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A Morada dos Dias

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

25
Nov19

Micropost [22] | Mamadou Ba sai do BE

O combate ao racismo e às várias formas de invisibilidade social é determinante na construção de uma sociedade justa e equitativa. Nesses termos, pessoas que vestem a camisola fazem muita falta. No entanto, há uma barreira de linguagem a partir da qual a luta se torna contraproducente. Quando se abandona a luta racional, a explicação, a desconstrução e a descolonização do pensamento e se cai, apenas, no ataque em todas as direções, o resultado é a rejeição social. Combater o racismo não é fazer de todxs xs que não são minorias implicitamente maus.

25
Nov19

O escrutínio a Joacine Katar Moreira

Joacine Katar Moreira é hoje a deputada mais escrutinada do país, uma sobre-dosagem que reflete muitos outros aspetos sobre a sociedade portuguesa. Seria, obviamente, um erro considerar que a deputada do Livre, por motivos da luta contra o racismo e a invisibilidade, é intocável e inscrutinável. O seu lugar de fala é importante na democratização da Assembleia da República, ainda incapaz de refletir a pluralidade da sociedade portuguesa. Basta ver, por exemplo, o número excessivo de advogados na AR. Ora, se JKM deve ser objeto de escrutínio e deve aguentar as críticas sem tomar tudo por discursos de ódio, também não deve ser transformada em alvo fácil, em causa de todos os males, em símbolo do pior da política nacional. Uma inflexão dessa natureza só pode espelhar o papel que o racismo ainda ocupa na forma como a nossa sociedade ainda se estrutura e reproduz. Só isso justifica o excesso de atenção a tudo o quanto a deputada faz, o que reflete, igualmente, um olhar exotizado sobre os negros. Quanto à abstenção nas matérias recentes, as justificações, embora plausíveis, até pelo atraso na sua exposição, parecem fabricadas a posteriori, não convencendo totalmente.

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adenda: grato à equipa dos Blogs.sapo e do portal Sapo.pt pelo destaque deste post. 

10
Out19

Joacine e a Bandeira

Esta montagem explica muito bem porque o CHEGA chegou lá. Quem a fez, pretende bipolarizar o cenário político nacional, catapultando a ideia do "nós" contra "eles", fazendo uso da ideia de que existe uma agenda africana de destruição da Portugalidade. Esta narrativa não é desconhecida e tem enorme força em França, por exemplo, em relação às comunidades islâmicas. Todas as demais ideias do CHEGA são esquecidas. O que conta, aqui, é a imagem do homem da Pátria. Mal acabam de ser eleitas três deputadas negras e o racismo que não há vem à tona. Será que haveria problema se ao invés de uma negra e uma bandeira da Guiné fosse uma loira e a bandeira inglesa? Evidentemente que não, afinal o nosso espírito Zezé Camarinha tem os seus padrões.

 
02
Out19

Bernardo e o Conguito

Bernardo Silva meteu-se numa alhada, mesmo que Mendy tenha achado graça. Efetivamente, o facto de Mendy não ter ficado ofendido é um aspeto que não deve ignorado, questionando o ato como racista. O problema, todavia, é que os conguitos personificam estereótipos racistas. Ao mesmo tempo, vivemos uma luta pela visibilidade dos comportamentos dessa natureza e pelo empoderamento das pessoas, de várias formas, segregadas, o que leva a um alerta constante, que pode cair nos exageros. Perante os factos, Bernardo Silva deve ser alertado para o seu comportamento, tendo direito ao contraditório, e Mendy deve ser chamado a depor. Se o próprio não considerar racismo (ele já disse que não, pois são grandes amigos), o caso deve ser arquivado com um dever de depoimento público dos intervenientes contra o racismo. Bem assim, abrir um processo à fabricante La Casa, pela estereotipização racista que a embalagem do chocolate invoca. O próprio termo conguito adquiriu uma dimensão simbólica racializada que importa combater.

