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A Morada dos Dias

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

Micropost [31]

Janeiro 29, 2020

É óbvio que André Ventura tem noção que as suas declarações sobre Joacine Katar Moreira são institucional e parlamentarmente graves. No entanto, enquanto personagem que dá voz aos preconceitos e saudosismos do Estado Novo de uma franja eleitoral que configura o seu eleitorado fiel, ele sabe bem que é esperado que aja daquela forma. Portanto, o problema não é Ventura, porque ele só diz o que querem que ele diga, mas todos os nossos vizinhos, parentes e amigos que concordam com as suas palavras.

A ideologia da farda

Janeiro 23, 2020

André Ventura é um político arguto. A forma como tratou o caso Cláudia Simões é paradigmático da sua capacidade de recompor os factos em favor do argumento que lhe é eleitoralmente favorável e concordante com a sua ideologia securitária. Há muito que percebemos que ele confia nas forças policiais para fazer-se eleger e, eventualmente, fazer crescer o partido. É um eleitorado que conquistado, sentido que tem voz política, se manterá fiel. Por isso, mais do que se colocar ao lado do agente da PSP, arrolou um argumentário de natureza negacionista e conspiratório. Fazer crer que tudo foi uma encenação é um desrespeito pelas partes e um convite à criação de fábulas sociais perigosas. Dúvidas houvessem é seguir as caixas de comentários das notícias e o chorrilho de ataques raciais que são proferidos. Reconhecer que as forças de autoridade pública atravessam uma circunstância profissional deficitária não impede que vejamos uma situação de abuso de autoridade e força desproporcional, nem tão pouco que se reconheça que há um problema nos testes psicológicos e seleção no acesso à carreira, motivados pela falta de candidatos.

O caso Cláudia

Janeiro 19, 2020

Temos, naturalmente, duas versões dos acontecimentos. O estado em que ficou a detida invoca uma situação de abuso de poder e violência policial e atropelo aos direitos. A atitude do motorista revela uma disposição racista perigosa para o exercício das suas funções. Nada obsta que 1. Tenham ocorrido agressões verbais ao agente e algumas altercações que não estão registadas. 2. Que a detida ao ver-se numa situação desproporcional de força tenha reagido. Não estamos na posse de todos os factos, mas isso não impede que vislumbrar um caso de abuso de autoridade e desproporcional uso de força. Quando sabemos os poderes infiltrados nas forças de segurança pública ficamos desconfiados. Esperemos que tudo seja esclarecido e a situação alvo de medidas legais e exemplares. Seja como for, no quadro em que vivemos nada ficará verdadeiramente solucionado. As forças de segurança voltar-se-ão ainda mais para o lado de quem lhes dá voz, e quem se considera (muitas vezes justamente) alvo de abuso de poder continuará a desconfiançar daqueles que devem zelar pela sua segurança. Infelizmente temos cada vez menos posições de consenso. O número de comentários racistas na notícia é gritante. O SOS Racismo faz e bem o seu papel. Os partidos políticos devem esperar pelo apuramento dos factos antes de pegarem nas bandeiras e partirem para o fomento da desordem social.

O caso Giovani

Janeiro 18, 2020

É sempre necessário dar tempo à justiça para ela apurar os factos e produzir acusação. As presunções populares não costumam gerar coisa boa. Caberá, ainda, à justiça averiguar se houve deliberada tentativa de silenciamento do crime e impedimento de queixa por parte das autoridades. Daí deverão ser aplicadas as devidas medidas punitivas.
Todavia, nada obsta que existam iniciativas populares que reivindiquem justiça e celeridade na investigação. O que não me parece adequado é partir do princípio que o crime teve motivações raciais e rejeitar a decisão contrária apenas para fins político-ideológico-militantes. Se foi um crime racial deve ser julgado enquanto tal, se não foi deve aceitar-se e escusar-se à instrumentalização do caso.

Micropost [30] | Bragança e Campo Grande

Janeiro 07, 2020

Qual a diferença entre o crime do Campo Grande e o de Bragança? É simples: ao que indica o primeiro tratou-se de um crime de circunstância/oportunidade, sem outra motivação que não o crime em si mesmo. No caso de Bragança temos um crime de contexto, em que questões de etnicidade-racialidade não devem, até prova contrária, ser desconsideradas.

