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Dias Assim

Chega a todo o lado

Janeiro 24, 2022

João Ferreira Dias

/ CHEGA A TODO O LADO /

Em Benavente o material de campanha do Chega domina a paisagem. Mostra-nos o empenho na eleição de um deputado pelo círculo eleitoral de Santarém. Mas também revela uma estratégia de enraizamento bem conseguida, ao enforcar em dimensões sociológicas relevantes no Concelho: (i) o número elevado de jovens com uma elevada taxa de insucesso escolar e, com ela, de insegurança e precariedade laboral, (ii) o apego a tauromaquia como património cultural mais profundo. Estes dados operam em conjunto, produzindo uma sensação de identidade contrastativa com a urbanidade anti-rural que a Assembleia da República representaria. Um sentimento de "deixados para trás" facilmente mobilizado por discursos de combate cultural e de divisão da sociedade. A inexistência política do CDS e a imagem sistémica da CDU ajudam ao enraizamento do partido. A conjugação de sentimentos e elementos enunciados será determinante na votação expressiva que creio que o partido irá obter no círculo de Santarém.

(obrigado à equipa de blogs do sapo pelo destaque)

Para "Chicão", a universidade tem de ser monogâmica

Janeiro 21, 2022

João Ferreira Dias

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O líder do CDS manifestou-se contra um evento a ter lugar na Universidade de Coimbra que debaterá as relações não-monogâmicas, afirmando ser "uma afronta a todos os portugueses". Francisco Rodrigues dos Santos, "Chicão", adota uma estratégia de alocamento do partido à direita, apresentando-se como partido conservador. Acho que faz muito bem, porque é um espaço que, de outro modo, seria ocupado pelo Chega, um partido mais da nova direita, liberal-conservadora, apostada na representação da «racialized left-behind white working-class», ao mesmo tempo que assegura interesses económicos do mercado neoliberal.

Esta estratégia de FRS já vai um pouco tarde, parecendo um esforço de última hora de reforço do PP em detrimento do centrismo do CDS. No mais, a frase do líder do democrata-cristão tem o mérito de não falar em "portugueses de bem", não deixando de ser, claro, parte de uma política identitária como qualquer outra, a que acresce uma política de cancelamento da universidade como espaço de reflexão e debate.

direita mariquinhas

Janeiro 20, 2022

João Ferreira Dias

"Direita mariquinhas"

é um conceito que poderá entrar no léxico político à Direita. Concebido a partir de um quadro cultural machista, o termo qualifica a ausência de qualificativos masculinos. Na política, parece invocar a ideia de falta de coragem e uma conivência com valores civilizacionais inerentes ao Estado de Direito democrático. A contrario teríamos, portanto, a direita musculada, em nome da ordem e da moral da primeira metade do século XX.

Da Mitologia

Janeiro 20, 2022

João Ferreira Dias

{ DA MITOLOGIA } Já ouvi a questão "como pode um pobre votar IL?". É simples. Desde a Revolução Francesa que se instituiu a crença de que só o mérito chega para se atingir determinado nível de sucesso e, graças ao primado republicano, a crença de que qualquer cidadão pode chegar a deputado do país ou a titular de outro órgão de soberania.

Ideologia, Teoria, e outra alegoria de Género

Janeiro 10, 2022

João Ferreira Dias

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Há uma Associação que avança com uma ação judicial contra o Estado, em matéria de política educativa, tendo por matéria a chamada «ideologia de género» (link). Não tenho problemas nem entusiasmos com a questão da identidade de género (v.g. não escrevo "querides"). Em primeiro lugar porque não me preocupa a forma com cada um se dentifica. Em segundo lugar porque questões de identidade são do foro da Psicologia, pelo que não tenho pareceres a dar. Sei, contudo, que a própria disciplina é mutável, passando de uma interpretação conservadora de enquadramento como "disforia de género" para uma visão progressista de aceitação de múltiplas formas de identificação. Sei de estudos culturais que, por exemplo, os Yorùbá da África Ocidental constroem a identidade de género a partir de fatores ligados à senioridade e às interações de parentesco muito mais do que à biologia.

Portanto, o apresentado como argumento pela referida associação padece de dois vícios interligados, (i) confunde ensino com doutrinação, numa lógica muito própria dos combates culturais em curso, incluindo a ideia de que a escola não deve ensinar que a terra é redonda, (ii) desconsidera que ensinar que o género se constrói tendo em conta a biologia, ou que a única sexualidade legítima é a heterossexual, é também uma ideologia e uma agenda identitária.

