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Ouve-se por aí que há dinheiro para salvar bancos, mas não o há para recuperação das carreiras dos professores. Como lamento é aceitável, como posição política é populismo. Quer queiramos ou não, vivemos num mundo multipolar onde impera o neoliberalismo regulador enquanto paradigma de modelo de ordem global e de finanças dos Estados. Em consequência disso, estamos reféns da banca, obrigados a salvar bancos a qualquer preço a fim de evitar o colapso do sistema financeiro do país. A questão dos professores está ligada, então, à gestão corrente do Estado, e aceitar para uma classe implicaria aplicar, mutatis mutandi, os mesmos princípios às demais carreiras da função pública.

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Catarina Martins fala em precipitação do governo. Compreende-se que o BE receie o ónus do fim das parcerias à Esquerda. Tal seria eleitoralmente trágico para o BE e vantajoso para o PS se António Costa fizesse disso tema de campanha. Ora, como o BE até tem vontade de ser governo e gostou da geringonça está, naturalmente, preocupado que o governo se demita, pois sabe que em hipótese alguma conseguirá formar um entendimento com a Direita. Uma coisa são medidas eleitorais no Parlamento, outra diferente é a formação de um entendimento sustentável.

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O bispo do Porto, D. Manuel Linda, foi trazido ao centro do palco político com o combate ao horário laboral dos super e hipermercados ao domingo. Tendo caído bem e mobilizado os trabalhadores do setor, que convocaram uma greve para o primeiro de maio, as declarações do bispo da cidade Invicta não são inocentes, quer no timing quer como ato político. Em primeiro lugar porque resultam da perceção de que o sindicalismo clássico na CGTP tende a desmobilizar-se, assumindo novas formas independentes, como visto com o caso dos enfermeiros e dos camionistas de matérias perigosas. Ao fugirem ao controlo da CGTP, os novos movimentossindicais afastam-se da mão católica presente naquela confederação, herdeira do sindicalismo operário católico dos anos do Estado Novo.

 

Em segundo, nesses termos, o bispo do Porto reconhece a oportunidade de trazer ao seio da Igreja, novamente, a questão operária, recuperando a ação social e tentando convergir, politicamente, o sindicalismo. A escolha do setor não é, portanto, inocente, uma vez que o descanso ao domingo resultou, precisamente, da emergência da doutrina social da Igreja – nascida com a Encíclica Rerum Novarum de Leão XIII, em 1891, sobre a condição dos operários e a solução desta através de uma ação cristã – que defendia o descanso ao domingo como ato de dispensa do operariado para frequência à missa.

 

Ora, se como preocupação social daqui não vem mal ao mundo, como ato político, se inscrito num quadro global de tomada da «coisa pública» pela religião, revela uma intenção de ação política que não apenas visa capitalizar o movimento operário como pretende trazê-lo, novamente, aos cuidados da Santa Sé, polarizando, uma vez mais, o campo ideológico da ação social e do operariado, instrumentalizando-o no combate ao «socialismo».

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Sara Zambeli, ativista feminina brasileira, exortou as mulheres a recusarem a posição sexual conhecida por "de quatro", justificando que a mesma coloca num papel de sujeição a mulher. Sou um grande defensor do empoderamento feminino, defendendo a implementação de medidas públicas que alcancem a autonomia decisória e a igualdade no mercado de trabalho. Posto isto, acho que o ativismo (seja qual for) tem uma dimensão purificadora extremista que se autoflagela. O ato sexual é um jogo de negociações de poder e fantasia. A chamada posição "de quatro" varia entre o primeiro e o segundo lugar, consoante o país, no ranking das preferências femininas. A submissão que invoca é intencional, conjugando, ainda, uma dimensão de proteção. No contexto atual de luta o que está em causa o empoderamento e não a erradicação do feminino. Qualquer dia estarão a defender a mutilação genital feminina como combate ao prazer sexual que colocaria o poder nos homens. 

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Um político existe para tomar decisões políticas, devendo ser devidamente assessorado por técnicos de qualidade. Esta é a posição mainstream. Mas deve ou não deve ter conhecimento da matéria de que se ocupa? Um vereador deve ou não deve saber o quanto baste do tema? Basta-lhe ser político? E o que é um perfil político se despido da componente técnica? Um executor orçamental? Poderá um vereador da cultura não conhecer as múltiplas dimensões do património? Poderá um vereador da vereador da educação não ter sensibilidade pedagógica? Poderá um político ser meramente um executor de decisões políticas? E o que são decisões políticas? Com que critérios? 

