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O Estado dos Dias

«O dia precedente é o mestre do dia seguinte.» - Píncaro

Olhares sobre a Emigração

12
Ago22

Portugal é um país de gente que parte em busca de melhores condições de vida. Gente que levava na mala de cartão os poucos pertences, ao peito a saudade e no bolso o bilhete. Por isso o português é um indivíduo que sabe o que é sair do país natal em busca de melhores condições de vida. Sempre foi, também, um país que acolhe bem. Mas, então, porque é um país que lida mal com a nova imigração? A justificação parece-me residir, muito antes e muito mais do que na xenofobia, no olhar sobre o que configura a emigração e o papel social do emigrante.
Ao longo de décadas, os portugueses adotaram, fruto do fosso existente entre o Portugal do Estado Novo e do pós-25 de Abril e a Europa, da sua baixa escolaridade e ausência "de mundo", uma posição de acomodação aceitacionista, ou seja, habituaram-se a verem-se como residentes de empréstimo, cidadãos de segunda, com deveres e poucos direitos, em países que não eram os seus. Trabalhar e não dar nas vistas, era um lema de um povo habituado a medos de vidas sob uma batuta autoritária e de recente democracia.
Com a consolidação da democracia social-liberal, com as garantias constitucionais dos direitos económicos, sociais e culturais dos indivíduos, com uma visão pluralista e extensiva da dignidade humana, e com fluxos migratórios diversificados (em termos de local de origem, padrões culturais, condição económica e educacional), o imigrante tornou-se migrante, um sujeito revestido de muitos mais direitos e de maior consciência política, cívica e jurídica, e com isso muito menos acomodativo aceitacionista e muito mais reivindicativo, procurando transformar a sociedade de chegada.
Portanto, o ponto de rutura não é a busca de uma vida melhor, nem a ideia de que vêm roubar emprego (como acontece noutras paragens europeias), mas o desconforto sentido por um povo que se habituou a ir, calar e consentir, diante de novos fluxos migratórios de sujeitos que chegam, não se calam, não consentem e reivindicam. É assim que nasce - na legítima luta pela dignidade no meio de olhares distintos - o "não estás bem vai para a tua terra".