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O Estado dos Dias

«O dia precedente é o mestre do dia seguinte.» - Píncaro

Brasil 2022: os resultados

03
Out22

Pode ser uma imagem de 4 pessoas e texto que diz "Presidente Ver lista completa Eleição matematicamente definida (Segundo turno) PT-13 13 LULA 57.256.705 votos 48,43% PL-22 JAIR BOLSONARO 51.070.986 votos 43,20% MDB-15 4.915.281 votos SIMONE TEBET 4,16% PDT-12 PDT- 12 CIRO GOMES 3.599.193 votos 3,04%"

Tal como fui dizendo "em off" a quem me foi perguntando — já que não tinha qualquer base científica ou dados reais para fundamentar a minha opinião, tratando-se apenas de um feeling —, Lula ganhou, mas haverá segundo turno. As sondagens eleitorais são, cada vez mais, instrumentos que influenciam votações mais do que refletem tendências de voto. É verdade que são indicadores de determinado momento, mas vem sendo evidente que quando publicadas alteram os comportamentos eleitorais.
Para o que conta, a campanha para segunda volta vai transformar, novamente, o Brasil num campo de batalha cultural e política, agudizando tensões sociais. Em termos eleitorais, o facto de Lula partir à frente não significa uma necessária vantagem. A base bolsonarista tem grande capacidade de mobilização, e apesar de Lula ter uma plataforma eleitoral tendencialmente mais alargada, é ao mesmo tempo um ativo político tóxico. O facto de não se vislumbrar mais ninguém capaz de vencer Bolsonaro não significa que Lula pudesse, de facto, o fazer. Ademais, o eleitorado de Simone Tebet pode bem virar para o lado de Bolsonaro, já que Tebet tem no seu currículo a votação favorável ao impeachment de Dilma e várias votações condenadas por organizações de direitos humanos. Igualmente, o eleitorado de Ciro Gomes pode não ser suficiente para dar a eleição a Lula, até porque não há garantia de que uma parte dele não se abstenha.
Por isso, para este segundo turno é preciso cautela com antecipação de vitórias. No meu entendimento (arriscando desta vez), Bolsonaro partindo de uma posição de derrota parte em vantagem para uma mobilização mais eficaz.

 

 

Jogos de Guerra

30
Set22

Rússia anuncia o acordo de anexação das quatro regiões separatistas pró-russas da Ucrânia. A escalada do conflito levou a que o sentimento pró-russo se tornasse mais evidente, naquelas regiões, marcadas pela expectativa de uma vida melhor sob a tutela da Federação Russa. Como resposta imediata a Ucrânia faz pedido oficial de adesão à NATO, esperando conseguir arrastar o Ocidente, de modo claro e evidente, para o conflito. O redesenho geopolítico está em marcha. É preciso um enorme sentido de paz, de direito internacional e diplomacia para que o mundo não caia no erro de repetir escaladas bélicas globais anteriores.

