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A ASCENSÃO DE JAIR BOLSONARO, um político sem programa de governo, e que por golpe mediático e onda popular aparece como Salvador da Pátria, não é novidade no Brasil, um país caraterizado por fortes assimetrias sociais e económicas, com uma forte densidade populacional de baixíssima renda e escolarização mínima ou má escolarização. Este cenário é agudizado pela forte alienação religiosa e pelo altíssimo índice de criminalidade, gerando um caldo sociológico propício ao surgimento de messias políticos, alguém que pareça reunir os predicados capazes de restaurar a ordem e os bons costumes, num país de fortes tensões entre conservadorismo extremo e significativa presença da comunidade LGBT, diversidade étnica, cultural e religiosa. O franco crescimento das igrejas neopentecostais, capazes de galvanizar milhares de fiéis e com propensões para alianças políticas -- tendo gerado uma bancada evangélica no Senado brasileiro --, impulsiona a dimensão messiânica da população brasileira. Esta onda popular já havia elegido Fernando Collor de Mello (na imagem), sob os mesmos epítetos: mito, herói, salvador. Os resultados da governação de Collor de Mello foram desastrosos. Com efeito, ao contrário de Bolsonaro, Collor vinha provido de um programa de governo liberal, fortemente marcado pelas privatizações e pela abertura às importações -- o conhecido programa Collor --, que conduziu o país a uma violenta recessão económica. 

A mesma propensão salvacionista levou à eleição de Luís Inácio Lula da Silva, um herói advindo do povo, da classe operária, um herói ao estilo da literatura de Jorge Amado, coincidente com o grosso populacional brasileiro. O seu programa de governo produziu mudanças profundas na sociedade brasileira, com inúmeras medidas sociais, educacionais e culturais. O descontrolo sobre a gestão do erário público e a incapacidade de controlar a corrupção, aliada a uma pressão dos setores conservadores sobre os media, durante o período de Dilma Rousseff, foram responsáveis por um golpe político aclamado pelas elites, saturadas do peso de tais medidas sociais sobre a sua renda. 

Contrariando o esperado pelas elites políticas conservadoras brasileiras, Jair Bolsonaro, um político sem trabalho realizado, pró-ditadura militar, homofóbico, misógino e racista, sem qualquer projeto político ou programa de governo para o país, foi capaz -- precisamente fazendo uso desse vazio de ideias para disseminar apenas um sentimento anti-petista e de radicalização discursiva -- de colar-se ao papel do messias. Contudo, ao contrário de Collor de Melo, como visto, Bolsonaro é um candidato sem ideia de governo, alguém que se esquiva dos debates políticos por não ter nada a apresentar como programa para economia, saúde, educação, finanças ou relações internacionais. Bolsonaro personifica o messias do pós-I Guerra Mundial na Europa, capaz de se alimentar e alimentar a histeria pública, sem propor outra coisa que não a demonização de uma franja social e política. O herói das elites e das massas evangélicas fanáticas é o messias do ódio, o Salvador pelo armamento popular, o candidato das fake news, sobre o qual não se possui qualquer informação sobre o que fará como presidente, precisamente porque o cenário não foi, com efeito, equacionado. O Brasil procura a Salvação no penhasco. 

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Quem teve a oportunidade de ouvir Paulo Portas e Manuela Moura Guedes comentarem as presidenciais brasileiras com alguma atenção, terá notado pontos comuns entre os dois comentadores. Em primeiro lugar um conhecimento superficial do Brasil, resultante, acima de tudo, de leituras rápidas de jornais e do contacto com pessoas das classes sociais historicamente favorecidas. Por exemplo, a associação que Paulo Portas faz entre o crescimento do número de evangélicos no Brasil e o facto do atual Papa ser católico é de uma ignorância profunda, não coibindo de disparatar em causa própria. Em segundo lugar, ocorre um fenómeno de branqueamento ideológico de Bolsonaro, em que os principais elementos da sua personalidade política são suprimidos. Portanto, as inúmeras razões que justificam a ascensão meteórica de Bolsonaro, ligadas ao discurso de ódio, mas também ao apoio da imprensa conservadora e do eleitorado evangélico, numa perigosa aliança entre religião, política e media, não são invocadas. Bolsonaro é apresentado como um Salvador da Pátria, um herói anti-sistémico, o militar impoluto (o que não é, de todo verdade), comandante do povo na luta contra o malvado PT. A história desta eleição não é essa. É de lamentar tamanho desconhecimento da realidade. Mais grave será se ambos se revirem, como de alguma forma parece acontecer, no discurso do candidato presidencial. A oportunidade revela os bolsominions*.

