Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Dias Assim

11
Abr21

Micropost [76]

Suzana Garcia, na sua entrevista ao expresso, fala na distribuição indevida do RSI e na consequente necessidade de mecanismos de controlo. Não obstante a veracidade desse facto, o RSI tornou-se tema político porque as pessoas estão mais preocupadas com a distribuição das migalhas entre si, do que com as imoralidades com cobertura legal. Na Amadora, onde ela irá concorrer, Suzana Garcia sabe que o discurso Venturista do "eles" e "nós" apela a um eleitorado concreto e alargado, num município que é um laboratório de convivência e tensão étnica. Com uma estratégia próxima à do Chega, mas livre da conotação negativa daquele partido, Suzana Garcia tentará conquistar a Câmara ao PS, no que seria uma vitória de Rui Rio, mas uma derrota para a contenção do apelo populista.

07
Abr21

Rio Seco

Quando Rui Rio assumiu a liderança do PSD e prometeu recentrar o partido, procurando recuperar a herança Social-democrata tendencialmente de Esquerda do mesmo, sentiu-se um novo aroma, após o «passismo» — um período de bancarrota do país, mas marcado pela ideologia ultraliberal da privatização at large, pela crença na culpa dos cidadãos, e pelo esforço por construir uma narrativa hedionda do PS* —, que foi sendo de curta duração, à medida que o Rui Rio ia manifestando desprezo pela independência do judiciário e pela liberdade de imprensa. Chegámos ao período de preparação das eleições autárquicas e Rui Rio não foi capaz de evitar a deriva populista, confirmando Suzana Garcia como cabeça de lista à Amadora e o apoio a Isaltino Morais a Oeiras. No desespero para reivindicar vitórias, Rio abriu mão da salvaguarda da imagem do partido. Imagino José Eduardo Martins agarrado ao estômago.
 
* é inegável a má gestão de José Sócrates, mas convém ter presente que o ex-primeiro-ministro atravessou duas ideologias na Europa, primeiro o incentivo ao endividamento e despesismo do Estado, depois a inversa. E, por fim, como Porfírio Silva recorda, na sua conta no Facebook, o CDS e o PSD forçaram um memorando de entendimento de resgate danoso para a imagem do governo cessante.
31
Mar21

Suzana Garcia e a atividade política

A escolha de Suzana Garcia, advogada e ex-comentadora televisiva, como cabeça-de-lista à Câmara da Amadora pelo PSD está nas mãos de Rui Rio. É, pois, o líder do partido quem irá dar o aval ou rejeitar a proposta do nome. Mas quer seja aceite ou não, esta escolha, mesmo que provisória, permite um debate sobre o perfil e a atividade política. Enquanto reflexo do primado da representação social, tendo presente que o Estado de Direito democrático republicano que nos rege é representativo por via parlamentar, e que deve refletir, da melhor forma possível, a sociedade sem pretender ser um reflexo proporcional desta, o perfil de um ator político deve ser plural, i.e., devemos falar em perfis e não em perfil. Mas a isto não obsta que se defenda a posse de um conjunto de características-base para o desempenho de cargos de natureza política, como o respeito pela dignidade humana e pelos direitos fundamentais, o respeito pelo texto constitucional, o respeito pelo Estado de Direito, o respeito pelo contraditório, o respeito pelo adversário político, o respeito pela coisa pública. O problema é que vamos notando que tais traços elementares de convivência social e participação política nunca foram totalmente reais e cada vez são menos validados e inquestionavelmente aceites. Percebemos que o "ar do tempo" é populista, é o do espetáculo, onde o politicamente incorreto opera como valor superior, travestido de «voz do povo» e de «verdade». Ora, isto não significa que uma pessoa com atividade pública na televisão, nas artes, no desporto ou outras, não possa, por princípio, participar da vida política ou concorrer a cargos públicos. Isso seria, obviamente, uma violação do princípio constitucional do acesso à vida política (art.º 48.º/1, CRP). O que está aqui em causa é que Suzana Garcia construiu uma imagem pública sensacionalista, populista, marcada por conflitos e pronunciamentos pouco corretos, imagem essa que parece pouco condicente com o que o PSD deveria desejar para encabeçar uma lista. O momento é, também, particularmente importante, uma vez que caso se confirme esta escolha, o PSD acabará por assumir que entrou numa deriva populista como estratégia para firmar as suas fronteiras com o Chega. Ora, se Rui Rio defendia que o PSD era um partido de esquerda moderada, não se percebe esta preocupação com a direita nacionalista e securitária. Por outro lado, mostra que a Amadora é um tubo de ensaio político. Não é por acaso que José Eduardo Martins fala no dia das mentiras para se referir a esta possível escolha. 

