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⊙ A Morada dos Dias

{ Horizontes. Olhares. Rumos Cruzados. Palpitações. Compassos dos Dias. }

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18
Jul17

Homossexualidade, Gentil Martins ou de como o conservadorismo é uma falácia

Sabemos vivermos tempos líquidos, fugazes, em que as alterações sociais se dão num fluxo acelerado, em que ao tempo não se dá corda, mas antes se vê passar o frenético digital dos números nos gadgets. Esta fluidez faz crer que se trata de um fenómeno novo, esse da mudança social, como se a humanidade tivesse estado parada até ao apogeu da globalização e do capitalismo. O que de facto a História nos ensina é que isso jamais aconteceu, razão pela qual a Antropologia advoga a mutabilidade das estruturas sociais, a permeabilidade dos conceitos, a inexistência de dados estanques, a maleabilidade das fronteiras e dos valores sociais. As sociedades são feitas de negociações, de valores mudados e questionados. É precisamente pela consciência da mudança que se dão as crises nostálgicas. A própria nostalgia, urdida nos lapsos de memória, nas memórias instituídas e nas coincidências relembradas, é uma tentativa de fixar imagens estáticas de um tempo, razão pela qual ela é, essencialmente, estética, aprisionada em sons e produtos culturais reciclados. 

       Dessa forma, o conservadorismo não seria, senão, uma falácia, uma tentativa de fixar um tempo incerto, um punhado de valores que em dado momento da história foram degenerações sociais, mudanças. Da incapacidade de cavalgar a onda, o conservador aspira por um tempo romanceado, por uma nostalgia tecida no tear da utopia, porque não se pode conservar o que está em permanente mudança. Por essa razão, o conservadorismo não é linear como quer ser, é a seleção de elementos com um fim ideológico. É a opção entre muitos passados, entre a multiversidade do «antigamente», é a seleção de frames com vista à composição de uma narrativa. Nesse sentido, o problema dos conservadores com a homossexualidade não parece residir na vivência sexual alheia, mas antes no facto daquela contestar a história que eles querem contar a si mesmos - a história de uma sociedade estanque, imutável, que se apega aos bons e velhos costumes, selecionados, pois, de entre os muitos velhos costumes. Cozinhados no forno da moralidade religiosa, os velhos costumes não são factos históricos, são memórias cálidas de uma infância tingida. Como escreveu Rosa Montero no seu A Louca da Casa, «são tão iguais estas paradisíacas infâncias russas que uma pessoa não pode deixar de as julgar uma mera recriação, um mito, uma invenção».

        Assim, o conservadorismo é a capacidade de olhar para as corridas de Ascot e ver apenas os chapéus e ignorar os comportamentos ébrios de quem os transporta. É, no fundo, uma expetativa quase esquizofrénica de conservar, de aprisionar, um momento, aquele pedaço de tempo antes da dentada na maçã do paraíso, uma história que se conta a si mesmo para afastar os monstros debaixo da cama. 

