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A Morada dos Dias

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

Da Auto-Estereotipização

Junho 04, 2020

O antropólogo português Miguel Vale de Almeida, escreveu há uns tempos, no seu blogue, um interessante texto sobre estereotipizações e a forma com estas podem ser auto-induzidas. A forma como os estereótipos organizam o todo social e delimitam fronteiras de conforto, é tema amplamente conhecido. A psicologia social, enquanto fenómeno, particularmente nas áreas urbanas, mas ainda assim nas áreas rurais, tem nas suas avenidas mentais um conjunto de estereótipos que servem para traças as fronteiras e os padrões de um coletivo plural. Os estereótipos, frutos das alteridades permanentes, são simultaneamente produto e produtores de sociedade.

Se as ciências sociais reconhecem os estereótipos como um fenómeno de longue durée, não é menos inesperado que a literatura esteja cheia destes modelos sociais. A grande obra de Jorge Amado viveu em torno desses papéis socialmente adquiridos e modelados. Em Jubiabá António Balduíno representa o negro malandro, sambista, que leva as "cabrochas" na sua cantiga, a título de exemplo de personagem como fator psicossocial.

O que é mais curioso do que a fundação das sociedades em torno destes tipos comportamentais é a apropriação do modelo por parte desses mesmos grupos. No espaço sociocultural afro-brasileiro, a figura do "malandro" encontra-se amplamente difundida e apropriada. Trata-se de um estereótipo construído de fora e amplificado e cristalizado no interior do seu locus de validação. No imaginário umbandista (religião brasileira por excelência), os Exús como Zé Pelintra, Bom Malandro, et. al., representam a valorização desses estereótipos.

É por isso curioso que MVA fale num estereótipo gay construído de dentro para fora. O capital cultural de um segmento social também se constrói por si e para os outros. A afirmação do Candomblé como «religião de resistência» e menos como «de adaptação» constitui precisamente um exemplo de auto-estereotipização. Dessa perspetiva, tal exercício representa um atuação política, uma ferramenta de auto-ressignificação.

Minneapolis

Maio 30, 2020

Apesar de compreender e solidarizar-me com a raiva e a saturação face à impunidade, à injustiça e ao racismo estrutural, não acredito em ganhos reais pela via da destruição. Nenhuma luta se ganha sem um apoio generalizado. É preciso, infelizmente, convocar continuamente as consciências públicas. Ganhar a simpatia, mesmo em causas que deveriam ser por si mesmas. A lógica é simples - se a sua propriedade estiver ameaçada no meio de uma luta, mesmo que legítima, as pessoas não darão o seu apoio, mas acabarão por estar ao lado do status quo, não por pactuarem com as marginalidades que esse estado de situação representa, mas porque são lesadas pela reivindicação. É preciso compreender isso, também. Uma greve é eficaz pelo efeito económico da paralisação, não quando se acompanha de destruição. Trabalhadores que destroem uma fábrica para onde querem voltar com melhores salários, que ganho têm com isso?
Por isso, acredito na tomada da rua de forma pacífica. Acredito que um movimento de paralisação da comunidade afrodescendente nos EUA traria efeitos económicos devastadores superiores à destruição de propriedade. Acredito num ganho maior pela tomada da rua de forma silenciosa, se em cada espaço de poder e justiça (tribunais, câmaras municipais, etc) permanecessem grupos acampados, se atletas afrodescendentes se recusassem a jogar, se juízes negros se recusassem julgar, e gestos similares tivessem lugar. Em pouco tempo não afrodescendentes adeririam à luta. Uma luta que é feita em nome da justiça, da democracia.

Micropost [45] Ventura e a Rixa

Maio 26, 2020

Nas redes sociais André Ventura aproveita uma rixa envolvendo indivíduos ciganos para fazer política, afirmando que não quer contribuir com os seus impostos para esta comunidade. O deslize discursivo óbvio. Se A então B. Não há contexto, só apropriação de atos com fins racistas. Na dúvida sobre a intenção de Ventura, pense: porque uma rixa de ciganos merece um comentário político e uma rixa entre vizinhos por causa de um pedaço de terra não? Porque há um caldo racial que convém aproveitar. Já agora, nós também pagamos o salário do Sr. Deputado e pagámos o seu doutoramento na Irlanda, com os nossos impostos. Chama-se Democracia, senhor.

Micropost [44] O país COVIDizer

Maio 25, 2020

O desconfinamento levou os portugueses a considerarem o vírus um sonho mau do qual se acordou. Povo valente e munido de uma ignorância triunfante, enfrenta o calor em apinhamentos, porque isso da distância social e dos cuidados de higiene é chão que já deu uvas, uma mariquice lisboeta. Quando vier o caos dos seus atos não terão espelho em casa. Apontarão o dedo ao governo e benzendo-se sem fé votarão no messias que a poeira do Estado Novo pariu.

