Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Dias Assim

12
Fev21

Ao que vem a Bastonária dos Enfermeiros

Ana Rita Cavaco é o paradigma perfeito do que há uns anos a esta parte as Ordens profissionais se tornaram. Longe do princípio da subsidiaridade do Estado, enquanto instituições a quem o Estado delega poderes de regulamentação da atividade dos seus membros, muitas ordens profissionais tornaram-se em verdadeiros sindicatos e, sobretudo, plataformas para-partidárias, permitindo o lançamento de carreiras políticas dos seus mais relevantes membros e bastonários. É o que sucede, de forma gritante, com Ana Rita Cavaco. A bastonária da Ordem dos Enfermeiros tem aproveitado o seu mandato para auto-promoção, aparecendo de forma quixotesca como antissistémica e politicamente incorreta, revelando-se uma excelente réplica feminina do seu amigo André Ventura. Com efeito, Ana Rita Cavaco encaixa no perfil traçado por vários autores do outsider político populista, que fala contra a elite corrupta em nome das “pessoas de bem”, trazendo “verdades” que são politicamente incorretas. Aqui, uma vez mais, assemelha-se em tudo a André Ventura. Aliás, a amizade entre ambos vem do tempo da Juventude Social-Democrata (JSD), do qual ambos fizeram parte. Percebe-se, pois, que nenhum deles é um verdadeiro outsider, sendo mais bem caracterizado como oportunista. Precisamente por isso é facilmente intuível que Ana Rita Cavaco esteja a aproveitar a Ordem dos Enfermeiros como rampa de lançamento para as próximas autárquicas, muito possivelmente com um candidatura à Câmara Municipal de Lisboa pelo Chega.

04
Fev21

Não ajudem o Chega

Segundo noticia o Expresso, Ana Gomes avança com uma participação à Procuradoria-Geral da República para a extinção do Chega. Nas últimas eleições, votei em Ana Gomes por razões estratégicas, antevendo um forte eleitorado venturista, não por me rever in terminis nas suas posições. Aqui estou totalmente contra, porque se há coisa que sabemos é que i) o Tribunal Constitucional deu o seu aval à formalização do Chega, ii) que o populismo não se combate de outra forma que não pelo reforço da democracia, pela estabilidade e consenso dos partidos democráticos, pela desmontagem das narrativas simplistas e promotoras do antagonismo social. É ler Levitsky e Ziblatt, sobre a morte da democracia.

23
Jan21

A "questão cigana" na política portuguesa

A chamada “questão cigana” sempre esteve presente na sociedade portuguesa, desde, pelo menos, o século XVI, tendo estes sido usados, inclusive, no povoamento do Brasil no processo penal de degredo. A inclusão/exclusão dos ciganos sempre foi um processo dúbio, multiverso e difícil, com um histórico de autoexclusão cigana e uma forte ostracização social que forçava essa condição de autoexclusão. Uma comunidade colocada à margem da sociedade tende a ver aquela como “inimiga”, fator que motiva uma posição de conflito e retira qualquer dimensão culposa aos atos levados a cabo contra aquela.

O desenvolvimento de políticas de inclusão social em Portugal data do último quartel do século XX, depois de séculos de exclusão que tiveram no Estado Novo forte expressão persecutória. A partir do princípio constitucional da Igualdade e de uma ideia de Estado Social, após o 25 de Abril de 1974, a inclusão foi sendo feita através de políticas públicas concentradas, sobretudo, em matéria de habitação e de correção económica, por via dos apoios sociais como o rendimento social de inserção (RSI).

Nesse quadro do Estado Social, a “questão cigana” nunca foi, de forma evidente, uma matéria de agenda política, mas sempre esteve presente na sociedade portuguesa, particularmente nas zonas urbanas onde se localizam os bairros sociais que ao acantonar grupos étnicos promovem uma psicologia de gueto e reproduzem as tensões sociais, ao invés de resolverem problemas de convivência. O conflito, a insegurança, o desconforto e a perceção de favorecimento alimentaram sentimentos de ansiedade por políticos que lhes dessem voz. André Ventura, um jovem Professor de Direito ambicioso, ávido de protagonismo político, pegou nessa questão e fez dela bandeira política na sua corrida à autarquia de Loures, pela mão de Pedro Passos Coelho, então líder do PSD.

Ao transformar esta questão num tema político, André Ventura foi capaz de catapultar os sentimentos de insegurança e insatisfação vividos na sociedade portuguesa, percebendo que a Esquerda intelectual não era capaz de ir além da análise científica do problema. Os temas da corrupção e dos “tachos” vieram a reboque, aproveitando a receita populista francesa, italiana, espanhola, norte-americana e brasileira, de onde foi, ainda, beber a ideia de luta social entre “gente de bem” e os malfeitores dos “subsídio-dependentes”, numa estratégia que encobre um programa ultraliberal. Também aqui nada de novo, copiando o modelo trumpista e bolsonarista.

Ao permitirem que André Ventura tivesse tomado a “questão cigana” como bandeira do Chega, os partidos democráticos abdicaram de abordar o tema de forma séria, explicativa, dialogante. Agora é, manifestamente, tarde demais, porque tal como na Alemanha que Hitler estava a construir a “questão judaica” foi um fator aglutinador da sociedade alemã, no Portugal de Ventura a “questão cigana” é o cimento de unificação social. E isto é extraordinariamente perigoso, porque na expetativa de resolução de um problema que só se resolve com mais políticas públicas e mais investimento, os apoiantes do Chega abdicam do Estado de Direito Democrático.