04
Jun17

Cultura, Religião e Globalização


A DIMENSÃO CULTURAL da globalização é um factor fundamental na análise dos localismos globalizados e das globalizações localizadas. Apesar disso, importa referir que cultura, na maioria dos lugares, é pelo menos parente de religião, o que significa que a cultura identitária tem um carácter profundamente religioso. Importa referir que a globalização é um processo impulsionado por forças económicas e tecnológicas, ao mesmo tempo que significa um aumento exponencial das possibilidades de comunicação entre um número crescente de pessoas em todo o mundo, dos mais altos cargos políticos ao cidadão comum, passando claro pelas organizações religiosas, ideológicas e criminosas.
TORNOU-SE, neste processo, consensual que a globalização tem um pendor cultural expresso. Assume-se que existe uma cultura global emergente e dominante, um localismo globalizado, cujo foco de emissão é os Estados Unidos da América, razão pela qual é frequente se falar numa americanização do mundo. Para muitos, esse localismo globalizado significa uma exportação de padrões de vida elevados e que culminará na criação de uma sociedade civil internacional assente na democracia como sistema político. Para outros, essa exportação significa uma expansão de um modelo de vida superfícial, trivial e até mesmo como uma conspiração neo-imperialista ao serviço de um capitalismo predatório. Esta última leitura é a fonte alimentadora dos movimentos anti-americanos como sinónimos de resposta anti-globalização. Seja como for é factual que a globalização tem uma feição norte-americana notória, marcada inclusive pela padronização das comunicações no inglês americano.
APESAR DE imensamente explorada, a reflexão em torno de uma cultura global é recente, embora se relacione com um assunto mais arcaico: modernização. Um dos principais aspectos desta modernização é a afirmação de um valor formulado com o Renascimento - individualização - que se configura na subtração do indivíduo da sua condição de parte integrante de uma identidade tradicional expressa pela identidade de grupo ou nação. Esta individualização abandona o ser humano à sua própria condição de liberdade do uso dos seus meios e recursos.
IMPORTA REFERIR que essa cultura globalizada não é inexorável, isto é, não se trata de um rolo compressor ao qual é impossível resistir nem tão-pouco é linear. Ela comporta contrariedades que se lhe tornaram características, como a comida fast-food e a comida tradicional dos diversos pontos do globo, o ateísmo e a procura das religiões tradicionais, a sexualidade desmoralizada e a virtude evangélica. Apesar dessas contrariedades que lhe são típicas, a globalização significa uma uniformização de modos de vestir (mesmo os diferentes estilos são padronizados), de linguagens corporais e de quadros referenciais.
NESSA GLOBALIZAÇÃO RESISTENTE cabe tudo o que a padronização e a resistência simbolizam. Os valores religiosos são em larga medida os mais significativos elementos das fragilidades do rolo compressor, ou pelo menos, das nuances que este contém. A Índia é um exemplo desses contrastes da globalização. A sua população adere às tendências das novas tecnologias, às tendências ocidentais de comportamentos sociais como as despedidas de solteiras com strippers, ao mesmo tempo que as castas e a fé hindu continuam a ter papel intocável nos códigos e sistemas de organização.


{image copyright} | (texto redigido em 2011)

12
Mai17

Fado, Futebol e Fátima

O galego Carlos Taibo, no seu livro Compreender Portugal, publicado em 2015, afirma que a sociedade portuguesa, no seu mais amplo sentido, deslocou-se da “trilogia dos três F” – fado, futebol e Fátima, para uma nova trilogia, composta por futebol, FMI e Facebook. Sem negar a importância recente do FMI e o lugar central do Facebook na vida quotidiana dos portugueses (num continuum universal que não produz dimensões particulares portuguesas), considero que os clássicos três F, das guitarras portuguesas, da bola sobre a relva e do culto mariano permanecem profundamente operatórios, enraizados na identidade nacional. Tratam-se de atavismos culturais impressos na memória histórica coletiva. Recordando Júlio Pimentel Pinto, “a memória é esse lugar de refúgio, meio história, meio ficção, universo marginal que permite a manifestação continuamente atualizada do passado”. Nesse sentido, a memória coletiva permite a revivência de determinados eventos, a instituição de determinados acontecimentos como marcos que solidificam a identidade de um grupo. A memória, efetivamente, une os sujeitos, os atores sociais, porque ela interliga-se, beneficia-se das memórias alheias, porque a memória individual só se emaranha na memória coletiva se, como escreveu Halbwachs, concordar com a memória dos outros. Para León e Receba Grinberg a identidade emerge da interseção do tempo, do espaço e do grupo, mecanismos que conjugados produzem um manual de valores que se solidificam no grupo. São tradições inventadas, como teorizou Hobsbawm, que necessitam, na ideia de José Mattoso, do Estado para se criarem, porque a portugalidade é devedora, sem dúvida, do intenso movimento do Estado Novo de estabelecer uma “identidade nacional”, de que os “três F” são o expoente máximo. 

As romarias com a sua religiosidade assente nos ex-votos, na devoção mariana e nas práticas de cura, o futebol com as suas outras romarias de domingo, em que as famílias iam ao estádio e sempre alguém pedia “vizinho, deixe-me entrar consigo”, na época dos bilhetes com direito a acompanhante, e no fado, a “canção nacional” que transporta o ideal de um povo vivente de tristeza, amargura, devoto e honroso. O português de Jorge Dias é “um misto de sonhador e de homem de acção [...] o Português é, sobretudo, profundamente humano, sensível, amoroso e bondoso, sem ser fraco”. 

