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A Morada dos Dias

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

24
Jul20

A Montra do Império

A presença africana na cidade de Lisboa e outros lugares do país (segue de exemplo o Paço dos Negros da Ribeira de Muge) é marca inegável da História nacional, meticulosa e ideologicamente negada sob o compasso da memória coletiva racializada. Escravidão, irmandades negras, autos da Inquisição, profissões como vendedeiras, limpa-chaminés e tantas outras, são elementos que provam a marca africana na História portuguesa no seu próprio solo, pese todo o esforço de apagamento intencional dessa memória. A novidade da presença africana que a reportagem da SIC mencionou tem um viés temporal adstrito ao Estado Novo. Na cidade do Porto de então a presença de negros era uma raridade. Memórias familiares contam que se considerava sinal de bom presságio o avistamento de um negro na Invicta dos anos de 1950.
 
Portanto, no caso das exposições de negros, fenómeno comum na Europa de então, o elemento exótico da "raridade" era um ativo importante e real. A profunda marca do racismo, do determinismo racial e do evolucionismo estava impressa no espírito do tempo e nas gentes. Com uma população massivamente analfabeta, Portugal era um país racista (não por alteridade contrastativa, mas antes como gesto de rejeição do outro como produto histórico de longo-termo), cujos efeitos se estendem até hoje, aspeto a que o evento traumático da descolonização deu forte impulso.
 
Avaliar os eventos no seu tempo não é desculpabilizar os mesmos, mas oferecer uma base de análise, um ponto de partida para o debate tão urgente quanto atrasado. Assim, o exercício de combate desta ideologia racial precisa ser feito pela desconstrução e pelo debate histórico, não pela violência simbólica contra a sociedade portuguesa, fulanizando colectivamente o país, sem a esteira do contexto como aspeto de avaliação. Uma avaliação necessariamente crítica e dolorosa da História, das memórias e das narrativas que o país conta a si mesmo.