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Dias Assim

O Discurso de Marcelo

Abril 26, 2021

João Ferreira Dias

— O Discurso de Marcelo — O discurso de Marcelo Rebelo de Sousa nas comemorações do 25 de abril - no ano em que a revolução da liberdade é uma capicua -, é um importante apelo ao reencontro nacional com o passado, com a memória histórica, num país onde a psicologia social e a memória coletiva andaram por demasiado tempo atreladas à sacralização da epopeia marítima, ao mito do «bom colonizador» e à santidade da "salvação" dos "selvagens". Mas, como bem lembra o Presidente, o dissecar da História demanda pelo olhar do bom e do mau, a fim de se tirarem "lições de uma e de outra, sem temores nem complexos, com a natural diversidade de juízos própria da democracia". Para tanto, é preciso deixar cair o olhar ideológico, o viés tanto de consagração quanto de demonização do passado, não porque ele foi lá atrás, mas antes porque radicalizar a leitura dos eventos é, de um modo ou de outro, nefasto. Quando se radicaliza as posições, entre o derrube e a santidade, esvazia-se o entendimento dos acontecimentos e instrumentaliza-se o passado para efeitos de construção social e de combate ideológico. O que é urgente é debater, consciencializar e formar consciências críticas. É preciso rever o ensino da História nos programas escolares, pois são eles que continuam a renovar a crença nacionalista na heróica e santa memória dos Descobrimentos, sem dar voz às vítimas do processo, permitindo tanto os apelos nacionalistas fundados nessa memória parcializada quanto a revolta radical da destruição do património sem um debate coletivo e da leitura do passado a partir de uma lente presente. 

As portas que Abril abriu.

Abril 25, 2014

João Ferreira Dias

Naquele tempo buscavam-se as liberdades e os sorrisos rasgavam-se de esperanças. Era uma nova aurora. O país atirava para a berma 41 anos de silêncios, de atraso, de passividade e medo. Portugal era então um país para as gentes, para os jovens, que prometia um novo começo cheio de possibilidades. E foi, para muita gente o país que começava revelava-se perfeito para jogatanas políticas, e a adesão à CEE foi o pretexto ideal para distribuir dinheiro aos amigos, para edificar empresas financiadas pelo Estado adolescente, para elaborar leis que garantiam a segurança dessas empresas e os seus futuros e edificou uma máquina partidária que se alimentou do pior do mercado, dos favores, dos corredores do poder. Para eles e para os seus filhos, jovens que crescerem de bandeira partidária na mão e que são hoje o reflexo de uma sociedade ainda a confundir liberdades com ausência de regras. 

É o país que emergeu com Cavaco Silva e ainda o tem, pó do antigo regime agora trajado a democrata, político fraco e catavento ideológico. É o país de uma esquerda que não se entende e que luta pela detenção religiosa da "verdade" e de uma direita que se entende bem demais com o mercado, com os bancos, com a banca e as empresas. É o país minado pela corrupção, pela desesperança e que passou 40 anos às voltas consigo mesmo, e que continua sem rumo claro, prometendo a infelicidade às gerações de agora e de amanhã. 

Um Discurso Encavacado

Abril 26, 2013

João Ferreira Dias

Atente-se ao discurso de Cavaco Silva pelas comemorações do 25 de Abril. A pergunta que se impõe: teria Cavaco Silva o mesmo discurso com o PS no poder? Tenho sérias dúvidas. O discurso do PR foi um discurso de um homem comprometido com o governo, em toda a linha. Nas poucas coisas que José Sócrates foi factual foi nesta.

Um Portugal de Abril

Abril 25, 2013

João Ferreira Dias

Samuel P. Huntington teorizando sobre as "vagas de democratização" expõe-nas como: “transições de regimes não democráticos a democráticos que ocorrem dentro de um período específico de tempo e que excedem significativamente as transições no sentido oposto durante esse período de tempo. Uma vaga também envolve normalmente a liberalização ou parcial democratização de sistemas políticos que não se tornam plenamente democráticos” (1991:579). Esta última afirmação transparece, de algum modo, a realidade portuguesa. Com o 25 de Abril de 1974 Portugal transita para o pós-Estado Novo mas não necessariamente para a democratização absoluta, embora Huntington considere a data como o marco da terceira vaga global. 

No entanto, quando olhamos o que foi feito e o que ainda está por fazer desde 1974 encontramos um país demasiadamente marcado por tiques do outro regime político, por um modelo de governação de compadrios e por uma nostalgia perigosa do Estado Novo. A eleição de Salazar como o melhor português de sempre é, a meu ver, um marco histórico na frágil democracia portuguesa, porquanto revela um tecido social preso a memórias cor-de-rosa da ditatura ao mesmo tempo que compreende uma realidade nacional débil em termos de civismo, consciência social, perceção de Estado e de exercício político. É por isso que Medina Carreira diz que o Estado Social tem a ver com dinheiro e não com pena, e que o poder serve para empregar amigos, primos e sobrinhos. Taxativo e verdadeiro.

A democracia portuguesa é ainda com "d" pequeno. Falta-lhe maturidade, tranparência e valorização do mérito. Falta-lhe quase tudo para romper com um passado que estrangulador das liberdades conseguiu dentro da sua lógica ser mais transparente, o que por si só é extremamente grave. 

Cólofon

Dias Assim é um blogue de João Ferreira Dias, escrito segundo o Acordo Ortográfico, de publicação avulsa e temática livre. Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.

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