20
Set19

Lendo Blogs

Quase compreendo o argumento de Helena F. Matos a propósito das máscaras étnicas. E digo quase porque à primeira vista não ocorre nenhum mal em nos mascararmos de outras identidades étnicas. Até porque a máscara opera no sentido de permitir experimentar uma personagem, uma identidade que é diferenciada daquela que assumimos no quotidiano. Ela pode ser, inclusive, uma exaltação (uma personagem histórica), uma tara (no caso das performances BDSM) ou reflexo heróico (um super-herói). Então qual é o problema das máscaras étnico-raciais? Coloquemos um cenário: um homem negro mascarado de homem branco representado como um nerd. A primeira reacção é a do racismo invertido que pretende estereotipar os homens brancos, explicitando uma visão distorcida da realidade. Certo. Ora, não só é o caso das máscaras étnicas de chineses, ameríndios, etc., como é importante adicionar a essas estereotipias a herança histórica do darwinismo cultural e do determinismo racial para compreender que existe ali uma carga de violência simbólica que poderíamos não notar à primeira. É verdade que não havendo dolo o cenário se dilui. Todavia, numa altura em que se regressa uma forte representatividade social dos radicalismos de extrema-direita, é importante voltar a olhar com zelo para os significados dos gestos, esperando que a humanidade regresse a um estágio de desenvolvimento e democratização tal que permita a visibilidade positiva das vozes silenciadas, tornando obsoletas preocupações sobre preconceito, racismo e xenofobia. 

17
Set19

O LIVRE e a encruzilhada de Joacine

Joacine Katar Moreira deve ser eleita não apenas porque é negra, mas porque é, precisamente, negra, e isso representa uma esperança num parlamento que reflita a composição social portuguesa. Ao mesmo tempo paira no ar o receio de que não se olhe para ela além da racialidade, o que seria uma gaiola dourada.

O Partido LIVRE é, com efeito, aquele que fica entre o PS e o BE, o meio caminho entre o centro-esquerda e esquerda-esquerda, feito de ideias socialistas, de ideias progressistas e valores europeus, que já era ecologista antes do tema entrar na agenda política de forma determinante. Infelizmente, é também um partido esmagado pelo encosto do PS à esquerda e do BE ao centro, não conseguindo deslocar-se da imagem de um micropartido de dissidência bloquista, liderado por um coerente e claro Rui Tavares. Não obstante, é um partido que tem vindo a dar sinais de dificuldades de sobrevivência, em particular por não ser capaz de efetivar a sua presença social, muito devido à opção de não financiamento institucional, i.e., o LIVRE quis ser livre da «mão invisível». 

Ora, no jogo eleitoral onde se jogam as sobrevivências partidárias, o LIVRE pretendeu ampliar os sinais dados nas eleições europeias, e apresentou Joacine Katar Moreira como o rosto do partido para estas eleições. Mulher, democrata, ativista negra,  pessoa de bem. Atributos. Mas Joacine é, ao mesmo tempo, heroína e vítima num enredo onde está aprisionada, um enredo que joga uma importante cartada eleitoral - o da representatividade dos afrodescendentes. Se por um lado esse «lugar de fala» é determinante para o empoderamento de vozes silenciadas pelas estruturas sociais de poder, por outro impede-a de ser uma candidata além da etnicidade. A afirmação de que os portugueses decidirão se querem uma deputada negra encerra a atividade política de Joacine Katar Moreira na gaiola da representação racial. Ora, tal ideia não poderia ser mais nefasta, porque centra o debate na "racialidade" ao invés das ideias progressistas ligadas à ecologia, ao género, à democracia pluralista. Obama não foi eleito exclusivamente por ser o candidato negro. Aliás, sabendo da forma como o preconceito opera na ordenação social, se Obama tivesse sido apresentado apenas como o candidato negro, dificilmente teria sido eleito. E com razão. Porque Obama era mais do que a esperança de uma certa reparação histórica, era um conjunto de valores democráticos, de respeito pelas liberdades e pelas diversidades que não tem respaldo em Donald Trump. Do mesmo modo, é importante olhar Joacine como um todo: alguém que vem de fora da política, diretamente da universidade, com um currículo em torno dos estudos de género e violência, e feito de luta contra a invisibilidade da mulher negra. Trata-se de alguém que merece, de facto, a eleição, trazendo a esperança de uma nova composição parlamentar que seja reflexo da realidade social portuguesa, combatendo as assimetrias e invisibilidades. 

