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⊙ A Morada dos Dias

{ Horizontes. Olhares. Rumos Cruzados. Palpitações. Compassos dos Dias. }

16
Jun15

Um dia em Hogwarts, perdão, Oxford

© João Ferreira Dias

 

A estação de comboios de Ascot fica uns movimentados vinte e cinco minutos a pé da pacata Sunninghill, onde se pode comer fish and chips de qualidade, a uma hora de jantar em que a vila se esvazia quase por completo, deixando as montras solitárias. A Ascot railway station não tem particular afluência de gente, o mesmo não se pode dizer, contudo, da estação de Reading ou mesmo de Oxford, onde o coro de vozes de várias línguas se mistura com o apito e a chamada para o monstro sobre ferro, numa voz forte e cantante, que nos atira para uma Inglaterra que bem mistura ontem e hoje. Se a paisagem dos vales verdes não se distingue dos prados escoceses ou irlandeses - porque a memória sempre busca a comparação - a verdade é que Oxford se revela uma cidade marcante, à medida em que vamos penetrando as suas ruas, sentido o seu pulsar, e percebendo a sua história tão impregnada nos edifícios. Arrebata-nos de tal modo, esta cidade encantada, que é difícil resistir à tentação de olhar para o bilhete, não vá o funcionário em Ascot nos ter vendido um bilhete para Hogwarts em vez de Oxford, por engano. Ora, se a alusão pode parecer descabida ou, ao menos, forçada, vale dizer que há naquela cidade uma loja (Flaggs) que vende as varinhas e vassouras para o Quidditch, o desporto-rei na escola de Harry Potter, que o famoso refeitório universitário da Christchurch foi o cenário para as majestosas refeições na escola de feitiçaria criada por JK Rowling, que a biblioteca onde os jovens heróis da trama encontram porções é a Bodleian Library e que a faculdade de Teologia é cenário para os interiores de Hogwarts, entre outros lugares. 

© João Ferreira Dias

 

A majestade da cidade só é violada pelo excesso de turistas, de máquina fotográfica em punho, brotando de camionetas que os levam ali e a outros lugares emblemáticos da região de Berkshire como Windsor. Como vai dizendo, monocordicamente, o guia, é um erro perguntar pela Universidade de Oxford, afinal toda a cidade é a Universidade, feita de pólos, colégios, institutos, lugares de passagem na admissão e na graduação, cada qual mais belo que o outro, com uma arquitetura mais imponente, com detalhes mais fabulosos do que o anterior. Estudar em Oxford não é apenas juntar-se à elite, é fazer parte de um lugar histórico, cheio de tradições, repleto de memórias, onde tudo é fabuloso, como a biblioteca Bodleian com túneis subterrâneos que obrigam a uma espera de seis horas por um livro. 

É, confesso, difícil descrever uma cidade que só se tomou por insuficientes instantes, mas que conquista a cada passo, em que o peso da história caminha lado-a-lado com o encanto, com o assombro, com a surpresa, em que nos sentimos imergir num conto de fadas universitário, em que quase revivemos a famosa semana de batalha por causa de uma cerveja mal tirada, onde o rio e as suas canoas nos chamam ao desafio de conduzir com uma vara, onde o que mais custa é, sem dúvida, partir.