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⊙ A Morada dos Dias

{ Horizontes. Olhares. Rumos Cruzados. Palpitações. Compassos dos Dias. }

11
Jun17

Vasco Pulido, que Valente confusão!

 Vasco Pulido Valente escreve no Observador sobre o Islão no Ocidente. E fá-lo num emaranhado mental profundo, na sapiência morna da ignorância. Ignora que o multiculturalismo pressupõe a pluralidade e não se reduz ao binómio cristãos-muçulmanos, muito menos numa ótica bons-maus. Nenhuma sociedade ocidental é produto da visão católica conservadora que Pulido Valente parece ter adotado na época da revista "O tempo e o modo". É um facto que a sua crónica apresenta argumentos válidos, coerentes com a realidade. O problema é, por um lado, a solução apresentada por VPV, e por outro a noção obtusa de «multiculturalismo» como dizendo respeito, no Ocidente, à presença do Islão. Ignora VPV que é multiculturalismo é o kizomba e a salsa, ouvidas nos bares lisboetas, o fado em Paris, a gastronomia gourmet e as múltiplas fusões de aromas e sabores, as filosofias orientais, as múltiplas formas religiosas com que os portugueses se deparam e às quais aderem de uma forma institucionalizada ou nos trilhos da «Nova Era». A menos que VPV encerre uma sociedade dentro de si mesma, fechando as suas fronteiras, e fundamentalizando-a - coisa que parece condenar - o «multiculturalismo» será, sempre, marca d'água da construção do tecido social urbano e não apenas. Mas eventualmente VPV acredita que todos os portugueses são católicos, escutam apenas música portuguesa e comem apenas a comida das nossas avós. 

05
Jun17

O Combate ao Terrorismo

"Conhecido das autoridades", assim são descritos, invariavelmente, os autores dos ataques terroristas. Na base estão denúncias à linha de combate ao terrorismo da polícia britânica. O dedo é sempre apontado: as autoridades, avisadas, de dentro da comunidade islâmica, nada fizeram. Esta situação coloca-nos num cenário delicado, em que as autoridades não têm competência para atuar com base em comportamentos tendenciais, apenas podendo agir perante atos, ou seja, depois do atentado ou tentativa de atentado. Como combater, então, este problema? A solução mais óbvia, apresentada pela extrema-direita europeia é a expulsão dos muçulmanos da Europa. A Esquerda contesta, e bem, que esta medida se baseia na violação dos direitos humanos, da salvaguarda do direito à mobilidade, do dever da integração e das mais-valias do multiculturalismo. Ficamos, portanto, num impasse. Ou não. Correndo o risco de ofender as "religiões do Livro", baseadas num princípio de detenção da verdade e de intenções prosélitas, seja a "boa nova", seja a "verdadeira doutrina", parece possível atuar preventiva se o proselitismo fosse proibido. Naturalmente que o primeiro pensamento que ocorre é que tal medida condiciona a liberdade religiosa. Mas não o faz. Visto de outro prisma, a proibição do proselitismo é, em primeiro lugar, o garante do direito de consciência e o fim da legitimação de discursos de «autenticidade religiosa», assegurando o direito aos cidadãos de não serem abordados com a tentativa de conversão religiosa. Que impacto isto tem no radicalismo islâmico no Ocidente? Não resolvendo o problema, permite que tentativas de sedução para a causa sejam alvo de punição legal, particularmente se a proibição do proselitismo for associada a correntes fundamentalistas. Ora, sabendo que o Islão não é uma religião de abordagem direta de conversão, será mais fácil mapear atividades proto-terroristas pela via do proselitismo. 

20
Set16

Do burkini à laicidade

Um dos mais problemáticos conceitos do nosso tempo, ao jogar com a busca pela separação entre religião, Estado e espaço público, preservando, simultaneamente, substrato cultural nacional e abrindo portas à pluralidade que compõe o tecido social das nossas sociedades. É um desafio tremendo para os nossos Estados. 
Como lidar com a diversidade sem violar as liberdades individuais e o direito à expressão das identidades culturais e religiosas? A proibição dos minaretes em várias cidades europeias deveria ter sido feito acompanhar da proibição do uso de sinos por parte das igrejas católicas. Os Estados ou são laicos ou não são, e se o são devem ser na igual medida para todos. Fora isso o que temos são Estados tendencialmente laicos. Não pode acontecer a proteção de uma religião por razões históricas e o controlo de outras. Da mesma forma que movimentos e partidos políticos não devem fazer uso do chavão da "minoria" sem olharem para o quadro geral. É inegável que a laicidade portuguesa, por exemplo, nas suas dimensões ideológicas à extrema-esquerda, se consubstancia na apologia do islão sob todas as formas e no ataque ao catolicismo em todas as vertentes. Defender uma religião e condenar outra não é ser laico.
Quando um pedaço de pano ameaça toda uma sociedade significa que este pedaço de pano encerra um problema maior. O burkini não é o burkini, infelizmente. Sem dúvida que tratado por si só, o burkini está ao abrigo da reserva de direito de traje e expressão cultural. O direito à diversidade só faz sentido quando garantido em todas as suas dimensões. No entanto, da outra margem encerra-se uma preocupação legítima - a do avanço político do islão no Ocidente e do recuo da diversidade cultural que seria o primeiro intento. Recordemos a frase de Yusuf al-Qaradawi, clérigo egípcio e presidente da união islâmica de académicos -- "We will colonize you with your democratic laws." Nesse cenário, como será possível proteger a diversidade? 
Disto isto, aguentamos bem o burkini, a Liberdade não será ofendida por um pedaço de pano, nem o seria com um minarete, mas não hajam dúvidas que todo o avanço extremo, seja qual for, merece ser travado. Há uns meses, no Canadá, a comunidade islâmica de uma pequena cidade, reclamou o fim da carne de porco nas cantinas escolares. Na Suíça crianças islâmicas recusaram-se cumprimentar os professores por razões religiosas. É urgente um meio-termo. A laicidade positiva necessita de empenho de todas as partes. A liberdade não é um dado adquirido.

