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O Estado dos Dias

«O dia precedente é o mestre do dia seguinte.» - Píncaro

A Democracia ficou com um melão?

Eleições em Itália

26
Set22

Depois da Suécia, vem agora Itália confirmar a onda de direita radical populista que vem conquistando vários países e que representa uma mudança no alinhamento político-social das sociedades atuais. Interpretações estritas centradas na carta xenófoba e racista das opções eleitorais faltam à capacidade de interpretar a realidade como um todo, e são devedoras de uma leitura de esquerda progressista pós-material que em parte tem culpas no desvio para a direita do eleitorado que se sente abandonado. Em boa medida, tal esquerda tornou-se exclusivamente centrada em dinâmicas urbanas e de minorias, deixando de representar o eleitorado operário, rural e precário branco, que passou a procurar paisagens políticas onde se sentisse representado.
A desigualdade agravada pela crise de 2008 e anos seguintes e agora pela pandemia e a guerra na Ucrânia, tem um papel fundamental na produção de um ressentimento e mal-estar social. Ou seja, questões materiais permanecem como essenciais na vida política dos Estados, e são elas, em grande parte, responsáveis pela emergência de questões pós-materiais. O ressentimento com imigrantes é produto de uma sensação de que os mais pobres nativos foram esquecidos, mesmo que na verdade os imigrantes sejam essenciais para as economias nacionais.
Desse modo, a registada perda de segurança económica da classe média e a precariedade das classes operárias, quando conjugadas com uma massiva presença do "outro", culturalmente diverso, algumas vezes pouco disponível para acomodação cultural, leva a um turbilhão emocional que procura um escape através de locus de pertença, geralmente por via de sentimentos conservadores e até reacionários. A nostalgia dos anos de ouro da "nação" foi essencial na afirmação dos fascismo do século passado e na eleição de Donald Trump.
A Democracia ficou com um melão? Depende do que se entende por democracia. Se falamos na elementar lógica da maioria, então não. Mas se falamos na Democracia como um regime político baseado em princípios cogentes como separação de poderes, submissão ao estado de direito, direitos fundamentais e garante da pluralidade, então podemos pensar que sim, que provavelmente a democracia ficou com uma Meloni.
 
[adenda: obrigado à equipa do Portal Sapo pelo destaque deste post]