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A Morada dos Dias

{ E naquela casa, que já ninguém conhecia a idade, era como se os dias não fossem dias }

Lendo Blogs [7]

Novembro 09, 2019

A nova homepage dos Blogs do Sapo

Novembro 05, 2019

A proliferação de redes sociais e o modelo imediatista de publicação, com a ascensão da escrita reduzida, por via do Twitter e, agora, das frases curtas para o Instagram, pareciam anunciar a morte dos blogs. A potenciar o facto estaria a circunstância de isolamento característico do modelo de hospedagem de blogs. A equipa dos Blogs do Sapo cedo percebeu que a sobrevivência e expansão da plataforma passava pela construção de um sentido de pertença digital a uma «comunidade imaginada», para usar os termos de Benedict Anderson. A nova homepage, que acaba de inaugurar, é a consolidação desse sentido de vizinhança necessária contra a solidão digital. A forma como incorporam mais destaques e colocam excertos é revelador da competente análise da sua equipa, ao produzir uma resposta que garante a continuidade da plataforma numa era de declínio da reflexão e da escrita demorada. Well done, mates. 

Lendo Blogs [5]

Outubro 10, 2019

Lendo Blogs [4]

Setembro 25, 2019

Não sendo um leitor do dito, parabenizo* a sua autor por manter o blog Nada Acontece por Acaso ao longo de uma década. Bem sei o que é ter num blog uma parte arquivada das nossas vidas, sejam relatos mais íntimos sejam opiniões que vamos deixando ao sabor da maré dos dias. Num mundo volátil e das novas redes sociais, é maravilhoso que os bons velhos blogs - enquanto plataforma - permaneçam vivos. Venha mais uma década, que uma só não chega. 

* brasileirismo extremamente eficaz 

Lendo Blogs

/ o racismo estrutural /

Setembro 20, 2019

Quase compreendo o argumento de Helena F. Matos a propósito das máscaras étnicas. E digo quase porque à primeira vista não ocorre nenhum mal em nos mascararmos de outras identidades étnicas. Até porque a máscara opera no sentido de permitir experimentar uma personagem, uma identidade que é diferenciada daquela que assumimos no quotidiano. Ela pode ser, inclusive, uma exaltação (uma personagem histórica), uma tara (no caso das performances BDSM) ou reflexo heróico (um super-herói). Então qual é o problema das máscaras étnico-raciais? Coloquemos um cenário: um homem negro mascarado de homem branco representado como um nerd. A primeira reacção é a do racismo invertido que pretende estereotipar os homens brancos, explicitando uma visão distorcida da realidade. Certo. Ora, não só é o caso das máscaras étnicas de chineses, ameríndios, etc., como é importante adicionar a essas estereotipias a herança histórica do darwinismo cultural e do determinismo racial para compreender que existe ali uma carga de violência simbólica que poderíamos não notar à primeira. É verdade que não havendo dolo o cenário se dilui. Todavia, numa altura em que se regressa uma forte representatividade social dos radicalismos de extrema-direita, é importante voltar a olhar com zelo para os significados dos gestos, esperando que a humanidade regresse a um estágio de desenvolvimento e democratização tal que permita a visibilidade positiva das vozes silenciadas, tornando obsoletas preocupações sobre preconceito, racismo e xenofobia. 

A Morte dos Links

/ O fim dos blogs e outras histórias /

Setembro 20, 2019

Sou um nostálgico convicto, há algumas décadas. Talvez desde a entrada na adolescência, quando me confrontei com o abandono da infância numa beira de estrada da vida. Não é um medo conservador do desmoronar civilizacional, mas antes uma dificuldade no adeus às coisas. É por isso que quando revisito os blogs que sempre mantive linkados sinto um pequeno aperto no peito quando confrontado com o abandono ou término de algum. O que terá acontecido ao/à autor/autora? É sempre uma pergunta que me assola. Não que alguma vez tenha falado com qualquer deles, mas pelo conforto que havia na existência daqueles espaços de escrita. 