18
Jan21

micropost [68] "não nos lixem"

Há quem diga que o Chega é um partido conservador, eurocético e nacionalista. Não, não é. É um partido autoritarista e racista. É um partido idealizado por Pacheco de Amorim, um ex-monárquico, convicto fascista e colonialista. Um partido conservador, eurocético e nacionalista é o CDS, que é pela democracia. O Chega não. O Chega quer usar a democracia para recuperar o regime do Estado Novo. Como o Vox, a Frente Nacional, e a Liga Norte de Salvini.

23
Dez20

Até ver afinal não Chega

Segundo sondagem da Intercampus, o Chega passou a terceira força política em Portugal. Quem não percebe porquê recomenda-se sair da bolha sociológica em que se encontra e ir ao quotidiano das populações, para entender como aqui, tal como em França, e noutros países, discursos nacionais-populistas têm tal adesão. A insegurança laboral e económica dos descamisados da globalização, aliada à perceção do "outro" como usurpador dos bens comunitários, produz uma insatisfação politicamente instrumentalizável. Como em Portugal não temos um problema de inserção dos imigrantes como em França, o discurso volta-se à comunidade cigana, à suposta subsídio-dependência, à ideia de que "anda tudo a gamar", tudo menos o Chega, que vem cumprir a missão sebastianista de salvar a pátria.

18
Nov20

"O preto de casa"

Soube que na entrevista de Ventura a Miguel Sousa Tavares, o primeiro disse que tinha um amigo "preto de casa". Esta afirmação é prova irrefutável de que o racismo tem uma dimensão estrutural invisível, muito difícil de desmontar. Para André Ventura essa circunstância prova que não há racismo em Portugal. Mas a mim mostra o contrário. Mostra que a ideologia esclavagista e racial permanecem, porque ter um "preto de casa" sempre significou dominação. O "preto de casa" é aquele que se opõe ao "de senzala". É aquele mais limpo que serve para tarefas domésticas e para mostrar um espírito humanista e civilizador.

29
Out20

Micropost [64] Proscrito Rex Est

Não simpatizo nada com a ideia de que não se deve citar o nome de Ventura, numa inversão bíblica do nome de Deus em vão. Tratá-lo comk proscrito, como impuro, é um favor que se lhe faz, aumentando o desejo de muitos de se juntarem ao seu círculo partidário como se de um clube secreto de proscritos se trata-se. O que é preciso é mostrar as incoerências, os chavões e as leituras naifs da realidade.

14
Out20

A Carta de Amor de André a Rui

André Ventura escreveu uma carta a Rui Rio, defendendo que a queda do governo socialista, que ele entende que virá, trará a oportunidade de governo a uma coligação "inevitável" entre o PSD e o Chega. Ventura é um tipo da área política do PSD que tinha pressa de chegar ao Parlamento e muita sede de protagonismo. Criou o Chega para atrair os votos das franjas sociais mais descontentes, com teorias da conspiração, com voz nas caixas de comentários. Mas ele não quer estar preso a estas amarras eternamente, a menos que tenha de ser. Por isso, tanto joga no campo da extrema-direita europeia, quanto tenta aproximações ao centro. Aquilo que ele mais quer é aquilo que ele mais acusa os outros de quererem: poleiro.

05
Out20

AconChegados

Já tive a oportunidade de ver alguns momentos do Congresso do Chega. O partido padece dos mesmos problemas dos grandes partidos, mas a triplicar. É um conjunto de fações radicalizadas, que se odeiam, com objetivos e ideias diferentes para o país, a que se junta um grupo de sujeitos mais articulados com rancor ao sistema porque não fazem parte dele, e por isso estão ansiosos porque lá chegar. São pessoas que vociferam contra os tachos, mas que desesperam por um. Quanto a Ventura, personifica o líder carismático weberiano, mas no Chega, tal como nas Igrejas evangélicas, o líder não é amado por todos, notando-se a presença de desejosos de tomar o poder. Para compor o espetáculo, lá estava o homem que odeia as mulheres e o excitado com o partido que desdiz o líder - enquanto Ventura tentou transformar o ataque ao Estado Social num mito urbano, o voluntarioso sujeito afirmava o modelo ultraliberal de 100% privatizações.

30
Set20

Os Ovários de Ventura

A Direção do Chega quer a expulsão do autor da moção, rejeitada, para a remoção dos ovários às mulheres que pratiquem aborto fora do regime previsto pela lei anterior, ou seja em casos que não de má formação fetal ou violação. Não tivesse existido uma comoção nacional e a coisa passaria. No entanto, um partido que atrai todo o tipo de desajustados sociais, com as mais variadas soluções para "problemas" que assolam a sociedade, sujeita-se a ser um melting pot de delírios e fanatismos. Se a castração física de pedófilos atraia uma massa significativa de pessoas que acredita no modelo de justiça popular, a remoção de ovários representou um salto que o Chega só daria não havendo uma rejeição dentro do seu eleitorado. Perante a reação pública, Ventura quer ver essa nódoa rapidamente removida, não vá fazer estragos ao naperon que anda a costurar.

Cólofon

Dias Assim é um blogue de João Ferreira Dias, escrito segundo o Acordo Ortográfico, de publicação avulsa e temática livre. Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.