Eleições Brasileiras 2022

entre lulismo e bolsonarismo, quem perde é o Brasil

30
Set22

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quadro democrático. São outra coisa. São campo de batalha cultural entre lulismo e bolsonarismo, o que configura, desse modo, uma derrota de antemão para o Brasil, encurralado em questões de natureza pós-material. Esvaziado de um patamar de normalidade democrática, a política brasileira é apenas uma versão própria do "ar do tempo", cujo aroma é sobretudo a populismo.
De modo sistemático, o lulismo representa um misto entre a Esquerda clássica materialista que visa a transformação social por via económica, através de diferentes interpretações da luta de classes, almejando, sobretudo, o combate à pobreza num país profundamente desigual, e a Esquerda pós-material identitária urbana, voltada àquilo que a direita radical chama de «marxismo cultural», isto é, uma agenda assente numa visão da sociedade marcada por um binómio opressor/oprimido, não tanto num sentido material, embora detendo forte crítica ao capitalismo, mas numa ótica das diferentes minorias, sexuais, raciais, de género. Ou seja, a esquerda ativista.
Por seu turno, o bolsonarismo representa uma conjugação entre uma agenda económica neoliberal de privatizações, concentração no mercado, defesa dos interesses dos setores agrários e de empresas de exploração dos recursos naturais, e uma agenda também ela pós-material identitária de direita, marcada pelo conservadorismo radical evangélico, pelo securitarismo social (combate à criminalidade segundo a lógica do "bandido bom é bandido morto), pela dimensão anti-minorias, cujas queixas de discriminação são classificadas como vitimização, através de uma leitura individualista e meritocrática da sociedade, pelo combate pelos costumes expresso no anti-aborto. No fundo, trata-se de uma versão brasileira do trumpismo e da direita radical populista europeia, que conflui neoliberalismo económico, conservadorismo moral, teocracia evangélica, saudosismo autoritário (ditadura militar), classista racializada (na medida em que uma parte do seu eleitorado se revê na divisão social por via da raça, em versões modernas de uma divisão entre Casa Grande e Senzala).
Pelo meio surge um despertar da consciência política massificada que é canalizada por meio das redes sociais, canais de divulgação de fake news e radicalismo ideológico. O Brasil está numa verdadeira guerra pelo seu coração, uma vez mais. Isso explica porque a corrupção no tempo do PT de Lula é fator determinante no antipetismo, uma vez que o despertar consciente político não se acompanha de uma literacia política capaz de compreender que a corrupção é endémica e sistémica na política brasileira, não sendo uma invenção do PT. (Aliás, a família Bolsonaro está envolvida em inúmeras suspeitas de corrupção).
Assim, qualquer eleitor moderado está diante de um problema de escolha entre duas versões de messianismo político. Se é verdade que o governo de Lula foi marcado pela corrupção, não é menos verdade que foi um período de políticas públicas que resultaram em redução das assimetrias sociais, criação de novas universidades, maior mobilidade social ascendente, número recorde de jovens pobres e racializados com acesso à educação, políticas educativas voltadas para o conhecimento da história e cultura brasileira nas suas vertentes indígenas e afrodescendentes. Por seu turno, o governo de Bolsonaro não foi capaz de produzir melhorias económicas, estando associado à péssima gestão da crise pandémica da Covid-19, com o negacionismo massivo, com a reversão das políticas educativas e de proteção às minorias e aos direitos fundamentais. É um projeto político falhado que dificilmente captaria um eleitorado conservador clássico, de direita, voltado ao capitalismo, mas com um olhar social.
Seja como for, o Brasil em processo de consolidação das instituições democráticas já perdeu. Resta saber se perdendo ganha alguma capacidade de regeneração com Lula, à falta de alternativa, ou se continua a caminhar em direcção ao abismo, com a política bolsonarista de feição evangélica. E depois do horizonte curto? Onde andam os estadistas?

Varzim sem Tauromaquia

28
Set22

Não obstante ter sido parte integrante da cultura portuguesa por um longo período, a verdade é que a tauromaquia vem perdendo adeptos, em razão de transformações tanto no plano da cultura (com a entrada de uma orientação cosmopolita globalista) quanto no plano da proteção animal. As sociedades não são estanques, e na mudança o património imaterial vai sendo perdido ou ressignificado. Tomada a decisão de demolir o espaço, a conversão em equipamento cultural parece acertada, uma vez que liga o terreno à fruição cultural. No entanto, é preciso ter presente que o desaparecimento da tauromaquia traz efeitos económicos concretos para aqueles cuja atividade, muitas vezes ao longo de gerações, tem sido ligada a tal prática, como a produção animal, o uso de terras para pasto, etc. É provável que vejamos esses terrenos convertidos em produção fotovoltaica. No mais, veremos esta questão cada vez mais integrada nas guerras culturais entre identidade cultural nativa e identidade cultural globalista.

A Democracia ficou com um melão?

Eleições em Itália

26
Set22

Depois da Suécia, vem agora Itália confirmar a onda de direita radical populista que vem conquistando vários países e que representa uma mudança no alinhamento político-social das sociedades atuais. Interpretações estritas centradas na carta xenófoba e racista das opções eleitorais faltam à capacidade de interpretar a realidade como um todo, e são devedoras de uma leitura de esquerda progressista pós-material que em parte tem culpas no desvio para a direita do eleitorado que se sente abandonado. Em boa medida, tal esquerda tornou-se exclusivamente centrada em dinâmicas urbanas e de minorias, deixando de representar o eleitorado operário, rural e precário branco, que passou a procurar paisagens políticas onde se sentisse representado.
A desigualdade agravada pela crise de 2008 e anos seguintes e agora pela pandemia e a guerra na Ucrânia, tem um papel fundamental na produção de um ressentimento e mal-estar social. Ou seja, questões materiais permanecem como essenciais na vida política dos Estados, e são elas, em grande parte, responsáveis pela emergência de questões pós-materiais. O ressentimento com imigrantes é produto de uma sensação de que os mais pobres nativos foram esquecidos, mesmo que na verdade os imigrantes sejam essenciais para as economias nacionais.
Desse modo, a registada perda de segurança económica da classe média e a precariedade das classes operárias, quando conjugadas com uma massiva presença do "outro", culturalmente diverso, algumas vezes pouco disponível para acomodação cultural, leva a um turbilhão emocional que procura um escape através de locus de pertença, geralmente por via de sentimentos conservadores e até reacionários. A nostalgia dos anos de ouro da "nação" foi essencial na afirmação dos fascismo do século passado e na eleição de Donald Trump.
A Democracia ficou com um melão? Depende do que se entende por democracia. Se falamos na elementar lógica da maioria, então não. Mas se falamos na Democracia como um regime político baseado em princípios cogentes como separação de poderes, submissão ao estado de direito, direitos fundamentais e garante da pluralidade, então podemos pensar que sim, que provavelmente a democracia ficou com uma Meloni.
 