14
Abr16

O aperto de mão da discórdia

A mutabilidade cultural é um dado histórico das sociedades. Nenhuma permanece igual e todas possuem os seus fatores de mudança, a maioria dos quais em resposta a elementos exógenos. O crescimento das populações islâmicas nas sociedades ocidentais e o seu empowerment crescente estão na base de enormes dilemas culturais em inúmeras cidades do ocidente, porque colocam em cena as mudanças não como produto de processos de negociação diluída no tempo mas como processos políticos de imposição de novos sujeitos do espaço social. São atores sociais de espaços e padrões culturais distintos que não se diluem no conjunto geral mainstream mas que procuram o ajustamento dos seus modelos mesmo nos casos contrastativos. A decisão do setor educativo de Therwil na Suíça de dispensar os estudantes muçulmanos de cumprimentar as professoras, ritual educativo helvético, pode parecer um pequeno gesto de boa vontade das autoridades suíças mas não impede de pensar a decisão como uma precedência legal para outras imposições. Todos estes acontecimentos obrigam a pensar o que constitui processo negocial cultural, quais são os limites da ação legal nos processos de acomodação cultural em comunidades migrantes cujos backgrounds culturais não são maleáveis à adaptação. Sob a bandeira do acolhimento até onde podem recuar as sociedades ocidentais nos seus padrões diante de comunidades oriundas de países onde os migrantes não são alvo de quaisquer políticas de ajustamento mas de imposição? O diálogo cultural só é possível na base das mútuas disponibilidades. 

23
Mar16

Bruxelas: a oportunidade para refundar a Europa?

 Vivemos um momento crítico. Não é um dado novo no Velho Continente, onde as tensões marcaram a agenda internacional desde sempre. Sempre conhecemos melhor a 'paz armada' do que a paz kantiana, que a União Europeia se propôs ser. Da minha parte, sempre me propus ver a Europa pelos olhos do otimismo, pela lente da pertença regional, mais do que pela diferença local. A Europa em si é um mar de possibilidades, inclusive para velhos planos germânicos de controlo regional, em que o «espaço vital» se converteu pela moeda. 

No entanto, independentemente das diferenças políticas, a Europa desejou ser um espaço de encontros, de multiculturalismos dialogantes e menos de choques. Para tanto, era preciso saber conjugar o projeto europeu de fronteiras abertas com políticas de imigração positivas. O que sempre foi tentado. O passado colonial pesa sobre os países do Velho Continente e serve tanto para a culpabilização própria como de arma-de-arremesso quando se pretendem impor paradigmas culturais anti-democráticos mas com as vantagens sociais da democracia. Na verdade, foram políticas de desculpabilização social e cultural, embrulhadas em teorias sociológicas, a maioria delas, infelizmente, de esquerda, que promoveram o caldo sociológico responsável pelo estado atual de coisas. É claro que a guetização como paradigma urbano promovido pela direita fez o resto.

Todo o povo tem direito à manifestação dos seus atavismos culturais. A diferença é a base da riqueza humana que a Antropologia tem sabido -- depois de deixar as teorias evolucionistas caírem -- expor. Por isso ela deve ser celebrada mas recontextualizada, como foi o caso dos costumes africanos transpostos ao Novo Mundo durante o comércio de escravos, os quais diante dos grandes constrangimentos e infortúnios sociais, políticos e económicos, souberam sobreviver e adaptar-se. O multiculturalismo é a aceitação de todos, não a imposição de uma minoria sobre os demais. O Ocidente é o locus do bem-sucedido melting pot, não o novo território para a sharia com os benefícios locais. Não se chama adaptação exigir os direitos e abdicar dos deveres. Mesmo como turistas temos de nos adaptar a países árabes, porque estes como emigrantes não têm de o fazer? Felizmente há muitos países, como Portugal, onde a convivência é exemplar, com as devidas adaptações e capacidades de acolhimento.

Portanto, refundar a Europa jamais deverá passar por repensar a supressão de fronteiras e ainda menos as culturas europeias. A cultura europeia adaptou-se, soube conviver com a diferença, mantém-se mutável e permanentemente revisora dos seus paradigmas de modo a saber acolher a diferença. É preciso que a diferença tenha interesse sem se adaptar, porque a modernidade é um jogo de adaptações, seleções de elementos e escolhas culturais dos povos em movimento.