Mas se o português é uma série de lugares-comuns instituídos na memória coletiva, ele também é muitas outras coisas, porque o quotidiano não se compadece com chavões ideológicos. No entanto, porque a memória se reaviva em acontecimento determinantes, contribuindo para a fabricação de um sentimento comunitário, o 13 de maio de 2017 oferece as condições essenciais para o reavivar da memória nacional, agora amplificada nos meios de comunicação social, com transmissões diárias de notícias e reportagens em torno da vinda do Papa Francisco, publicação de artigos de opinião e livros sobre a vida e a mensagem de Bergoglio. A mediatização da visita papal e a cobertura das peregrinações tem oferecido terreno para um reavivamento católico, para um ressurgimento do catolicismo como idioma cultural nacional, ao qual se junta o facto de no próximo dia 13, o Benfica provavelmente se sagrar campeão, o clube português com o maior número de adeptos, e que opera, assim, como um símbolo instituído de Portugal, conjugando-se a Fátima, reatualizando o mito do país católico e benfiquista, relegando para segundo plano o multiculturalismo, a diversidade religiosa, a diversidade clubística, para renovar, pelo gesto nostálgico, o Portugal do Estado Novo, agora, no dia 13, sem o fado, mas com Salvador Sobral e o Festival Eurovisão.

 

post também no blog Changing World do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE (link).

10
Fev17

Porque elegerá a França Le Pen?

Aproximam-se, vertiginosamente, as eleições francesas, com escândalos em torno dos principais candidatos, com exceção para Marine Le Pen. Não é por acaso. Marine Le Pen não tem esqueletos no armário, porque tudo o que é mau ela está evidente, é parte da sua ação pública como política, verdadeira continuação da estratégia do seu pai, Jean-Marie Le Pen, antigo dirigente da Frente Nacional. Marine Le Pen é, portanto, produto de uma socialização em torno do fascismo, dos ideias da extrema-direita anti-semita, anti-imigração, e nacionalista. É o espólio ideológico dos derrotados da II Guerra Mundial, os que não se inconformaram com a queda do ideal nazi, aos quais se juntam os descamisados da globalização, os sem rosto e sem sorte das últimas décadas, os que viram passar o capitalismo sem o cavalgar. Sem referenciais, sem ingresso na ordem mundial globalizada, de classes sociais desfavorecidas e altamente instáveis, são os adeptos fáceis das teorias do medo que elegeram Donald Trump, da culpabilização do «outro», da rejeição do multiculturalismo. 

A estes redneck franceses vão-se juntando os que abdicam da liberdade em troca de segurança, diante do medo contínuo do terrorismo de feição islamista. O «outro» já não é apenas culturalmente diferente, é o que se apropria do fundo de maneio da segurança social francesa, registando mais de cinco filhos, para passar o dia no banco de jardim, é o que se guetiza -- narrativa que se esquiva de fazer a reflexão sobre os efeitos da guetização de imigrantes na construção de uma ideologia de exclusão e reforço de referenciais de contraste --, que se coloca à margem e se recusa a aderir aos padrões franceses. Numa França em ebulição, em debate interno sobre a imigração, o multiculturalismo e as fronteiras identitárias, receosa do terrorismo, conhecedora da narrativa do Daesh de exportação de terroristas a partir do fluxo migratório, a resposta democrática, a integração, as políticas de inclusão social, deixam de ser alternativa, em particular porque os seus efeitos são mais demorados, e a alternativa extremista de fechamento de fronteiras e reforço do nacionalismo francês, voltam à tona com nova energia. E a cada dia que passa a "paz kantiana" e os sonhos da União Europeia vão se desmanchando, dando lugar a um cenário em tudo idêntico aos pré-guerras mundiais.  

16
Dez16

Dos direitos dos idosos

A criminalização do abandono de idosos acarreta um problema de difícil solução, ao mexer com histórias familiares. Por isso vale bem perguntar se todos os filhos têm o dever moral (primeiro que legal) de prestarem assistência aos seus pais. Vejamos duas histórias ficcionais que arrumam a questão. 
A) O senhor Artur dedicou a sua vida à família, trabalhando de sol a sol, até para além do que a força lho permitia, dando o máximo conforto e oportunidades que lhe foi possível aos seus 3 filhos, hoje todos formados e bem empregados. Nos seus 75 anos, com visitas inoportunas do Alzheimer, passa os dias no jardim, sozinho, desde que Maria Augusta faleceu. Jacinta há anos que não lhe visita ou telefona. Tem netos que nunca lhes viu o rosto ou sentou ao colo. Sente-se traído, depois de uma vida em prol dos seus.
B) Mário tem 68 anos. Trabalhou nas obras e em inúmeros biscates que vieram e foram. Acompanhou-se sempre do álcool, fiel amigo. Casou-se com Odete porque esta engravidou. Começou por se tornar violento com a mulher, depois com o filho Vítor, por fim virou-se para Margarida, a filha, violando-a sob a tutela do álcool. Hoje é um homem só, vencido pela culpa que me entregou um AVC. Os filhos e a ex-mulher não lhe falam há 20 anos. 

