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A quebra de relações entre Portugal e Angola, independentemente dos fatores em causa, servem de bandeja os pretextos africanos de deslocamento do paradigma da lusofonia para o eixo afro-brasileiro. Há, na sociedade angolana e no próprio governo, um sentimento de nostalgia e afrotropicalismo em relação ao Brasil. A história da constituição do Brasil enquanto país e retalho de identidades nacionais, entre a Casa Grande e a Senzala, não está independente de um Atlântico, sem dúvida, negro. Os contributos africanos para a brasilidade e a experiência diaspórica como produtora de narrativa para a africanidade autóctone fazem "da Costa" uma geografia de partilha. Portugal, neste trânsito, foi produtor e agente. Nesta teia de afro-brasilidade as tradições afro-brasileiras pesam cada vez mais nas relações internacionais. Infelizmente as potencialidades do elemento não têm sido realmente balizadas.   A literatura brasileira, a Capoeira e as manifestações religiosas e culturais como o Candomblé, o Frevo ou o Maracatu são forte apelo na África lusófona. O afrotropicalismo tenderá, creiam-me, a substituir a lusofonia. Portugal não tem sabido explorar as potencialidades históricas deste eixo, numa altura em que as ciências socias portuguesas começam a ter know-how na matéria e em que se produz uma luso-afro-tropicália própria. É uma pena, sem dúvida. 

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O caso luso-angolano é, como bem diz John Wolf, uma questão de realpolitik. O problema que corre camuflado, a meu entender, é por um lado a falta de definição conceptual portuguesa do que é a realpolitik, do que é a bilateralidade e acima de tudo a não compreensão que a geopolítica do «mundo não-polar» - nos termos de Richard N. Haass - é feita de novas ferramentas e novos paradigmas. A ascensão das potências outrora à margem do centro decisório alterou a relação de forças, e o passado já não está ali ao lado. A História, prova a crise, não tem servido para nos ensinar coisa nenhuma, e a realpolitik não se compadece com nostalgias. Só o rancor subsiste. Por outro lado, Portugal jamais soube levar a cabo um processo de descolonização estratégica como os ingleses. Portugal não soube transitar do colonialismo para as diplomacia. Rapidamente as velhas colónias estarão a dar a mão ao Brasil, à França e a outras potências como a China e a Rússia, recuperando aí um romantismo das lutas anticoloniais. Portugal, mais uma vez, ficará perdido nas falhas da sua própria história. Ora se D. Sebastião, pelos vistos, já não volta, as colónias já não se compadecem com a política da língua e com uma CPLP de whiskies e canapés.

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Ao sabor do passado colonial e das múltiplas possibilidades estratégicas em Angola, que vão da agricultura aos diamantes, Portugal perdoou a dívida de milhões, já em plena crise económica e financeira de um país à beira da falência. Fechámos os olhos à corrupção, aos crimes, à ditadura disfarçada de democracia, e seguiu a festa porque o capital não se compadece com a ética. Foi tudo em vão. Angola fecha a porta a Portugal. Na lavagem de dinheiro certamente resta o Benfica. Aguardemos por saber como fica a CPLP. 

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