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— A Morada dos Dias —

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

— A Morada dos Dias —

19
Jan18

O racismo invertido desconstruído

Uma das mais significativas tomadas de posição em face do racismo historicamente instituído é a sua inversão. Esta inversão tende, correntemente, a aparecer como termostato do racismo biológico e cultural de longo-termo, uma espécie de maresia argumentativa que baliza o racismo e o suaviza -- os negros também são racistas, entre eles e face aos brancos. Ora, entre os negros não existe racismo, existem posições xenófobas resultantes de construções sociais sobre padrões culturais e étnicos. Não difere, portanto, da posição de superioridade que os franceses elaboram face aos demais. No entanto, o grau de xenofobia que se elabora entre negros é sobrevalorizada a favor desta argumentação ideológica, que propõe suavizar o racismo histórico. 

A inversão racista, por seu turno, é uma elaboração muito mais refinada, porque quer fazer crer que há um ponto de partida comum, que não existe um caldo sociológico e histórico que condiciona e favorece tal inversão como resposta. Não podemos olhar esse racismo invertido sem o colocar no contexto de séculos de colonização, de escravatura, de racismo biológico, cultural e religioso, apresentado com um teor científico que o fundamentava. Ora, desconhecem tais enunciadores que nas mais variadas culturas africanas os deuses eram concebidos como brancos, como mostra, por exemplo, Suzanne Blier em Imaging Otherness in Ivory, razão pela qual na cultura yorùbá (atual Nigéria) os albinos eram considerados revestidos de enorme força religiosa. Foi, precisamente, a presença europeia que marcou a rutura com este primado, que transformou o branco em algo negativo, que dessacralizou a cor. Não é por acaso que entre os afro-americanos os deuses brancos se tenham convertido em deuses que vestem de branco, muito graças à escravatura e mais tarde aos movimentos negros. 

Portanto, não podemos colocar o racismo invertido no mesmo patamar que o racismo histórico. É, precisamente, por isso que ele é invertido, porque tenta inverter o curso da história, posicionando-se como uma reação a um historial de ocorrências, e não surgindo como um fenómeno isolado, como uma rejeição biológica e cultural fundacional.