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Dias Assim

31
Mar21

Suzana Garcia e a atividade política

A escolha de Suzana Garcia, advogada e ex-comentadora televisiva, como cabeça-de-lista à Câmara da Amadora pelo PSD está nas mãos de Rui Rio. É, pois, o líder do partido quem irá dar o aval ou rejeitar a proposta do nome. Mas quer seja aceite ou não, esta escolha, mesmo que provisória, permite um debate sobre o perfil e a atividade política. Enquanto reflexo do primado da representação social, tendo presente que o Estado de Direito democrático republicano que nos rege é representativo por via parlamentar, e que deve refletir, da melhor forma possível, a sociedade sem pretender ser um reflexo proporcional desta, o perfil de um ator político deve ser plural, i.e., devemos falar em perfis e não em perfil. Mas a isto não obsta que se defenda a posse de um conjunto de características-base para o desempenho de cargos de natureza política, como o respeito pela dignidade humana e pelos direitos fundamentais, o respeito pelo texto constitucional, o respeito pelo Estado de Direito, o respeito pelo contraditório, o respeito pelo adversário político, o respeito pela coisa pública. O problema é que vamos notando que tais traços elementares de convivência social e participação política nunca foram totalmente reais e cada vez são menos validados e inquestionavelmente aceites. Percebemos que o "ar do tempo" é populista, é o do espetáculo, onde o politicamente incorreto opera como valor superior, travestido de «voz do povo» e de «verdade». Ora, isto não significa que uma pessoa com atividade pública na televisão, nas artes, no desporto ou outras, não possa, por princípio, participar da vida política ou concorrer a cargos públicos. Isso seria, obviamente, uma violação do princípio constitucional do acesso à vida política (art.º 48.º/1, CRP). O que está aqui em causa é que Suzana Garcia construiu uma imagem pública sensacionalista, populista, marcada por conflitos e pronunciamentos pouco corretos, imagem essa que parece pouco condicente com o que o PSD deveria desejar para encabeçar uma lista. O momento é, também, particularmente importante, uma vez que caso se confirme esta escolha, o PSD acabará por assumir que entrou numa deriva populista como estratégia para firmar as suas fronteiras com o Chega. Ora, se Rui Rio defendia que o PSD era um partido de esquerda moderada, não se percebe esta preocupação com a direita nacionalista e securitária. Por outro lado, mostra que a Amadora é um tubo de ensaio político. Não é por acaso que José Eduardo Martins fala no dia das mentiras para se referir a esta possível escolha. 

Cólofon

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