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Dias Assim

Jorge Jesus e o Racismo no olhar hegemónico

Dezembro 09, 2020

Cá temos o "agora tudo é racismo". JJ figura, aqui, como paradigma de um modo de pensar generalizado que tem impedido uma reflexão e debate honestos sobre o racismo em Portugal. O lusotropicalismo e o "bom colonizador" permanecem como argamassa cultural que não se admite contestar. A situação piora quando se acredita ter legitimidade para definir o que é racismo a partir de um lugar de fala hegemónico. Ora, é tempo de perceber que a racialização social é um fenómeno estrutural silencioso e invisível e que foi, historicamente, um fenómeno exclusivo de dominação branca. Enquanto não se aceitar o legado nefasto dos 12% da população mundial para a a definição de "raças" e hierarquias, nenhum debate será honesto.

O que custa a união

Dezembro 01, 2020

A Carta de Direitos Fundamentais da União Europeia veicula os direitos inderrogáveis desta organização internacional. Todos esses valores são colocados em causa, constantemente, pela Hungria e pela Polónia. Este último país agravou a possibilidade de interrupção voluntária da gravidez, ao ponto de pudermos questionar se efetivamente decorre a vigência do caráter voluntário. Ao mesmo tempo, nesse país, 100 municípios consideram-se libertos da influência LGBT, o que nos invoca o desaparecimento da autodeterminação, da liberdade e da diferença na igualdade. A UE mantém-se muda, depois de ter sido tão exigente em matérias económicas e fiscais em vários países. Imagino que seja isto a realpolitik.

Sobre o Congresso do PCP

Novembro 20, 2020

Não há dúvidas de que o partido tem uma capacidade organizativa que permite garantir o cumprimento das regras de segurança em tempo de pandemia. Coisa que não pode ser dita do Chega. Também não parecem existir dúvidas sobre a legalidade do congresso. Onde está, então, o problema? Na perceção pública. Sim, esta tornou-se um elemento da vida política que não pode ser desconsiderado. Cabe aos órgãos do partido compreender que apesar da ameaça global vir da extrema-direita (sob as suas mais elaboradas formas), transcorre o mito da ameaça «vermelha». Mais: não se trata de ficar preso a perceção nem a fatores eleitorais, mas antes perceber que em política a ideia de que o povo é que quem mais ordena se traduz na necessidade de legitimação pública. Por muito higienicamente responsável que o PCP seja, a perceção é, precisamente, a contrária - de que existe um regime de exceção para os comunistas. Em tempos de ameaça real da direita nacional-populista não convém que o PCP se satisfaça apenas com as suas fileiras e com a CGTP.

"O preto de casa"

Novembro 18, 2020

Soube que na entrevista de Ventura a Miguel Sousa Tavares, o primeiro disse que tinha um amigo "preto de casa". Esta afirmação é prova irrefutável de que o racismo tem uma dimensão estrutural invisível, muito difícil de desmontar. Para André Ventura essa circunstância prova que não há racismo em Portugal. Mas a mim mostra o contrário. Mostra que a ideologia esclavagista e racial permanecem, porque ter um "preto de casa" sempre significou dominação. O "preto de casa" é aquele que se opõe ao "de senzala". É aquele mais limpo que serve para tarefas domésticas e para mostrar um espírito humanista e civilizador.

E agora, América?

Novembro 11, 2020

Para os liberais conservadores que olham para os EUA como garante da Democracia, estes são tempos difíceis. É verdade que já Churchill dizia que esgotadas as alternativas, a América faz sempre o que é certo. Mas isso era válido no tempo em que o Estado de Direito democrático era inderrogável. Hoje temos um presidente que recusa aceitar os resultados eleitorais porque não foram os desejados, abanando com "fraude" para acicatar o seu eleitorado, procurando condicionar todo o sistema político. Como fica o precedente? Quando estas coisas acontecem temos sempre dito que a Democracia está posta em causa. E agora que é nos EUA?

Micropost [66] BE e Chega

Novembro 11, 2020

As propostas do PCP e do BE podem não ser coincidentes com uma noção liberal de sociedade que se instituiu. Mas não são ataques diretos ao Estado de Direito e ao chão comum civilizacional. E é esse consenso que não está presente no Chega. Por isso não são a mesma coisa. Quem afirma o contrário geralmente afirma também que Trump é um homem que respeita esses princípios universais, não percebendo que já bebeu de um trago do messianismo da Nova Era política.