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O direito à greve é pedra basilar da Democracia e para que surta efeito precisa incomodar, de modo suficiente para que as reivindicações sejam atendidas. No entanto, o que é preciso é que haja bom-senso. Ora, sabemos que os sindicatos não tendem ao bom-senso como engrenagem negocial, ainda para mais quando se trata de um sindicato recém-criado, pujante de mostrar a sua força. É reconhecível que a situação laboral dos transportadores de matérias perigosas é deficitária e que demanda por melhorias urgentes. Nesta, como noutras profissões. Ora, o que não é razoável é o teor das exigências e a disponibilidade para condicionar de forma gravosa o país. Do incomodar ao gerar o caos vai o dolo de lesa-pátria.

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A ideologia de género, propriamente dita, existe de forma mais evidente na cabeça daqueles que a propõem combater do que naqueles que são os seus alvos.

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Em tempos de histeria ideológica e de intenso revisionismo histórico, a alter-right mundial empenha-se no combate a uma suposta ideologia de género que estaria rasgando a ordem social no Ocidente. Segundo os seus «combatentes», a ideologia de género visa corromper a moral pela dissolução do binário de género masculino/macho-feminino/fêmea. Para estes, a definição binária de género existe ab initio, colada à genética humana. Sucede, no entanto, que o género não vem atrelado aos órgãos genitais, ele é social e culturalmente construído, estando presente na formatação dos padrões de pensamento e da linguagem. Em The Invention of Women: Making an African Sense of Western Gender Discourses, premiada obra de Oyeronke Oyewumi, a autora discute a forma como a questão de género foi introduzida no contexto yorùbá, hoje Nigéria, pela colonização inglesa. Onde outrora era a idade que estabelecia a posição de autoridade e prestígio em cada contexto, não se fazendo distinção entre homens e mulheres, com o advento da colonização surgiram as tarefas e atribuições segundo a categoria de género ocidental, desregulando normatividades vigentes.

No nosso quadro cultural, esta binaridade existe de forma estruturante, sendo passada geracionalmente como um reflexo, uma mnemónica cultural incontestável. Desde pequenas, as crianças são ensinadas que os carros são brinquedos “de menino”, as bonecas “de menina”, que jogar à bola é coisa de menino e as meninas que gostam dessa atividade são classificadas como «maria-rapaz». Esta classificação tem por base o tal binário estruturante. É, pois, com base nesse binário que se inscrevem as reações à recente coleção unissexo da marca Zippy. Entre os comentários mais ferozes, encontramos uma associação entre roupa unissexo (que sempre existiu) e uma teoria da conspiração sobre um plano mundial para transformar as crianças em LGBT.

Excetuando posições extremadas que não consideram a sociedade como um produto onde a mudança é negociada, muitas das propostas erroneamente associadas a uma agenda de género visam, somente, um equilíbrio social além das amarras do binário. Prova das amarras de género sociais está na designação de “eles” para um grupo composto, p. ex., por um homem e dez mulheres. O masculino sobrepõe-se ao feminino pela força normativa do género masculino na construção da memória social.

Um caso exemplar. Ao brincar com dois irmãos, uma menina de dois anos, e um menino de cinco, proponho que o menino seja o “homem aranha” e ela “a menina aranha”. A menina rapidamente afirma-se como “homem aranha” e designa o irmão como “menina aranha”. Noutra brincadeira, ela escolhe ser o Pedro e atribui ao irmão o papel de Heidi. Sobre este, afirma-o como “a mano”, e diz que quer ver “o televisão”. Ora, este caso, como outros, mostra que somos nós, adultos, que vamos socializando as crianças no binário de género, ao corrigirmos, instintivamente, as atribuições de género às palavras e pessoas. É assim que chegamos a circunstâncias onde encontramos, por exemplo, Damares Alves, ministra brasileira da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, a afirmar que “menino veste azul, menina veste rosa”. Ora, eu que estudei num colégio católico, sempre encontrei rapazes de camisa rosa e raparigas de camisa azul sem que houvesse ali ausência da heteronorma. É por isso que o feminismo aborrece mais do que o femicídio. É por isso que as mulheres continuam a ser todas filhas de Medusa: culpabilizadas da sua própria violação.