29
Out13

CDU em terras autárquicas.

"Coligação" será um termo excessivo. Houve, isso sim, um acordo em relação à distribuição de pelouros que viabilizam a governabilidade. Se há uma diferença ideológico-programática? Imensa, não hajam dúvidas. No entanto a medida espelha bem que a governabilidade não se faz de um "contra tudo e contra todos" e revela ainda que Bernardino Soares mantém a coerência e o espírito democrático que sempre lhe foi reconhecido. Espera-se o mesmo modelo na política nacional.

07
Out13

Abstenção: uma atitude.

O fenómeno sociológico do voto e da abstenção continua na ordem do dia. O distrito de Setúbal, historicamente marcado por uma população jovem e por uma baixa escolaridade, possui sete dos dez concelhos com maior abstenção. Seguem-se Oeiras, Cascais e Ílhavo, concelhos com diferente traçado social. Entre os dez concelhos há a constante da elevada população jovem, cada vez mais marcada pelo distanciamento face à política, ao dever e importância do voto e simultaneamente por uma desconfiança e descrédito face à classe política nacional. Independentemente do substrato social, a abstenção continua a fazer escola. Do não reconhecimento partidário-ideológico ao desinteresse e desinformação, há um punhado de atitudes políticas que os jovens portugueses vão tomando, engrossando o divórcio simbólico entre a política como exercício e a política como cidadania. O país vai perdendo vigilantes e a corrupção ganhando margem de manobra. Resta à classe política começar a ver a abstenção também ela como uma tomada de atitude política, que ainda assim requer enquadramento legal devido.

03
Out13

O curioso caso do BE.

O Bloco de Esquerda (BE) é um dos mais curiosos casos da política portuguesa. Para além da extraordinária longevidade do PCP, sobrevivendo muito para além do Estado Novo e mantendo um papel de vigilante do poder (ao qual se junta um crescimento de salientar em matéria autárquica), a unipessoalidade do CDS-PP, ou a estranha existência do PEV, o BE representa um «estudo-de-caso» a explorar. Com uma base militante inexpressiva, certamente pouco superior ao PAN ou PNR, a força mediática do BE é incontestável. A forma como se vai associando aos mais significativos protestos públicos e o poder retórico do ex-líder Francisco Louçã, fizeram do BE um partido com um poder simbólico superior à sua real dimensão sociológica. Todavia, a saída de nomes como Daniel Oliveira, Fernando Rosas, Joana Amaral Dias e a retirada da liderança de Louçã, conduziram o partido de volta ao seu lugar. Os resultados das Autárquicas do domingo passado são, pois, espelho disso mesmo. A dupla João Semedo-Catarina Martins está longe de gerar o impacto público de Francisco Louçã, ao mesmo tempo que a forma do BE fazer política: altamente voltada para as ruas, para os gritos e protestos, para a oposição e para o mau aproveitamento das possibilidades de ação por dentro do sistema; conduzem o partido a uma falência rápida. Ademais, uma coordenação que depois de catastróficos resultados nas Autárquicas exige a demissão do governo (o BE e o PSD foram os grandes derrotados das eleições) mas que afirma as condições para manter a atual direção peca por coerência. Não que isso na política tenha um preço, mas é sintomático de uma forma de ver a mesma. 

