Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A Morada dos Dias

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

O fardo de Floyd foi não ter farda

Junho 04, 2020

A propósito do homicídio de George Floyd, escreve André Ventura no Twitter que com ele ofender polícias vai-se acabar. Isto do nós contra eles é uma maravilha. E eu a pensar que a polícia era um dos garantes da dignidade dos cidadãos. Não que discorde da necessidade de respeito pelas forças de segurança, bem como do reforço de meios e condições, mas será que o candidato-a-tudo também pretende acabar com a corrupção, crime e violência policiais ou o seu propósito é instaurar um estado policial onde as forças de segurança pública sejam inimputáveis? Onde é que já vimos isto?

Micropost [45] Ventura e a Rixa

Maio 26, 2020

Nas redes sociais André Ventura aproveita uma rixa envolvendo indivíduos ciganos para fazer política, afirmando que não quer contribuir com os seus impostos para esta comunidade. O deslize discursivo óbvio. Se A então B. Não há contexto, só apropriação de atos com fins racistas. Na dúvida sobre a intenção de Ventura, pense: porque uma rixa de ciganos merece um comentário político e uma rixa entre vizinhos por causa de um pedaço de terra não? Porque há um caldo racial que convém aproveitar. Já agora, nós também pagamos o salário do Sr. Deputado e pagámos o seu doutoramento na Irlanda, com os nossos impostos. Chama-se Democracia, senhor.

As mal-aVENTURAnças

Abril 16, 2020

Há para aí um grupo de apoio a André Ventura que o apelida de "Salvador nacional". Certamente não têm presente que o último "Salvador da pátria" foi Salazar. Ou se calhar até têm, e é precisamente por isso que aplicam a mesma receita. É tão constrangedora esta disposição para o messianismo, para esperar que jogadores políticos sejam uma espécie ungidos. Como esperar que alguém que pensa uma coisa e diz outra venha resolver o que quer que seja? Como esperar que alguém cuja posição política se baseia em soundbites retirados de caixas de comentários que seja impoluto? Como esperar que alguém que tinha no seu programa político a destruição da Escola pública e do SNS, que venha agir em nome do povo? Tinha, pretérito imperfeito. Imperfeito como o seu carácter. Tinha, porque o apagou mal foi confrontado com o facto. Portanto, nem a coerência política lhe é intrínseca. Nada daí viria de diferente ao mundo da política se não fosse o caso de lidarmos com alguém que reconhecendo os tempos que correm se apresenta como um ator político externo, um outsider da toxicidade da vida política. Uma mentira entalhada com ouro dos preconceitos daqueles para quem a sua mensagem é desenhada. 
Enfim, heranças religiosas na vida pública. No Brasil também há um Messias, de nome, que é visto como "mito". Não há como não ter vergonha alheia. Não deles, mas de quem empunha a sua bandeira sem filtro, sem peneira, sem sentido crítico. O Messias é apenas um promessa, uma exaltação e esperança. Quando se transforma alguém real num Messias corre-se o risco de ver nos seus defeitos as suas perfeições e, assim, abdicar da racionalidade própria e deixar-se guiar por um "vendedor de sonhos". 

A libertação de presos

Abril 13, 2020

Ao contrário do político André Ventura, diz o académico André Ventura que em Portugal temos um problema de "populismo judiciário". Sendo um país com uma taxa de criminalidade das mais baixas da Europa, é um dos países que mais prende e por mais tempo. Isto porque o objetivo não é a reinserção social, mas a demonstração do poder dos tribunais. Ou seja, a máxima força diante dos mais fracos. Acresce que muitos dos presos até 2 anos não o deveriam estar, pois são cidadãos que não conseguiram pagar multas.

Em segundo lugar, muitas das pessoas que se revoltam contra a libertação de presos, são as mesmas que não admitem melhorias nas condições das prisões, defendendo que a prisão não é um hotel, não percebendo que há uma relação direta entre tudo isto. O facto de se prender demais e por demasiado tempo, leva a um excesso populacional nas prisões. Diante disso, com más condições e uma população prisional envelhecida, não há outra solução senão soltar muitos dos que lá não deveriam estar, porque de contrário, as prisões arriscam-se a ser focos epidémicos, com perigo real, inclusive, para quem lá trabalha.

