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A Morada dos Dias

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

Micropost [50] | Poder, a quanto obrigas

Agosto 08, 2020

A disponibilidade de Miguel Albuquerque para dialogar com o Chega, depois de Rui Rio, diz mais do Estado de espírito do PSD do que sobre uma estratégia da Direita para formar um bloco. O que se passa, verdadeiramente, é que o PSD temendo não chegar ao poder e vendo o PS mais próximo de reavivar a geringonça, sentiu o chão fugir-lhe e, assim, opta por vender a alma ao ar do tempo ao invés de ser o bastião democrata à direita. Poder, a quanto obrigas.

Micropost [49] | A tal vacina

Agosto 08, 2020

Segundo um estudo da Nova Business School, 70% dos portugueses estão “completamente confiantes” de que a vacina contra a covid-19 será segura. Sendo um vírus e não uma bactéria, é preciso ter presente o comportamento mutante dos mesmos. Sabemos que existe vacina para a gripe, mas a sua eficácia é residual, porque o vírus adapta-se ao ecossistema, mudando nos sujeitos e de ano para ano. É mais viável esperar que a imunidade aumente e o vírus se torne menos letal, do que acreditar na eficácia absoluta da vacina, ainda para mais sabendo que o covid-19 já apresenta variações.

A Encruzilhada do CDS

Agosto 07, 2020

Pedro Borges de Lemos, líder da corrente não formalizada do CDS, "CDS XXI", desfiliou-se do partido e mostra-se disponível para integrar o Chega. A notícia permite duas leituras justapostas: por um lado, é prova de que o CDS albergava muitos indivíduos com um pensamento pouco dado à democracia, herdeiro das elites conservadoras do Estado Novo, e que o surgimento do Chega tornou-se fator de cisão dentro do partido classicamente definido como "democrata-cristão"; por outro, esta situação poderia representar uma oportunidade de recentrar o partido, recuperando a sua feição democrática e de identidade forte, ao invés de se avizinhar como sintoma de fim de vida do partido. Mas para que este momento fosse, efetivamente, uma oportunidade política para o CDS, era preciso uma liderança experiente e forte. Ora, Francisco Rodrigues dos Santos, vulgo "chicão", é um erro de casting, uma ilusão de jovialidade besuntada com populismo a la Ventura e muita manteiga bolsonarista. O CDS que foi um partido vital na democracia portuguesa arrisca-se a desaparecer nos escombros de uma associação de estudantes. Chiquitito I tell you, you're what's wrong

Em desalinho com Ana Sá Lopes

Agosto 06, 2020

No editorial do Público, escreve Ana Sá Lopes que "O improvável Joe Biden será, ao que tudo indica, o próximo Presidente dos Estados Unidos da América". Tenho pouca simpatia pelos wishful thinkings na análise política. Por vezes demais este tipo de raciocínio descambou em prognósticos desligados da realidade. Um deles foi, precisamente, o das eleições norte-americanas, quando ninguém dava a vitória de Trump como possível. É o problema de se pensar o mundo a partir do «lugar de fala» elitista - ele só existe na sua bolha e não tem aderência à realidade, muito mais multivocal. Recomenda-se prudência. Em primeiro lugar porque, como a jornalista pontua, Trump pretende adiar as eleições. Esta é uma estratégia, obviamente, que visa a perpetuação no poder pelo tempo que lhe for "democraticamente" impossível. Além disso, apesar dos efeitos económicos da covid-19, a verdade é que a América não pode ser pensada a partir dos Estados urbanos, mas antes precisa ser vista a partir da sua dimensão multipolarizada, uma vez que os Estados do midwest e do eleitorado "redneck" tende a reagir de forma agressiva em tempos de crise económica, voltando-se ainda mais para os seus valores ultraconservadores. Ora, Trump continua a ser a pessoa que melhor representa esse manual de valores que vão do racismo, ao ultranacionalismo, passando pelo machismo e pelo conservadorismo religioso. 