07
Ago19

La Manada de Bilbao

O caso de la Manada de Bilbao arrisca ser transformado num circo político se não forem tomadas as devidas medidas, atuando de forma séria e lesta judicialmente sobre o sucedido. Para já, apenas 3 dos 6 violadores da jovem de 18 anos se encontram em prisão preventiva, ficando os demais coagidos à apresentação diária em esquadra. As esquinas podem servir de rastilho se não forem devidamente acauteladas. Em primeiro lugar, num quadro geral de uma sociedade machista e patriarcal, a impunidade produzirá uma sensação de que o combate aos desníveis entre homens e mulheres e em favor de uma sociedade mais equitativa e justa tem, ainda, um longo caminho para ser percorrido, havendo, inclusive, um retrocesso civilizacional face aos avanços que foram feitos nas décadas anteriores. Em segundo lugar, o facto de todos os envolvidos serem de origem norte-africana e, provavelmente, muçulmanos, tem um efeito de arrasto tremendo, entre o tratamento com pinças para que o caso não pareça racismo e o aproveitamente agressivo da extrema-direita, fazendo do caso exemplo e justificativa para uma narrativa de ódio racial e anti-imigração, trazendo à tona o nacionalismo e a supremacia branca. 

16
Jul19

João Miguel Tavares, o darwinista fofinho

João Miguel Tavares assina, hoje, no Público um artigo profundamente racista, mesmo que ele próprio não saiba ou nem fosse essa a sua intenção. Isto porque JMT desconhece o que é um «lugar de fala», i.e., um conjunto de enunciações morais, éticas, estéticas, ideológicas e identitárias a partir do qual se observa o mundo. Ora, o «lugar de fala» de João Miguel Tavares é, sem dúvida, o do liberalismo económico, do conservadorismo moral europeu e do materialismo ocidental, não se distinguindo, pela natureza das suas declarações, dos missionários e viajantes que chegaram a África e que sobre esta elaboraram todo o tipo de narrativas racistas e demonizadoras das práticas culturais e religiosas. É preciso conhecer para evitar o manual do Darwinismo Social e do Determinismo Racial, teorias que afirmavam a existência de "raças" "superiores" e "inferiores", sendo que caberia às "superiores" o dever de encaminharem as "inferiores" no sentido da sua evolução em direção à verdadeira civilização: europeia judaico-cristã. Esta ideia racializada foi essencial para a construção de uma visão parcelar e equivocada da História da Humanidade que fez por ignorar a sofisticação social, política, judicial e económica de culturas africanas como o Reino do Gana, o Império da Mali, o reino de Kush, o Império de Songhai, o Império Axum, o Império Yorùbá ou o Reino do Danxomé (Dahomé). 

Assim, ao aludir à superioridade das instituições norueguesas por oposição às sudanesas, JMT está a confundir sofisticação tecnológica, material e institucional com culturas. Talvez JMT refugia-se melhor o seu argumento na estabilidade, segurança e conforto das instituições sociais da Europa do Norte por oposição às sociedades africanas de um modo geral. É preciso fazer um esforço de releitura da sua crónica para não lhe ver um racista. Ora, não tendo JMT nessa conta, fica a sugestão de refrear o seu ímpeto de achismo. 

11
Jul19

A fala não é um exclusivo, nem deve ser

Existe um debate sobre a legitimidade da fala que me parece contraproducente e penoso. Em matéria de combate ao racismo, de luta pelos direitos das mulheres, pelos direitos LGBTI+, pelos direitos dos trabalhadores, pela liberdade religiosa, e tantas outras lutas, TODOS são necessários. Tratando-se de valores democráticos é essencialmente que todos possam fazer parte do processo de transformação social. O combate ao racismo diz, em primeiro lugar, respeito às vítimas, mas não se ganha nada em fazer da luta um exclusivo destas, sob pena de se transformar uma questão social num aspeto ideológico. Eu quero poder participar do combate ao racismo sem me sentir em "seara alheia".

