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Dias Assim

13
Abr21

Os erros ortográficos são uma forma de inclusão?

As desigualdades nas condições de partida são um problema nas condições de chegada em matéria escolar, ou seja, quem parte em vantagem económica e social tem maior probabilidade de obter sucesso. Empresas e universidades precisam ter isso em conta, adotando políticas inclusivas de correção de assimetrias. Uma das estratégias é a das quotas raciais, para migrantes e estrangeiros, com base nas capacidades destes. Agora, aceitar os erros ortográficos e afirmar uma condição de absoluta de machismo, elitismo e racialidade na qualidade da escrita não é apenas desrespeitoso para quem partindo de condições menos favoráveis consegue apresentar bons ou excelentes resultados, como uma via abertura para tornar a universidade numa fábrica de produção de licenciados. À medida que cresce a gramática do autoritarismo cresce a gramática da euforia da nouvelle gauche burguesa autoculposa.

13
Abr21

A direita má não existiu, porque dela é o reino dos céus

Tirando o Salazarismo que foi de direita porque foi um regime "bom", no quadro do romance com a memória histórica, não houve regimes de direita. O alinhamento retrospectivo do fascismo e do nazismo, em torno do socialismo, é muito interessante. Enquanto regimes autoritários e totalitários, baseados numa identidade nacional unívoca e num fenómeno racial, eram, por inerência, nacionalistas-conservadores. O erro é supor que os movimentos operários não tinham uma dimensão nacionalista e conservadora. Basta ver o operariado católico, um movimento operário conservador, embora humanista. Acresce, v.g., a dimensão de agregação do descontentamento popular que esteve na base do nazismo, um trauma com a memória histórica e o encontro de um inimigo. Sinais próprios do totalitarismo. Transformar esses elementos identificadores de um regime não democrático de direita em sinais de um regime não democrático de esquerda é um primeiro passo para normalizar os movimentos populistas da dita "nova direita" em crescimento na Europa. O comunismo, esse sim regime totalitário de esquerda, tinha uma matriz social e económica de supressão de classes. Naturalmente que na condição de extremismos existem pontos de contacto, mas a reescrita da história é um perigo que se propaga como um vírus. É o apelo judaico da "pureza" aplicada à ideologia política - só é de Direita o regime e a forma de governo que for perfeito. Imagino que o Chega seja o caminho, a verdade e a vida. Começo a ter saudades de Paulo Portas e do CDS-PP pré-paliativo. 

11
Abr21

Micropost [76]

Suzana Garcia, na sua entrevista ao expresso, fala na distribuição indevida do RSI e na consequente necessidade de mecanismos de controlo. Não obstante a veracidade desse facto, o RSI tornou-se tema político porque as pessoas estão mais preocupadas com a distribuição das migalhas entre si, do que com as imoralidades com cobertura legal. Na Amadora, onde ela irá concorrer, Suzana Garcia sabe que o discurso Venturista do "eles" e "nós" apela a um eleitorado concreto e alargado, num município que é um laboratório de convivência e tensão étnica. Com uma estratégia próxima à do Chega, mas livre da conotação negativa daquele partido, Suzana Garcia tentará conquistar a Câmara ao PS, no que seria uma vitória de Rui Rio, mas uma derrota para a contenção do apelo populista.

07
Abr21

O covid do nosso descontentamento

Estou em crer que o teste ao sucesso do desconfinamento será avaliado já nos próximos dias, tendo por referência a abertura das esplanadas. Não são as esplanadas em si, nem os comportamentos individuais, mas o aumento do "erro" natural, derivado da circulação de pessoas, que potencia a infeção, seja nas mesas, seja nos talheres, seja nos menus, seja nas torneiras, cadeiras ou o que for. Por não estar fechado num apartamento não precisei recorrer à esplanada para sentir o sol, ou o prazer mundano do dolce fare niente, pelo que compreendo a afluência às mesmas que se verificou. Não se pode é fingir que não haja um risco de propagação do vírus em decorrência desse fenómeno de abertura. Para já temos 663 infecções em 24h. Se há relação direta? Eventualmente ainda não. Aguardemos, sem desconsiderar as hipóteses.

07
Abr21

Rio Seco

Quando Rui Rio assumiu a liderança do PSD e prometeu recentrar o partido, procurando recuperar a herança Social-democrata tendencialmente de Esquerda do mesmo, sentiu-se um novo aroma, após o «passismo» — um período de bancarrota do país, mas marcado pela ideologia ultraliberal da privatização at large, pela crença na culpa dos cidadãos, e pelo esforço por construir uma narrativa hedionda do PS* —, que foi sendo de curta duração, à medida que o Rui Rio ia manifestando desprezo pela independência do judiciário e pela liberdade de imprensa. Chegámos ao período de preparação das eleições autárquicas e Rui Rio não foi capaz de evitar a deriva populista, confirmando Suzana Garcia como cabeça de lista à Amadora e o apoio a Isaltino Morais a Oeiras. No desespero para reivindicar vitórias, Rio abriu mão da salvaguarda da imagem do partido. Imagino José Eduardo Martins agarrado ao estômago.
 