O fanatismo que vivemos é discordante com o princípio da liberdade, do respeito e do direito à diferença e à autodeterminação. A ideologia de género, propriamente dita, existe de forma mais evidente na cabeça daqueles que a propõem combater do que naqueles que são os seus alvos. A ideologia de género não é o exercício de supressão de barreiras que limitam a liberdade de identidade (a psicologia, a antropologia e outras ciências mostram que o género diz respeito ao reconhecimento que o indivíduo tem de si mesmo) ou que visam flexibilizar a linguagem tornando-a mais inclusiva, por exemplo, para as mulheres. Ideologia de género é a imposição do binário que se quer por universal aos demais. É, igualmente, o desrespeito pelas diretivas da ONU, que recomenda o respeito pela identidade de género como garante da autodeterminação.

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Segundo consta, encontra-se em projeto a construção de duas piscinas exteriores no Município de Benavente. Do meu ponto de vista existem duas questões paralelas. Por um lado, considero a iniciativa extremamente vantajosa do ponto de vista de capacitação turística do município, promovendo a reboque outros ativos como as festas populares, a gastronomia, alguns equipamentos culturais e o património histórico e arquitetónico. Ao mesmo tempo, supre um problema local, resolvendo a questão do número de jovens que são forçados a deslocar-se a Coruche para usufruírem das piscinas daquele município. Por outro lado, há aqui um problema de natureza político-cultural que precisa ser solucionado o quanto antes. Não há dúvida de que seria muito mais vantajosa a construção de apenas uma piscina de maiores dimensões para todo o município, ao invés de duas piscinas de dimensão inferior, uma em Benavente outra em Samora. O costume de duplicar equipamentos para atender a rivalidades só serve para acentuar as mesmas. E o que é válido para as piscinas exteriores (e pessoalmente sou favorável a uma solução do tipo Minas de São Domingos ou Mangualde) é válido para os campos de futebol.

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Paulo Rangel, um dos eurodeputados menos produtivos e que mais dinheiro aufere por atividades de advocacia paralelas à vida política, e que detém um discurso amplamente populista, resolveu trazer a público, em jeito de campanha, as familiaridades no governo do PS. Os dados não são novos nem sequer pioneiros na política nacional. Ainda assim, não são positivos. Existem vários fatores que explicam este excesso populacional de familiares no governo. Um deles é a forma como as teias de relações afetivas são constituídas ao longo do percurso político. Os amores dos tempos de Jota são uma realidade sociológica evidente. Segundo, a maioria dos políticos movem-se em esferas sociais fechadas e de baixa densidade humana, sendo comum que ali construam afetividades. Tratam-se de clusters sociais de elevada qualificação que se reproduzem internamente. Nesses termos, o fechamento social que se produz é imenso, particularmente numa carreira, a política, onde a capacidade e a disponibilidade para a pluralidade é, ainda, reduzida. Por ora, os partidos políticos têm dificuldade em representar a diversidade social do país, mantendo uma espécie de dimensão burguesa que se perpetua e reproduz internamente. Nesse contexto, seria importante que à margem da competência fosse levada em consideração a perceção popular das nomeações. Num país que, ainda assim, já possui um número elevado de pessoas qualificadas, seria vantajoso mostrar que a competência é reconhecida em todos os quadrantes e que há possibilidade democrática de ascensão. A concentração de nomeações em teias reduzidas de relações é nefasta tanto para a imagem dos partidos quanto para a saúde da Democracia.

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Tendo por base um estudo do ministro da Educação, Jair Bolsonaro afirma que as crianças apoiadas pelo Estado são menos desenvolvidas intelectualmente. Ao que parece o estudo não existe, sendo, apenas, uma metáfora para dar um ar de acuidade a uma opinião. Ora, se é verdade que o ensino público padece de vários problemas, também é verdade que as famílias apoiadas geraram uma nova classe média brasileira e uma nova geração intelectual oriunda de famílias de baixa renda, como é o caso da nova geração intelectual negra. Por outro lado, o ensino privado não garante, necessariamente, o desenvolvimento intelectual se o ambiente familiar for limitado. Basta ver que ele olhe para dentro de sua casa. 

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