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Dias Assim

O efeito da Absolvição de Trump

Fevereiro 14, 2021

 O facto de Donald Trump ter sido absolvido não é sinal de que a Democracia americana se funde na legalidade, nem que esta é saudável ou se garante nas instituições. Pelo contrário. Desde o ataque ao Capitólio que ficaram claras as fragilidades inerentes à Democracia estadunidense, revelando a cores intensas as falhas de um sistema representativo, não do coletivo, mas antes de interesses particulares. A gestão de Trump e votação do seu impeachment parece uma transposição para realidade da série House of Cards. Ficou evidente que o partido Republicano continua capturado pelo trumpismo, o que permite acreditar que ainda há lugar para Donald Trump na política americana e, quem sabe, na Casa Branca, uma vez mais. As razões fundantes deste pensamento são, pois, as seguintes: i) a absolvição cai na opinião pública como legitimação de Trump e não como captura do Senado pelos republicanos pró-Trump, ii) o Partido Republicano permanece, como dito, capturado pelo trumpismo, não tendo uma alternativa capaz de fazer crer numa conquista da Casa Branca sem o viés populista autoritário de Trump, iii) o Partido Democrático tem um presidente a-carismático e poderá apostar em Kamala Harris, uma candidata que não garante um consenso popular alargado. Portanto, o fantasma de Trump continuará a pairar fortemente, numa América ferida, dividida, e com as trincheiras reforçadas por esta absolvição.

América: um tiro no bom-senso

Fevereiro 05, 2016

O Estado da Florida aprovou, hoje mesmo, a autorização para que os jovens possam entrar nas universidades armados. Não há como não olhar o facto com apreensão e retirar óbvias conclusões. O imaginário norte-americano precisa das armas para autoconsolidação. No quadro coletivo americano, a bandeira, as armas, Deus, o hot dog e o american football, operam como mnemónicas de consolidação identitária. São, claro, chavões frágeis que mal operam no sentido de criação de identitade e memória coletiva, mas que no quadro político produzem resultados junto do eleitorado conservador da «América profunda», amarrado a valores religiosos e paradigmas de lei armada. O problema maior é que ao procurar afirmar-se e consolidar uma imagem de guardiã da Democracia no mundo, a América vive num vácuo de constrassensos, isto porque a Europa não reconhece a autoridade americana através do modelo de «paz armada». No plano interno, ao nível dos impactos sociais, esta medida é perigosa, ao reproduzir e ampliar a noção de que a lei faz-se pela força, e a segurança pelo recurso ao armamento, quando é demais evidente que o problema reside, precisamente, na militarização da sociedade norte-americana. 

A vitória republicana e a América que aí vem.

Novembro 05, 2014

Os Republicanos conquistaram o Senado e os resultados podem servir de indicadores para os tempos que se avizinham. A governação - já de si frágil - de Obama estará sob a mira dos republicanos, ávidos de reconquistarem o poder e fazerem regressar "a boa velha América", seja isso o que for. Da América dos cowboys às grandes cidades, vão muitas paisagens e geografias humanas pelo meio. É um país de contrastes exacerbados pela dimensão do território. Diferentes tempos, diferentes perceções da vida, diferentes expetativas face ao governo, diferentes mundividências, tudo concentrado em dois grandes partidos. A estabilidade do Partido Democrata assenta na satisfação do eleitorado urbano, jovem e adulto, de classe média. Uma franja social ténue para um país onde a posse de arma e a imigração são temas fraturantes. 

Uma possível vitória republicana em futuras presidenciais, facto cada vez menos improvável, significará o regresso (ou o agudizar) de uma América onde a Democracia se compreende na imposição universal de um modelo político e cultural, na exportação de um paradigma ideológico, no reforço do papel da indústria farmacêutica e militar na Casa Branca. Com o crescimento do poder russo o fantasma de um mundo bipolar e de uma guerra fria parece espreitar a cada esquina. E porque a vida humana é cíclica, há muita poeira a voltar da história. 

Cólofon

Dias Assim é um blogue de João Ferreira Dias, escrito segundo o Acordo Ortográfico, de publicação avulsa e temática livre. Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.