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A Morada dos Dias

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

Chega a agulha, afasta o dedal

Dezembro 06, 2019

O Chega tinha no seu programa político acabar com o SNS, com a escola pública e o favorecimento das grandes fortunas, numa sedução ao apoio dos setores ultraliberais da sociedade portuguesa, ao mesmo tempo que afagava os ódios primários do seu eleitorado mais alargado, através de soundbites racistas. Na hora de se confrontar com esse programa de destruição do Estado Social, ou seja, onde iria doer no seu eleitorado, o Chega retira o programa do ar e prepara uma profunda revisão. Ventura é a personificação da frase de Groucho Marx, "Estes são os meus princípios. Se você não gosta deles, eu tenho outros."

Ainda Greta

Dezembro 04, 2019

Greta tem 2 públicos-alvo que se espera que tenham reações distintas. Por um lado os adolescentes, que "tipo" precisavam de um acordar das redes sociais para o ativismo, e que para tal necessitavam de um ídolo. Por outro os adultos, os que elegem e os que são eleitos, que Greta pretende responsabilizar. O que não se espera é que os adultos se comportem de forma tão infantil. Se uns estão embevecidos à volta da manjedoura, outros estão no papel de haters. No meio disto vão os adolescentes fazendo melhor figura, já que os adultos estão mais preocupados em beatificar ou em destruir o carácter a jovem ativista. BOYAN SLAT fez mais pelo planeta e tem menos exposição? Sim. Culpem os media.

Greta

Dezembro 03, 2019

O caso da ativista Greta Thunberg é paradigmático dos tempos que vivemos. Escasseia o meio-termo, a boa velha máxima "virtus in medium est". De um lado há uma devoção messiânica, do outro uma demonização total. Em ambos os casos abandonou-se a mensagem para se focar no mensageiro. Constrangedor.

Micropost [23] | Pós-Democracia

Novembro 29, 2019

O processo de impeachment de Donald Trump revela de forma clara e evidente a extensão e a gravidade das ações de um homem que acredita ter comprado o país como quem compra uma empresa cotada na bolsa. Aquilo que outrora seria matéria mais do que suficiente para a destituição e a vergonha de uma nação, não conduzirá a nada. Os seus apoiantes tomam por normais as suas violações democráticas. Na era do cansaço da ética tudo é lícito a um certo tipo de pessoas. Teremos Trump por mais um mandato e a consolidação da era pós-democrática como paradigma vigente.

O problema de fundo no caso do LIVRE e Joacine

Novembro 29, 2019

A reboque dos péssimos tempos que vivemos, o escrutínio a Joacine Katar Moreira tem o problema de soar sempre a racismo. E por isso mesmo, os mais fiéis eleitores e apoiantes da deputada do LIVRE arreigam-se em seu redor, porque avaliar as decisões políticas de Joacine é fazer purgas de caráter, é reproduzir o racismo estrutural e reavivar o determinismo racial. O excesso de atenção mediática, que resulta de uma combinação entre a pessoalização da agenda partidária e a exotização do pioneirismo da deputada enquanto mulher negra e única representante de um partido estreante, contém a tensão entre a descolonização como necessidade intelectual, a descolonização como ato político de combate à invisibilidade racial e a descolonização como um ataque à heróica história de Portugal.

Ora, esta radicalização dos «lugares de fala» putrifica a política portuguesa, porque não permite olhar objetivamente os acontecimentos sem os inscrever num contexto social de combate cultural e descolonização do pensamento. O problema é que a situação política objetiva do braço-de-ferro entre o LIVRE e JKM não deve ser inscrita num contexto racializado. Quem quiser atacar a deputada por ser negra, feminista ou gaga deve retirar-se da ágora. E o mesmo é dito para quem quiser elevá-la a mártir e messias. 

Objetivamente, o escrutínio a JKM está num nível superior ao de André Ventura. Mas as razões residirão em matéria racial ou em protetorado mediático do líder da extrema-direita? Nenhum dado aponta nesse sentido, mesmo quando parece formar-se um eixo de apoio camuflado a André Ventura no quadro do grupo Cofina. Pelo contrário, a responsabilidade por esse peso excessivo de atenção negativa deve-se, sobremaneira, ao desencontro do partido liderado por Rui Tavares e a sua deputada única na Assembleia da República. E o desencontro não é, somente, ao nível da comunicação, como tem sido mencionado. Longe disso. O desencontro reside, sobretudo, na agenda política e no modo de fazer política. JKM acredita na pessoalização da atividade política, que a ação do LIVRE é por si, em si e sobre si. Não é por acaso que afirma que se elegeu sozinha e que o partido não tem de lhe ensinar a fazer política. É soberba? Bom, imprudência é certamente. Embora haja que reconhecer que tal "arrogância" seria tolerada em André Ventura e, aqui, não poderemos escapar às malhas da racialização e do imaginário salazarista dos negros humildes enquanto metáfora para subserviência. Nada obsta, todavia, que lhe possamos fazer a crítica do deslumbramento e da má assessoria que lhe é prestada, que tem contribuído para um clima de guerra e não de serenamento. A estratégia de silêncio do BE em relação à saída de Mamadou Ba do partido revelou-se uma lição. Ao não se manifestar, o partido impediu que o assunto se tornasse num debate sobre racismo, anticolonialismo, necessidade de descolonização, e tudo o mais que não abonaria a favor de nenhuma das partes. O que o LIVRE não entendeu, o BE aprendeu. 

