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A Morada dos Dias

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

Micropost [35] | A missão e a vocação

Fevereiro 04, 2020

Uma boa parte das pessoas tem o privilégio de dizer que faz na vida aquilo que gosta, que sente por vocação e que está onde quer estar. Médicos, atletas, músicos, professores, barbeiros, bombeiros, e tantos outros. Fazer política não deveria ser uma vocação menor. Por isso não compreendo a indignação face às declarações de Joacine Katar Moreira nesse mesmo sentido. Ela sente nasceu para estar ali? Ótimo. O que não queremos, mas temos, é deputados que estão ali para benefícios de setores privados, para benefício próprio e a não acreditar na coisa pública.

Micropost [34]

Fevereiro 04, 2020

André Ventura propôs a redução do salário dos políticos, uma proposta que sabia que seria chumbada, mas que serve para criar a ilusão do nós contra eles, para se imaginar que ele não é um político. Mais, trata-se de uma proposta para as letras bold do Correio da Manhã e, com isso, para o efeito junto do seu eleitorado. O mesmo eleitorado que gostou de o ouvir mandar Joacine para a sua terra, que é o mesmo eleitorado que acha que Portugal bom foi o do Estado Novo, em que "África era nossa".

O Guarda Abel

Fevereiro 01, 2020

As declarações de Abel Matos Santos não tiveram um contexto, como se defende. Elas não foram uma referência casual, são retrato das suas crenças. Da apologia do Salazarismo ao antissemitismo, sem esquecer que, na qualidade de Psicólogo sexologista, é um combatente da homossexualidade. É alguém que se revê mais no Chega do que na Democracia cristã. Aliás, ele mesmo já afirmou que o partido de André Ventura é um aliado. Trata-se, portanto, da contextualização portuguesa do bolsonarismo, com a apologia do regime autoritário, com o apreço por uma autoridade pública repressiva, de forte pendor anti-pluralista, de arreigada moralidade religiosa, marcada pela homofobia, a que só falta a profunda desconsideração pela cultura, mas que certamente não faltará uma ideologia de cultura estreita e unidimensional. Em suma, é o arquétipo do católico conservador, elitista, saudosista do Estado Novo, defensor da cura da homossexualidade. O grave nisto não são as suas crenças, em última análise há sempre espaço para que elas existam dentro de um limite democrático. O problema é fazer crer que a Direita é isto, e que este é o caminho da Direita, sendo que tudo o que não seja isto é tudo esquerda, é tudo nefasto.

Micropost [32] | Chiquitito tell me what's wrong

Janeiro 29, 2020

O novo líder do CDS refere-se, sucessivamente, a pseudo-intelectuais de esquerda. Ao que parece, para o Chicão, a elaboração do pensamento reside, apenas, à direita ou, muito provavelmente, habita apenas aqueles que dizem aquilo que é concordante com as suas ideias. Nessas coisas, Manuel Monteiro é um senhor, que mesmo não tendo por agenda política ou valores pessoais um conjunto de princípios que moram na outra margem, continua a reconhecer-lhes legitimidade. Mas enfim, são os ventos que sopram — comigo ou contra mim.

Micropost [31]

Janeiro 29, 2020

É óbvio que André Ventura tem noção que as suas declarações sobre Joacine Katar Moreira são institucional e parlamentarmente graves. No entanto, enquanto personagem que dá voz aos preconceitos e saudosismos do Estado Novo de uma franja eleitoral que configura o seu eleitorado fiel, ele sabe bem que é esperado que aja daquela forma. Portanto, o problema não é Ventura, porque ele só diz o que querem que ele diga, mas todos os nossos vizinhos, parentes e amigos que concordam com as suas palavras.

A ideologia da farda

Janeiro 23, 2020

André Ventura é um político arguto. A forma como tratou o caso Cláudia Simões é paradigmático da sua capacidade de recompor os factos em favor do argumento que lhe é eleitoralmente favorável e concordante com a sua ideologia securitária. Há muito que percebemos que ele confia nas forças policiais para fazer-se eleger e, eventualmente, fazer crescer o partido. É um eleitorado que conquistado, sentido que tem voz política, se manterá fiel. Por isso, mais do que se colocar ao lado do agente da PSP, arrolou um argumentário de natureza negacionista e conspiratório. Fazer crer que tudo foi uma encenação é um desrespeito pelas partes e um convite à criação de fábulas sociais perigosas. Dúvidas houvessem é seguir as caixas de comentários das notícias e o chorrilho de ataques raciais que são proferidos. Reconhecer que as forças de autoridade pública atravessam uma circunstância profissional deficitária não impede que vejamos uma situação de abuso de autoridade e força desproporcional, nem tão pouco que se reconheça que há um problema nos testes psicológicos e seleção no acesso à carreira, motivados pela falta de candidatos.

O caso Cláudia

Janeiro 19, 2020

Temos, naturalmente, duas versões dos acontecimentos. O estado em que ficou a detida invoca uma situação de abuso de poder e violência policial e atropelo aos direitos. A atitude do motorista revela uma disposição racista perigosa para o exercício das suas funções. Nada obsta que 1. Tenham ocorrido agressões verbais ao agente e algumas altercações que não estão registadas. 2. Que a detida ao ver-se numa situação desproporcional de força tenha reagido. Não estamos na posse de todos os factos, mas isso não impede que vislumbrar um caso de abuso de autoridade e desproporcional uso de força. Quando sabemos os poderes infiltrados nas forças de segurança pública ficamos desconfiados. Esperemos que tudo seja esclarecido e a situação alvo de medidas legais e exemplares. Seja como for, no quadro em que vivemos nada ficará verdadeiramente solucionado. As forças de segurança voltar-se-ão ainda mais para o lado de quem lhes dá voz, e quem se considera (muitas vezes justamente) alvo de abuso de poder continuará a desconfiançar daqueles que devem zelar pela sua segurança. Infelizmente temos cada vez menos posições de consenso. O número de comentários racistas na notícia é gritante. O SOS Racismo faz e bem o seu papel. Os partidos políticos devem esperar pelo apuramento dos factos antes de pegarem nas bandeiras e partirem para o fomento da desordem social.

O caso Giovani

Janeiro 18, 2020

É sempre necessário dar tempo à justiça para ela apurar os factos e produzir acusação. As presunções populares não costumam gerar coisa boa. Caberá, ainda, à justiça averiguar se houve deliberada tentativa de silenciamento do crime e impedimento de queixa por parte das autoridades. Daí deverão ser aplicadas as devidas medidas punitivas.
Todavia, nada obsta que existam iniciativas populares que reivindiquem justiça e celeridade na investigação. O que não me parece adequado é partir do princípio que o crime teve motivações raciais e rejeitar a decisão contrária apenas para fins político-ideológico-militantes. Se foi um crime racial deve ser julgado enquanto tal, se não foi deve aceitar-se e escusar-se à instrumentalização do caso.

Micropost [30] | Bragança e Campo Grande

Janeiro 07, 2020

Qual a diferença entre o crime do Campo Grande e o de Bragança? É simples: ao que indica o primeiro tratou-se de um crime de circunstância/oportunidade, sem outra motivação que não o crime em si mesmo. No caso de Bragança temos um crime de contexto, em que questões de etnicidade-racialidade não devem, até prova contrária, ser desconsideradas.