A era da pós-verdade

Janeiro 04, 2020

A era da pós-verdade, da verossimilhança, dos factos alternativos, resume-se numa frase clássica: não deixar que a verdade estrague uma boa história.

Como escrevia Mattelart, em História da Ciência de Informação (2006), a noção de information overload (excesso ou sobrecarga de informação) diz respeito a uma elevada taxa de entrada de informação nas sociedades urbanas que impossibilita o eficaz tratamento da mesma. Com isto, estamos diante de uma circunstância social na qual o caudal de informação peca por excesso, e o frenesim da obsolência e a ética do instante, termos de Chesneaux, em Modernidade-Mundo (1996), não se compilam com a verificação das fontes, dos factos e a necessidade de reflexão individual sobre os fenómenos. Esta situação é responsável por produzir o conceito de «pós-verdade», o aspeto mais marcante da sociedade digital em que vivemos.

O excesso de informação gerou uma necessidade seletiva, acelerada pelas redes sociais e os seus reduzidos caracteres, enfatizando o impacto das “gordas” dos jornais (títulos e subtítulos) e dos soundbites. Conforme McCallam no seu artigo “Les «petites phrases» dans la politique anglo-saxonne” (2000) e Le Séac’h em “La petite phrase: d’où vient-elle? Comment se propage-t-elle? Quelle est sa portée réelle?” (2015), o soundbite apresenta-se como uma espécie de provérbio moderno de ação política, que funciona por si mesmo e como fim em sim mesmo.

Desta conjugação compreende-se que a não verificação dos conteúdos informativos é um problema em “bola de neve”. Sabemos que tais conteúdos são partilhados massivamente, e que produzem um caudal excessivo de desinformações e erros factuais, uma vez que muitos dos meios de comunicação falham em apresentar títulos noticiosos que correspondam ao conteúdo da informação, uma falha deontológica e ética jornalística de forte repercussão social.

Com isto temos um caldo mediático e social favorável à germinação da «pós-verdade». Ora, por «pós-verdade» entende-se, nos termos do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa,

Conjunto de circunstâncias ou contexto em que é atribuída grande importância, sobretudo social, política e jornalística, a notícias falsas ou a versões verosímeis dos factos, com apelo às emoções e às crenças pessoais, em detrimento de factos apurados ou da verdade objectiva (…). Informação que se divulga ou aceita como facto verdadeiro devido à forma como é apresentada e repetida, mas que não tem fundamento real.

Desta clara e objetiva definição sobressaem duas categorias analíticas centrais: verossimilhança e crenças pessoais. É dessa combinação entre factos alternativos, i.e., que possuem verossimilhança e crenças pessoais que se entende o efeito devastador, mas operatório na ação política da «pós-verdade».

No seu livro Post Truth: Why We Have Reached Peak Bullshit and What We Can Do About It (2017) Davis mostra que a necessidade de posicionamento dos cidadãos individuais e anónimos face aos atores públicos e ao mundo novamente maniqueísta e bipolarizado que vivemos é mais importante do que o deslindar dos factos. Por outras palavras, os discursos políticos são relevantes, cada vez mais, não pela sua capacidade de acederem ao conteúdo dos factos, portanto pela verdade que contêm, mas antes por darem corpo ao conjunto de crenças pessoais e grupais. Nesse sentido, os fenómenos sociais são manipulados a fim de darem sentido aos discursos, ao invés dos discursos refletirem os factos sociais. A «pós-verdade», então, corresponde à interpretação e adulteração dos dados e factos a fim de compor uma narrativa alternativa ou de os fazer caber numa ideia de realidade. Trata-se, portanto, da ideologia de grupo que se quer assegurada, já não pela recomposição do passado de que falava Triaud em “Lieux de mémoire et passés composés” (1999), mas pela reconfiguração do presente.

Tudo isto tem estado presente na ação política de Donald Trump, Boris Johnson, Jair Bolsonaro e André Ventura, para citar apenas alguns casos. Os seus eleitores não têm tido problema em declarar que o facto de mentirem em nada altera a sua confiança política ou intenção de voto. É reconhecido valor político na mentira para efeitos eleitorais. Isto condiz com uma nova forma de participação dos cidadãos na política, mais ideológica do que nas últimas décadas. As notícias e os conteúdos produzidos para efeitos de desinformação (fake news) passam a estar ao serviço da eleição de políticos que reivindiquem valores e políticas nacionalistas e que se aproveitam dos preconceitos outrora silenciosos.