Estes dois cenários servem para pensar sobre os limites e os desafios do auxílio de idosos. Que dever têm os filhos do caso B? Que penalização devem ter os do caso A?

16
Dez16

RAP e a mariquice

 Considero valoroso não se pertencer ao aborrecido mainstream. Não há açúcar em ser do mesmo clube, da mesma religião, vestir a mesma roupa ou ter a mesma orientação sexual que a maioria. É bom criar descontinuidade em algum momento ou aspeto das nossas vidas. Não é apenas pensar fora do quadrado, é sair dele. Agitar as coisas, portanto. 

Ora, quando se agitam as coisas é natural que o cinzento reaja ao laranja, nem que seja pelo destoar. E isso pode gerar extremismos. Não há coisa pior que o cinzento não permitir o laranja? Há, o laranja se tornar fundamentalista. Eduardo Pitta é um tipo ponderado e por quem tenho simpatia. Apressou-se a julgar as palavras e RAP e descambou para o azedume de espírito. Acontece. Eu que em certos dias até coxeio ligeiramente devido a uma queda não me afronto com sketchs como aquele. Lamento que EP o tenha feito.

17
Out16

Leituras Sanitárias

Os escritos em casas de banho são um emaranhado de ofertas sexuais, desvarios raciais e desportivos e poesia de retrete, literalmente. No entanto, no outro dia, no ISCTE li uma mensagem que me entristeceu - "aqui fui feliz durante 5 minutos". Não pude deixar de pensar em quão dissimulada seria aquela existência para encontrar a felicidade numa casa de banho por meros cinco minutos. Retalhos de vidas.

23
Mar16

Bruxelas: a oportunidade para refundar a Europa?

 Vivemos um momento crítico. Não é um dado novo no Velho Continente, onde as tensões marcaram a agenda internacional desde sempre. Sempre conhecemos melhor a 'paz armada' do que a paz kantiana, que a União Europeia se propôs ser. Da minha parte, sempre me propus ver a Europa pelos olhos do otimismo, pela lente da pertença regional, mais do que pela diferença local. A Europa em si é um mar de possibilidades, inclusive para velhos planos germânicos de controlo regional, em que o «espaço vital» se converteu pela moeda. 

No entanto, independentemente das diferenças políticas, a Europa desejou ser um espaço de encontros, de multiculturalismos dialogantes e menos de choques. Para tanto, era preciso saber conjugar o projeto europeu de fronteiras abertas com políticas de imigração positivas. O que sempre foi tentado. O passado colonial pesa sobre os países do Velho Continente e serve tanto para a culpabilização própria como de arma-de-arremesso quando se pretendem impor paradigmas culturais anti-democráticos mas com as vantagens sociais da democracia. Na verdade, foram políticas de desculpabilização social e cultural, embrulhadas em teorias sociológicas, a maioria delas, infelizmente, de esquerda, que promoveram o caldo sociológico responsável pelo estado atual de coisas. É claro que a guetização como paradigma urbano promovido pela direita fez o resto.

Todo o povo tem direito à manifestação dos seus atavismos culturais. A diferença é a base da riqueza humana que a Antropologia tem sabido -- depois de deixar as teorias evolucionistas caírem -- expor. Por isso ela deve ser celebrada mas recontextualizada, como foi o caso dos costumes africanos transpostos ao Novo Mundo durante o comércio de escravos, os quais diante dos grandes constrangimentos e infortúnios sociais, políticos e económicos, souberam sobreviver e adaptar-se. O multiculturalismo é a aceitação de todos, não a imposição de uma minoria sobre os demais. O Ocidente é o locus do bem-sucedido melting pot, não o novo território para a sharia com os benefícios locais. Não se chama adaptação exigir os direitos e abdicar dos deveres. Mesmo como turistas temos de nos adaptar a países árabes, porque estes como emigrantes não têm de o fazer? Felizmente há muitos países, como Portugal, onde a convivência é exemplar, com as devidas adaptações e capacidades de acolhimento.

