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A Morada dos Dias

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

04
Jun20

O fardo de Floyd foi não ter farda

A propósito do homicídio de George Floyd, escreve André Ventura no Twitter que com ele ofender polícias vai-se acabar. Isto do nós contra eles é uma maravilha. E eu a pensar que a polícia era um dos garantes da dignidade dos cidadãos. Não que discorde da necessidade de respeito pelas forças de segurança, bem como do reforço de meios e condições, mas será que o candidato-a-tudo também pretende acabar com a corrupção, crime e violência policiais ou o seu propósito é instaurar um estado policial onde as forças de segurança pública sejam inimputáveis? Onde é que já vimos isto?

04
Jun20

Da Auto-Estereotipização

O antropólogo português Miguel Vale de Almeida, escreveu há uns tempos, no seu blogue, um interessante texto sobre estereotipizações e a forma com estas podem ser auto-induzidas. A forma como os estereótipos organizam o todo social e delimitam fronteiras de conforto, é tema amplamente conhecido. A psicologia social, enquanto fenómeno, particularmente nas áreas urbanas, mas ainda assim nas áreas rurais, tem nas suas avenidas mentais um conjunto de estereótipos que servem para traças as fronteiras e os padrões de um coletivo plural. Os estereótipos, frutos das alteridades permanentes, são simultaneamente produto e produtores de sociedade.

Se as ciências sociais reconhecem os estereótipos como um fenómeno de longue durée, não é menos inesperado que a literatura esteja cheia destes modelos sociais. A grande obra de Jorge Amado viveu em torno desses papéis socialmente adquiridos e modelados. Em Jubiabá António Balduíno representa o negro malandro, sambista, que leva as "cabrochas" na sua cantiga, a título de exemplo de personagem como fator psicossocial.

O que é mais curioso do que a fundação das sociedades em torno destes tipos comportamentais é a apropriação do modelo por parte desses mesmos grupos. No espaço sociocultural afro-brasileiro, a figura do "malandro" encontra-se amplamente difundida e apropriada. Trata-se de um estereótipo construído de fora e amplificado e cristalizado no interior do seu locus de validação. No imaginário umbandista (religião brasileira por excelência), os Exús como Zé Pelintra, Bom Malandro, et. al., representam a valorização desses estereótipos.

É por isso curioso que MVA fale num estereótipo gay construído de dentro para fora. O capital cultural de um segmento social também se constrói por si e para os outros. A afirmação do Candomblé como «religião de resistência» e menos como «de adaptação» constitui precisamente um exemplo de auto-estereotipização. Dessa perspetiva, tal exercício representa um atuação política, uma ferramenta de auto-ressignificação.

30
Mai20

Minneapolis

Apesar de compreender e solidarizar-me com a raiva e a saturação face à impunidade, à injustiça e ao racismo estrutural, não acredito em ganhos reais pela via da destruição. Nenhuma luta se ganha sem um apoio generalizado. É preciso, infelizmente, convocar continuamente as consciências públicas. Ganhar a simpatia, mesmo em causas que deveriam ser por si mesmas. A lógica é simples - se a sua propriedade estiver ameaçada no meio de uma luta, mesmo que legítima, as pessoas não darão o seu apoio, mas acabarão por estar ao lado do status quo, não por pactuarem com as marginalidades que esse estado de situação representa, mas porque são lesadas pela reivindicação. É preciso compreender isso, também. Uma greve é eficaz pelo efeito económico da paralisação, não quando se acompanha de destruição. Trabalhadores que destroem uma fábrica para onde querem voltar com melhores salários, que ganho têm com isso?
Por isso, acredito na tomada da rua de forma pacífica. Acredito que um movimento de paralisação da comunidade afrodescendente nos EUA traria efeitos económicos devastadores superiores à destruição de propriedade. Acredito num ganho maior pela tomada da rua de forma silenciosa, se em cada espaço de poder e justiça (tribunais, câmaras municipais, etc) permanecessem grupos acampados, se atletas afrodescendentes se recusassem a jogar, se juízes negros se recusassem julgar, e gestos similares tivessem lugar. Em pouco tempo não afrodescendentes adeririam à luta. Uma luta que é feita em nome da justiça, da democracia.

