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— A Morada dos Dias —

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

— A Morada dos Dias —

03
Jan18

As ciências sociais nos cuidados paliativos

A crise de 2008 trouxe um novo paradigma ao mercado de trabalho, baseado numa exploração "limpa", em que se promove o emprego remunerado abaixo do aceitável, ao mesmo tempo que se coloca pressão nos assalariados -- maquilhados de "colaboradores" -- para que redobrem o horário laboral. Esse fenómeno de taylorização selvática estendeu-se às universidades e à carreira científica. A produção científica esvaziou-se do seu conteúdo fundamental: a elaboração e amadurecimento teórico, passando a concorrer no mercado liberalizado dos journals -- espaços onde se publica de graça e se paga para ler depois -- das métricas, das classificações e das indexações. O que conta, verdadeiramente, não é o que se diz, o que se acrescenta ao conhecimento e ao debate teórico, mas antes o número de papers que se publica e onde se publica. O que conta, no fundo, não são as letras mas o colorido das luzes de néon. O currículo constrói-se pelo número de vezes que se consegue dizer a mesma coisa, de formas diferentes, em línguas diferentes, para figurar nas mil e uma plataformas científicas de avaliação do currículo, que por capricho e histeria se vão adotando, do DeGóis ao FCTSig, até ao ORCiD, só porque sim. 

 

O estrangulamento das ciências sociais sob a ótica capitalista do lucro, e do desinteresse, da ignorância e da superficialidade, terá custos elevadíssimos não apenas nos investigadores e centros de investigação, mas na própria capacitação das instituições políticas e económicas, porque incapazes de conhecer as sociedades em que vivem estarão condenados a produzir leis inócuas. Ao tornar as ciências sociais o parente pobre reproduz-se, continuamente, uma ciência altamente técnica, mas social e culturalmente desajustada. 

 

O tratamento diferenciado e vil às ciências sociais está patente no mais recente concurso FCT de contratação de investigadores doutorados. No seu artigo 4º, alínea C, define-se o escopo do concurso: "Plano de investigação, sintético, com uma seleção criteriosa das principais atividades a desenvolver, resultados esperados e a identificação clara da missão e desafio científico a enquadrar num ou mais dos 17 Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas para 2030". Como pergunta, e bem, o Professor Eduardo Costa Dias, na sua página do Facebook, "vão V. Exas mandar abrir concurso para as áreas/projectos não contemplados neste concurso?". 

 

Portanto, aqui e acolá, os concursos vão abrindo nos termos mais ou menos acima, tornando-se urgente, a constituição de programas de financiamento especificamente para as ciências que fizeram a história intelectual da humanidade: a Antropologia, a Filosofia, a História, a Arte, etc.