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Dias Assim

A "questão cigana" na política portuguesa

Janeiro 23, 2021

A chamada “questão cigana” sempre esteve presente na sociedade portuguesa, desde, pelo menos, o século XVI, tendo estes sido usados, inclusive, no povoamento do Brasil no processo penal de degredo. A inclusão/exclusão dos ciganos sempre foi um processo dúbio, multiverso e difícil, com um histórico de autoexclusão cigana e uma forte ostracização social que forçava essa condição de autoexclusão. Uma comunidade colocada à margem da sociedade tende a ver aquela como “inimiga”, fator que motiva uma posição de conflito e retira qualquer dimensão culposa aos atos levados a cabo contra aquela.

O desenvolvimento de políticas de inclusão social em Portugal data do último quartel do século XX, depois de séculos de exclusão que tiveram no Estado Novo forte expressão persecutória. A partir do princípio constitucional da Igualdade e de uma ideia de Estado Social, após o 25 de Abril de 1974, a inclusão foi sendo feita através de políticas públicas concentradas, sobretudo, em matéria de habitação e de correção económica, por via dos apoios sociais como o rendimento social de inserção (RSI).

Nesse quadro do Estado Social, a “questão cigana” nunca foi, de forma evidente, uma matéria de agenda política, mas sempre esteve presente na sociedade portuguesa, particularmente nas zonas urbanas onde se localizam os bairros sociais que ao acantonar grupos étnicos promovem uma psicologia de gueto e reproduzem as tensões sociais, ao invés de resolverem problemas de convivência. O conflito, a insegurança, o desconforto e a perceção de favorecimento alimentaram sentimentos de ansiedade por políticos que lhes dessem voz. André Ventura, um jovem Professor de Direito ambicioso, ávido de protagonismo político, pegou nessa questão e fez dela bandeira política na sua corrida à autarquia de Loures, pela mão de Pedro Passos Coelho, então líder do PSD.

Ao transformar esta questão num tema político, André Ventura foi capaz de catapultar os sentimentos de insegurança e insatisfação vividos na sociedade portuguesa, percebendo que a Esquerda intelectual não era capaz de ir além da análise científica do problema. Os temas da corrupção e dos “tachos” vieram a reboque, aproveitando a receita populista francesa, italiana, espanhola, norte-americana e brasileira, de onde foi, ainda, beber a ideia de luta social entre “gente de bem” e os malfeitores dos “subsídio-dependentes”, numa estratégia que encobre um programa ultraliberal. Também aqui nada de novo, copiando o modelo trumpista e bolsonarista.

Ao permitirem que André Ventura tivesse tomado a “questão cigana” como bandeira do Chega, os partidos democráticos abdicaram de abordar o tema de forma séria, explicativa, dialogante. Agora é, manifestamente, tarde demais, porque tal como na Alemanha que Hitler estava a construir a “questão judaica” foi um fator aglutinador da sociedade alemã, no Portugal de Ventura a “questão cigana” é o cimento de unificação social. E isto é extraordinariamente perigoso, porque na expetativa de resolução de um problema que só se resolve com mais políticas públicas e mais investimento, os apoiantes do Chega abdicam do Estado de Direito Democrático.

micropost [68] "não nos lixem"

Janeiro 18, 2021

Há quem diga que o Chega é um partido conservador, eurocético e nacionalista. Não, não é. É um partido autoritarista e racista. É um partido idealizado por Pacheco de Amorim, um ex-monárquico, convicto fascista e colonialista. Um partido conservador, eurocético e nacionalista é o CDS, que é pela democracia. O Chega não. O Chega quer usar a democracia para recuperar o regime do Estado Novo. Como o Vox, a Frente Nacional, e a Liga Norte de Salvini.

Até ver afinal não Chega

Dezembro 23, 2020

Segundo sondagem da Intercampus, o Chega passou a terceira força política em Portugal. Quem não percebe porquê recomenda-se sair da bolha sociológica em que se encontra e ir ao quotidiano das populações, para entender como aqui, tal como em França, e noutros países, discursos nacionais-populistas têm tal adesão. A insegurança laboral e económica dos descamisados da globalização, aliada à perceção do "outro" como usurpador dos bens comunitários, produz uma insatisfação politicamente instrumentalizável. Como em Portugal não temos um problema de inserção dos imigrantes como em França, o discurso volta-se à comunidade cigana, à suposta subsídio-dependência, à ideia de que "anda tudo a gamar", tudo menos o Chega, que vem cumprir a missão sebastianista de salvar a pátria.

"O preto de casa"

Novembro 18, 2020

Soube que na entrevista de Ventura a Miguel Sousa Tavares, o primeiro disse que tinha um amigo "preto de casa". Esta afirmação é prova irrefutável de que o racismo tem uma dimensão estrutural invisível, muito difícil de desmontar. Para André Ventura essa circunstância prova que não há racismo em Portugal. Mas a mim mostra o contrário. Mostra que a ideologia esclavagista e racial permanecem, porque ter um "preto de casa" sempre significou dominação. O "preto de casa" é aquele que se opõe ao "de senzala". É aquele mais limpo que serve para tarefas domésticas e para mostrar um espírito humanista e civilizador.

