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A Morada dos Dias

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

03
Abr20

Os restos do COVID-19

O alerta do FMI, de que poderemos ter no horizonte uma crise superior à de 2008, não é extemporâneo. A possibilidade de recessão tem de ser encarada de forma séria e antecipada no quadro das possibilidades. Os Estados não têm bolsos sem fim. Isto vai doer quando a poeira assentar. E com os Estados financeiramente mais sólidos a terem de enfrentar a ameaça da extrema-direita internamente, acabarão por faltar ao dever humanitário de auxílio desinteressado, receosos da revolta popular. Ninguém quer ajudar outrem se tal lhe parecer lesar direta ou indiretamente. Ao mesmo tempo, a prisão à moeda única impede os Estados de aplicarem políticas monetárias próprias, capazes de responder às suas vicissitudes internas. Se a União Europeia aplicar a receita de 2010 em diante, que conhecemos como «austeridade» o fim do projeto europeu avizinha-se, com o ressentimento dos países resgatados, ao caso não por gestão danosa, mas antes por maior fustigação do COVID-19.

03
Jul15

A Grécia e a UE ou "nós e eles"

 Um dos principais problemas da chamada "zona euro" foi ter concebido, tragicamente diga-se, os seus membros a partir da ideia de equidade económica. À boleia de um projeto unificador foi-se alimentando uma utopia que não tardaria a desmoronar-se e a traduzir-se num caos que é hoje o pano de fundo da região. Ao nivelarem-se os países pela principal potência económica e assim política, a Alemanha, criou-se a perceção de que se caminhava em igual ritmo. Que terrível engano! Ora, não só se deterioraram os ideais europeus gerados desde o pós-segunda guerra, a reboque de uma situação económica e financeira insustentável derivada, como sabemos, de uma política de austeridade cujo principal objetivo é o enriquecimento do sistema bancário alemão, como se abriu uma nova ferida sob cicatriz há muito fechada. Há dias, a propósito do referendo grego, dizia um cidadão helénico que "a Europa tem medo do referendo". Este discurso "nós, eles" encontramos, igualmente, em Portugal:  "Na Europa...". Isto é sinal de que o projeto europeu está ainda por ser realizado. É sinal, ainda, de que é impensável manter a Europa unida, sem um clima de desconfiança que conduziu às duas grandes guerras do nosso tempo, sem uma política de integração, cooperação e diálogo reais, onde os ganhos da "mão invisível" não sejam o motor da interlocução. O horizonte é que "nós, os europeus" se torne "Nós e os europeus". 

02
Jul15

A dívida e a soberania

Vamos lá ver: uma coisa são as exigências de garantias de pagamento de empréstimo, coisa que de resto o fazem bancos e instituições que conferem crédito, outra coisa é imposição de regras quanto à gestão interna. Quando vamos ao banco pedir um empréstimo para comprar uma casa, por exemplo, o banco não exige que deixemos de ir de férias, que coloquemos um filho na escola pública ou que dispensemos a senhora que vem limpar a casa uma vez por semana. Exige, sim, garantia de pagamento. A forma como o vamos conseguir é conosco. Ora, é exatamente isto que Tsipras quer - autonomia na gestão da dívida. O que Portugal fez foi entregar a soberania a Berlim, o que é diferente.

01
Jul15

A verem-se gregos

 Enquanto Cavaco Silva faz contas de subtrair, considerando (mal, diga-se) que a saída da Grécia não seria uma fila de dominó, no plano da realidade o futuro da Europa é jogado por estes dias. Em equação estão a firmeza de Tsipras e o medo e a perseverança do povo grego. O referendo de domingo precisa de se traduzir num rotundo "Não", a bem da Grécia e da Europa. O fim deste programa louco de austeridade está dependente da capacidade de inverter os efeitos da mesma, e tal só é possível criando instabilidade nos mercados. É fundamental que a banca alemã comece a perder em resultado da persistência grega, da perseverança de um povo e de um governo que sabe que a austeridade não é o caminho, que foi eleito por um programa de governação que quer cumprir. A ética e a moralidade não são temas menores para Tsipras, como o são para Paulo Portas e Passos Coelho. 

 

Se há medo nas ruas de Atenas há, certamente, uma inversa confiança em Tsipras. A confiança de quem sabe que Bruxelas teme o grexit, não por amor a Santorini mas pelo amor à moeda única e ao projeto imperial dos bancos alemães. Há, portanto, um braço-de-ferro a decorrer. Bruxelas quer fazer vergar essa coisa hedionda que é a esquerda grega no poder, e Atenas quer fazer valer o seu direito à barganha e autodeterminação. 

24
Mai15

Artimanhas da coligação.

Catroga já falou na necessidade de novos cortes. O governo já deixou escapar o imperativo de cortes de 600 milhões. Percebe-se que a narrativa dos sacrifícios temporários em nome da recuperação é uma mentira. A austeridade será perpétua. Mas a coligação tem a coisa bem ensaiada, desviando a atenção para o PS, apontando-lhe o dedo como potenciais despesistas e cujo programa e promessas importam observar. Ora, existe um PM em funções que mentiu descaradamente aos portugueses, prometendo o contrário do seu programa, e que depois de eleito afirmou que com ou sem troika aquele era o caminho. O PS precisa abandonar os sentimentos de culpa do passado recente e inverter o horizonte, relembrando aos portugueses as promessas não cumpridas do governo e uma política que mais pensa nas empresas. Há que não deixar o bullying ganhar.

25
Jan15

A Vitória do Syriza. Horizontes para um amanhã europeu.

