Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

⊙ A Morada dos Dias

{ Horizontes. Olhares. Rumos Cruzados. Palpitações. Compassos dos Dias. }

⊙ A Morada dos Dias

{ Horizontes. Olhares. Rumos Cruzados. Palpitações. Compassos dos Dias. }

24
Ago17

A saída do armário e a apologia do neutro

 

Há dias a secretária de Estado, Graça Fonseca, assumiu a sua homossexualidade. Este ato deve ter, em primeiro lugar, um efeito libertador no sujeito. Não é por acaso que o conceito de «sair do armário» remete para um cenário de encobrimento e claustrofobia. Ora, numa sociedade suficientemente aberta e plural para que se seja senhor(a) de si e em que os direitos dos sujeitos LGBT estão devidamente garantidos, a sexualidade não deve ser transportada para a utilidade política. Nem pardais de capela nem foliões de desfiles. Quer isto dizer que em Portugal falta encontrar um equilíbrio capaz de tornar a sexualidade um «não-assunto» e a existência de movimentos de defesa das liberdades e individualidades algo desnecessário. Compreende-se que uma sociedade será tanto mais equilibrada e justa quanto maior for o gozo da autodeterminação em matérias próprias, como a sexualidade ou a morte. Quando, por proposições sociais alavancadas em dogmas de fé, se pretende determinar a dignidade ou não do «outro» invade-se a esfera da liberdade alheia e adentra-se num cenário de evangelização moral. O edifício jurídico de uma sociedade deve dar igual valor a uma ideia de normatividade e às normatividades alternativas. O direito dos sujeitos LGBT não pressupõe que haja uma intenção de converter os heterossexuais à causa, pela mesma razão de que um cristão que tem, por direito, a convicção de que a sua religião é a que oferece o melhor caminho espiritual, não deve impor aos outros a obrigação de ser cristão. Ou outra religião qualquer. 

Em segundo lugar, o caso é pretexto para falar de uma polémica em torno de manuais escolares, brinquedos e outros afins diferenciados para meninos e meninas. Defende-se, em oposição, a existência de brinquedos indiferenciados. Ora, esta conceção de uma neutralidade de género parece-me contraproducente, porque o neutro não veicula uma identidade, mas a ausência daquela. Creio que melhor seria dar a escolher à criança entre carros e bonecas, porque pior do que uma menina não poder brincar com carros é ter de brincar com qualquer coisa neutra, facto que é, em boa medida, de uma enorme dificuldade, haja visto que construímos, enquanto sociedade, categorias de género para objetos. Parece que passámos rapidamente da saída do armário como coragem para a saída do armário como ato político, ao mesmo tempo que deixámos (idealmente, claro) de ver o género como apêndice do fisiológico e passámos a ver como plataforma para um neutro como ausência de algo, como se entre o gelado de morango e o de chocolate tivéssemos optado por um gelado sem sabor algum. 

20
Mar17

A Lapela de Passos Coelho: O PSD até às legislativas

Existe um país que só Pedro Passos Coelho conhece, todo ele vivente no seu imaginário. É feito de cortes permanentes, de um proletariado pobre e feliz, tecido numa nostalgia do Estado Novo. Bebe da grande marcha troikista, e vai triunfante no seu sorriso de bobo messiânico. Só ele ainda não percebeu que se mantém como líder do PSD porque o partido não goza de grande popularidade, e por isso mesmo ninguém com um mínimo de coerência e amor-próprio vai querer o lugar de PPC. Não que ele seja um homem só no poder, longe disso. O ex-primeiro-ministro é o homem certo no momento certo, alguém para ir desgastando a imagem, para oferecer os ombros nas derrotas autárquicas e nas legislativas. Depois de esgotada a imagem política de Passos Coelho surgirá quem possa oferecer uma "nova página na história do partido". 

16
Dez16

Soares é fixe

 Em fase de transição começam a aparecer os mais variados postais sobre Mário Soares. A caminho do único mal irremediável, fica a eternidade de uma figura essencial na história da Democracia portuguesa. Com todos os erros e virtudes, afinal, como diz o povo, só erra quem faz. Merece lamento as vozes extremadas à Direita, que se agitam perante a eminência da morte do homem e do político. Vícios de forma, sem remédio.

03
Abr16

O mal-entendido sobre a 'Esquerda'.