A Grande Fraude, segundo Trump

Novembro 06, 2020

Trump mantém a narrativa da fraude. Existe processo democrático até que ele sinta que pode perder. A sua atitude acima da lei é cada vez mais insustentável. Mas não nos enganemos quanto ao distanciamento republicano. Ele apenas ocorre porque é oportuno. O GOP foi tomado pelo vírus do populismo trumpista, um misto de patriotismo do Midwest, euforia evangélica, e ódio racial, onde a verdade não pode atrapalhar uma boa história. Mas a dificuldade em remover Trump da Casa Branca, confirmando-se a derrota, é uma lição para aqueles que votam em populistas com o argumento de que se correr mal tiram-nos de lá. Vamos ver o que sucede nos EUA e no Brasil.

A Caranguejola Açoreana

Novembro 04, 2020

A caranguejola açoreana é bastante legítima, e o precedente foi aberto com a geringonça. A questão não é essa. A questão é que para governar o PSD tem de fazer concessões ao Chega. Isto é válido nos Açores e pode vir a ser válido nas legislativas. Ora, André Ventura sabe que não pode dar um salto fora dos compromissos com o seu eleitorado, pelo se vai manter fiel ao homem-elástico que encarnou. Ao contrário de João Miguel Tavares, eu não acho nada boa ideia o PSD se dar a estas danças para chegar ao poder. E não, o BE não é a mesma coisa que o Chega. É por isso que é tão urgente revitalizar o CDS, tirando de lá o Chiquinho e colocando alguém capaz. Atendendo à idade de Adriano Moreira, diria Manuel Monteiro, Adolfo Mesquita Nunes ou mesmo Paulo Portas.

adenda: agradeço à equipa de blogs do Sapo pelo destaque deste post.

EUA: do sonho mau ao terrível pesadelo

Novembro 03, 2020

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Hoje é o dia que os estadunidenses* decidem o rumo dos próximos quatro anos, não apenas em matéria de Política e Direito interno, mas no âmbito internacional. Num mundo multipolar e ao mesmo tempo concentrado em eixos e focos de poder, os rumos dos EUA afetam, determinantemente, as trajetórias internacionais. Até à entrada de Donald Trump na Casa Branca, nunca a mentira se tinha tornado, de forma tão declarada e evidente, em modus operandi. Mentir e distorcer factos, tornou-se na tradução de Sentido de Estado, de um presidente inapto para o cargo, com graves distúrbios de personalidade e grosseiras falhas éticas. A mitologia urbana do sucesso aliada aos contrastes de um país que se assemelha a um continente, onde as suas zonas rurais vivem um fervor cristão e um continuum com o faroeste, colocaram Donald Trump sentado à mesa da sala oval. Hoje a "América" decide se pretende inverter esta espiral de insanidade política ou ampliar os atropelos à Democracia. Ampliar porque se Trump vencer sentir-se-á legitimado a tomar o poder nas mãos de uma forma decisiva, atropelando o Senado e manietando o Supremo Tribunal. Não obstante, a sua derrota não garante que abandone a Casa Branca. Convicto de que a cadeira presidencial é sua, Trump ameaçou já que não reconhecerá a derrota, remetendo a questão para o Supremo Tribunal, onde, sabemos, a balança está desproporcionalmente virada para o lado Republicano. Se assim for, o mundo ficará nas mãos do ST, esperando para saber se este obecederá às ordens de Trump ou se cumprirá o seu dever de reconhecer as urnas.

*opto por esta designação tendo em conta que os canadianos são, também, norte-americanos, geograficamente falando. 

adenda: agradeço à equipa de blogs do Sapo pelo destaque deste post.

Micropost [65] Murais do Racismo

Novembro 02, 2020

Sobre os murais racistas, nas escolas e universidades, importa lembrar que ao sabor do lusotropicalismo Portugal construiu um imaginário de país sem racismo, ou, nos termos mais negativos, de um país onde o racismo era moeda de troca. Uma falácia que esconde a dominação e o silenciamento. As políticas públicas que visam reverter esse histórico são interpretadas como favorecimento e proteção, reforçando ímpetos raciais. Enfim, não podemos deixar o racismo vencer, mas para tal é preciso desconstrui-lo de forma pedagógica.

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A Morada dos Dias é um blogue de João Ferreira Dias, escrito segundo o Acordo Ortográfico, de publicação avulsa e temática livre. Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.