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⊙ A Morada dos Dias

{ Horizontes. Olhares. Rumos Cruzados. Palpitações. Compassos dos Dias. }

26
Out17

E o meu cacifo, ficou aberto?

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Os reencontros de antigos colegas do liceu têm um condão psicológico que se inscreve em sentidos de nostalgia, em que se volta no tempo e o tempo parece recuperar-se novamente, como se tudo se tivesse mantido ali, em cálida saudade e vitalidade. À margem da maresia da memória, tais encontros oferecem-nos possibilidades de olhar as formas como se recuperam modelos de interação, como se buscam, novamente, os enredos comunitários, como a memória coletiva opera e se institui, como é partilhada, ou como queria Halbwachs, a forma pela qual a nossa memória se beneficia das memórias dos outros. Encontramos no envelhecimento alheio o nosso próprio, ao mesmo tempo que para além do imediato se vislumbram velhos traços de personalidade, e nos deparamos com o resultado do devir: a forma pela qual as personalidades mudam, os caminhos de conhecimento que trilham, e os sujeitos que se tornaram. Quando acontece a vida, avalia-se nos outros a nossa própria medida da existência e, assim, o que temos, de onde vimos, para onde vamos, é articulado com a discussão interna, resultante da alteridade, de avaliar quem somos, afinal, na engrenagem das expetativas.

 

01
Ago17

Porque te odeio, Agosto.

 

Dado à nostalgia, quer como sentimento quer como tema de olhar científico, não posso deixar de ter uma relação emocional com as estações. Por sua natureza cíclica, elas remetem-nos para as paisagens da memória, para a recuperação dos fragmentos que reatualizamos pelo gesto saudosista. Como afirma Stephen Legg, no seu texto "Reviewing geographies of memory/forgetting", cada recordação é uma recordação tanto do evento em si quanto da última vez que o mesmo foi lembrado. Por essa mesma razão, a memória é uma sobreposição de memórias, um processo cumulativo. Quando regressamos, sucessivamente, a lugares onde fomos felizes (e sabemos que há quem nos aconselhe a não o fazer) somos confrontados com as vicissitudes do tempo, com as marcas impressas em nós e nos lugares, forçando-nos a paisagem a recordar o que já ali vivemos. É por isso que a memória tende a necessitar da bengala do espaço para se fazer ouvir. É por tudo isso que odeio tanto Agosto, apesar de adorar o frenesim dos mergulhos, o sal na pele, ou a leveza fluvial, o dourado do bronze, os chinelos, as toalhas, a areia, os gelados, o cansaço das corridas à beira-mar, os livros lidos entre rochas. E odeio-o porque me obriga a recordar, porque me arrasta sonâmbulo pelas margens da memória, pelo rio de vivências que me faz recuperar. O que foi feito, o que gostaríamos de ter feito, o que não deveríamos ter feito. Tantas coisas.

O Verão mostra-nos que quando não se vai é pior. Ficar em casa, deitados à sombra do Verão não vivido, é obrigarmos-nos a reviver Verões passados. Mesmo aqueles marcados pela tristeza morna estival, hoje vemos-los com nostalgia, com a saudade do idílico e do maravilhoso. O Agosto em que não fui, mergulhado no triste escuro de um quarto em maratona televisiva, e tardes na escola vazia entre balizas e cestos de basket, contém o tempero da saudade. Os Agostos em que fui, em que fiz balizas com chinelos e raquetes, em que estive na água até à hipotermia, em que tomei pequenos-almoços de gelados, em que corri canaviais a fora e estradas de chão de terra em cima de uma bicicleta e com o meu velho walkman, em que joguei finais contra mim mesmo, em que fiz de um tudo e um tanto. Por isso não posso deixar de pensar em Svetlana Boym e a frase com que a autora, entretanto falecida, termina o seu The Future of Nostalgia: «Sobreviventes do século XX, somos todos nostálgicos de um tempo em que não éramos nostálgicos». 

21
Jun17

125 Azul

 

"Foi sem mais nem menos que um dia selei a 125 Azul", assim diz a canção dos Trovante com que cresci, cruzando essa estrada, rumo ao Verão da Costa Alentejana, onde fui imprimindo memórias, camadas de recordações e vivências, da infância à idade adulta. E com a soma dos dias visitou-me o desejo de "sem mais nem menos" selar a 125 azul, assim, no repente do instante. E foi ontem, na celebração dos afetos de 15 anos, o peso de um tempo que não senti, que fui levado, nas correias dos amores, até ao coração das lembranças, aos cheiros, à brisa que da água sobe, aos sons, aos lugares que se mutaram e aos que se mantiveram, e é assim que a vida tem mais cor, que vai para além da soma dos dias e se faz sentir. E não resta a quem vive senão agradecer a quem faz viver. 

