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A Morada dos Dias

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

Micropost [46] | Estátua Pátria

Junho 14, 2020

As estátuas têm, sempre, um viés ideológico, ajudando a construir a memória coletiva como fator de identidade nacional. Tratam-se de exaltações de personagens que ajudam a compor e que são concordantes com a narrativa pátria. São selecionadas pelos seus significados políticos e simbólicos, seja pela valorização de uma moral, seja pelo reforço de determinados valores que se visam exaltar como intrínsecos nacionais. Porque o patriotismo é um recurso que permite consolidar a união territorial e social.

A Estátua

Junho 13, 2020

Parece-me que entrámos, definitivamente, na reprodução dos confrontos vigentes no Brasil, onde não há possibilidade para o bom-senso e o equilíbrio. Ou se está de um lado da barricada ou do outro. Isto está refletido neste debate em torno da estatuária, onde encontramos a glorificação absoluta dos símbolos pátrios, sem qualquer sentido crítico, apenas pela exaltação da memória nacionalista, e do outro lado a rejeição do direito aos símbolos nacionais, como se um país fosse somente uma sociedade emergida do contrato social, sem uma história e uma identidade.
 
Neste jogo de surdos, faz-se um julgamento da história a partir dos padrões coevos, como se cada época não tivesse o seu próprio contexto e à luz do qual é honesto avaliar as atitudes. Isto não significa, contudo, desculpabilizar as atrocidades da escravatura e do colonialismo, simplesmente porque o comércio de escravos era "normal", até porque não se aplica, felizmente, a mesma receia ao nazismo.
 
Posto isto, no caso da estátua do Pe. António Vieira parece-me evidente que a mesma invoca e glorifica uma figura com várias esquinas, que balanceou entre o humanismo e o salvacionismo colonialista. Acresce que a estátua comporta toda uma ideologia nacionalista do "bom colonizador", com os índios aos pés, agradecidos pelo homem que lhes "salvou a alma" da perdição "selvagem". Por isso, sim, enquanto património que reproduz uma ideologia ela é passível de crítica. No entanto, a vandalização da mesma não produz ganhos políticos. Mais simbólico seria cobri-las com um lençol branco, aludindo ao branqueamento do outro lado da história.
 
Concluindo, é devido o respeito ao direito aos símbolos nacionais, da mesma forma que é honesta uma consciência crítica da história, reconhecendo que do outro lado dos feitos marítimos houve a escravidão e destruição de culturas.

Um desserviço à Democracia

Junho 11, 2020

O Observador traz um fact check relativo a imagens em que Trump aparece a segurar a Bíblia da mesma forma que Hitler, como se o ponto fosse esse. Que triste mundo de infantilismo e fanatismos. De que serve à Democracia que radicais de Esquerda associem Trump a Hitler? O efeito é, sempre, o contrário, descredibilizando as condenações legítimas a Trump e reforçando a paranóia de vítima de perseguição. O ato de mandar dispersar uma manifestação pacífica para realizar uma caminhada triunfal e exibir uma Bíblia é, já de si, um momento horripilante e uma vilania para com a Democracia. Se isso por si só não chega para da Esquerda à Direita gerar indignação democrática então a Democracia está em coma induzido.

"Não há racismo em Portugal"

Junho 09, 2020

Ora, diz Rui Rio do seu lugar de fala racial. E diz ele e diz muita gente, porque o racismo estrutural (ou sistémico) é invisível, e assim, de tão profundamente enraizado na história e memória portuguesa, ganha a aura de inexistente. Agora vejamos, quantos deputados, docentes universitários, gestores de empresas, etc, são negros ou de outra classificação étnico-racial? Se perante esta questão responder que são praticamente inexistentes por serem inerentemente intelectualmente inferiores, então parabéns, é um racista e pode ir votar em consonância com isso. Se disser que tal decorre da falta de mérito, então vive na ilusão de que as circunstâncias de partida não influem na construção de oportunidades. É aí que reside o racismo estrutural, na reprodução de uma situação de marginalidade que impede a igual mobilidade social.

E as manifs, têm vírus?

Junho 07, 2020

Há muita gente revoltada com as manifestações antirracistas ocorridas ontem em Portugal. Uns porque julgam que o combate ao racismo é só um golpe político anti-trump (prováveis eleitores, portanto, de Ventura, que vivem na paranoia da espuma dos dias), outros por motivos de saúde pública. Estes últimos compreendo. Em parte. Em parte porque não vejo revolta contra os aglomerados nas praias, contra aqueles que desrespeitam as regras de distância social em período de desconfinamento. Há quem invoque as críticas endereçadas ao 1º de Maio para criticar estas manifestações, na lógica do "olha, agora já pode!?". Sim, agora já pode e não é pelo racismo, mas pelo desconfinamento. Com efeito, foram cometidos erros de cautela pública segundo as normas da DGS, não muito diferente das filas de supermercados em que não se respeita a distância, daquelas pessoas que usam máscara mas deixam o nariz destapado, ou das que não respeitam quaisquer medidas de segurança porque é uma "mariquice" de "alfacinhas", porque macho que é macho agarra o vírus pelos cornos. E, por favor, não digam que o que se passou nos EUA não teve nada que com Portugal. O racismo estrutural é uma realidade da maioria das sociedades ocidentais, porque é invisível e silencioso. Sim, poderíamos ter levado a cabo tais manifestações noutras ocasiões, mas vivemos o tempo das redes sociais, das trends, dos hashtags e das correntes. Porque só neste assunto haveríamos de não importar tendências?