Estava sentado numa das mesas corridas na petisqueira Matateu, no Restelo, quando um dos meus convivas menciona o facto de eu ser de 'esquerda', adiantando que ele próprio, não sendo de 'direita', também se declarava de 'esquerda'. Esta é uma alegação recorrente, que evidencia um problema de fundo ligado às conceções sociais sobre o que configura ser de 'esquerda'. Ao que parece, o soft power do macartismo (1950-1957), marcado pela "caça às bruxas", i.e., de perseguição comunista, a divisão de Berlim e o Estado Novo Português, conjugaram-se para confundir 'esquerda' com comunismo e este com 'perigo vermelho'. Parece difícil, para muito boa gente, pensar a 'esquerda' fora dos quadrantes reivindicativos, proletários e de luta de classes. A formatação da 'esquerda' num só modelo político-ideológico não só é infundada como injusta e perigosa, porque permite uma margem de manobra maior a diferentes tessituras de 'direita'. Em rigor, em quase nada me encontro no PCP ou BE (partidos, ainda assim, bastante diferentes). Ser de 'esquerda' para mim não é tanto uma forma de posicionamento partidário como um modo de ver a vida e o mundo, com um olhar pluralista que a Antropologia oferece e que aí contrasta com os horizontes herméticos de direita - o mundo é muito mais colorido e complexo do que o configurado por certas ideias de 'direita' e de 'esquerda'. 

17
Mar16

O beija-mão presidencial.

 Nada impede que Marcelo Rebelo de Sousa seja católico, ou que fosse de outra qualquer religião, ou até, que na linha da New Age fosse mais espiritualista do que religioso. Mas já me preocupa que a agenda presidencial de Marcelo se inaugure com uma visita ao Vaticano. Este primeiro ato internacional do Presidente da República, culminado com um confessional beija-mão, aporta-nos a um tempo em que cabia ao Vaticano ratificar a figura régia de uma monarquia europeia. O mito da laicidade do Estado Português é feito evidência neste gesto. Não basta Marcelo ter convidado uma série de representantes religiosos para na Mesquita Central de Lisboa rezar pela paz. Essa plurividência presidencial esbarra com um tão grande ato político de veiculação religiosa. Não é o Marcelo cidadão, é Marcelo Presidente da República num beija-mão confessional. Espere-se por um 13 de Maio político. 

26
Fev16

Do Cartaz do Bloco de Esquerda

Não poderemos ler este cartaz do Bloco de Esquerda (BE) a partir de uma lente teológica ou científica da religião. Nem que seja porque o mesmo não cumpre tal função. Não pretende, sabe-se, ser um convite à reflexão sobre a divindade ou essência de Jesus Cristo. Isto porque o debate poderia ser estendido ao ponto de se afirmar que Jesus seria, ele mesmo, o pai e o filho, ou filho de três homens - Deus-Pai, Anjo Anunciador e José, o pai de criação, e tantos outros desdobramentos. Não obstante o propósito do BE ser abrir a consciência para a diversidade que compõe o conceito de família -- e que os estudos de longo-termo da Antropologia comprovam definitivamente --, o recurso quase provocatório a Jesus como elemento-chave para o "sacudir" de consciências permite que as condenações se multipliquem e as críticas de natureza teológica possuam propriedade. É sempre perigoso transformar referenciais religiosos em alegorias políticas. 

Por seu turno, as críticas do CDS, que consideram o cartaz uma afronta à, cite-se, "sensibilidade dos portugueses", inscrevem-se numa leitura apressada da sociedade portuguesa, tomada pela sua uniformidade religiosa, a partir dos padrões ideológicos do partido, retirando qualquer força ou legitimidade às condenações, pois conferem ao cristianismo uma dimensão normativa no seio da sociedade portuguesa. Um erro. 

24
Jan16

Quando o Sr. Televisão se torna o Sr. Presidente

O ótimo resultadodo BE foi fator decisivo para a vitória esmagadora de Marcelo, numas eleições em que abstenção vai deixando cada vez mais clara a necessidade de aplicação de coima aos cidadãos que se esquivam de cumprir o seu dever cívico. Essa afirmação política do BE, já antes notória nas últimas legislativas, não foi fator único, naturalmente, e em nada retira o mérito próprio do novo PR e a larga vantagem da exposição mediática, a que já antes aludi. Aqui e ali, sempre se ia ouvindo "vou votar no senhor da televisão", quando o nome do candidato fugia das memórias, mas o rosto era claro. Foram dez anos em horário nobre, construindo uma imagem simpática, com o excesso q.b. necessário para prender as audiências, e as posições políticas em "português suave", agradando a todos sem melindrar ninguém. Resta aguardar pelos livros que Marcelo nos vais sugerir nas mensagens presidenciais de Natal e Ano Novo. 

