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Dias Assim

Moura vai ser uma tourada


18.06.21

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André Ventura será o candidato do Chega à CM de Moura. A escolha é surpreendente, mas não inocente, embora, reconheça-se, arrojada. Ao agregar correntes contraditórias, alinhadas com agendas e programas ideológicos, religiosos, económicos, morais, distintos, o Chega só é viável na ausência de um programa claro e, sobretudo, na sua dimensão unipessoal-messiânica. O Chega ainda é o partido de André Ventura, como o FN, agora RN, é o partido de Marine Le Pen. É por isso que Ventura tende a ser o candidato-a-tudo.

Ao escolher Moura, fá-lo consciente da dimensão estratégia da candidatura. Moura é uma terra favorável ao Chega e onde o partido tem enorme expressão. Por duas razões que resumem parte do património combativo do partido: (i) a «questão cigana» e (ii) as touradas como património cultural local que se vê ameaçado pelo crescimento de uma comoção para com os direitos dos animais. É nesse cruzamento que Ventura aposta: o herói que com uma mão se livra dos ciganos e com a outra salva a tourada.

O arraial de Medina com os dados dos manifestantes


15.06.21

— O arraial de Medina com os dados dos manifestantes  — Ao que parece o organizador da manifestação em Lisboa anti-Putin e em defesa de Navalny, Pavel Elia Zarov, é uma figura próxima à Iniciativa Liberal (IL) ou, pelo menos, foi convidado do partido para o arraial liberal, razão pela qual podemos, naturalmente, subtrair uma instrumentalização política dos acontecimentos, na sua condição de manobra anti-Medina. Não negando que a situação aproveita à oposição, a verdade é que o fornecimento de dados, com base numa lei de 1976, é manifestamente inconstitucional, tendo em conta que viola os princípios da garantia e da segurança jurídica e, de antemão, viola o direito à manifestação (art.º 45.º CRP, o qual inclui o direito a daí não ver a segurança posta em causa), sendo este, de resto, um direito constitucional fundamental. É por isso que os direitos fundamentais veiculam mais fortemente entidades coletivas (art.º 18.º/1) do que pessoas, pois a proteção é, por inerência, face ao poder político, pelo que independentemente da agenda política de Zarov, os direitos fundamentais não carecem de santidade para serem garantidos. 

Touradas


14.06.21

— Touradas — A tauromaquia constitui um elemento da cultura popular com raízes profundas e um lastro sociológico evidente no interior do país. Com efeito, no caso do Ribatejo uma das críticas que pode ser feita é a de quase inexistência de cultura além do toiro. Agora, parece-me necessário o debate se de facto esta cultura é um produto cultural aceitável, de modo a que se justifique a existência de equipamentos culturais para o efeito, se atenta contra os direitos dos animais e, por fim, qual a viabilidade de um consenso de adaptação das práticas tauromáquicas aos novos padrões sociais. Tenhamos presente, todavia, que o problema não é novo. D. Maria II, por decreto régio, em 1836, proibiu as touradas. As mesmas vieram a ser elemento importante na consolidação do modelo de identidade nacional durante o Estado Novo.

Pedro Adão e Silva


11.06.21

— Pedro Adão e Silva — Sobre a escolha de Pedro Adão e Silva para presidir às comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, cumpre-me dizer que (i) PAS tem um currículo académico que justifica totalmente a escolha, (ii) que ser comentador não inviabiliza o cumprimento das tarefas e que tal seria absurdo num país onde pessoas que exercem cargos políticos fazem comentário político, (iii) que o modelo temporal e estratégico segue a linha de comemorações anteriores, (iv) que era o que mais faltava que ele não recebesse remuneração do trabalho, (v) que Rio permanece catavento de factos políticos produzidos nas redes sociais, (vi) que dada dimensão transerval patente às comemorações, na sua condição de celebração da Democracia como conquista pública e nacional, a escolha, ainda assim, poderia ter revestido a dimensão de escolha parlamentar ao invés de nomeação governamental. 

O racismo como luta


09.06.21

— O racismo como luta — Os direitos das mulheres já dividiram o Ocidente. Felizmente já o ultrapassámos, na sua dimensão civil e política. Graças ao colonialismo e à herança "científica", o racismo continua a ser um divisor de águas, agora revitalizado nas lutas identitárias à esquerda e à direita, encontrando as seguintes correntes: (i) racismo estrutural como produto histórico ainda reciclado nas dinâmicas sociais, (ii) o racismo existe, mas é só prática de alguns, (iii) o racismo não existe e é um argumento político dos movimentos negros e da esquerda woke, sendo um perigo para as sociedades (iv) o racismo não só é estrutural, como é um programa político ativo, planeado e consciente de genocídio negro e de destruição das culturas africanas.