Micropost [34]

Fevereiro 04, 2020

André Ventura propôs a redução do salário dos políticos, uma proposta que sabia que seria chumbada, mas que serve para criar a ilusão do nós contra eles, para se imaginar que ele não é um político. Mais, trata-se de uma proposta para as letras bold do Correio da Manhã e, com isso, para o efeito junto do seu eleitorado. O mesmo eleitorado que gostou de o ouvir mandar Joacine para a sua terra, que é o mesmo eleitorado que acha que Portugal bom foi o do Estado Novo, em que "África era nossa".

Micropost [31]

Janeiro 29, 2020

É óbvio que André Ventura tem noção que as suas declarações sobre Joacine Katar Moreira são institucional e parlamentarmente graves. No entanto, enquanto personagem que dá voz aos preconceitos e saudosismos do Estado Novo de uma franja eleitoral que configura o seu eleitorado fiel, ele sabe bem que é esperado que aja daquela forma. Portanto, o problema não é Ventura, porque ele só diz o que querem que ele diga, mas todos os nossos vizinhos, parentes e amigos que concordam com as suas palavras.

A ideologia da farda

Janeiro 23, 2020

André Ventura é um político arguto. A forma como tratou o caso Cláudia Simões é paradigmático da sua capacidade de recompor os factos em favor do argumento que lhe é eleitoralmente favorável e concordante com a sua ideologia securitária. Há muito que percebemos que ele confia nas forças policiais para fazer-se eleger e, eventualmente, fazer crescer o partido. É um eleitorado que conquistado, sentido que tem voz política, se manterá fiel. Por isso, mais do que se colocar ao lado do agente da PSP, arrolou um argumentário de natureza negacionista e conspiratório. Fazer crer que tudo foi uma encenação é um desrespeito pelas partes e um convite à criação de fábulas sociais perigosas. Dúvidas houvessem é seguir as caixas de comentários das notícias e o chorrilho de ataques raciais que são proferidos. Reconhecer que as forças de autoridade pública atravessam uma circunstância profissional deficitária não impede que vejamos uma situação de abuso de autoridade e força desproporcional, nem tão pouco que se reconheça que há um problema nos testes psicológicos e seleção no acesso à carreira, motivados pela falta de candidatos.

Micropost [26] | "Uma Vergonha"

Dezembro 12, 2019

As intervenções de André Ventura são uma aula sobre o populismo. Mesmo na Assembleia da República o homem que é o partido jamais fala para os seus colegas deputados ou para o governo. Fala para o Correio da Manhã, para as manchetes, sabendo que dizer "uma vergonha" tem uma ressonância social muito maior do que qualquer afirmação com conteúdo. Quando se une "uma vergonha" ao nome do partido temos o manual da narrativa que é suficiente (porque não dizer, que chega) para eleger um deputado.

Chega a agulha, afasta o dedal

Dezembro 06, 2019

O Chega tinha no seu programa político acabar com o SNS, com a escola pública e o favorecimento das grandes fortunas, numa sedução ao apoio dos setores ultraliberais da sociedade portuguesa, ao mesmo tempo que afagava os ódios primários do seu eleitorado mais alargado, através de soundbites racistas. Na hora de se confrontar com esse programa de destruição do Estado Social, ou seja, onde iria doer no seu eleitorado, o Chega retira o programa do ar e prepara uma profunda revisão. Ventura é a personificação da frase de Groucho Marx, "Estes são os meus princípios. Se você não gosta deles, eu tenho outros."

Micropost [20] | E se Ventura for aquilo?

Novembro 21, 2019

Passamos o tempo a dizer e a ouvir que André Ventura não acredita naquilo que diz, sendo um aproveitador político de uma circunstância social radicalizada. Como prova apresentamos a sua tese de doutoramento. Mas, e se tais conclusões forem um lapso dedutivo resultante da sua condição académica e da sua imagem "apresentável"? E se a sua tese de doutoramento for, na verdade, uma narrativa intencionalmente depurada e elaborada para os fins constantes? Uma das características dos líderes fascistas é a sua apresentabilidade.

Cólofon

A Morada dos Dias é um blogue de João Ferreira Dias, escrito segundo o Acordo Ortográfico, de publicação avulsa e temática livre. Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.