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O Estado dos Dias

30.05.22

Não sendo bem isso, a verdade é que depois da euforia com a resistência heroica da Ucrânia, começamos a ouvir vozes que querem uma solução negociada. É compreensível. Uma coisa é a euforia de um Robin Hood por algum tempo, outra bem diferente é se tal façanha obriga o sheriff de Nottingham a cobrar mais impostos.

Com isso, os entusiastas de uma vitória ucraniana sobre a Rússia de Putin começam a adotar uma visão de realpolitik, defendendo uma paz negociada para bem de todos. Isso significa, contudo, que Putin sairá reforçado, com mais território, isolará a Ucrânia, tornando-a mais fraca e com o tempo disponível a ser um Estado-satélite russo, como a Bielorrússia.

Significa, então, que o PCP tinha razão? Não creio que seja bem assim. Sim, de facto o PCP defendeu sempre uma solução pacífica, que não representasse uma escalada militar. No entanto, colocou sempre ambos os lados num mesmo patamar moral, em razão de dois vícios que são faces de uma mesma moeda: o alinhamento histórico russo e o anti-americanismo por princípio. Tal tem sido patente no recurso à retórica russa, de que se trata de uma intervenção militar, não retórica da desnazificação, na culpa da NATO e no recurso especial às notícias alternativas produzidas pelo lado pró-russo. O que é natural, pois o PCP sempre se sentiu desconfortável com os direitos liberais da democracia ocidental.

 

[obrigado à equipa de blogs do Sapo pelo destaque deste post)

Cólofon

O Estado dos Dias é um blogue de João Ferreira Dias, escrito segundo o Acordo Ortográfico, de publicação avulsa e temática livre. | No ar desde 2013, inicialmente sob o título A Morada dos Dias Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.