Foi bonita a festa


04.06.21

—Foi bonita a festa — O Reino Unido tirou Portugal da lista "verde" de viagens. O equilíbrio económico dependia, forçosamente, da reabertura do país e de um desconfinamento criterioso, cívico e progressivo. É aí que reside o problema. Enquanto sociedade somos incríveis a combater o vírus desde que fechados em casa. Somos cívicos de portas para dentro. Como padecemos de iliteracia cívica (Deus nos livre desse marxismo cultural de ensinar nas escolas cidadania) e défices de compreensão, lidámos com o fim do Estado de Emergência como sinónimo de fim de vírus. Para "ajudar" veio a romaria mais importante do país, a bola. O Sporting foi campeão, outros subiram de divisão. Tomou-se a rua. Depois de termos sido os campeões da austeridade, fomos os campeões bolafolia, recebemos a final da Champions League e com ela os inevitavelmente ordeiros adeptos ingleses, num gesto absoluto de submissão. Consequência: como os ingleses não confundem futebol com política acabaram com a euforia do turismo para cá. Foi bonita a festa, não foi? 

Maiores de 23


27.05.21

— Maiores de 23 — O sistema de admissão à Universidade para maiores de 23 anos trata-se de um procedimento concursal que visa permitir o ingresso a quem, por circunstâncias várias da vida, não pôde ingressar na licenciatura imediatamente após a conclusão do ensino secundário. Por essa via permite afirmar a universalidade do ensino e promover a correção de assimetrias sociais. Quando universidades permitem (como o estão a fazer) que candidatos com grau de licenciado e superior concorram a esse mesmo concurso (ainda para mais tendo já o seu regime concursal de portadores de grau académico) o que fazem é violar o princípio subjacente ao programa e isso, se não é contra legem é, pelo menos, uma desvirtuação do espírito do concurso em nome da ideologia da meritocracia como camuflagem para a seleção dos mais aptos.

Aventuras na Justiça


26.05.21

— Aventuras na Justiça — André Ventura foi presente a tribunal por chamar "bandidos“ a uma família do bairro da Jamaica. Foi condenado a pedir desculpas. Recusa. Engana-se quem vê na condenação uma derrota do líder do Chega. Fosse qual fosse o resultado ele ganharia sempre. Se considerado não-culpado seria sinal de que o «politicamente correto» tinha tentado silenciá-lo, mas a justiça tinha feito o seu trabalho, se culpado, como o foi, então o «politicamente correto» ganhou e a justiça faz parte do complô contra ele.

Bella Ciao, em futebolês


25.05.21

— Bella Ciao, em futebolês — Sérgio Conceição deverá estar a caminho do Nápoles. Apesar do bom trabalho feito como treinador do FCP, a notícia é boa, pois Conceição tem sido um fator de desordem e empobrecimento do já de si pobre e pouco recomendável futebol português. A dinâmica de conflito que impôs ao jogo é discordante com a ideia de desportivismo que deveria habitar a modalidade. Um desporto só é rei se o for em tudo. Na mesma linha, Pinto da Costa fez do FCP uma equipa de dimensão internacional, feito invejável, mas não sem deixar um lastro e uma escola de gestão desportiva baseada nas influências e muitas suspeitas de foro criminal. Essa escola formou Luís Filipe Vieira, Bruno de Carvalho, e outros dirigentes desportivos. Talvez seja tempo desses clubes virarem a página em direção à ética.

Portugal dos Pequenitos 


25.05.21

— Portugal dos Pequenitos — O espaço vai reabrir, depois de uma requalificação. Um espaço pensado dentro do paradigma do Estado Novo que precisava, além da reabilitação paisagística e dos monumentos, de uma reabilitação conceptual, ou pelo menos de um enquadramento histórico. As informações contidas nas casas das "antigas colónias" estão profundamente desactualizadas com uma linguagem aceitável, padecendo de um racismo biológico e cultural insuportável e inadequado. Uma oportunidade perdida se tal não foi feito.

Cólofon

Dias Assim é um blogue de João Ferreira Dias, escrito segundo o Acordo Ortográfico, de publicação avulsa e temática livre. Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.

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