 

* designação corrente para os apoiantes de  Jair Bolsonaro

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A poucas horas de termos dados novos, não posso deixar de lembrar Alexis de Tocqueville, quando este dizia que as pessoas sacrificam bem a sua liberdade em troca de segurança. Para a classe média brasileira este é o argumento mais "clean" para votar em Bolsonaro. É uma justificativa bonita, bem engomadinha, que esconde o problema de fundo: o ódio face à mobilidade social e tudo o que esta encerra.

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O meu artigo no Público, hoje. 

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O caso Ronaldo, a alegada violação que teria praticado sobre Kathryn Mayorga, cidadã norte-americana, em 2009, na cidade de Las Vegas, é uma excelente oportunidade para se refletir sobre os contornos sociológicos do papel de género e dos efeitos bipolarizados do fenómeno da violação. O apuramento dos factos e o desenrolar do processo judicial serão objeto de exploração sensacionalista por parte dos órgãos de comunicação. O que se espera é que não surta nefasto efeito na clarificação dos acontecimentos e na dedução da verdade. O caso não é evidente. A acusação é séria demais para que as opiniões se baseiem em simpatias. De um modo geral encontramos, neste caso, duas esquinas opostas, nesta fase em que opinar é, ainda, possível, à falta de provas irrefutáveis. De um lado, os que defendendo Cristiano Ronaldo alegarão que Kathryn Mayorga é uma oportunista em busca de protagonismo e dinheiro fácil, e que as imagens da noite revelam intimidade entre ambos, e que a profissão da jovem não era a da mais pura moralidade. Do lado oposto, encontramos o importante movimento #MeToo que incentivou mulheres vítimas de violação e de assédio sexual a denunciarem os casos, revelando, por exemplo, uma Hollywood machista, onde a cultura da coisificação sexual da mulher é aterradora. Nesse sentido, a denúncia face a CR7 seria um vital capítulo no combate à impunidade dos "intocáveis" das nossas sociedades. 

Ora, o problema é que vivemos, hoje, numa sociedade bipolarizada no fenómeno da violação. À medida em que os casos vão sendo tornados públicos, quer envolvendo personalidades públicas, quer da esfera do anonimato social, encontramos um caldo sociológico contendo uma cultura da violação como parte do património desequilibrado das relações entre homens e mulheres.O fenómeno evidencia um histórico social de tensões de poder. O argumento "pôs-se a jeito" é um recurso comum, inclusivamente utilizado por mulheres detentoras de um discurso machista no qual foram socializados, para culpabilizar as vítimas de violação e assédio. O facto de uma mulher trabalhar na noite ou, simplesmente, de se vestir de forma mais sensualizada, é compreendida como um sinal de ausência de pudor e, assim, de provocadora dos homens, os quais, em última análise, estão ilibados de responsabilidade porque se limitaram a responder a impulsos. Em Portugal temos visto como os acórdãos do tribunal do Porto, mas não apenas, pendem negativamente sobre as vítimas, num fenómeno que expõe a moral católica do Estado Novo em evidência. Este contexto é agravado pela detenção de poder económico, social e simbólico por parte de homens, que no exercício das suas funções extrapolam os limites num contexto favorável à impunidade. 

A bipolarização é particularmente evidente nos EUA, onde os fenómenos sociais tendem a ser extremados. Como contraponto à cultura de violação e impunidade tem surgido -- com efeitos sociais muito menores, por enquanto -- uma cultura de medo por parte dos homens, que começam a recear abordar as mulheres sob pena de daí advirem efeitos legais, tornando cada vez mais recorrente a abordagem através de apps destinadas aos encontros amorosos. Com efeito, é muito provável que nos próximos anos, figuras públicas optem por, antes do ato sexual, pedir às parceiras que assinem um termo de consentimento, evitando eventuais casos de burla posterior. Esta situação não é de menor importância, porque quando extremados os lados o meio da razoabilidade fica vazio. O falta é, portanto, uma maturidade ética à sociedade capaz de se despir de quadros morais conservadores e religiosos sobre o papel da mulher e do homem, garantindo a dignidade e a equidade às primeiras, de modo a que a cultura da impunidade, do assédio e da violação não conduzam a encerrar das mulheres em muros de prevenção, cujos efeitos na interação social saudável sejam irrevercíveis. 