 

{fotografia de Sandra Fialho}

13
Jun17

Jogos sem fronteiras

 

Em finais da década de 1980, inícios de 1990, os Jogos Sem Fronteiras animavam as noites do começo de Verão, já para lá da época escolar, na RTP1. Muitas vezes era preciso um grande esforço para me manter acordado para ver JSF, uma luta por vezes inglória, perdida para o cansaço da praia. Tratavam-se de jogos engraçados, muitas vezes co-apresentados por senhoras que ficavam a sorrir para a câmara, de microfone na mão, e a narrar somente os pontos. Peculiaridades à parte, os JSF ajudaram a construir uma ideia de Europa que hoje é agredida. Ao lado do Europeu de Futebol, os JSF foi o meu primeiro horizonte nesse sentimento de união geográfica e além linhas entre Portugal e a Europa.

06
Mar17

O meu romance, gratuito

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Escrevi este romance como um sentimento de obrigação, para comigo e para com as pessoas que o viveram. Por isso é em parte ficção, em parte factos reais. Trata-se de uma viagem que dura 50 anos, cruzando gerações, mas mantendo um fio condutor: o amor. Não é, contudo e apenas, uma estória de amor, é um romance de costumes, uma visita aos portugueses emigrantes, ao Agosto quente. Há queridos meses de Agosto que podem tornar-se tragédia. O livro está disponível para download ali: http://www.elivros-gratis.net/livros-gratis-literatura-estrangeira.asp

 

17
Fev17

Um corte de cabelo diferente

 Sempre fui um consumidor da nostalgia, ainda antes e bem antes do seu boom mais recente. Por isso é uma delícia ir a estas barbearias revivalistas, impregnadas de objetos vintage. No entanto, por contingências de agenda e geografia, fui a um salão unissexo de uma jovem de cabelos às cores, oriunda do Norte da Roménia, mais para os lados da Hungria. Faltou-me, claro, a toalha quente, a oferta da cerveja que não bebo, e toda aquela parafernália retro. Mas no fim, o corte de cabelo ficou exatamente igual e fiquei a saber um pouco mais da Roménia, escapando ao cliché do "olha-me aquela do outro lado da estrada", conversa que só interessa a avulso ou numa saída à noite.

19
Out16

There is something about rain

© Fotografia de Siw Aldershvile

 

Sobre a chuva escreveu Sherwood Smith, «The only noise now was the rain, pattering softly with the magnificent indifference of nature for the tangled passions of humans». É essa indiferença que nos cativa, incessantemente escorrendo pelo tempo, desenhando abstratos rascunhos nos vidros e lavando as marcas humanas na calçada. Por isso gosto tanto de setembro e outubro, quando a folha cai e a chuva vem chegando ainda a medo, convidada pelo vento a fazer morada nas horas soltas dos nossos dias. É como se a chuva lava-se os limites disformes do quotidiano, das vivências vadias e fugidias, enquanto nos convida à quietude, à contemplação, à introspeção, ao silêncio, aos livros, às bebidas quentes e aos filmes. É como se a chuva fosse a senha para mergulharmos dentro de nós. 

 

30
Ago16

Adeus Avô

E depois do adeus, a vida continua. Acabo de saber, avô, que te foste. Não foste na paz tão desejada, foste em meio a sofrimento, mais ou menos como escolheste levar a vida. A felicidade já te havia fugido pelos dedos, os dias eram apenas horas em sucessão, num compasso lento de agonia de quem se aguenta sem saber bem porquê. Talvez pela "borboleta", com que escolheste fazer vida e casulo.

Partilhámos o insondável gosto pelos livros, pelas letras impressas a papel que nos fazem sonhar e nos transportam a outros mundos. Trocámos impressões honestas sobre o mundo. Apesar de o vermos a partir de diferentes colinas, de olharmos o horizonte com diferentes filtros, com ideologias políticas tão distantes, sempre houve, da minha parte, um total respeito por quem se edificou noutros tempos, se fez homem sobre outras geografias e sensibilidades. Era difícil perceber que aquele homem pequenino, de ascendência judaica bem presa ao apelido Ferreira, Ferreira do Porto, com qualquer coisa britânica ali metida, fosse admirador das utopias arianas, e ao mesmo tempo um homem bom, que tirou sempre de si em prol dos outros, e dedicou os seus dias e a sua saúde em favor da família. 

