mundo de loucos.

 

[quadro: "Jack the Ripper's bedroom", de Walter Sickert]

11
Jun13

A Classe Média Também se Abate

NENHUMA economia é sustentável sem a classe média. Lição elementar. Reconhecendo que o consumo dinamiza a economia e que esta necessita das transações chega-se rapidamente à conclusão de que é necessário poder de compra. Ora, não consigo encontrar ideia mais contraproducente do que a de Austeridade. Com uma carga fiscal tremenda que desincentiva o consumo como espera um país, um continente, sobreviver? A ilusão de que os pobres também consomem em níveis suficientes para manter a economia ou de que a classe média mesmo estrangulada manterá a sua dinâmica de despesa, é catastrófica. Pior, revela um total desconhecimento da natureza humana e uma absoluta falta de sensibilidade social. O ataque sanguináreo à classe média traduz um homicídio das economias. Enquanto não se aprender a lição, enquanto as perdas bancárias não forem ainda maiores, enquanto a banca não parar com o jogo sem ética, estaremos condenados. No caso português, a pergunta é ainda mais tenebrosa: voltaremos a ter classe média?

14
Mai13

Bangladesh: brincar à moralidade

A MÃO-DE-OBRA quase escrava do mercado asiático alimenta os lucros das mais comerciais marcas de roupa (enquanto a produção de máxima exigência se mantém em Portugal). Os salários miseráveis e as condições de trabalho deploráveis dos operários traduzem-se em lucros na ordem dos duzentos por cento por parte seus dos clientes. É, pois, uma brincadeira de mau gosto que um punhado delas se tenham unido para financiar medidas de segurança e anti-incêndio nas fábricas têxteis do Bangladesh, depois do grave acidente que vitimou mais de 1100 pessoas. E é-o não porque não se compreenda que estamos perante um imperativo mas porque as condições de trabalho quer ali quer noutros lugares da Ásia (que não estão abrangidos pelo projeto) eram e são do domínio público desde que a lógica de mercado se transferiu para aquela região, precisamente por tais condições permitirem uma margem de lucro exponencial. A mão na consciência não só vem tarde como é um golpe de mea culpa que resulta de uma estratégia de recuperação de imagem no espaço mediático.

10
Mai13

Direitos Humanos, Etiquetas e Indústria

SUBSCREVO as palavras de JCS no 'Lóbi do Chá'. No entanto, acho que já vamos tarde. Primeiro a UE deixou que as indústrias nacionais fossem esvaziadas por acordos com a China. Segundo as grandes marcas não querem saber nem de direitos humanos nem de qualidade (sim, qualidade, porque o melhor feito na China é inferior ao fraco feito em Portugal). E se olharmos as etiquetas então não teremos nada para comprar, porque, infelizmente, já tudo é feito naquela região, à custa da destruição do tecido empresarial nacional. 

02
Mai13

Estado Social

O ESTADO SOCIAL é imperfeito, assim como o é a Democracia. No entanto, até ver, nenhum outro modelo suplanta quer um quer outro. Primeiro, porque o mercado por si só não dá conta da oferta e da procura e, assim, não é capaz de assimilar toda a mão-de-obra gerando excesso, o que conduz à instabilidade social. Segundo, os modelos alternativos conhecidos à Democracia geraram catástrofes sociais tremendas. 

Em plena falência do sistema capitalista segundo as regras vigentes - que implicam um controlo do sistema por parte dos bancos e das agências de rating - fala-se no fim do Estado Social. Segundo as opiniões em voga nas margens do governo, para que o Estado Social sobreviva é preciso baixar salários e pensões, ou em alternativa aumentar impostos. A receita que mais convém à mão invisível. Mas a verdade é que a alternativa à falência do Estado Social foi já amplamente testada e continua a ser. Tudo o mais é demagogia. Afinal é cada vez mais notório que foram as PPPs, escândalos como as Swaps ou o BPN, e tudo o mais que gravita em torno dos bancos e empresas-consultoras às quais o Estado pagam milhões que conduziram à ruína. O "aguenta, aguenta" de Ulrich é a receita mais velha do mundo: engordar os grandes à custa do povo.

01
Mai13

Política do que não é.

Permitam-me a reflexão. Andam certas vozes por aí a embandeirar com o imperativo de renegociar com a troika, como se suavizar a austeridade fosse, de facto, o caminho. Não é. A mim, pessoalmente, não me chega o modelo "do mal, o menos". Pelos vistos a muitos isso é o quanto baste. O problema é, na verdade, bem mais profundo e tem as suas raízes para lá das fronteiras nacionais. O que está em causa não é a troika e as suas receitas para a Europa. Não basta fazer política do que não é. Precisamos deixar a troika de lado. A Europa precisa de ser repensada conceptual e paradigmaticamente. A começar é preciso reconhecer que o que vivemos hoje é o IV Reich. Um poder imperial já não precisa de ser bélico e ser expresso em marchas de exuberância e demonstração de poder. A Alemanha foi responsável por duas guerras em cem anos. Perdê-las não foi suficiente porque teve ajuda na recuperação (dívidas que ficaram por saldar). O "espaço vital" aliado ao expansionismo nunca saiu de cena, esteve somente camuflado pelo estado de recuperação. Ficou, então, a aguardar.

Desta forma, é preciso que a Comissão Europeia deixe de ser o Reichstag, o que por si é difícil, umbiligada que está a Berlim. Mas imperativos são imperativos. Acabem-se as sopas para o Barroso. Posto isto é preciso que a moeda única seja extinta, pelo simples facto de que é um projeto inacabado e baseado na economia alemã, não nas economias periféricas. O escudo nunca esteve ao nível do marco, ponto. Digo-o eu, e diz, mais importante ainda, João Ferreira do Amaral.

Se continuarmos a insistir na moeda única, na austeridade (mesmo que passe a austeridadezinha) estaremos simplesmente a tardar o inevitável, atrofiando as economias periféricas, nomeadamente a nossa, e castrando uma geração inteira.

Não que o modelo da moeda única não seja interessante, é, como muitas utopias. A Europa só funciona bem junta, é um facto, mas não sob a ilusão da homogeneidade. A Europa é feita de muitas velocidades, porque é feita de contextos particulares. Partir deste princípio é, fundamental.

 

(texto originalmente escrito a 10.11.12 noutro sítio; ainda atual)

"E naquela casa, que ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias".

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