Nem a manipulação dos dados relativos ao desemprego nem o tráfico de influências que está na base do processo de impeachment em curso são problemáticos para o eleitorado fiel de Donald Trump, na sua maioria um eleitorado rural, de baixa escolaridade, de situação económica instável, evangélico e racista, que melhor apreende os soundbites de Trump do que os discursos de Obama. Vários eleitores de Boris Johnson declararam, nos últimos dias da campanha eleitoral de 2019, que não estavam preocupados com as incongruências dos discursos do líder conservador, o mais importante era concretizar o Brexit. Os eleitores de André Ventura não parecem preocupados com o paradoxo da sua tese de doutoramento e dos seus discursos sobre os ciganos, nem com o facto desses discursos serem discordantes da realidade, ou de defender um combate à corrupção e ter apresentado candidatos europeus com processos judiciais por prática de corrupção. Não foi problemático que André Ventura tivesse sido apanhado de surpresa com o programa de destruição do Estado Social do seu partido. Os eleitores de Bolsonaro não se preocuparam com a sua apologia da ditadura militar ou com as soluções radicais do seu programa de governo em matéria de privatização de todos os recursos naturais do país e de ataque ao ensino. Tanto num caso como no outro, o mais relevante foi a presença de narrativas que traduziam o racismo, a homofobia, o ataque ao multiculturalismo, coincidentes com as aspirações de tais eleitorados.

A era da pós-verdade, da verossimilhança, dos factos alternativos, resume-se numa frase clássica: não deixar que a verdade estrague uma boa história.

* publicado também ali.

Dias de Cinema | Marriage Story

Dezembro 31, 2019

Numa América que nos acostumou a produzir cinema com orçamentos milionários e mesmo assim não ser capaz de realizar uma história com profundidade emocional, "Marriage Story" agrada bastante por servir de contraponto. Tem qualquer coisa de Woody Allen, na densidade dos diálogos e nos planos. Tem a força do realismo e da vida, é cru, é sofrido, é humano. Força-nos aos medos do fim dos relacionamentos, leva-nos aos muros erguidos e às vítimas. Às chantagens, ameaças e sofrimentos. Mas não é extraordinário, longe disso, a não ser pela capacidade de produzir identificações e projeções. É por isso que Nuno Markl levou um soco no estômago. Ainda bem que só senti um nó.

Micropost [29] | Trumpty Dumpty had a great fall?

Dezembro 20, 2019

A grande questão não é se a destituição é aprovada no Senado, coisa, que não será, não só porque o Senado está dominado pelos republicanos, como nenhum impeachment foi aprovado naquela sede anteriormente. A questão é saber qual o efeito na popularidade e na reeleição de Trump. A julgar pela tipologia do seu eleitorado mais fiel e pela capacidade de vitimização e de resistência pública do presidente norte-americano, não será este processo que o vai impedir de ser reeleito. Tudo isto é prova de que vivemos um tempo diferente, que conjuga o realismo maquiavélico com a pós-verdade e uma bipolarização do sistema político e social, com a emergência de visões maniqueístas da sociedade e da atividade política e um nova onda de puritanismo ideológico.

Micropost [28] | Soem os trumpetes

Dezembro 19, 2019

As provas são contundentes contra Donald Trump. Não restam dúvidas de que o presidente dos EUA tem gerido o país com o mesmo cunho de tráfico de influências que gere as suas empresas. Aliás o país é apenas mais uma das suas empresas. É por isso que ele não percebe a gravidade dos seus atos. Infelizmente tenho dúvidas que o impeachment se dê -- apesar da aprovação da Câmara dos Representantes --, tendo em conta que necessita da aprovação de 2/3 do Senado. Em todo o caso os republicanos ficarão com a vergonha de terem salvo um presidente gravosamente corrupto no exercício das suas funções presidenciais.

Micropost [27] | Na veia do capitalismo

Dezembro 18, 2019

600 milhões serão injetados no Novo Banco. Não há como escapar à prisão gerada pelo sistema neocapitalista. A prioridade é, sempre, a banca, não as pessoas. É com este modelo fétido que as pessoas se sentem atraídas pelo populismo, desconsiderando que a solução que aqueles propõem, efetivamente, não passa, também, pelas classes mais baixas, mas pelo assegurar das condições favoráveis ao poder económico. Nada de diferente, portanto, a não ser no desapego pela democracia.