Vale recordar a história que sempre me contava. Havia um patrão, na Maia, na década de 1940, extremamente baixo, que, certa vez, ao visitar a sua fábrica, se cruzou com um trabalhador muito alto, o qual parou a olhar o patrão, de cima. O patrão, do andar de baixo mirou-o e disse - "Estás a olhar, parece que queres que te dê sociedade. Diz-me quanto tens, eu digo-te quanto vales, nada tens, nada vales". Terminava a narrativa sempre dizendo que ainda hoje é assim, valemos sempre aquilo que temos. 

Até para sempre, avô, em cores azuis-e-brancas, carago!

18
Mar16

A difícil tarefa de concluir.

Nenhuma tarefa é mais árdua na escrita científica que a de concluir. Não se trata, apenas, de proceder ao levantamento de tudo o que foi dito ao longo de um artigo, monografia ou tese. É muito mais do que isso - é repensar os objetivos iniciais, reconhecer as mudanças de rumo, as novas leituras, as possibilidades levantadas, as teorias propostas e as rejeitadas, as novidades oferecidas à ciência, o repensar os problemas centrais. Concluir é refazer o caminho e fechar uma dissertação sobre um tema. Concluir é fechar a porta de uma jornada. E, como tudo na vida, quando chega a hora de apagar a luz e fechar a porta, as coisas muitas vezes são morosas e cheias de receios e desafios. 

02
Mar16

Três Anos a Morar nos Dias

Faz três anos que me instalei nos blogs do Sapo e criei este A Morada dos Dias, entre outros projetos. Inaugurei o espaço com um postal sobre A Herdeira de Henry James, romance clássico da literatura norte-americana, seguindo-se um punhado de outros comentários sobre livros e uma nota sobre as confusões governativas a propósito do tribunal constitucional. Março celebra ainda, valendo o que vale, os meus 13 anos de blogatividade. A adolescência da escrita na rede. 

Para comemorar a data, inverto o processo corrente na plataforma e entrevisto o Pedro Neves, um dos mentores do Blogs.sapo, e quem me acolheu nos primeiros momentos na casa batráquia:

 

1. O que motiva a equipa dos Blogs do Sapo?
Uma equipa reúne diferentes pessoas, personalidades e talentos. Por isso, todos temos motivações diferentes e fizemos caminhos diferentes para aqui chegar. O "aqui" é uma plataforma que funciona, segura e, esperamos nós, confortável para quem quer partilhar com o mundo aquilo em que está pensar, sentir e ver.

2. Qual é o critério na escolha de um post para destacar?
O tema dos destaques é muito comentado pela comunidade. Isso é bom sinal, porque mostra que as pessoas valorizam essa visibilidade. Os destaques são isso mesmo, uma forma de dar pistas sobre o que está a acontecer no SAPO Blogs. Não é possível destacar todos, na medida em que não conseguimos ler tudo e todos, mas fazemos o nosso melhor. Explicamos mais em detalhe esse trabalho no nosso blog de equipa (http://blogs.blogs.sapo.pt/187339.html), onde também pedimos feedback e sugestões dos nossos visitantes.
 
3. A equipa de Blogs é também uma equipa de blogueiros?
Sim, mas nem todos e nem sempre :) Internamente, usamos a plataforma para planear o nosso trabalho e usamos vários blogs como ferramentas de gestão (os destaques, por exemplo, são feitos inteiramente com recurso a um blog).

 

4. no contexto do Facebook o blogue é uma ferramenta com futuro ou cada vez mais se escreve para o vazio?
O blog é um formato que revolucionou a forma de publicar conteúdos em linha e, à sua maneira, abriu a internet a muita gente. O facebook fez o mesmo, mas de uma forma diferente, que resolve necessidades diferentes, não tanto de publicação, mas de interação e sociabilidade virtual. É requente encontrar a analogia do Google como a auto-estrada da internet. O facebook podia ser as zonas de descanso dessa auto-estrada, onde as pessoas param para conversarem e comentarem sobre o que viram e encontraram. Ou seja, não é um destino final nem um substituto para tudo o resto na internet. É por isso que todos nós que trabalhamos no digital nos esforçamos para que os nossos conteúdos sejam facilmente partilháveis por lá. Nós queremos que os nossos conteúdos cheguem lá e a todas essas pessoas que o facebook soube reunir no mesmo lugar. Isso não substitui os blogs, mas também não resolve a questão, colocada na pergunta, de saber se todos os blogs encontram os seus leitores. Nesse sentido, os bloggers não são diferentes dos jornalistas, escritores, artistas, em suma, de qualquer produtor de conteúdos que se interroga sobre como pode fazer chegar o seu trabalho a mais pessoas. A resposta passa por muita dedicação, originalidade e, no mundo dos blogs, por uma plataforma que se esforça por dar visibilidade aos seus autores :)