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⊙ A Morada dos Dias

{ Horizontes. Olhares. Rumos Cruzados. Palpitações. Compassos dos Dias. }

12
Set17

Lugares despidos de turismo

© arquivo pessoal  

Gosto de ouvir a cacofonia das vozes de múltiplas paisagens na nossa Lisboa ou no nosso Porto. Ao contrário de muitos lisboetas aprecio a circulação de gentes. Ainda assim, reconheço os contratempos causados pela inflação, quando as cidades se tornam para eles e não para nós. Gosto, também, que descubram o Portugal para além do Algarve que já tomaram de vez como seu, mas apraz-me que permaneçam geografias caladas, lugares que sejam apenas nossos, livres da mácula do turismo, inclusive o interno. Gosto que o meu lugar, de onde agora escrevo, permaneça com as suas águas límpidas, invioladas, gélidas de puras, passíveis de beber, que beijam as margens cobertas pela sombra da vegetação. É o meu rio, sereno e profundo. Por isso o evito em época de loucura. É o meu escritório onde escrevi as mais poéticas páginas da minha tese de doutoramento. E com isto me aborrecem as vozes abatatadas da grande bretanha, e até as vozes lusas de várias paragens. Gosto disto sim, como é, sem pegada humana dos plásticos, dos papéis, das beatas, que às águas não se misture mais nada que as folhas, sem deslocamentos das pedras que ali pertencem, que a mó rode sem lixo, e me deixem entregue ao silêncio dos pássaros e ao bailado das águas. É importante que possamos ter lugares que a humanidade ainda não destruiu, porque o turismo quando se alastra não arrasta apenas registos fotográficos e olhares cativados, carrega o nefasto consigo.