A vitória do Syriza abre portas a uma nova Europa? Não necessariamente. Demasiados fatores deverão ser tomados em conta e muito jogo político estará agora a começar. Há um mantra na União Europeia que afirma a necessidade dos gregos cumprirem os seus deveres. Não será pelos gregos que a Alemanha abrirá mão do seu projeto, o qual é a fatura de ter aceite fazer parte de uma moeda regional. Os alemães padecem de um egocentrismo francês tornado pragmático, sendo muito pouco dados a pensar fora de si mesmos e do seu velho «espaço vital». Não adianta os especialistas virem dizer que afinal a austeridade é um péssimo caminho, um dos muitos erros cometidos por políticas de gabinete, a começar pela moeda única que pretendia nivelar pelo marco alemão uma série de países a diferentes tempos e realidades socioeconómicas. 

Não obstante, e a menos que o Syriza pós-eleito se torne num partido moderado e negocial, certamente que o jogo de poderes europeu irá mudar. Irá a Grécia permanecer na União Europeia? Irá abandonar a moeda única? A Grécia será, daqui em diante, um palco de muitos exercícios laboratoriais. Muitos países estarão de olhos no rumo grego como ensaio para futuros caminhos alternativos. A Alemanha desengane-se se julga que poderá manter a Grécia em rédia-curta. Os gregos não são os portugueses, isso já se viu. Ademais, os gregos não olham os empréstimos europeus como dívida a ser paga a elevados juros, pelo contrário, trata-se, sim, da sua perspetiva, da restituição do empréstimo que a Grécia concedeu à Alemanha pós-II Guerra Mundial. E esta é uma interpretação diametralmente diferente. Acresce que os gregos não olham para a austeridade e a salvação dos bancos e da dívida dos privados com o encolher dos ombros luso, para eles trata-se de uma afronta real ao povo real. E tornaram-no muito claro, nas eleições de ontem. 

12
Dez13

O que é a Austeridade?

Provavelmente a palavra mais utilizada ao longo do ano, seguida bem de perto por "troika", entrou nas nossas vidas como um velho conhecido que nos fazia de vítima nos tempos de escola ou como uma capa pastosa que se nos cola à pele e que não somos capazes de tirar com um prolongado duche. Mas o que vem a ser a austeridade? Programa político-económico levado a cabo pela troika nos países intervencionados, é fruto de um modelo ideológico de longue durée alicerçado numa conceção de sociedade hermética e bem definida, que no período da Idade Média se definia em Clero, Nobreza e Povo, e que ao longo da história foi sendo articulada em Nobreza, Burguesia e Operariado, e em Detentores do Capital e Proletariado. A burguesia, em rigor, representa uma variação do modelo, ao expressar as possibilidades da ascensão e mobilidade social simbolizadas no selfmade-man


Com o advento da industrialização, com a globalização, com a produção em massa, o crescimento económico e a emergência das possibilidades de consumo, as sociedades ocidentais viram o seu paradigma social alterado, com o surgimento de uma classe média que permitiu aos filhos, através dos estudos e de bens de consumo, a ascensão social. Ora, quando o capitalismo se tornou selvagem e as famílias se tornaram "chão que já deu uvas" -- endividadas até ao tutano graças a um programa bancário que as seduziu ao super-endividamento -- resurgiu a possibilidade de novo reajustamento social, em que o fosso económico se re-acentua e os remediados deixam o estado provisório de classe média. 


09
Out13

A moeda da desgraça.

O óbvio a priori só se compreendeu já tarde. As coisas feitas em cima do joelho e para a Europa ver tendem a dar mau resultado. A moeda única tornou-se o cancro para uma Europa a várias velocidades. Nenhuma medida de austeridade é realmente eficaz sem uma desvalorização monetária. Presos à moeda das vontades políticas os países resgatados permanecerão nessa condição até que o caos se torne pano de fundo e a realidade grite por si mesma. 

 

[outros textos sobre a moeda única e a situação europeia]

26
Set13

Conversa do Desgraçadinho.

A opinião que tenho sobre o primeiro-ministro e outros políticos da sua geração já a depositei aqui algumas vezes. Não adianta repetir a não ser reforçar que o carreirismo das "jotas" é altamente nocivo para o país. Dois anos após a sua tomada de posse como primeiro-ministro, tendo herdado um país em colapso, o máximo que conseguiu foi levarmos a uma situação muito pior. A reboque de Vítor Gaspar -- ideólogo do governo e seguidor do ministro alemão Wolfgang Schäuble -- ministro que acabaria por sair pela porta pequena, falhadas as suas políticas de austeridade homicida, PPC entregou o país à insustentabilidade. Esgotada a possibilidade de continuar a culpar o governo anterior, agora atira as culpas para cima de Paulo Portas, numa verdadeira lamúria de desgraçadinho. Para Portas é muito bem feito, afinal atrás do sonho de ser primeiro-ministro sem o ser deixou-se vestir com o colete de forças laranja bem ensaiado. Continuamos a ter uma classe política que procura a desculpa para a derrota antes de tentar a vitória. 

16
Mai13

"Jogo do Empurra"

A AUSTERIDADE imposta aos países em situação de resgate financeiro tem sido apontada como uma imposição germânica ao seio da troika. A narrativa que conhecemos bem e que deriva quer da estratégia de dominação do mercado europeu quer do fator bancário alemão está por aí à solta. Sabemos que a austeridade é uma receita que não produz efeitos positivos, que há uma perda natural de capacidade aquisitiva, que as famílias empobrecem, que há uma degradação do tecido social e urbano, etc. Sabemos mas não importa nada quando é o rumo oficialmente imposto. No entanto, o que surpreendo e assusta, é ler que a Alemanha condena a austeridade. Que no fundo as palavras de Lagarde contra a austeridade surtiram efeito. Pena é que o eco não chegue a onde deve chegar e, por isso, continuarem presos a um rumo suicídio cheios de glória vã.  

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