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Ouvir música é um salto profundo nas notas, nas possibilidades de abrir os vidros no carro e deixar a melodia escapulir-se, de mergulhar nos pensamentos do compositor. Em particular quando a música possui alguma espuma que a torna densa e capaz de se eternizar. Com o jazz. Por essa razão é tão sedutor imaginar as gerações de 1960 e 1970 em torno do vinil. No Portugal do Estado Novo, ouvir música importada, trazida no reboque de um viajante, era um gesto político de liberdade. O encontro com outros mundos e possibilidades que a música dava representavam as esperanças de um outro amanhã, alimentando novos horizontes em gerações que ansiavam pelo futuro. Hoje, depois da aurora de Abril, vivemos aqui, pelo arrasto das marés americanas globalizadas, um tempo de gerações sem lutas, sem ventres de esperanças, mergulhadas em seguidores, likes, apps, e um imenso vazio de sonhos. Volta o vinil, voltam as calças de ganga subidas, os ténis brancos enormes e espaciais, todo um mercado da nostalgia, menos a nostalgia das lutas. Os punhos de ordem ocupam-se das selfies. 

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Disputam-se, por estes dias, à margem das campanhas presidências, as campanhas para eleger os deputados federais e estaduais no Brasil. Embora as mesmas pareçam de menor importância diante das vitais eleições presidenciais, em que os cidadãos irão eleger o sucessor de Michel Temer – numa corrida onde Lula da Silva lidera as intenções de voto, seguido do ultraconservador e defensor da ditadura militar, Jair Bolsonaro –, a verdade é que na composição do tecido político brasileiro, na importância estratégica política, ideológica, social e cultural dos estados e dos municípios, essas eleições são determinantes para aferir os caminhos da democracia brasileira.

Ora, é precisamente aí, talvez de forma mais veemente que uma eventual eleição de Bolsonaro, que serão jogadas as mais decisivas cartadas na estruturação da teia política do país. Um olhar cauteloso ao panorama social brasileiro destaca a forte presença da religião na estruturação político-social, dos municípios ao Senado. Num país onde a liberdade religiosa sempre deu pequenos passos e enormes saltos de retrocesso, o crescimento exponencial das igrejas neopentecostais e a sua penetração na política constituem um dos maiores entraves atuais à democracia plural no Brasil. Com taxas de crescimento acima dos 70 por cento, tais igrejas conquistam, de uma assentada, devotos e eleitores, engolindo as possibilidades de uma democracia plural e integrativa, para cerrar fileiras ideológicas em torno da família heterossexual, da moralidade cristã-evangélica, do desprezo pelas minorias étnicas, religiosas e sexuais, num movimento dramaticamente incomparável no Ocidente. A promiscuidade entre poder político e intenções missionárias-ideológicas evangélicas está patente no elevado número de candidatos que se anunciam pelo título de “pastor”, “bispo”, “irmão”, “missionário”, e outras designações. O Partido Republicano Brasileiro (PRB), ligado à IURD (Igreja Universal do Reino de Deus), é um dos mais fortes partidos políticos em São Paulo e no Rio de Janeiro, onde tem por prefeito Marcelo Crivella.

A religião no Brasil deixou de dizer respeito à consciência dos cidadãos para participar ativa e determinantemente na política brasileira, funcionando como fator eleitoral. Reconhecendo que é entre as camadas mais pobres da sociedade brasileira que tais igrejas vêm conquistando maior expressão, é fácil compreender que a palavra do pastor funcione como sanção, incontestável e autoritária, ungida por Deus. Reconhecendo o caráter expansionista e violento dessas igrejas, que vêm levando a cabo uma guerra santa contra as religiões de matrizes africanas e ameríndias, e inclusive à Igreja Católica, cada deputado eleito é um golpe profundo na Democracia. Das leituras da Bíblia em plenários à alteração do nome das ruas para figuras bíblicas, assim vai o Brasil, entre o å“amém, candidato” e o ataque ao demónio representado nas minorias.