26
Mai20

Micropost [45] Ventura e a Rixa

Nas redes sociais André Ventura aproveita uma rixa envolvendo indivíduos ciganos para fazer política, afirmando que não quer contribuir com os seus impostos para esta comunidade. O deslize discursivo óbvio. Se A então B. Não há contexto, só apropriação de atos com fins racistas. Na dúvida sobre a intenção de Ventura, pense: porque uma rixa de ciganos merece um comentário político e uma rixa entre vizinhos por causa de um pedaço de terra não? Porque há um caldo racial que convém aproveitar. Já agora, nós também pagamos o salário do Sr. Deputado e pagámos o seu doutoramento na Irlanda, com os nossos impostos. Chama-se Democracia, senhor.

25
Mai20

Micropost [44] O país COVIDizer

O desconfinamento levou os portugueses a considerarem o vírus um sonho mau do qual se acordou. Povo valente e munido de uma ignorância triunfante, enfrenta o calor em apinhamentos, porque isso da distância social e dos cuidados de higiene é chão que já deu uvas, uma mariquice lisboeta. Quando vier o caos dos seus atos não terão espelho em casa. Apontarão o dedo ao governo e benzendo-se sem fé votarão no messias que a poeira do Estado Novo pariu.

11
Mai20

Micropost [43] Efeito Desconfinamento

Aumento do contágio e, assim, do número de casos. Como havia escrito, deu-se o relaxamento e a confusão entre desconfinamento e fim do vírus. Por aí tem-se visto pessoas a circularem sem máscaras, sem qualquer cuidado, e ajuntamentos vários. Vamos voltar ao confinamento obrigatório e com isso aumentar os efeitos devastadores na economia. Não se esqueçam da responsabilidade que tiveram nisso quando apontarem o dedo ao governo e pegarem na bandeira populista dos Venturas.

 
 
 
 
 
 
 
 
06
Mai20

Micropost [42] Bolsonaro

Um ignorante num lugar decisório sente-se sempre ameaçado por todos. Não sabendo como se manter e legitimar de forma democrática, ataca em todas as frentes com ofensas à dignidade alheia e ameaças às instituições democráticas. Qualquer não-alinhado é um perigo na sua paranóia. Todos os traços de personalidade autocrática estão evidentes. Na linha histórica da pessoalização do poder sul-americana, Bolsonaro espera a oportunidade para fechar o Congresso e o STF e cumprir o sonho de restaurar a ditadura militar. Ainda na segunda-feira recebeu, no Planalto, um dos homens fortes do regime militar.

24
Abr20

Micropost [41] Infetados políticos

Inflação e aumento exponencial do desemprego é uma realidade em grande parte dos países. Portugal mantém-se, para já, numa situação controlada. É, portanto, incompreensível os ataques ao governo. Da parte de determinados políticos é expectável, tal o ímpeto populista. Da parte dos empresários também, pois em tempos de crise o biberão do Estado calha sempre bem. Da parte dos cidadãos, particularmente em determinados termos pouco lúcidos, é sinal de que o confinamento já está a gerar efeitos psicológicos, levando as pessoas a acreditarem em soluções não democráticas. Desconfiança e medo sempre parem autoritarismos. 

24
Abr20

Micropost [40]

Quando olhamos os números de casos e mortes por Covid-19 em Portugal tendemos a fazê-lo em termos absolutos. Mas é preciso colocar na balança a população portuguesa quando comparada com Espanha. 10 milhões contra quase 47. Nessa equação realista os números não são tão simpáticos.

17
Abr20

O vírus do estigma saiu à rua, novamente

Somos confrontados com as mensagens deixadas a profissionais de saúde e de superfícies comerciais pelos seus vizinhos, pedindo que encontrem outro lugar para morar. Sim, de facto, há uma questão sanitária neste assunto, mas não é apenas a do vírus, é a da decência. A partir da ótica do medo e do estigma, toda esta situação é excessivamente similar com a dos negros em bairros de classe média e alta dos EUA, ou com os judeus na antecâmara do nazismo. Todos eram pessoas indesejáveis, vista como transportando com elas uma toxicidade qualquer, um vírus que infectaria os lugares onde moravam.

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