30
Jan19

Democracia Racial num País Mal-Resolvido

VIVEMOS UM TEMPO EM QUE OS EFEITOS NEGATIVOS DA GLOBALIZAÇÃO se fazem sentir. A fatura dos ciclos económicos, dos fluxos migratórios, e da glorificação do mercado por si mesmo, chegou finalmente. Os chamados “descamisados da globalização”, franjas sociais que na história recente se viram acomodadas e silenciosas, começaram a verbalizar o seu mal-estar e, num contexto de crise de representação por parte dos partidos políticos mainstream, aderem a movimentos extremistas clássicos, agora reformados pelas agendas do novo milénio. Depois de décadas de absoluta crença na vitória definitiva da Democracia, a múmia do fascismo é inflamada e ataca as mais sólidas democracias ocidentais. A crise económica de 2008 e as consequentes políticas de austeridade sem uma almofada social cozinharam uma tensão social à espera do gatilho certo. Quando este cenário de agravamento das condições sociais se confronta com perceções de privilégios para minorias, narrativas xenófobas, racistas e anti-LGBT emergem, fazendo sobressair uma nostalgia dos regimes autoritários, embaçados pelos lapsos da memória coletiva e individual e pela perceção do presente como marcado pela perda de valores. Tal cenário vem sendo evidenciado nos mais variados pontos do Ocidente, e ajudam a compreender a eleição de Trump, o Brexit, Órban na Hungria, os coletes amarelos em França e a quase-eleição de Le Pen, a composição do governo italiano, entre os mais significativos exemplos.

No sambódromo dos mitos sociais

O caso brasileiro, com a eleição de Bolsonaro, de que pretendo falar, comporta uma dimensão de transformação ideológica e social tremenda, nem sempre devidamente alcançado pela imprensa e comentadores políticos. Se o enunciado acima respalda parcialmente no contexto brasileiro, em que o longo período de governo do Partido dos Trabalhadores (PT) produziu um desgaste veiculado pela corrupção – fenómeno que a imprensa conservadora agudizou e colou exclusivamente àquele partido –, ele é mais complexo do que isso, porque coloca em questão a própria construção da brasilidade, expondo as fragilidades de uma nação imaginada sob falácias ideológicas. 

Ora, uma dessas primeiras e mais decisivas falácias, ou de outra forma, uma das estórias que o Brasil gosta de contar a si mesmo, é o da democracia racial. Este mito perdurou longamente e encontrou no apartheid sul-africano o seu contraponto justificativo. Enquanto base ideológica, o mito da democracia racial propagou-se entre todas as camadas sociais brasileiras, despida da sua base evolucionista e racista que a fermentou, permitindo fabricar perceções sociais em que a raça não operava na mobilidade e composição sociais, virando o olhar da descriminação para categorias sociais diferentes, como o «pobre», a «mulher», o «nordestino», o «veado» (homossexual). A figura do «negro» tornou-se difusa, socialmente descartada pela sua capacidade de se acomodar aos estereótipos e lugares de demarcação social que veiculavam a calmaria do status quo. Todavia, o facto é que não poderiam ocorrer tensões numa sociedade em que as posições raciais estavam demarcadas, e a chamada mistura tinha um baixo índice demográfico. Prova da condição de mito da “nação mestiça” que superou a “questão racial” é a presença e o papel do negro nas telenovelas brasileiras, analisados por Joel Zito Araújo no seu livro A negação do Brasil: o negro na telenovela brasileira. A condição subalternizada e estereotipada do negro encontra profundo respaldo na teledramaturgia brasileira, incapaz de pensar aracialidade além dos seus lugares de reprodução do cânone social estabelecido.

