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Dias Assim

02
Mar21

Racismo, segundo João Miguel Tavares

Para João Miguel Tavares só há ciência a sério se ela for concordante com a sua opinião. Não me surpreende sendo ele uma versão fluffy do populismo, um tipo "às direitas" que diz umas "verdades". Não obstante, o seu texto consegue ir um pouco mais longe do que o costumeiro "achismo", e isso já é um mérito. Compreendo a sua posição, que reflete o pensamento de autores vários, como o meu colega Riccardo Marchi, que entendem que a definição de racismo a partir do passado histórico, biológico e científico do termo "raça" não serve para pensar as relações multiversas nas sociedades hodiernas, e que consideram que o conceito deve englobar uma gama maior de atitudes de desconsideração entre pessoas com identificações distintas, sem uma inflexão para um lado. Qual é o problema? O problema é que essa abordagem desconsidera toda a história de escravidão, perseguição, genocídio, exclusão, marginalização, dominação de brancos para negros. Quando se pega num conceito com um histórico tão pesado, tão concreto, para o usar para todas as relações, é dizer que um negro que chama "branco de merda" a um branco tem o mesmo significado, o mesmo efeito coletivo (pessoal tem certamente) que as leis que durante séculos afastaram os negros da cidadania, da dignidade, da autodeterminação, da escolaridade, da justiça. Porque o fenómeno ao contrário não teve nem tem lugar. É equivaler um pisar de calcanhar ao esmagamento por derrocada.

Cólofon

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