O tal debate

Janeiro 04, 2022

João Ferreira Dias

/ O TAL DEBATE / Ventura venceu o debate. É um terreno que lhe é favorável, porque funciona na lógica do soundbite, conseguindo, ainda, passar uma imagem de razoabilidade e serenidade. Rui Rio perdeu porque não foi capaz de trazer ao debate os pontos desfavoráveis a Ventura (o Chega não existe) obrigando-o a concretizar que regime deseja e o que entende por moralização da sociedade, forçando-o a assumir uma posição anti-liberal e anti-plural. Acabou por se tornar numa apresentação de Ventura como coligável — algo que parece evidente que ele deseja muito mais do que assegurar qualquer agenda — e num ataque a Rui Rio como candidato a vice-primeiro-ministro.

O Fim da PAF (?)

Dezembro 08, 2021

João Ferreira Dias

O Fim da PAF(?)

Não haverá acordo pré-eleitoral entre o PSD e o CDS, dissolvendo, ao que parece e até ver, a PAF. A mais-valia da decisão não é consensual, nem poderia ser, na medida em que em política  prognósticos certos, como diria João Pinto, só no final do jogo. Antecipar leituras e comportamentos eleitorais é sempre um jogo de saltos para um vazio de hipóteses que pode transformar a relação entre dados e factos dissonante. No caso concreto, ao PSD de Rui Rio apresentavam-se dois caminhos: coligar-se com o CDS dando-lhe um balão de oxigénio preventivo e garantindo a sobrevivência do histórico partido de direita, não deixando o eleitorado conservador à solta e às mãos do Chega ou assumir que o CDS estará eleitoralmente morto, que a coligação seria um favor para garantir um lugar parlamentar para Francisco Rodrigues dos Santos, um líder sem legitimidade interna, e que cabe ao CDS sobreviver sozinho e provar que tem valor político para uma coligação pós-eleitoral. Rui Rio optou pela segunda. Resta ao CDS sobreviver e agregar os eleitores católicos, conservadores e menos dados às nostalgias autoritárias. 

 

O Covid Constitucional Alemão

Dezembro 02, 2021

João Ferreira Dias

O Covid Constitucional Alemão

A Alemanha deverá tornar a vacinação contra a covid-19 obrigatória. Quem ainda não está vacinado deixará de poder frequentar todo o comércio não essencial. Não podemos deixar de olhar para esta notícia com a maior das reservas, pelas implicações constitucionais e de direitos humanos/fundamentais que acarretam. É evidente que a compressão de direitos tem uma dimensão transitória que visa a salvaguarda de outros direitos e da comunidade como um todo. No entanto, convém ter presente que esta situação pode traduzir-se num perigosíssimo precedente. Quando olhamos para a história temos dados que nos mostram que figuras jurídicas como “estado de emergência” e análogos foram usados para garantir a suspensão indeterminada de direitos e a salvaguarda de regimes autoritários. Portanto, é preciso ter em atenção até onde se vai e o que efeitos para o futuro pode daí resultar. Se estamos a falar de suspensão temporária e que afeta atividades de lazer em espaços fechados ou de grande aglomeração, é uma coisa. Outra bem diferente é começar a estender a espaços essenciais e à circulação.

 

Rio

Novembro 29, 2021

João Ferreira Dias

Rio

É sabido que Rui Rio não tinha consigo o aparelho do partido, captado por Paulo Rangel em boa medida em razão da forte presença da corrente passista. Corrente que, aliás, estava bem presente no núcleo próximo a Rangel. Rui Rio sempre se bateu por ser um político antissistémico (narrativa em voga no Ocidente) no que ao partido diz respeito. Não ter a máquina partidária com ele era sinal de independência. Talvez crentes no aparelho «laranja», muitos históricos militantes acreditavam na vitória de Rangel. Em boa parte ansiosos pelo regresso do modelo passista de governação além da troika, com um programa ultraliberal económico, apostado no empobrecimento generalizado e recuo do Estado Social. No embalo do óleo dessa máquina política, Rangel apostou num discurso de campanha rumo à vitória. Não chegou. E não chegou porque os militantes livres do aparelho sabem que o PSD dificilmente vencerá as eleições legislativas, mas querem que o partido tenha influência na governação. Por outras palavras: Rui Rio, ao afirmar que viabilizaria um governo do PS, tornou-se mais fiável para influenciar a política socialista de António Costa, num acordo de cedências, permitindo um equilíbrio ao «centro», absolutamente necessário num contexto de radicalização política e instabilidade económica, social e pandémica. 

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Dias Assim é um blogue de João Ferreira Dias, escrito segundo o Acordo Ortográfico, de publicação avulsa e temática livre. Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.

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