Ora, quando devidamente analisada a questão racial no Brasil, compreende-se que para além dessa narrativa que serviu interesses geopolíticos, nada mais sobra que os traços grossos da mitologia. Em rigor, o Brasil não só não superou a questão racial, como jamais superou a escravatura, simplesmente transformando a condição de escravo na condição da segregação racial. A abolição da escravatura teria sido a etapa determinante na inclusão dos negros na sociedade brasileira. Ao invés, entrou em cena o desenvolvimentismo com a promoção do fluxo migratório europeu e o projeto de embranquecimento social. Ao negro, outrora escravo, reservou-se a condição de marginalidade social, empurrado para fora do traçado urbano, preservando as disposições ideológicas e legais nas quais negro, feitiçaria, poluição étnica, ética e religiosa andavam entrelaçadas. Ao produzir a marginalização do negro o Brasil criou as condições segregacionais adequadas para imaginar a democracia racial, bem patente na conceção religiosa-ideológica do “negro de alma branca” presente na Umbanda, uma religião híbrida nascida no começo do séc. XX como solução de brasilidade religiosa pós-africana. Portanto, a tensão racial não existia num país onde o contato racial era mínimo. O Brasil resolveu o problema, gerando uma ideia de pós-racialidade, a partir da ausência de negros no tecido social urbano das classes média e alta. Olhando o caso de Salvador da Bahia, dir-se-ia que o plano de ordenamento poderia ser resumido nos termos: à cidade baixa quem é da cidade baixa, à cidade alta quem é da cidade alta. 

A queda do mito e o efeito PT

O mito da democracia racial foi, paulatinamente, sendo desmontado pelas ciências sociais e combatido pelos movimentos negros. Alavancado por discursos de poder, o mito da democracia racial desmorona diante da realidade e da necessidade de ações afirmativas de inclusão e empoderamento social das classes desfavorecidas, na sua maioria negros ou mulatos. Essa expansão dos movimentos negros encontra acompanhamento com as políticas do governo de Lula da Silva, com iniciativas sociais de apoio aos mais carenciados e medidas restauradoras na área da educação, com bolsas de estudos e cotas raciais, que permitiram uma mobilidade social pioneira, possibilitando uma primeira grande geração de licenciados negros que forçaram a entrada no mercado de trabalho tradicionalmente demarcado pelo fosso social e racial. Estas ações inverteram parte da ordem social brasileira estabelecida ab initio e cristalizada na metáfora clássica da “casa grande e da senzala”. A ponte construída sobre o fosso social abriu fissuras na bolha social brasileira em que viviam os historicamente favorecidos: brancos, de classe média e classe alta, acostumados a conviver apenas entre si, e que valorizam um estilo de vida europeu e das elites americanas, idealizando um eixo Paris-Nova Iorque.

         Nesse sentido, as inúmeras iniciativas sociais e educacionais do PT produziram efeitos negativos na ordem social estabelecido há séculos, entre servidos e serviçais. Os anos do PT foram anos de verdadeira luta de classes, já não tanto nos termos do proletariado retratado por Jorge Amado em alguns dos seus romances, mas antes nos termos dos pobres empoderados. Para malgrado petista haveria de ser uma boa fatia destes ex-pobres, agora socialmente ascendidos e com canudo de formação superior, a voltar as costas ao partido, rejeitando a anterior condição subalterna e ambicionando e revendo-se no quadro partidário e ideológica da classe média.

A reação das franjas privilegiadas e a revolução evangélica

         Ora, a queda do mito racial pelas políticas de ação afirmativa ficou evidente pela reação dos setores historicamente favorecidos, que viram os seus privilégios raciais e de classe ameaçados. Manifestações contra negros nas universidades, contra as cotas raciais, contra os direitos das domésticas, entre outros, fizeram um périplo que abriu caminho para a ascensão de uma figura próxima à de Trump. Graças a uma estratégia de coligação de forças conservadoras ligadas aos media, uma campanha bem montada de fake news via whatsapp(crime sem punição), o apoio massivo das principais indústrias brasileiras, em particular os interesses do gado, e da indústria norte-americana do armamento, aliadas a um discurso populista capaz de cativar largas franjas sociais, a eleição de Jair Bolsonaro tornou-se numa realidade, passando, à imagem da sua grande referência, Donald Trump, do candidato-comédia ao presidente eleito. Quando excluído o impacto das fake news, a realidade revelada expressa a dimensão moral do Brasil: um país profundamente marcado pela homofobia, pela misoginia, pela demarcação racial e de classe. Este cenário é agudizado pela circunstância histórica ideológico-moral que o país vive, com a revolução evangélica em curso. 

