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O Estado dos Dias

10.01.22

Há uma Associação que avança com uma ação judicial contra o Estado, em matéria de política educativa, tendo por matéria a chamada «ideologia de género» (link). Não tenho problemas nem entusiasmos com a questão da identidade de género (v.g. não escrevo "querides"). Em primeiro lugar porque não me preocupa a forma com cada um se dentifica. Em segundo lugar porque questões de identidade são do foro da Psicologia, pelo que não tenho pareceres a dar. Sei, contudo, que a própria disciplina é mutável, passando de uma interpretação conservadora de enquadramento como "disforia de género" para uma visão progressista de aceitação de múltiplas formas de identificação. Sei de estudos culturais que, por exemplo, os Yorùbá da África Ocidental constroem a identidade de género a partir de fatores ligados à senioridade e às interações de parentesco muito mais do que à biologia.

Portanto, o apresentado como argumento pela referida associação padece de dois vícios interligados, (i) confunde ensino com doutrinação, numa lógica muito própria dos combates culturais em curso, incluindo a ideia de que a escola não deve ensinar que a terra é redonda, (ii) desconsidera que ensinar que o género se constrói tendo em conta a biologia, ou que a única sexualidade legítima é a heterossexual, é também uma ideologia e uma agenda identitária.

Cólofon

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