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— A Morada dos Dias —

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

— A Morada dos Dias —

10
Mar18

Carta a João Miguel Tavares

Caríssimo João Miguel Tavares,

Antes de mais aproveito a oportunidade para lhe dizer que sou ouvinte aceitavelmente atento do Governo Sombra, e estando num quadrante ideológico distante do seu, não temo em reconhecer que me encontro a concordar consigo algumas vezes. Não tem mal. A democracia é tanto a liberdade de opinar como o dever de reconhecer o mérito mesmo não concordando no todo ou em parte.

Posto isto, escrevo-lhe a propósito da sua crónica sobre a entrada de Pedro Passos Coelho na carreira académica. Dou de barato que não conheça a seriedade das análises de Rui Bebiano. Até posso deixar passar, com algum custo, note-se, que afirme que as ciências sociais viraram muito à esquerda. Enfim, é uma afirmação de quem, parece-me, conhece as mesmas de soslaio, senão seria capaz de reconhecer que enquanto aquelas foram conservadoras reproduziram ideias como desigualdade racial, religiosa, de género, etc. O conservadorismo, enquanto metodologia, é um passo em direção ao «outro» com a gabardine do etnocentrismo.

Ora, reconheço o seu argumento de que um político que tenha ocupado um cargo de relevo, seja de que horizonte ideológico for, reune condições particulares para que o seu testemunho seja reconhecido no seio da academia. O saber é um campo de partilhas. O problema que o João Miguel Tavares não alcança (não me cabe dizer se intencionalmente ou não) é o do estatuto que o ex-primeiro-ministro terá dentro do ISCSP. Existem inúmeras formas de que alguém na situação de PPC possa ministrar ad hoc seminários, palestras, e similares, cuja participação, por parte dos alunos, seja convertida em créditos académicos. Em última análise, se absolutamente necessário que o mesmo incorpore o corpo docente, reconhecendo a particularidade excepcional do seu trajeto para que possa ministrar um seminário contínuo em mestrado e doutoramento, o estatuto que lhe deve caber é do de Professor Auxiliar, atendendo que não possui nenhum dos últimos graus mencionados, nem qualquer trajeto académico. Dir-me-á que se tratam de “balelas”, para usar um termo que gosta de recorrer. Mas não são. A posição de catedrático representa um reconhecimento incontestável de um percurso científico, feito de publicações de relevo, mestrado, doutoramento (às vezes mais do que um), pós-doutoramento, participação em júris, orientações de teses, enfim, uma carreira científica. Acresce que o acesso à carreira docente é feito num escrutínio complexo, sendo muitas vezes de impossível acesso a quem possui um CV científico rigoroso, rico, feito de publicações e pesquisa, muitas vezes em situação de precariedade, porque as bolsas cada vez escasseiam mais, e as universidades estão sem recursos para contratar docentes, a não ser que os docentes sejam políticos.

Portanto, como pode ver, o problema não é ideológico, porque tanto se aplica a PPC quanto a qualquer outro político na mesma situação.

Grato pela atenção,

votos de sucesso,

melhores cumprimentos,

João Ferreira Dias

 

(obrigado à equipa do Sapo pelo destaque deste texto)