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Dias Assim

Ainda o Livre.

Novembro 22, 2013

O ruído de fundo gerado em torno do partido criado por Rui Tavares, é incompreensível. Essencialmente da margem «direita», com elevado teor de hipocrisia, vieram a terreiro os rumores de que Rui Tavares fazia do LIVRE um golpe para se perpetuar por Bruxelas. A falta de ponderação à «direita» e o elevado silêncio da «esquerda» revelam também o incómodo que começa logo por ser a iniciativa de Rui Tavares. Não se compreende, desde logo, tamanha aflição. Há sempre espaço para mais um partido no espetro político português. Não me recordo, na verdade, de ter havido tanta barulho pelo Partido Humanista, pelo Partido pelos Animais e pela Natureza, e outros que tais, tão legítimos quanto o LIVRE. Há, claro, uma razão em todo este barulho que revela algum medo. Rui Tavares não fará caminho sozinho, com ele estão e estarão nomes fortes da «esquerda» lusófona, dissidentes do Bloco de Esquerda, na sua maioria, pessoas que se vêem melhor no rio que corre entre o Bloco e o PS. O que assustará, creio, em particular os "bloquistas", é a franja social que o LIVRE representa(rá): o eleitorado urbano de «esquerda» que considera o BE demasiado radical. Aquela massa de cidadãos que é contra a troika mas que gosta e quer fazer parte da Europa, que não se vê longe dessa geografia das emoções que é a União Europeia. E a julgar pela carreira política e pelas iniciativas tomadas por Rui Tavares, há que lhe dar o benefício da dúvida, pois que à esquerda há sempre ideias, e na política há sempre espaço para mais um. 

Na Esquerda, há sempre Esquerda.

Novembro 18, 2013

A emergência do Partido de Rui Tavares, ou oficialmente o Partido Livre, corresponde ao velho problema da identidade genética da «esquerda»: a transformação. Enquanto os partidos de «direita» edificam a sua identidade política pela revisão dos valores tradicionais, assumindo uma postura conservadora na leitura social, os partidos de «esquerda» operam inevitavelmente na lógica da transformação, da rutura e da ressignificação. As múltiplas potencialidades das ideologias de «esquerda» permitem um amplo espetro partidário. Enquanto o PCP, a velha «esquerda» se regula por um paradigma não distante da «direita» mais conservadora, isto é, assume uma lógica de contenção face à mudança e à recodificação ideológica-discursiva, empurrando-o assim para um segmento social cada vez menos existente, o PS sempre assumiu as rédeas da «esquerda democrática». No entanto, muitas das suas coligações à direita, formando um centrão que se revigora e se confunde, levaram a um desgaste político que tem permitido a sobreviência do PCP e a permitiu o crescimento do BE. Não obstante, o BE, com a sua lógica contestatária mas não necessariamente democrática e acima de tudo não-europeia e de clichés sociais, tem gerado uma repercussão social infinitamente menor ao desejado, reforçado pelas dicidências dos mais históricos do partido. É precisamente daí que emerge Rui Tavares, dos «esquerdistas» anti-troika mas pró-europeus, que não se sentem mais confortáveis no BE mas que não se satisfazem com o PS disposto ao centro e com menos punho do que o desejado. À esquerda do PS e à direita do BE, exatamente onde está hoje a maioria do eleitorado português. Resta saber se o projeto terá viabilidade social, ou se antes melhor seria voltar a fazem da rosa um punho forte à esquerda, é que como diz John Wolf "Rui Tavares corre o risco de ser o António José Seguro desse território enigmático - o meio da esquerda, no meio de nada".

A lição do CDS ou a política para além do megafone.

Julho 30, 2013

A democracia faz-se de lições. Os partidos menores vão aprendendo os processos de emergência e consolidação dos partidos do arco governativo, bem como os seus infelizes vícios de poder. A representação parlamentar é uma escalada e uma ginástica clara. Essa é a lição do CDS para partidos como o PCP e o BE. Sem grande eleitorado e expressão social, o CDS vai sabendo jogar o jogo do poder, conhecendo os meandros, os discursos e os processos de emergência, e vai estando no governo em coligação continuada há várias décadas. A narrativa popular e a moderação discursiva conjugam-se para garantir um punhado de votos que se traduzem em assentos parlamentares e em coligação governativa. A esquerda à esquerda do PS tem muito a aprender com esta direita. A narrativa radical não conquista eleitorado. Para impor ideias é preciso agir dentro do modelo de eleição, é preciso chegar ao centro decisório. O BE e o PCP têm preferido ser partidos de contestação, de rua, de gritos, ao invés de serem partidos ativos e por dentro do arco governativo, onde poderiam exercer verdadeiro papel político-social. É uma pena, de facto.


 

Cólofon

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