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O bom senso e o racial

22
Set22

Escreve n'Observador Alberto Gonçalves o seguinte "É óbvia a tendência para empregar actores negros em papéis consensual ou evidentemente “brancos”. A chatice é que o mundo ameaçaria explodir à mera sugestão de um actor branco “ser” Martin Luther King"
Há elementos woke aos quais não adiro, porque o propósito woke não é, na sua maioria, mudar a sociedade, mas antes policiar e purificar o espaço público. Mas há mudanças que resultam do bom senso, do reconhecimento de novas dinâmicas socioeconómicas, demográficas, de identidade e identificação.
Ora, a propósito do que diz Alberto Gonçalves, podemos afirmar, com bom senso, que o Super Homem não precisa ser branco e heterossexual, desde que mantenha o núcleo de identidade visual da personagem. Pode até ser vegan. Diferente é o caso de pessoas reais ou até personagens demarcadas culturalmente. Uma pequena sereia negra não deixa de ser a pequena sereia. Está dentro de um patamar de elasticidade da personagem. Uma pequena sereia que voasse seria bastante mais problemático. Diferentemente, um Thor, enquanto divindade da mitologia nórdica, tem forçosamente de ser branco. Tal como Jesus não deveria ser loiro. É por isso que Martin Luther King não poderia ser representado por um ator branco, como Churchill não poderia ser representado por um ator negro. A menos que falemos de um exercício perfomativo de rutura de personagens. Tudo o mais é bom senso, coisa que falta e muito.
 
→ sobre este assunto ver também post sereias, apropriação cultural, racismo e simbologia inclusiva
 
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Ucrânia e o amanhã com frio

21
Set22

A guerra na Ucrânia não parece ter fim à vista. Narrativas distintas sustentam uma realidade pós-verdade, em que a Rússia defende as suas zonas de influência contra a ameaça da NATO (leia-se interesses geopolíticos dos EUA) e a Ucrânia defende a sua integridade territorial, autodeterminação e valores do Ocidente. Pelo meio a realidade é mais nebulosa. A guerra é, efetivamente, um instrumento de narrativas e desinformação. Enquanto isso, o mercado reage às declarações de Putin. O inverno aproxima-se e a inflação ameaça fazer do período da crise das dívidas soberanas (Troika) uma coisa leve. Para já, muitas pessoas estão ao lado das sanções à Rússia, porque esta intervenção é uma agressão despropositada e desnecessária, que ameaça a parca paz mundial e a suave esperança do pós-crise pandémica. Esse apoio poderá, contudo, esgotar-se rapidamente à medida em que os bolsos das famílias vão sendo afetados. Na maioria do Portugal basta-nos mais um casaco para enfrentar o inverno, mas há países onde o aquecimento é uma necessidade básica e não um "luxo". A insatisfação será gigante e os partidos populistas irão saber aproveitar a contestação para ganhos eleitorais, mesmo muitos deles tendo sido financiados por Putin para destruir um projeto progressista europeu. O fim do conflito é urgente, não a qualquer custo, mas sabendo que repor o começo de 2022 é impossível.

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Woke Racism

19
Set22

O livro não é sobre a existência ou não de racismo. O autor é perentório, para que não restem dúvidas, de que o racismo existe, é um problema sério na sociedade norte-americana (estadunidense), que afeta a vida das pessoas negras e racializadas de modo evidente e brutal. Dito isto, o livro é sobre a ascensão de uma agenda ideológica woke antirracista que não permite que se faça humor ou critique uma pessoa não-branca sem se ser cancelado, sobre uma manifestação de natureza absolutista e, segundo o autor, religiosa, de ativismo que ao abrigo da ideia de "desmantelar estruturas" sociais racistas visa converter toda a população a uma leitura única do fenómeno racial americano baseada numa grelha rígida de "opressor vs oprimido". [recensão completa]

