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O Estado dos Dias

«O dia precedente é o mestre do dia seguinte.» - Píncaro

Lula venceu, a democracia não ganhou e amanhã não sabemos se o sabiá canta.

04
Nov22

(texto escrito na alvorada da vitória)

Lula ganhou, mas não venceu. Os resultados deixam o país na mesma fissura e sem particulares hipóteses de reconciliação. É um país sem vasos comunicantes. Se o Senado é de forte expressão bolsonarista, com as presentes eleições vimos São Paulo eleger e Rio de Janeiro reeleger governadores de igual tendência, com Haddad, potencial sucessor de Lula a perder em território paulista e ficando sem capital político para o futuro.

Nas ruas a narrativa do presidente-bandido prevalece entre o eleitorado branco, evangélico e de classe média. Os casos que indiciam corrupção, formação de milícia e violação de direitos humanos na era Bolsonaro não produzem efeito de afastamento de um eleitorado arregimentado. Uma vez mais, o Brasil é uma cópia adaptada dos EUA. Mesmo Lula tendo o apoio dos evangélicos moderados e de boa parte da elite económica e empresarial, facto que inviabiliza qualquer fantasia de venezuelização do país (que nunca ocorreu), a verdade é que a batalha cultural contra o dito “marxismo cultural” em favor de uma hipermoral evangélica e dos direitos de classe alienam o eleitorado bolsonarista, o qual sobrevive bem sem Bolsonaro, já que é um produto histórico e social antigo que sempre esteve vivo no Brasil. 

Não obstante os resultados eleitorais, a situação política e social está muito longe de estar sanada. Nas ruas teremos um arregimentar das milícias populares pró-Bolsonaro e algo similar ao ataque ao Capitólio é bastante viável de acontecer. O incitamento à intervenção dos militares ganhará força e a recusa em aceitar os resultados eleitorais, com fabricação de suspeitas de fraude, fará também o seu caminho. A democracia brasileira não está minimamente a salvo e até 1 de Janeiro de 2023 muita água (e esperemos que nenhum sangue) irá correr no Brasil. 

Assim, partindo do princípio de que a situação social não entrará numa escalada de guerra civil, já que o ódio é o grande leitmotiv eleitoral no país, e que Lula da Silva tomará posse dentro do (mínimo) regular funcionamento das instituições, a democracia brasileira entrará no seu mais determinante capítulo desde o fim da ditadura. Lula precisará de (i) estabelecer acordos que lhe permitam governar, (ii) ser absolutamente impoluto, (iii) realizar uma purga à corrupção do partido, (iv) encontrar mecanismos de combate à pobreza e à violência, (v) repor os direitos das minorias entretanto suspensos, sem fazer dessa a sua pauta cultural, (vi) corrigir as assimetrias sociais e estaduais da melhor forma possível, visando um processo continuado de equilíbrio e aproximação do país, (vii) preparar a sucessão incentivando os demais partidos a encontrar quadros democráticos e qualificados que garantam uma saudável alternância política sem um enfoque populista e de guerra cultural. O desafio é hercúleo, porque o que está em causa, a partir de agora, é salvar a democracia dos seus mais terríveis fantasmas.  

[adenda: obrigado à equipa de Blogs do Sapo pelo destaque deste post]