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O Estado dos Dias

«O dia precedente é o mestre do dia seguinte.» - Píncaro

A Igreja e os abusos sexuais

06
Out22

No entanto, uma Igreja que aposta na doutrina do sentimento de culpa face a uma natureza eminentemente pecadora da humanidade, que pede expiação dos pecados e atos de contrição como caminho para a apreensão de um código moral, não pode pregar e não dar exemplo.


Com o processo de laicização da sociedade, com a entrada do catolicismo numa dimensão de mercado religioso, ainda que em monopólio, a Igreja Católica enfrenta o desafio de sobrevivência (embora importe reconhecer um novo despertar conservador e fervoroso católico com a Nova Direita). Isso justifica que perante os casos de pedofilia a Igreja aposte na contenção de danos, normalizando os abusos sexuais, fazendo um malabarismo com os valores morais de agora, mentindo sobre a natureza não pública do crime e a ausência de dever de denúncia. Neste capítulo, o tipo de crime recai sob a alçada do art. 172.° do Código Penal, "abuso sexual de menores dependentes ou em situação particularmente vulnerável", tendo uma natureza pública, dado que falamos, na maioria, de jovens ao cuidado de instituições da Igreja e numa situação de vulnerabilidade em razão do papel de autoridade material e simbólica de que gozam os abusadores sobre as vítimas.

Por outro lado, a relevância sociológica do catolicismo explica porque não existe uma onda de contestação social e política nesta matéria. Além dos partidos evidentemente confessionais, os demais receiam perdas eleitorais. No entanto, uma Igreja que aposta na doutrina do sentimento de culpa face a uma natureza eminentemente pecadora da humanidade, que pede expiação dos pecados e atos de contrição como caminho para a apreensão de um código moral, não pode pregar e não dar exemplo.