Os 3 dias de luto Nacional

16
Set22

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Não obstante a longevidade bilateral das relações entre Portugal e o Reino Unido, os 3 dias de luto nacional são um exagero simbólico, numa relação que não é entre duas coroas. Isto é, efetivamente, "para inglês ver", sintoma de um país subserviente, de mão estendida aos mais ricos, serviçal.

sereias, apropriação cultural, racismo e simbologia inclusiva

15
Set22

A nova versão da Pequena Sereia trouxe mais lenha à fogueira das guerras culturais entre o antirracismo e o enraizamento identitário ocidental. Quem cresceu a ver os desenhos animados da Disney lembra-se de uma Arielle coincidente com os padrões de beleza inerentemente ocidentais. À primeira vista isto não seria um problema numa sociedade alemã, escandinava ou de leste europeu de 1990, mas para países como a Inglaterra, os Estados Unidos, Portugal ou França, com uma longa presença não-branca no interior das suas fronteiras, em resultado de um passado colonial, o tecido social há muito que era, foi cada vez mais sendo, multicultural e multirracial, situação que se estendeu a todo o Ocidente, com maior ou menor intensidade.
Convém ter presente que qualquer personagem de banda desenha ou de televisão e cinema, não se encontra independente de um conjunto de estereótipos. Evidentemente que não faz sentido Thor, enquanto divindade da mitologia nórdica (o seu uso como personagem Marvel é uma verdadeira apropriação cultural que não se pode desconsiderar) aparecer que não com características morfológicas nórdicas. Diferentemente é o caso, por exemplo, do Super-Homem, figura que ajudou a construir um ideal de masculinidade, ou um Capitão América, que veicula um ideal fenótipo norte-americano. Em ambos os casos, seria perfeitamente legítimo e inclusivo que pudessem surgir com etnicidade não-branca e até outras características, como acontece com o Homem-Aranha que não corresponde ao ideal do “capitão da equipa do liceu”.
Este facto abre, desde já, um debate para o que significa “inclusivo”. Numa visão mais radical woke, inclusivo seria substituir grande parte das personagens do universo televisivo, cinematográfico e de BD por figuras não-binárias e não-brancas com um uso de uma linguagem neutra em matéria de género, numa espécie de redefinição e reprogramação da cultura ao contrário. Numa visão mais moderada, visando uma abertura da sociedade à sua pluralidade, “inclusivo” significa dotar o universo das artes (e não só) de uma maior representatividade, espelhando a sociedade de forma mais sólida e atualizada. É aqui que entra uma Arielle negra e entra, também, em consequência, a defesa da identidade biocultural ocidental, que não tolera desvios da norma. É um imaginário que aceita sereias, anões, hobbits, duendes, anjos e santos, mas não aceita que não sejam brancos. E isto, ladies and gentlemen, é racismo.
Em segundo lugar, falemos da “apropriação cultural”. Uma vez mais, na esteira woke, o conceito tem sido empregue como referente a qualquer utilização vista como indevida de elementos culturais não-brancos por pessoas brancas, enquanto se exige uma aceitação do multiculturalismo. Nessa ótica, o multiculturalismo está para ser visto e respeitado, mas não para ser aderido. A lógica das interdições culturais, da edificação de espaços (“seguros”) livres da “branquitude” não deixa de ser purista. Além disso, é também essencialista, uma vez que desconsidera o mais elementar dos princípios das culturas: a sua natureza híbrida e inautêntica. No entanto, a “apropriação cultural” existe e é importante aqui no quadro das sereias. Quando os africanos yorùbá foram escravizados, levados ao Novo Mundo, levaram os seus cultos religiosos. Entre as várias divindades ia Yèmọjá, deusa da família, símbolo do matriarcado, das águas doces e salgadas. Na Bahia, devido às características da costa e ao facto do seu nome significar “Mãezinha cujos filhos são peixes”, o seu culto passou a estar associada ao mar de onde os pescadores tiram o seu sustento. Em virtude do crescimento e popularização do seu culto, Yèmọjá foi sendo transformada em Iemanjá, a santa branca dos mares do Brasil. O seu culto sofreu evidente “apropriação cultural”, e a deusa foi sendo ressignificada estética e cosmologicamente, perdendo a sua dimensão sexual e aproximando-se das santas do catolicismo popular. Esse fenómeno, que comporta, ainda, uma dimensão de racismo religioso, não parece preocupar tanto como uma Arielle negra, que é, no fundo, uma “vingança” poética por acaso.