 

{texto originalmente publicado no blog do CEI-IUL}

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Recentemente aludi às ligações históricas do PCP com a causa operária católica, salientando a forma como a doutrina operária foi mesclada com a doutrina social da Igreja. A esta herança católica que passa quase despercebida, junta-se o conservadorismo ideológico que também não parece evidente, mas que se traduz numa ideia de sociedade dividida entre operariado e detentores do capital, um modelo de sociedade que não reconhece -- ou que para fins de património ideológico prefere não reconhecer, o que vai dar ao mesmo -- a existência de uma classe média que não se revê numa luta de classes, mas que antes se concebe como parte de uma sociedade desclassificada, no sentido de fronteiras sociais abertas, onde os hábitos de consumo estão acessíveis a todos, seja diretamente seja por via de crédito. 

É nesse quadro que é urgente entender o alinhamento do PCP com a direita em matérias fraturantes entre esquerda e direita, como a mais recente questão da eutanásia, chumbada, precisamente, pelo PCP. Ficamos agora a saber, pelo Diário de Notícias, que o PCP volta a alinhar à direita, desta feita na questão do período internupcial, que estipula que os homens só possam casar 180 dias depois do divórcio oficializado, e as mulheres 300 dias (que podem ser reduzidos a 180 se provado que não estão grávidas). Esta matéria volta a colocar a nu o corpo ideológico do partido comunista português, que pretende cristalizar a sociedade portuguesa, num ímpeto de controlar aqui que dificilmente (e muito felizmente) não tem volta, preferindo barricar a sociedade a alterar o seu aparelho ideológico. Este PCP não é para jovens. 

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O convite e posterior desconvite a Marine Le Pen para estar presente na web summit revela o desconforto da Democracia para com os discursos e movimentos autoritários e radicais. A reboque do que se toma por primado democrático: a liberdade de opinião, deixa-se passar no funil areia perigosa. A história mais recente da Europa é um manual dos perigos de permitir que os populismos radicalizados tenham espaço. É natural que se creia que a castração da loucura narrativa dos fascismos possa inflamar, na paixão da clandestinidade romanciada, mas não é menos perigoso assumir que permitindo que tais discursos corram livres eles se irão esvaziar em alcance social. Não irão. Pelo contrário, irão fazer eco nas paredes dos lares menos informados, social e economicamente mais frágeis, onde discursos de culpabilizam e demonização do «outro» são operatórios. É por isso que a Democracia é tanto a permissão da opinião livre quanto o garante de que o ódio não se torna discurso maioritário.

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A posição do PCP em relação à eutanásia apanhou muita gente de surpresa, gerando uma onda de revolta inclusive em parte significativa do seu eleitorado liberal. Todavia, é preciso inscrever a tomada de posição num quadro de aparelho ideológico do partido. Apesar de representar o eixo clássico de esquerda, o PCP distancia-se, ideologicamente, do BE e da ala mais esquerdista do PS, efetivando-se como um partido conservador no seu sentido estrito de arreigado a um património ideológico e social. O reduto ideológico do PCP como partido da causa operária opera num sentido de instituição de memória coletiva, reforçando lugares-chave das suas fileiras programáticas. Imbuído desse manual operário, veiculado num Portugal fabril e agrário que já mal existe, e arreigado a uma estrutura interna devedora de uma organização operária assente na antiguidade, o PCP postula-se num quadro utópico que somente amiúde vai correspondendo à realidade. A todo este cenário cristalizador de uma narrativa idílica, junta-se a sombra da ação do operariado e do sindicalismo católicos. Não é possível esquecer o lugar ocupado pela «questão operária» -- i.e., descanso e direito à missa, condições de trabalho e caridade -- na formação da Doutrina Social da Igreja, desde a Encíclica Rerum Novarum, do Papa Leão XIII. A criação da Liga Operária Católica (LOC) e da Juventude Operária Católica (JOC) , iniciadas em Portugal em 1935, marca a ação doutrinária católica no seio das classes operárias, por natureza mais conservadoras do que as elites intelectuais de Esquerda. A conciliação da luta operária com a ação social católica permanece viva e, apesar de menos expressivas, tanto a LOC quanto a JOC continuam em funções no Portugal de hoje. Nesse sentido, a convergência entre o ideal católico e do PCP de santificação da vida não deve surpreender, mas permite ao seu eleitorado mais jovem e progressista repensar que PCP querem para o futuro.  

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Dossier Presidenciais Brasileiras 2018


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