Micropost [43] Efeito Desconfinamento

Maio 11, 2020

Aumento do contágio e, assim, do número de casos. Como havia escrito, deu-se o relaxamento e a confusão entre desconfinamento e fim do vírus. Por aí tem-se visto pessoas a circularem sem máscaras, sem qualquer cuidado, e ajuntamentos vários. Vamos voltar ao confinamento obrigatório e com isso aumentar os efeitos devastadores na economia. Não se esqueçam da responsabilidade que tiveram nisso quando apontarem o dedo ao governo e pegarem na bandeira populista dos Venturas.

Micropost [42] Bolsonaro

Maio 06, 2020

Um ignorante num lugar decisório sente-se sempre ameaçado por todos. Não sabendo como se manter e legitimar de forma democrática, ataca em todas as frentes com ofensas à dignidade alheia e ameaças às instituições democráticas. Qualquer não-alinhado é um perigo na sua paranóia. Todos os traços de personalidade autocrática estão evidentes. Na linha histórica da pessoalização do poder sul-americana, Bolsonaro espera a oportunidade para fechar o Congresso e o STF e cumprir o sonho de restaurar a ditadura militar. Ainda na segunda-feira recebeu, no Planalto, um dos homens fortes do regime militar.

Micropost [41] Infetados políticos

Abril 24, 2020

Inflação e aumento exponencial do desemprego é uma realidade em grande parte dos países. Portugal mantém-se, para já, numa situação controlada. É, portanto, incompreensível os ataques ao governo. Da parte de determinados políticos é expectável, tal o ímpeto populista. Da parte dos empresários também, pois em tempos de crise o biberão do Estado calha sempre bem. Da parte dos cidadãos, particularmente em determinados termos pouco lúcidos, é sinal de que o confinamento já está a gerar efeitos psicológicos, levando as pessoas a acreditarem em soluções não democráticas. Desconfiança e medo sempre parem autoritarismos. 

Micropost [40]

Abril 24, 2020

Quando olhamos os números de casos e mortes por Covid-19 em Portugal tendemos a fazê-lo em termos absolutos. Mas é preciso colocar na balança a população portuguesa quando comparada com Espanha. 10 milhões contra quase 47. Nessa equação realista os números não são tão simpáticos.

O vírus do estigma saiu à rua, novamente

Abril 17, 2020

Somos confrontados com as mensagens deixadas a profissionais de saúde e de superfícies comerciais pelos seus vizinhos, pedindo que encontrem outro lugar para morar. Sim, de facto, há uma questão sanitária neste assunto, mas não é apenas a do vírus, é a da decência. A partir da ótica do medo e do estigma, toda esta situação é excessivamente similar com a dos negros em bairros de classe média e alta dos EUA, ou com os judeus na antecâmara do nazismo. Todos eram pessoas indesejáveis, vista como transportando com elas uma toxicidade qualquer, um vírus que infectaria os lugares onde moravam.

As mal-aVENTURAnças

Abril 16, 2020

Há para aí um grupo de apoio a André Ventura que o apelida de "Salvador nacional". Certamente não têm presente que o último "Salvador da pátria" foi Salazar. Ou se calhar até têm, e é precisamente por isso que aplicam a mesma receita. É tão constrangedora esta disposição para o messianismo, para esperar que jogadores políticos sejam uma espécie ungidos. Como esperar que alguém que pensa uma coisa e diz outra venha resolver o que quer que seja? Como esperar que alguém cuja posição política se baseia em soundbites retirados de caixas de comentários que seja impoluto? Como esperar que alguém que tinha no seu programa político a destruição da Escola pública e do SNS, que venha agir em nome do povo? Tinha, pretérito imperfeito. Imperfeito como o seu carácter. Tinha, porque o apagou mal foi confrontado com o facto. Portanto, nem a coerência política lhe é intrínseca. Nada daí viria de diferente ao mundo da política se não fosse o caso de lidarmos com alguém que reconhecendo os tempos que correm se apresenta como um ator político externo, um outsider da toxicidade da vida política. Uma mentira entalhada com ouro dos preconceitos daqueles para quem a sua mensagem é desenhada. 
Enfim, heranças religiosas na vida pública. No Brasil também há um Messias, de nome, que é visto como "mito". Não há como não ter vergonha alheia. Não deles, mas de quem empunha a sua bandeira sem filtro, sem peneira, sem sentido crítico. O Messias é apenas um promessa, uma exaltação e esperança. Quando se transforma alguém real num Messias corre-se o risco de ver nos seus defeitos as suas perfeições e, assim, abdicar da racionalidade própria e deixar-se guiar por um "vendedor de sonhos". 

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A Morada dos Dias é um blogue de João Ferreira Dias, escrito segundo o Acordo Ortográfico, de publicação avulsa e temática livre. Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.