Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A Morada dos Dias

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

A Vitória do Syriza. Horizontes para um amanhã europeu.

Janeiro 25, 2015

A vitória do Syriza abre portas a uma nova Europa? Não necessariamente. Demasiados fatores deverão ser tomados em conta e muito jogo político estará agora a começar. Há um mantra na União Europeia que afirma a necessidade dos gregos cumprirem os seus deveres. Não será pelos gregos que a Alemanha abrirá mão do seu projeto, o qual é a fatura de ter aceite fazer parte de uma moeda regional. Os alemães padecem de um egocentrismo francês tornado pragmático, sendo muito pouco dados a pensar fora de si mesmos e do seu velho «espaço vital». Não adianta os especialistas virem dizer que afinal a austeridade é um péssimo caminho, um dos muitos erros cometidos por políticas de gabinete, a começar pela moeda única que pretendia nivelar pelo marco alemão uma série de países a diferentes tempos e realidades socioeconómicas. 

Não obstante, e a menos que o Syriza pós-eleito se torne num partido moderado e negocial, certamente que o jogo de poderes europeu irá mudar. Irá a Grécia permanecer na União Europeia? Irá abandonar a moeda única? A Grécia será, daqui em diante, um palco de muitos exercícios laboratoriais. Muitos países estarão de olhos no rumo grego como ensaio para futuros caminhos alternativos. A Alemanha desengane-se se julga que poderá manter a Grécia em rédia-curta. Os gregos não são os portugueses, isso já se viu. Ademais, os gregos não olham os empréstimos europeus como dívida a ser paga a elevados juros, pelo contrário, trata-se, sim, da sua perspetiva, da restituição do empréstimo que a Grécia concedeu à Alemanha pós-II Guerra Mundial. E esta é uma interpretação diametralmente diferente. Acresce que os gregos não olham para a austeridade e a salvação dos bancos e da dívida dos privados com o encolher dos ombros luso, para eles trata-se de uma afronta real ao povo real. E tornaram-no muito claro, nas eleições de ontem. 

A Igreja de Francisco.

Dezembro 02, 2013

A Exortação Apostólica do Papa Francisco tornou-se num curioso campo de debate, colocando a «esquerda» e a «direita» a repensarem a sua leitura papal. A descoberta da Doutrina Social da Igreja por parte da Esquerda Europeia – bem a propósito do contexto político-económico-social vigente, numa época em que o desassossego é tão premente quanto real, e tão urgente quanto instrumentalizável – e o abanão dos alicerces ideológicos-cristãos edificados pela Direita Europeia são, na mesma medida, fatores risíveis, ou seriam, se na verdade não revelassem, per se, a longa cortina erigida entre a doutrina fundacional da Igreja e o seu longo discurso histórico a propósito da vida em sociedade.

 

A  Doutrina Social da Igreja nasce com a encíclica Rerum Novarum, do Papa Leão XIII, a 15 de maio de 1891. Embora se constitua como uma data de  viragem das preocupação vaticanas a propósito do capital, do trabalho e da pobreza – em rigor sob as flores do maio de Das Kapital de Karl Marx  e como contrarresposta da Igreja, numa verdadeira lógica de «via alternativa» - ela apenas retoma –retenha-se – os primórdios doutrinários da Fé de Cristo.

 

Quer isto dizer, ipsis verbis, que doutrinariamente a Igreja sempre foi – reconhecendo o «realinhamento retrospetivo», recorrendo aos termos de Arthur Danto, e o respetivo cuidado necessário – de «Esquerda». Pelo menos naquilo de que a «Esquerda» é mais fundacional: a pobreza, a solidariedade, a igualdade, a liberdade, e a justiça equitativa. Não obstante, ao sabor dos contextos, e na promiscuidade entre a Santa Sé e o poder político, foi-se construindo a ideologia da Igreja. Portanto, enquanto dogmaticamente a Igreja é por definição de «Esquerda», o seu substrato social foi e é de «Direita». Os meandros da realeza e do clero são bem prova disso. Ademais, as oposições da Igreja aos métodos contraceptivos, às relações homossexuais, ao aborto, etc., não têm necessariamente a ver com a Doctrina Christiana mas antes com modelos de sociedade construídos nas margens do Advento Messiânico. 

Ainda o Livre.

