Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A Morada dos Dias

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

A nova homepage dos Blogs do Sapo

Novembro 05, 2019

A proliferação de redes sociais e o modelo imediatista de publicação, com a ascensão da escrita reduzida, por via do Twitter e, agora, das frases curtas para o Instagram, pareciam anunciar a morte dos blogs. A potenciar o facto estaria a circunstância de isolamento característico do modelo de hospedagem de blogs. A equipa dos Blogs do Sapo cedo percebeu que a sobrevivência e expansão da plataforma passava pela construção de um sentido de pertença digital a uma «comunidade imaginada», para usar os termos de Benedict Anderson. A nova homepage, que acaba de inaugurar, é a consolidação desse sentido de vizinhança necessária contra a solidão digital. A forma como incorporam mais destaques e colocam excertos é revelador da competente análise da sua equipa, ao produzir uma resposta que garante a continuidade da plataforma numa era de declínio da reflexão e da escrita demorada. Well done, mates. 

Ainda a gaguez de Joacine

Novembro 05, 2019

Somente a direção do Livre poderá decidir se a gaguez de Joacine configura ou não um problema no desempenho das suas funções como deputada. E a própria. Afinal de contas, o que interessa à direita que um partido de esquerda não "consiga" transmitir a sua mensagem? Nada. Aliás, no quadro do jogo político, tanto melhor que não consiga. Alguém duvida que o PSD e o CDS rejubilariam se António Costa ficasse afetado nas suas capacidades comunicacionais? Por isso, o que incomoda às vozes mais críticas não é a gaguez, mas a diferença. Por fim, quando a discussão permanece no nível do biológico temos um problema de substância. É urgente parar de discutir Joacine ou a saia do assessor para começar a discutir as ideias do Livre. Mesmo para o Livre, manter Joacine Katar Moreira como símbolo, na qualidade de mulher, negra, gaga, revela-se uma fonte esgotável como recurso político, além de continuar a objetificar os sujeitos, o que é, precisamente, o contrário do desejado. Uma candidatura que pretendia subverter o status quo não pode cair nas armadilhas de, na ânsia de inverter da norma social, a reproduzir às avessas. Já se deveria ter passado da fase "o que é Joacine", para "o que pensa o Livre, nas mais diversas matérias". Este circo em torno da pessoa, de uma ideia de um partido tornado em microcausa, e não do programa político, não é nada abonatório, nem para a deputada nem para a Democracia. 

Micropost [16]

Combater o Chega

Novembro 03, 2019

O discurso do Chega não se combate com gritaria nem posições puritanas de ofendido, mas pela confrontação dos factos. Uma das medidas a tomar para combater a narrativa da impunidade dos ciganos passaria por um levantamento do número de presos de etnia de cigana. Facto a facto, sem invisibilidade em favor de um "politicamente correto", contra o populismo.

Micropost [15]

das coisas que fazem a extrema-direita

Novembro 02, 2019

Uma das razões para o crescimento da extrema-direita encontra-se na extrema-esquerda. Não por causa de coisas tão elementares como o direito à autodeterminação em matéria de eutanásia, aborto, género, ou de políticas sociais de combate ao racismo, por exemplo. Não é pela existência tão necessária dessas agendas, mas antes pela radicalização dos discursos cuja razão é a febril afirmação como «verdadeira esquerda». São tantas as luzes que não se vê o palco.

Se cabe num tweet é política

Outubro 30, 2019

A nova composição da AR é a prova da existência de uma renovação total de velhas crenças e da revigoração de nostalgias. Se o Chega trouxe a fala dos reformados saudosistas de velhos regimes e dos frequentadores de tabernas acerca dos "ciganos, pretos e paneleiros", a IL recupera a crença na «mão invisível» como modelo económico-financeiro, que depois de ter resultado mal da primeira vez, há sempre a hipótese de correr pior da segunda, como no Chile. Por sua vez, o Livre viu-se deslocado do seu europeísmo de Esquerda para uma agenda de causas, que embora importantes, não deveriam resumir o programa do partido. Por fim, o PAN é a vitória da solidão e desconfianca humana. Com prejuízos para a Democracia, temos uma AR marcada pela utopia do mercado, dos homens de saia, dos pet lovers, dos anti-ciganos. Em suma, a política da simplificação que caiba num Tweet.

quem tem medo do comunismo?

Outubro 25, 2019

O fascismo e o comunismo não são iguais. Ainda que o comunismo se tenha tornado num regime totalitário e violento, o seu princípio não o era. O mesmo não pode ser dito do fascismo. E isto lembra o caso brasileiro, com o combate ao PT com receio de uma venezuelização que nunca veio nem viria, optou-se por um presidente com ideais autoritários e repressivos. Além do mais, o perigo vermelho não existe na Europa, mas o perigo fascista é bem real. Mesmo o regime chinês tem, hoje, mais caraterísticas do fascismo do que do comunismo. Portanto, condenar ambos os regimes sim, em concreto, confundir ideologias num tempo em que a ameaça fascista é real, não.

A Caridade

Outubro 17, 2019

Perguntam-me, de quando em vez, porque torço o nariz à ideia de caridade, quando nela se encontra o desejo de ajudar o outro. O problema, sempre digo, não é o ato nobre da ajuda, mas antes a ideologia social que a caridade contém. A caridade é a prática da esmola numa sociedade de fronteiras sociais demarcadas. Para que ela exista é preciso que os pobres se mantenham pobres e os ricos se mantenham ricos. Porque uma sociedade que não precisa da caridade é uma sociedade de justiça social. São coisas diferentes. A caridade é o status quo, a justiça social é a busca pela equidade na distribuição da riqueza.

"assim se vê a forca do PC"

Outubro 16, 2019

A prontidão com que o PCP se desenvencilha da Geringonça, deixando a ideia de que não houve um acordo mas um entendimento ao longo da última legislatura, revela uma interpretação superficial dos resultados eleitorais, que desconsidera as alterações políticas da sociedade. Uma fatia do seu eleitorado histórico já faleceu e a renovação geracional é ténue. As lutas de Esquerda já não são apenas da ótica proletária, mas de questões LGBTI, de minorias étnicas, e outras questões sociais sobre as quais o PCP tem uma visão quase ruralista. As gerações mais jovens não se reveem em Jerónimo de Sousa e na agenda do partido, encontrando mais representatividade no BE e no Livre. Acrescente-se que o próprio BE tenderá a assumir uma posição mais euro-participativa, ou arrisca-se a ver o seu eleitorado migrar para o Livre.