Portanto, refundar a Europa jamais deverá passar por repensar a supressão de fronteiras e ainda menos as culturas europeias. A cultura europeia adaptou-se, soube conviver com a diferença, mantém-se mutável e permanentemente revisora dos seus paradigmas de modo a saber acolher a diferença. É preciso que a diferença tenha interesse sem se adaptar, porque a modernidade é um jogo de adaptações, seleções de elementos e escolhas culturais dos povos em movimento. 

29
Fev16

A igualdade devia ser um não-assunto

Fui e serei a favor do casamento, da adoção e de todos os direitos devidos aos casais homossexuais. A defesa do contrário -- ainda que respeite -- diz diretamente respeito a um modelo de sociedade edificado sobre ideais religiosos. Nesse sentido, o garante constitucional dos direitos inalienáveis dos casais homossexuais é um passo importante para a afirmação da pluralidade social e da democracia, porque uma verdadeira sociedade democrática é aquela onde todos têm lugar, e onde as opções sexuais não são nem podem ser patologias, nem ficar ao abrigo de uma ideia de "comportamentos desviantes", noção que confunde pluralidade de género com criminalidade. 

No entanto, há, para mim, uma diferença entre igualdade necessária, ao ponto de a opção sexual, de religião, política ou desportiva se tornam em "não-assuntos" sociais, e empowerment gay ou outro qualquer. Em sociedade laicas, plurais e democráticas as identidades dizem respeito aos sujeitos, não ao coletivo. Fazer da diferença uma arma ideológica é tão perigoso e nefasto para a frágil pluralidade social quanto o reforço de um ideal de mainstream. Acredito que a maturação democrática tornará as marchas pelos direitos LGBT ou de "minorias" raciais em algo desnecessário ou meramente lúdico-carnavalesco, cujas proporções poderiam traduzir-se num volta-face do empowerment social. Basta pensarmos que no seio do Chelsea FC, clube londrino anteriormente treinado (por duas vezes) por José Mourinho, irá nascer uma claque gay como forma de difusão da igualdade. Ora, isto não é, de modo algum, um reforço da igualdade, mas antes da descriminação. Das duas uma: ou a atual claque do Chelsea é homofóbica ou a futura será heterofóbica, seja como for nenhuma abona a favor da igualdade. A sociedade que se quer construir é aquela onde tais questões se tornam vazias, desnecessárias, e não antes onde o dado adquirido se torne objeto de permanente celebração. A escolha do arco-íris como emblema da causa LGBT foi extremamente feliz porque reforça a pluralidade como facto social, não como assunto fraturante. 

25
Fev16

Ciganos, Sapos e Descriminação.

Todos os fenómenos sociais podem e devem ser lidos de diferentes ângulos. A atribuição do Urso de Ouro na Bienal de Berlim à curta-metragem Balada de um Batráquio, da realizadora portuguesa Leonor Teles, trouxe novamente ao plano da discussão a questão da comunidade cigana portuguesa e da xenofobia. O problema exige um tratamento cauteloso. Em primeiro lugar porque a descriminação é um facto social português. Expressões correntes de "pareces um cigano", que SP menciona, fazem parte do imaginário popular, cristalizando uma narrativa em torno da comunidade cigana. O planeamento urbano desenvolvido por autarquias, que ao invés de distribuir os sujeitos de etnia cigana por diferentes bairros os guetizam, serve apenas para perpetuar a segregação e fornecer o caldo sociológico para a auto-exclusão social, que é um dado importante dentro do contexto da comunidade em questão. Este facto conduz-nos à leitura complementar - a de uma comunidade que se encerra sobre si mesma, e que por tal, é, na larga maioria, socialmente descomprometida, ausente de princípios de cidadania e democracia. Em virtude de tal, os portugueses de etnia cigana desenvolvem práticas marginais, partindo de uma conceção social de "nós contra eles", nós os ciganos, eles os "senhores". Por essa razão, são inúmeros os relatos de coação e ameaça junto de funcionários da segurança social para a atribuição de rendimentos mínimos e habitações, pois pese embora o programa seja meritório é impossível uma coerente vigilância dos reais necessitados quando em equação se encontram ameaças. A ameaça e o medo tornaram-se processos de garante de mais-valias sociais de uma comunidade que é mal integrada mas que também valoriza a sua guetização. Esta leitura plural é muitas vezes esquecida em favor de narrativas raciais ou de perceções erróneos de que minoriais étnicas não podem ser ativas na exclusão e portadoras de narrativas de preconceito. 

"E naquela casa, que ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias".

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