O próximo congresso do partido irá determinar os rumos do partido, se de facto o LIVRE vai permanecer como uma reciclagem do BE dos primeiros tempos – radical, ultrapessoalizado e delimitado na sua agenda identitária –, ou se vai encontrar forma de fazer caber a agenda identitária num programa alargado de reivindicações políticas. O que não pode, sob prejuízo de esgotar de vez a imagem quer do partido quer da deputada, é permanecer em disputa pública e desencontrado.

O Cheiro do VOX

Novembro 27, 2019

Em Espanha era consensual, da esquerda à direita, a necessidade de combate à violência sobre as mulheres. Era matéria sobre a qual todos os partidos estavam de acordo, havendo uma expressão de unanimidade. Havia. Porque este ano o VOX colocou-se à margem do tema. Quem simpatiza com o VOX -- como Nuno Melo, e de onde o Chega retira inspiração -- deve ter isto em conta e fazer a devida reflexão se o medo do multiculturalismo é mais forte do que os valores da democracia. Desengane-se quem acredita que o VOX, tal como o Chega, veio para acrescentar valor à democracia. O ar que traz é bafiento. Cheira a ditadura, cheira a patriarcado e machismo, cheira a homofobia, cheira a racismo, cheira a antiparlamentarismo, cheira a antipluralismo.

Em Queda Livre

Novembro 26, 2019

O LIVRE falhou o prazo para a entrega do seu projeto-lei sobre a nacionalidade, uma das bandeiras do partido. A justificação reside, segundo declarações oficiais do assessor de Joacine Katar Moreira, nas já conhecidas falhas de comunicação entre a deputada e a direção do partido. A sucessão de falhas de comunicação num partido de reduzidas dimensões e que, inclusivamente, em tempo de campanha eleitoral possuía um número WhatsApp para contacto por parte dos eleitores, é pesarosamente suspeita. Numa matéria absolutamente vital para o partido, que possui uma agenda essencialmente identitária, o incumprimento do prazo revela mais do que uma falha de comunicação, uma vez que é expectável que um partido candidato à AR, e que tem nesse tema um ponto nevrálgico, tivesse já um projeto-lei sobre a matéria previamente elaborado. 

→ obrigado à equipa do Sapo.pt pelo destaque deste post.

Micropost [22] | Mamadou Ba sai do BE

Novembro 25, 2019

O combate ao racismo e às várias formas de invisibilidade social é determinante na construção de uma sociedade justa e equitativa. Nesses termos, pessoas que vestem a camisola fazem muita falta. No entanto, há uma barreira de linguagem a partir da qual a luta se torna contraproducente. Quando se abandona a luta racional, a explicação, a desconstrução e a descolonização do pensamento e se cai, apenas, no ataque em todas as direções, o resultado é a rejeição social. Combater o racismo não é fazer de todxs xs que não são minorias implicitamente maus.

O escrutínio a Joacine Katar Moreira

Novembro 25, 2019

Joacine Katar Moreira é hoje a deputada mais escrutinada do país, uma sobre-dosagem que reflete muitos outros aspetos sobre a sociedade portuguesa. Seria, obviamente, um erro considerar que a deputada do Livre, por motivos da luta contra o racismo e a invisibilidade, é intocável e inscrutinável. O seu lugar de fala é importante na democratização da Assembleia da República, ainda incapaz de refletir a pluralidade da sociedade portuguesa. Basta ver, por exemplo, o número excessivo de advogados na AR. Ora, se JKM deve ser objeto de escrutínio e deve aguentar as críticas sem tomar tudo por discursos de ódio, também não deve ser transformada em alvo fácil, em causa de todos os males, em símbolo do pior da política nacional. Uma inflexão dessa natureza só pode espelhar o papel que o racismo ainda ocupa na forma como a nossa sociedade ainda se estrutura e reproduz. Só isso justifica o excesso de atenção a tudo o quanto a deputada faz, o que reflete, igualmente, um olhar exotizado sobre os negros. Quanto à abstenção nas matérias recentes, as justificações, embora plausíveis, até pelo atraso na sua exposição, parecem fabricadas a posteriori, não convencendo totalmente.

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adenda: grato à equipa dos Blogs.sapo e do portal Sapo.pt pelo destaque deste post. 

Micropost [21]

/ A polícia e as lições que se tardam em aprender /

Novembro 22, 2019

A atenção que vai ser dada às precárias condições dos polícias, com um atraso de mais de uma década, é uma coisa tipicamente portuguesa, uma reação aos efeitos e não às causas. Com isto André Ventura vai rindo e somando pontos, ensinando os politólogos que é preciso a sociologia antes de dizer certos disparates como o de que estaríamos imunes ao populismo, e ao velho bloco central que há assuntos que não se podem empurrar com a barriga, porque mais tarde ou mais cedo fazem ricochete.