         O crescimento e a conquista do poder por parte das igrejas evangélicas são um dado sociológico e político já devidamente analisado pela parte da academia brasileira, particularmente. O poder político da designada bancada evangélica é, apenas, parte da realidade brasileira, onde o controlo dos media permite uma onda de fanatismo sem par no Ocidente, que se tem traduzido numa verdadeira guerra santa contra as religiões afro-brasileiras, muito particularmente, concebidas como espaços de culto demoníaco e que albergam os caídos em desgraça, como os homossexuais, travestis, e outros membros da comunidade LGBTI. Ora, tais igrejas, com taxas de crescimento incomparáveis, revelam-se espaços especiais de doutrinação político-ideológica, tendo feito, na sua larga maioria, intensa, ainda que ilegal, campanha pró-Bolsonaro, ungido como Salvador da Pátria e o Messias que conduzirá o país à restauração da ordem, da moral e dos bons costumes. Esse programa ideológico em curso é evidente na composição ministerial. Olhando, por exemplo, para a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, vemos plasmado todo o programa revolucionário evangélico em curso. Nas suas palavras: “É uma nova era no Brasil: menino veste azul e menina veste rosa", ou “o Estado é laico, mas esta ministra é terrivelmente cristã”. Estas afirmações foram proferidas no dia da tomada de posse, continuando uma narrativa particularmente preocupante perante a pasta que assume. Damares Alves que, um mês antes, afirmava que o “modelo ideal de sociedade é com mulheres apenas em casa”. 

         Posto isto, o cenário não deixa margem para dúvidas para a inversão que representa o projeto de governação de Bolsonaro. A trumpização do seu governo está patente no alinhamento pró-Israel, no armamento popular como solução para o crime, no ultraprotecionismo económico, na cativação política pelos setores industriais do país, no combate às minorias, na inversão do modelo social marcado pelas diversidades e na concentração ideológico-moral evangélica. 

Em suma, o programa de governo de Bolsonaro configura uma total inversão da marcha civilizacional dos últimos governos, procurando implementar uma agenda que concentra a ideologia da ditadura militar, do ultraconservadorismo económico, do alinhamento das relações internacionais quase exclusivamente com os Estados Unidos (de Trump, concretamente), e da moral cristã-evangélica ultraconservadora, messiânica, de combate ao demónio representado noutras religiões e na sociedade da diversidade. De forma abreviada, a agenda do governo que agora começa funções é a da coabitação entre o plano ideológico da ditadura militar e o plano da ditadura moral.

Concluindo, a eleição de Bolsonaro, candidato que tinha um programa ideológico e moral claro de racismo, misoginia e de regime autoritário, traduz uma disposição social alargada que não se revia no caminho encetado pelo PT. Com uma eleição desmorona o castelo das estórias de encantar que o país contou a si mesmo: o de uma nação mestiça, marcada pela democracia racial, pela diversidade pacífica étnica, religiosa, sexual. As classes historicamente favorecidas, caraterizadas por um manual ético e moral extremamente conservador, quando beliscadas no seu status quo, i.e., quando viram a senzala avançar em direção à casa grande, reclamando a partilha de privilégios e a conquista de direitos que lhes foram historicamente negados, reagiram, alinhando-se não ao centro-direita, mas à extrema-direita brasileira, a única capaz de reverter em tempo recorde todos os “privilégios” dados aos indesejáveis.

originalmente publicado no blog do CEI-IUL

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