Micropost [64] Proscrito Rex Est

Outubro 29, 2020

Não simpatizo nada com a ideia de que não se deve citar o nome de Ventura, numa inversão bíblica do nome de Deus em vão. Tratá-lo comk proscrito, como impuro, é um favor que se lhe faz, aumentando o desejo de muitos de se juntarem ao seu círculo partidário como se de um clube secreto de proscritos se trata-se. O que é preciso é mostrar as incoerências, os chavões e as leituras naifs da realidade.

A Carta de Amor de André a Rui

Outubro 14, 2020

André Ventura escreveu uma carta a Rui Rio, defendendo que a queda do governo socialista, que ele entende que virá, trará a oportunidade de governo a uma coligação "inevitável" entre o PSD e o Chega. Ventura é um tipo da área política do PSD que tinha pressa de chegar ao Parlamento e muita sede de protagonismo. Criou o Chega para atrair os votos das franjas sociais mais descontentes, com teorias da conspiração, com voz nas caixas de comentários. Mas ele não quer estar preso a estas amarras eternamente, a menos que tenha de ser. Por isso, tanto joga no campo da extrema-direita europeia, quanto tenta aproximações ao centro. Aquilo que ele mais quer é aquilo que ele mais acusa os outros de quererem: poleiro.

AconChegados

Outubro 05, 2020

Já tive a oportunidade de ver alguns momentos do Congresso do Chega. O partido padece dos mesmos problemas dos grandes partidos, mas a triplicar. É um conjunto de fações radicalizadas, que se odeiam, com objetivos e ideias diferentes para o país, a que se junta um grupo de sujeitos mais articulados com rancor ao sistema porque não fazem parte dele, e por isso estão ansiosos porque lá chegar. São pessoas que vociferam contra os tachos, mas que desesperam por um. Quanto a Ventura, personifica o líder carismático weberiano, mas no Chega, tal como nas Igrejas evangélicas, o líder não é amado por todos, notando-se a presença de desejosos de tomar o poder. Para compor o espetáculo, lá estava o homem que odeia as mulheres e o excitado com o partido que desdiz o líder - enquanto Ventura tentou transformar o ataque ao Estado Social num mito urbano, o voluntarioso sujeito afirmava o modelo ultraliberal de 100% privatizações.

Os Ovários de Ventura

Setembro 30, 2020

A Direção do Chega quer a expulsão do autor da moção, rejeitada, para a remoção dos ovários às mulheres que pratiquem aborto fora do regime previsto pela lei anterior, ou seja em casos que não de má formação fetal ou violação. Não tivesse existido uma comoção nacional e a coisa passaria. No entanto, um partido que atrai todo o tipo de desajustados sociais, com as mais variadas soluções para "problemas" que assolam a sociedade, sujeita-se a ser um melting pot de delírios e fanatismos. Se a castração física de pedófilos atraia uma massa significativa de pessoas que acredita no modelo de justiça popular, a remoção de ovários representou um salto que o Chega só daria não havendo uma rejeição dentro do seu eleitorado. Perante a reação pública, Ventura quer ver essa nódoa rapidamente removida, não vá fazer estragos ao naperon que anda a costurar.

Micropost [57]

Setembro 25, 2020

O que André Ventura disse de Paulo Pedroso e Ana Gomes é grave. Quem se revê nesta forma de fazer política não se revê na Democracia. Um Professor de Direito não deveria mencionar um processo arquivado colocando suspeitas sobre o sistema. Mais, não deveria falar em corrupção quando recebe vencimento para ajudar empresas a colocar dinheiro em offshores. Ele não quer mudar o sistema, ele quer tomar o sistema de assalto e controlá-lo.

O que diz Ventura, diz mais de si

Setembro 10, 2020

Depois de Ana Gomes ser a "candidata cigana", agora Marisa Matias é a "candidata cannabis". Este tipo de ataques diz mais de Ventura do que dos visados. Não tanto do seu carácter, que é algo que ele deixou de parte quando começou a fazer política de espetáculo, e por isso não lho conhecemos de verdade, mas sobretudo da forma como pretender participar do jogo político, sem qualquer fair play e ciente de que existe uma franja eleitoral que responde a estímulos básicos e a clichés, pessoas que precisam que ele pense por elas e lhes digam como pensar e reagir. São pessoas que arrumam o mundo em binómios e preconceitos. A brasileira é "p%/", o negro é preguiçoso, etc. Como não pretendem conhecer os candidatos, e já são eleitores de Ventura por natureza, basta que arrumem os demais candidatos em "dos ciganos", "do cannabis", "do sistema", e por aí adiante. No final deste exercício classificatório depreciativo, sobra-lhes Ventura. Não interessa se este padece de muitas das contaminações de que acusa os demais, o relevante é que a sua narrativa seja coincidente com os preconceitos que as pessoas têm e o mundo esteja arrumado de forma simples.

Cólofon

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