Novembro 22, 2013

O ruído de fundo gerado em torno do partido criado por Rui Tavares, é incompreensível. Essencialmente da margem «direita», com elevado teor de hipocrisia, vieram a terreiro os rumores de que Rui Tavares fazia do LIVRE um golpe para se perpetuar por Bruxelas. A falta de ponderação à «direita» e o elevado silêncio da «esquerda» revelam também o incómodo que começa logo por ser a iniciativa de Rui Tavares. Não se compreende, desde logo, tamanha aflição. Há sempre espaço para mais um partido no espetro político português. Não me recordo, na verdade, de ter havido tanta barulho pelo Partido Humanista, pelo Partido pelos Animais e pela Natureza, e outros que tais, tão legítimos quanto o LIVRE. Há, claro, uma razão em todo este barulho que revela algum medo. Rui Tavares não fará caminho sozinho, com ele estão e estarão nomes fortes da «esquerda» lusófona, dissidentes do Bloco de Esquerda, na sua maioria, pessoas que se vêem melhor no rio que corre entre o Bloco e o PS. O que assustará, creio, em particular os "bloquistas", é a franja social que o LIVRE representa(rá): o eleitorado urbano de «esquerda» que considera o BE demasiado radical. Aquela massa de cidadãos que é contra a troika mas que gosta e quer fazer parte da Europa, que não se vê longe dessa geografia das emoções que é a União Europeia. E a julgar pela carreira política e pelas iniciativas tomadas por Rui Tavares, há que lhe dar o benefício da dúvida, pois que à esquerda há sempre ideias, e na política há sempre espaço para mais um. 

Na Esquerda, há sempre Esquerda.

Novembro 18, 2013

A emergência do Partido de Rui Tavares, ou oficialmente o Partido Livre, corresponde ao velho problema da identidade genética da «esquerda»: a transformação. Enquanto os partidos de «direita» edificam a sua identidade política pela revisão dos valores tradicionais, assumindo uma postura conservadora na leitura social, os partidos de «esquerda» operam inevitavelmente na lógica da transformação, da rutura e da ressignificação. As múltiplas potencialidades das ideologias de «esquerda» permitem um amplo espetro partidário. Enquanto o PCP, a velha «esquerda» se regula por um paradigma não distante da «direita» mais conservadora, isto é, assume uma lógica de contenção face à mudança e à recodificação ideológica-discursiva, empurrando-o assim para um segmento social cada vez menos existente, o PS sempre assumiu as rédeas da «esquerda democrática». No entanto, muitas das suas coligações à direita, formando um centrão que se revigora e se confunde, levaram a um desgaste político que tem permitido a sobreviência do PCP e a permitiu o crescimento do BE. Não obstante, o BE, com a sua lógica contestatária mas não necessariamente democrática e acima de tudo não-europeia e de clichés sociais, tem gerado uma repercussão social infinitamente menor ao desejado, reforçado pelas dicidências dos mais históricos do partido. É precisamente daí que emerge Rui Tavares, dos «esquerdistas» anti-troika mas pró-europeus, que não se sentem mais confortáveis no BE mas que não se satisfazem com o PS disposto ao centro e com menos punho do que o desejado. À esquerda do PS e à direita do BE, exatamente onde está hoje a maioria do eleitorado português. Resta saber se o projeto terá viabilidade social, ou se antes melhor seria voltar a fazem da rosa um punho forte à esquerda, é que como diz John Wolf "Rui Tavares corre o risco de ser o António José Seguro desse território enigmático - o meio da esquerda, no meio de nada".

Palavra de Bernardino.

Novembro 11, 2013

Numa entrevista ao jornal 'Público', Bernardino Soares, atual Presidente de Câmara de Loures, colocou de parte a hipótese de um dia ser líder do PCP, exprenssando-o nos seguintes termos: «A legitimidade eleitoral não tem nada a ver com isso. Para ser secretário-geral do PCP é preciso um conjunto de características que o Jerónimo de Sousa tem e que, porventura, outros camaradas meus terão também. Essa questão não se põe em relação a mim. Eu nunca pus a hipótese». Nas entrelinhas lemos toda a lógica do PCP. Não é uma questão de qualidade mas de características e, já agora, de antiguidade, esqueceu Bernardino de referir. A antiguidade ainda é um posto no mundo vermelho. O que é lamentável, quando o PS vive dias de amargura identitária, entre o cá e o lá da esquerda lusitana e dos entroikados, o BE permanece como um partido de rua e a esquerda precisava de um PCP renovador, não apenas bem firmado nas suas estruturas filosóficas de apoio ao proletariado, mas também ativo e adaptado à realidade social, cultural e política nacional, com uma dimensão abrangente capaz de ser a esquerda que a esquerda precisa, e não a esquerda que desconforta o eleitorado da esquerda moderada (leia-se não radical).