Quanto à possibilidade de Michelle Obama surgir como número 2 de Biden, compreendo os argumentos de Ana Sá Lopes, mas também aqui estou em desacordo, uma vez que a administração Obama foi, ainda, em tempo recente, e isso pode ser aproveitado por Trump. Além do mais, Michelle tem capital político e intelectual para surgir, numa futura eleição, como candidata presidencial, pelo que nesta fase estaria a esgotar tais recursos. Melhor seria um endorsement without commitment

A Montra do Império

Julho 24, 2020

A presença africana na cidade de Lisboa e outros lugares do país (segue de exemplo o Paço dos Negros da Ribeira de Muge) é marca inegável da História nacional, meticulosa e ideologicamente negada sob o compasso da memória coletiva racializada. Escravidão, irmandades negras, autos da Inquisição, profissões como vendedeiras, limpa-chaminés e tantas outras, são elementos que provam a marca africana na História portuguesa no seu próprio solo, pese todo o esforço de apagamento intencional dessa memória. A novidade da presença africana que a reportagem da SIC mencionou tem um viés temporal adstrito ao Estado Novo. Na cidade do Porto de então a presença de negros era uma raridade. Memórias familiares contam que se considerava sinal de bom presságio o avistamento de um negro na Invicta dos anos de 1950.
 
Portanto, no caso das exposições de negros, fenómeno comum na Europa de então, o elemento exótico da "raridade" era um ativo importante e real. A profunda marca do racismo, do determinismo racial e do evolucionismo estava impressa no espírito do tempo e nas gentes. Com uma população massivamente analfabeta, Portugal era um país racista (não por alteridade contrastativa, mas antes como gesto de rejeição do outro como produto histórico de longo-termo), cujos efeitos se estendem até hoje, aspeto a que o evento traumático da descolonização deu forte impulso.
 
Avaliar os eventos no seu tempo não é desculpabilizar os mesmos, mas oferecer uma base de análise, um ponto de partida para o debate tão urgente quanto atrasado. Assim, o exercício de combate desta ideologia racial precisa ser feito pela desconstrução e pelo debate histórico, não pela violência simbólica contra a sociedade portuguesa, fulanizando colectivamente o país, sem a esteira do contexto como aspeto de avaliação. Uma avaliação necessariamente crítica e dolorosa da História, das memórias e das narrativas que o país conta a si mesmo.

Rita Rato

Julho 13, 2020

A polémica escolha de Rita Rato, deputada comunista, para dirigir o Museu do Aljube leva-nos a uma encruzilhada que marca a vida pública nacional. Ali confluem escolhas políticas, o que no Brasil se designa por QI (quem indica), competência, estratégia e o sempre problemático concurso público como mera metáfora para procedimentos turvos feitos ad hominem. O EGEAC justifica a escolha de Rita Rato com o facto da deputada ter defendido "uma visão integrada para o Museu do Aljube, incluindo uma proposta de programação relacionada com temáticas de liberdades contemporâneas, como as questões de género ou a inclusão social, e destacou-se numa segunda ronda de entrevistas nessa abordagem múltipla”. As razões parecem-me razoáveis e justificadas. A questão que falta saber é se Rita Rato teria tido esta oportunidade se não fosse deputada, uma vez que a priori não correspondia aos critérios definidos para a escolha da nova direção.

Interações [1]

Julho 10, 2020

Concordo com este post e acrescento uma preocupação: na aplicação dos fundos europeus, fazendo face tanto à necessidade de reformas de fundo (chamadas de estruturais) quanto aos efeitos económicos decorrentes da pandemia, é absolutamente vital um escrutínio à gestão, aplicação e distribuição das verbas, para que não se repita o regabofe da era Cavaco Silva, quando os fundos europeus serviram para os amigos e terceiros modernizarem a frota automóvel, construírem piscinas, e tudo o mais menos uma verdadeira aposta na capacitação empresarial. 

O Covid de Bolsonaro

Julho 08, 2020

Depois de se ter recusado a apresentar resultados de testes, eis que o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, vem a público admitir ter testado positivo para Covid-19. Uma decisão oportuna -- e não menos suspeita -- que a dois tempos resolve os seus problemas imediatos relacionados à pandemia: 1) reforça a tese de "gripezinha", o que permite manter o incentivo à política de laissez faire social diante do problema de elevado contágio, 2) promove a hidroxicloroquina (porque não tendo o vírus apresenta o medicamento desacreditado como solução). Com isto adquire capital político porque reforça a sua imagem de herói diante da pandemia, aquele que sobreviveu ao (pretenso) atentando à sua vida e ainda à pandemia. Numa era de esvaziamento das ideias políticas, segue a sanfona presidencial. "Toca Wilson". 

Lendo Blogs [8]

Julho 04, 2020

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A Morada dos Dias é um blogue de João Ferreira Dias, escrito segundo o Acordo Ortográfico, de publicação avulsa e temática livre. Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.