22
Jan16

Primavera marcelista e concursos de popularidade

Anthony Broh, num clássico trabalho de 1980, falava das eleições americanas de 1976, opondo Carter e Ford, como uma corrida de cavalos enfatizada pela cobertura jornalística. Em Portugal nenhuma eleição presidencial assumiu contornos de circo de variedades, corrida de cavalos e concurso de popularidade como as presentes. Domingo termina uma campanha que muito pouco edificou a democracia portuguesa, que pouco soube ser um debate de ideias, que nada teve de seriedade. Sampaio da Nóvoa, eminente académico português, é a segunda grande figura destas presidenciais, lutando contra o tempo e contra o desconhecimento generalizado, captando cada vez mais eleitorado de classe média e garantindo a preferência dos académicos portugueses. Maria de Belém fez da sua pequenez física a sua pequenez política, estando ausente do mais importante debate televisivo e vendo-se a braços com a questão das subvenções vitalícias que fez questão de reivindicar como um direito. Vitorino Silva, conhecido como Tino de Rans, o candidato nonsense que teve rasgos de sentido de Estado, mas que apesar de se afirmar como o "candidato do povo", verá o povo virar-lhe as costas em massa, seduzidos pelo único candidato teve uma década de campanha em horário nobre, que se tem esquivado ao confronto político, que agrada a todos nem agradar particularmente a ninguém - pela via das dúvidas é o candidato do "nim" -, e que tornou a campanha eleitoral na paródia que esta tem sido, com total conivência e elevação dos meios de comunicação social. A leveza de espírito do "senhor simpático da televisão" que nos entra sala a dentro para nos ensinar a pensar e dizer o que devemos ler não é um modelo que irá adotar após as eleições. Desenganem-se os que esperam ter em Marcelo Rebelo de Sousa o presidente bonacheirão que foi o candidato Marcelo. Mas como as eleições se tornaram num concurso de popularidade, a faixa de "Senhor Simpatia" parece que será entregue a Marcelo, o "Professor", deixando para trás o académico Sampaio da Nóvoa ("Professor" só para alguns com brio jornalístico), não sem antes os não-alinhados terem uma palavra a dizer. A fragmentação da esquerda é clara e favorece Marcelo numa primeira volta, mas poderá ser fatal numa segunda. Os portugueses irão decidir se teremos uma nova «primavera marcelista». 

08
Jan16

Marcelo, o Professor da Nação.

Se António Salazar surgisse hoje não viria com o mesmo discurso nem com o mesmo programa. Surgiria atualizado, seria produto de um contexto e de um tempo, exatamente como o foi. Nesse sentido, ninguém encarna melhor a imagem de um Salazar do séc. XXI do que Marcelo Rebelo de Sousa. Não quero, com isto, afirmar que MRS é um ditador em potência. Longe disso. O que afirmo é que ele encarna o conservadorismo português, o paternalismo presidencial, pensado ao séc. XXI. Não é como Cavaco Silva, um político que era uma herança do Estado Novo e que se debatia entre os mundos do pré e do pós-25 de abril. MRS não é nada disso. O mesmo não representa nem pretende representar o velho paradigma do "pai da nação". Ele é um homem que gozou de um tempo de antena e visibilidade mediática únicos, tendo sido um verdadeiro one man show no comentário do telejornal, com espaço para dizer e desdizer, dar o dito por não dito, mas sempre com a inteligência e a conivência mediática de quem foi construindo uma imagem de "Professor da Nação". MRS fez do seu espaço de comentário o seu auditório da faculdade, encenando e representando uma peça que o conduziu precisamente aqui - ao candidato presidencial, pretensamente apartidário, que rejeita (por não precisar) uma campanha de visibilidade pública. Rejeitando, precisamente, aquilo que já tem. O seu paternalismo tornado professoral teve a maior das conivências mediáticas, construindo-lhe a imagem de "O Professor" que entra lares a dentro para dar lições como pensar, o que ler, o que gostar. É o Professor simpático, extrovertido q.b., que faz dos portugueses seus alunos. É o único português que merece a distinção de "professor". Qualquer outro cidadão em espaços televisivos é tratado pelo nome, exceto Marcelo.  Ser o “Professor da Nação” é um lugar santo, a que somente Marcelo foi lícito almejar. É, por tudo isto, que não votarei nele. 

05
Jan16

O Regresso dos Feriados Religiosos

 De entre as várias medidas do novo governo conta-se, bem fresca, a do regresso dos feriados religiosos. Tal medida resulta, a meu ver, de uma desinteressante tentativa de gerar consensos sociais, ganhando a simpatia popular. Medidas com fins populistas são sempre desnecessárias. Um governo de orientação ideológica de 'esquerda' poderia muito bem passar sem isto, não fosse a forte expressão católica nos sindicatos, enraizada desde a constituição da doutrina social da igreja e do combate à ideologia marxista. Ademais, vale mencionar que, se por um lado a medida reconhece o contributo sociológico do catolicismo, por outro deixa a nu que a laicidade estatal é, ainda, um mito democrático, um princípio que funciona bem na teoria, mas que na prática, ao lidar com princípios dos próprios atores políticos e, bem assim, com eventuais efeitos eleitorais, permanece na orla das possibilidades. Laicos, mas não tanto, graças a Nossa Senhora de Fátima. 

"E naquela casa, que ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias".

Email | Blog Académico | Página Pessoal 

OS MEUS LIVROS

p-imdv.jpg

O livro está disponível para download aqui. COVER ULHT.JPG O livro está disponível para download aqui O livro está disponível para aquisição aqui O livro está disponível para aquisição através do email correio@cpcy.pt

UNS TANTOS