* é inegável a má gestão de José Sócrates, mas convém ter presente que o ex-primeiro-ministro atravessou duas ideologias na Europa, primeiro o incentivo ao endividamento e despesismo do Estado, depois a inversa. E, por fim, como Porfírio Silva recorda, na sua conta no Facebook, o CDS e o PSD forçaram um memorando de entendimento de resgate danoso para a imagem do governo cessante.
06
Abr21

A "raspadinha" e a dependência

Como muito bem elenca Daniel Oliveira, 80% dos viciados em "raspadinhas" advêm das classes mais baixas da sociedade portuguesa, sendo um vício sem conotação social negativa, invisível e carente de regulamento de inibição. Esta situação deixa os mais vulneráveis economicamente e dependentes de um vício com a fatura de contribuir para o financiamento do património. No entanto, esta abordagem parece-me excessivamente paternalista -- um paternalismo de esquerda, de quem vestindo a casaca de operário, mas com estilo de vida de classe média, finge ser operário -- e enviesada pelo efeito tributário associado ao mesmo, revestindo o Estado de uma imagem de Sheriff de Nottingham. Se olharmos para o lado, para outro fenómeno de vício, o tabaco, percebemos também que este é, sobretudo, consumido pelas classes mais baixas da sociedade. O mesmo se aplica ao consumo de vinho de forma dependente, sobretudo por homens acima dos 50 anos e de condição económica e social vulnerável. Não sendo, no cômputo geral, exatamente os mesmos sujeitos, são, todavia, parte dos mesmos escalões económico-sociais. Ora, parece-me que a preocupação com a "raspadinha" vem revestida de um excesso de zelo, zelo que falta, portanto, em matéria de consumo de tabaco e de álcool, aos quais poderíamos acrescentar os casinos online, de fácil acesso e geradores de elevada dependência. Das duas uma: ou educamos toda a população para os riscos do álcool, do tabaco, dos vários tipos de jogos, etc., fomentando uma política social de combate às dependências, tratando-as de modo igual, ou deixamos a situação nos alertas mínimos e na máxima liberdade dos sujeitos, sem um regime de zelo face uma dependência de entre as várias que afetam as mesmas populações. De contrário estamos a dizer que a "raspadinha" é mais nociva que o álcool ou o tabaco. Ou de outra forma, que estamos mais preocupados com a utilização de um imposto para fins socialmente úteis, do que com a indústria do tabaco e do álcool, muitas vezes com uma imagem socialmente mais favorável, em virtude de um culto hodierno do vinho. 

Também em podcast

06
Abr21

Micropost [75]

Aquilo que chamam Nova Direita caracteriza-se por ser ultranacionalista, securitária, populista (no sentido em que galvaniza um descontentamento das massas desprotegidas com um discurso conservador de costumes e de combate) e ultraliberal em matéria económica. Tirando este último elemento, em que difere da velha Direita que chegou ao poder há 100 anos?

31
Mar21

Lendo Blogs [9]

Não poderia estar mais de acordo com este post, de Ana Branco. O chão comum do Estado de Direito democrático vai sumindo debaixo dos nossos pés e a sociedade vai polarizando-se numa luta nova, entre uma esquerda que se radicalizou no elitismo-burguês, ao estilo de uma parte da esquerda brasileira, e uma direita cada vez mais trumpizada, arreigada à memória nacionalista herdada do Estado Novo. Nada de bom emerge quando os campos opostos deixam de ter um meio-termo que os equilibre. 

31
Mar21

Suzana Garcia e a atividade política

A escolha de Suzana Garcia, advogada e ex-comentadora televisiva, como cabeça-de-lista à Câmara da Amadora pelo PSD está nas mãos de Rui Rio. É, pois, o líder do partido quem irá dar o aval ou rejeitar a proposta do nome. Mas quer seja aceite ou não, esta escolha, mesmo que provisória, permite um debate sobre o perfil e a atividade política. Enquanto reflexo do primado da representação social, tendo presente que o Estado de Direito democrático republicano que nos rege é representativo por via parlamentar, e que deve refletir, da melhor forma possível, a sociedade sem pretender ser um reflexo proporcional desta, o perfil de um ator político deve ser plural, i.e., devemos falar em perfis e não em perfil. Mas a isto não obsta que se defenda a posse de um conjunto de características-base para o desempenho de cargos de natureza política, como o respeito pela dignidade humana e pelos direitos fundamentais, o respeito pelo texto constitucional, o respeito pelo Estado de Direito, o respeito pelo contraditório, o respeito pelo adversário político, o respeito pela coisa pública. O problema é que vamos notando que tais traços elementares de convivência social e participação política nunca foram totalmente reais e cada vez são menos validados e inquestionavelmente aceites. Percebemos que o "ar do tempo" é populista, é o do espetáculo, onde o politicamente incorreto opera como valor superior, travestido de «voz do povo» e de «verdade». Ora, isto não significa que uma pessoa com atividade pública na televisão, nas artes, no desporto ou outras, não possa, por princípio, participar da vida política ou concorrer a cargos públicos. Isso seria, obviamente, uma violação do princípio constitucional do acesso à vida política (art.º 48.º/1, CRP). O que está aqui em causa é que Suzana Garcia construiu uma imagem pública sensacionalista, populista, marcada por conflitos e pronunciamentos pouco corretos, imagem essa que parece pouco condicente com o que o PSD deveria desejar para encabeçar uma lista. O momento é, também, particularmente importante, uma vez que caso se confirme esta escolha, o PSD acabará por assumir que entrou numa deriva populista como estratégia para firmar as suas fronteiras com o Chega. Ora, se Rui Rio defendia que o PSD era um partido de esquerda moderada, não se percebe esta preocupação com a direita nacionalista e securitária. Por outro lado, mostra que a Amadora é um tubo de ensaio político. Não é por acaso que José Eduardo Martins fala no dia das mentiras para se referir a esta possível escolha. 

Cólofon

Dias Assim é um blogue de João Ferreira Dias, escrito segundo o Acordo Ortográfico, de publicação avulsa e temática livre. Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.

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