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— A Morada dos Dias —

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

— A Morada dos Dias —

29
Mar18

Futebol e violência: precisamos dessacralizar os clubes

Os efeitos sociológicos do futebol, a sua utilização estratégica como fator político, cultural e até religioso são sobejamente conhecidos. Gilberto Agostino em Vencer ou morrer: futebol, geopolítica e identidade nacional trata de forma demorada de tais fenómenos, inscrevendo-os na própria dinâmica de fundação dos clubes. Igor Machado, por exemplo, dá-nos conta da forma como os imigrantes brasileiros na cidade do Porto usam o futebol como forma de afirmação anti-local, optando por clubes lisboetas. Outro exemplo da forma estruturante como o futebol atua é apresentada no livro de Bill Murray, The Old Firm: Sectarianism, Sport and Society in Scotland, a partir da rivalidade Celtic x Rangers. 

Ora, apesar de Albert Camus ter afirmado que "Tudo quanto sei com maior certeza sobre a moral e as obrigações dos homens devo-o ao futebol", a ligeireza das coisas mostra-nos que a formação da figura do adepto tem deslizado nas águas do fanatismo, aparecendo como uma versão alternativa do fundamentalismo religioso, apresentando os mesmos padrões. Salomé Marivoet, sociológica que se tem dedicado ao desporto, mostra como a militância e as hostilidades fermentam um cultura de violência nas claques de futebol. Em países como a Ucrânia ou a Inglaterra, as claques mesclam-se com movimentos de extrema-direita de modo particularmente perigoso, apresentando traços de racismo mesmo diante dos jogadores das suas equipas. 

Tudo isto, configura um cenário de representações e projeções em torno dos clubes de futebol, onde fanatismo, devoção e alienação caminham perigosamente juntos. Em Portugal diz-se que "muda-se de sexo, muda-se de cidade, muda-se de mulher, mas não se muda de clube". Há adeptos a referirem-se à camisola dos seus clubes como "manto sagrado". É, por isso, urgente dessacralizar os clubes. Precisamos perceber que um filho ser de outro clube não é o fim do mundo, precisamos abandonar os atos de fé e as guerras santas, abandonar o espírito missionário de levar o clube aos infiéis, precisamos compreender que a vida se compõe de mudança e que mudar de clube é um ato natural. Somos feitos de mudança, de renovação, de contradições. Se é um facto que um clube confere sentido de pertença, cria laços e atua como fator de coesão num grupo, ele também é fator de conflito e radicalismo. É preciso conferir leveza ao ato de ser adepto.