O fardo de Floyd foi não ter farda

Junho 04, 2020

A propósito do homicídio de George Floyd, escreve André Ventura no Twitter que com ele ofender polícias vai-se acabar. Isto do nós contra eles é uma maravilha. E eu a pensar que a polícia era um dos garantes da dignidade dos cidadãos. Não que discorde da necessidade de respeito pelas forças de segurança, bem como do reforço de meios e condições, mas será que o candidato-a-tudo também pretende acabar com a corrupção, crime e violência policiais ou o seu propósito é instaurar um estado policial onde as forças de segurança pública sejam inimputáveis? Onde é que já vimos isto?

Da Auto-Estereotipização

Junho 04, 2020

O antropólogo português Miguel Vale de Almeida, escreveu há uns tempos, no seu blogue, um interessante texto sobre estereotipizações e a forma com estas podem ser auto-induzidas. A forma como os estereótipos organizam o todo social e delimitam fronteiras de conforto, é tema amplamente conhecido. A psicologia social, enquanto fenómeno, particularmente nas áreas urbanas, mas ainda assim nas áreas rurais, tem nas suas avenidas mentais um conjunto de estereótipos que servem para traças as fronteiras e os padrões de um coletivo plural. Os estereótipos, frutos das alteridades permanentes, são simultaneamente produto e produtores de sociedade.

Se as ciências sociais reconhecem os estereótipos como um fenómeno de longue durée, não é menos inesperado que a literatura esteja cheia destes modelos sociais. A grande obra de Jorge Amado viveu em torno desses papéis socialmente adquiridos e modelados. Em Jubiabá António Balduíno representa o negro malandro, sambista, que leva as "cabrochas" na sua cantiga, a título de exemplo de personagem como fator psicossocial.

O que é mais curioso do que a fundação das sociedades em torno destes tipos comportamentais é a apropriação do modelo por parte desses mesmos grupos. No espaço sociocultural afro-brasileiro, a figura do "malandro" encontra-se amplamente difundida e apropriada. Trata-se de um estereótipo construído de fora e amplificado e cristalizado no interior do seu locus de validação. No imaginário umbandista (religião brasileira por excelência), os Exús como Zé Pelintra, Bom Malandro, et. al., representam a valorização desses estereótipos.

É por isso curioso que MVA fale num estereótipo gay construído de dentro para fora. O capital cultural de um segmento social também se constrói por si e para os outros. A afirmação do Candomblé como «religião de resistência» e menos como «de adaptação» constitui precisamente um exemplo de auto-estereotipização. Dessa perspetiva, tal exercício representa um atuação política, uma ferramenta de auto-ressignificação.

Minneapolis

Maio 30, 2020

Apesar de compreender e solidarizar-me com a raiva e a saturação face à impunidade, à injustiça e ao racismo estrutural, não acredito em ganhos reais pela via da destruição. Nenhuma luta se ganha sem um apoio generalizado. É preciso, infelizmente, convocar continuamente as consciências públicas. Ganhar a simpatia, mesmo em causas que deveriam ser por si mesmas. A lógica é simples - se a sua propriedade estiver ameaçada no meio de uma luta, mesmo que legítima, as pessoas não darão o seu apoio, mas acabarão por estar ao lado do status quo, não por pactuarem com as marginalidades que esse estado de situação representa, mas porque são lesadas pela reivindicação. É preciso compreender isso, também. Uma greve é eficaz pelo efeito económico da paralisação, não quando se acompanha de destruição. Trabalhadores que destroem uma fábrica para onde querem voltar com melhores salários, que ganho têm com isso?
Por isso, acredito na tomada da rua de forma pacífica. Acredito que um movimento de paralisação da comunidade afrodescendente nos EUA traria efeitos económicos devastadores superiores à destruição de propriedade. Acredito num ganho maior pela tomada da rua de forma silenciosa, se em cada espaço de poder e justiça (tribunais, câmaras municipais, etc) permanecessem grupos acampados, se atletas afrodescendentes se recusassem a jogar, se juízes negros se recusassem julgar, e gestos similares tivessem lugar. Em pouco tempo não afrodescendentes adeririam à luta. Uma luta que é feita em nome da justiça, da democracia.

Micropost [45] Ventura e a Rixa

Maio 26, 2020

Nas redes sociais André Ventura aproveita uma rixa envolvendo indivíduos ciganos para fazer política, afirmando que não quer contribuir com os seus impostos para esta comunidade. O deslize discursivo óbvio. Se A então B. Não há contexto, só apropriação de atos com fins racistas. Na dúvida sobre a intenção de Ventura, pense: porque uma rixa de ciganos merece um comentário político e uma rixa entre vizinhos por causa de um pedaço de terra não? Porque há um caldo racial que convém aproveitar. Já agora, nós também pagamos o salário do Sr. Deputado e pagámos o seu doutoramento na Irlanda, com os nossos impostos. Chama-se Democracia, senhor.

Micropost [44] O país COVIDizer

Maio 25, 2020

O desconfinamento levou os portugueses a considerarem o vírus um sonho mau do qual se acordou. Povo valente e munido de uma ignorância triunfante, enfrenta o calor em apinhamentos, porque isso da distância social e dos cuidados de higiene é chão que já deu uvas, uma mariquice lisboeta. Quando vier o caos dos seus atos não terão espelho em casa. Apontarão o dedo ao governo e benzendo-se sem fé votarão no messias que a poeira do Estado Novo pariu.

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A Morada dos Dias é um blogue de João Ferreira Dias, escrito segundo o Acordo Ortográfico, de publicação avulsa e temática livre. Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.