30
Set13

Uma leitura autárquica.

Terminou o período de euforia política. A partir de hoje os portugueses voltam a ter o mesmo valor que sempre têm fora de períodos eleitorais. Os resultados devem ser balizados mas não exacerbados. A derrota clara do PSD e a vitória forte do PS não devem ser tomadas apenas nessas exatas dimensões. A política autárquica é fortemente marcada pelas identidades individuais em desfavor das partidárias - conhecem-se mais os candidatos do que se reconhecem as cores políticas. Não obstante, o facto do PS ter ganho a Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP) e o PSD ter perdido sete das onze câmaras na Madeira, são dados que merecem absoluto destaque. Há, claro está, um castigo ao governo e em particular ao PSD. Não menos importante é o extraordinário crescimento do Partido da Natureza e dos Animais (PAN), liderado pelo Professor universitário Paulo Borges e a vitória de Rui Moreira no Porto, entregando os destinos da cidade Invicta a um independente pela primeira vez na história. Há, ainda que ténues, sinais de um cansaço partidário, embora a lógica do rotativismo faça ainda caminho. Destaque ainda para a CDU que ganha novas câmaras e mantém outras, numa tendência própria de períodos conturbados em que a esquerda vermelha surge como alternativa popular. O Bloco de Esquerda (BE) perde a única câmara que tinha (Salvaterra de Magos) e não consegue eleger João Semedo em Lisboa, revelando-se um partido ineficaz depois da saída de Francisco Louçã, ficando-se cada vez mais como um partido de protesto nas ruas. António Costa, a par de Rui Moreira, é o grande vencedor da noite, reforçando a hegemonia em Lisboa e afirmando-se claramente como o político português mais popular nos tempos que correm. Uma nota final para a abstenção altíssima (cerca de 48%) que sendo uma tomada de posição não tem consequências políticas. O desinteresse e a descrença na classe política tem estes efeitos. Resta contudo recordar que os políticos são um reflexo da sociedade de onde emergem.

10
Set13

Não veremos o Paulinho nas feiras.

A medida de não transmissão das campanhas autárquicas poderá até ser positiva. Embora favoreça as forças tradicionais, PS, PSD e CDS, partidos que não necessitam de tempo de antena para se saber que existem, ao mesmo tempo impede que tais tempos sejam usados como manifestações de caráter populista. Paralelamente, reconhecendo que as transmissões tendem a cobrir essencialmente os focos de poder que são Lisboa e Porto, não há deste modo uma aglutinação das transmissões em favor de jogos também de outra dimensão, tradicionalmente jogados nesses campos de ação política. É uma pena que, ainda assim, seja possível ver "os líderes partidários a comentar ou a discursar, ainda que em acções de campanha dos seus candidatos autárquicos, unicamente sobre temas com impacto nacional como o desemprego, a troika ou as rescisões na função pública", perpetuando assim a instrumentalização política das eleições autárquicas em favor da grande política nacional. No fundo fica quase o dito por não dito, e vamos ver se isto é jornalismo ou ação política.

06
Set13

O Desencanto Autárquico.

A propósito de Max Weber que falava no «desencantamento do mundo», na esteira da modernização das sociedades ocidentais em enfoque ao fenómeno religioso, dou comigo a pensar no profundo desencantamento que as eleições autárquicas se tornaram. O interminável carrossel de candidatos daqui para ali, verdadeiros saltimbancos da oportunidade carreirista, e o forcing diante do Tribunal Constitucional tornaram as Autárquicas num mapa de jogos de poder. Nestas eleições já não há pudor. Testado o povo, agora faz-se tudo às claras. Mandou-se a ética para outras esquinas e arregaçou-se as mangas para abraçar a política sem pólis. 

Cólofon

Dias Assim é um blogue de João Ferreira Dias, escrito segundo o Acordo Ortográfico, de publicação avulsa e temática livre. Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.