A limpeza da governação Trump

Novembro 16, 2017

Com efeito, Maria Teixeira Alves está certa em relação ao modelo político-económico e diplomático adotado por Donald Trump. O presidente norte-americano não apenas mantém um modelo já anteriormente privilegiado como não tem sido um cowboy nas relações internacionais. No entanto, olhar este ano de governo de Donald Trump apenas pela via económica é perigoso e, acima de tudo, preocupante, porque revela um pensamento acantonado (ou assim parece) à supremacia dos fatores económicos sobre os sociais. A agenda de Trump para o multiculturalismo, para a diversidade sexual, étnica e religiosa ficou bem clara com a supressão dessas pastas do site oficial da Casa Branca. A saída dos Estados-Unidos do acordo de Paris e a recusa de Trump em assumir uma agenda ecológica, rejeitando as alterações climáticas e defendendo a necessidade de aquecimento global -- o que aliás serve para garantir a estabilidade das indústrias poluentes que são a base económica da sua presidência -- são sintomáticas do perigo histórico do seu período à frente dos EUA. Por fim, as suas ligações à extrema-direita e ao KKK completam um quadro nada simpático, que só por teimosia se pode negar. 

O género da discussão

Julho 13, 2017

O texto que se segue foi publicado no Delito de Opinião. Agradeço ao Pedro Correia o convite, depois da participação na primeira ronda de bloggers convidados, em 2010.  

O género é um dos temas inquietantes da Antropologia. Talvez por isso seja desagradável darmos com confusões entre Direitos das Mulheres/Igualdade entre Homens e Mulheres e Igualdade de Género. Esta confusão voltou a terreno, por estes dias, no Festival de Cannes, em que a propósito da igualdade entre homens e mulheres no cinema, assim como noutros sectores, foi discutida sobre a lapela da "igualdade de género". Este facto resulta de um problema histórico em que o género emergia culturalmente da distinção do que se concebia por dados biológicos: masculino e feminino como macho e fêmea.
 
Este pressuposto resultou numa atribuição cultural de significados de género a objectos, lugares da casa, elementos vários do quotidiano, como destacava Bourdieu em The Logic of Practice. Ora, esta ideia não traduz a complexidade cultural do corpo como produto sociológico, no qual se jogam memórias culturais, sentidos de identidade e expectativas normativas e alternativas por contestação.
 
A religião enquanto instituição que imprime códigos de conduta e moral nos sujeitos não está independente deste processo de construção de papéis sociais, de normatividades tendencialmente estanques, que se desejam eternas por sua intenção cultural de fixarem-se como contínuo social. Por outras palavras, a religião, partindo de um conjunto de padrões morais, pretende a sociedade como uma renovação desse conjunto de pressupostos, considerando as alternativas como contra-normativas. 
 
O que temos, portanto, é um conjunto de ideias acerca do corpo e do seu uso social e sexual, em que os jeitos de ser homem e mulher resultam da sociedade, mas é nela que se reciclam e permitem ressignificar-se. Assim, quando falamos de género precisamos reconhecer que este é um conceito complexo e dinâmico, em permanente reflexão, fruto de reformas sociais, como os movimentos feminista e LGBT. É, então, perigoso confinar o conceito à distinção entre homens e mulheres, pois que há mulheres cujo género é masculino, e vice-versa, e há, inclusive, novas formas de género e trânsitos entre géneros como formas de constituição de identidade.
 
Se em lugares remotos do nosso Portugal ser homem se constrói nos cafés, nos trabalhos pesados, e o ser mulher se edifica nas atividades domésticas, esse Portugal é apenas uma paisagem entre as várias, porque as fronteiras são muito mais diluídas, e um pai de família pode-se trajar de mulher para um perfil falso numa rede social qualquer, e uma mãe de família, na calada da noite, assistir a pornografia lésbica. Porque a sociedade é a movimentação permanente, ideias conservadoras tendem a reportar a intenções políticas mais do que a factos sociais. 

Le Pen já ganhou, haja o que houver

Maio 06, 2017

Às portas do desfecho das eleições francesas, é tempo de olhar o quadro social em que as mesmas se desenrolam. Inúmeros lugares-comuns são visitados e reciclados em favor da campanha eleitoral, numa França multicultural e profundamente instável. Os problemas de ordem sociológica que afetam a França são conhecidos. Dificuldades de assimilação e acomodação cultural por parte de imigrantes provenientes do mundo árabe, segundas gerações em encruzilhadas identitárias que derivam em crises, que por sua vez se desenrolam em radicalismos. É inquestionável o efeito nefasto que a guetização teve na sociedade francesa. O multiculturalismo e a globalização exigem muito mais esforço concertado do que o enclausuramento fronteiriço, físico e cultural. É muito fácil perante a diversidade cerrar fileiras identitárias, arreigando-se a chavões culturais que formalizam uma espécie de ‘identidade nacional’, que mais não é que um aglomerado de práticas estabelecidas como autênticas e tradicionais. Aquilo que Jean-Louis Triaud, em Lieux de mémoire et passés composés, chamava de «memórias instituídas» e o já clássico Eric Hobsbawm cunhou como «invenção da tradição».