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Dias Assim

Lula Livre, e agora?

Março 12, 2021

João Ferreira Dias

A libertação de Lula repõe a legalidade e o princípio do Estado de Direito, depois de um cárcere político com a conivência de um Sérgio Moro que, no engodo da ambição, acabou enganado pelo bolsonarismo. Mas e agora? É claro que uma eleição direta para o titular de um cargo político com a dimensão do Presidente da República, particularmente em regimes presidencialistas, transporta sempre uma aura de culto de personalidade. No Brasil, a situação vai além da dimensão carismática, fixando-se num plano de messianismo político evidente e pernicioso para a democracia. De Collor de Melo a Bolsonaro, de Lula a Dilma, vemos um mundo de trincheiras ideológicas, de deambulações entre líderes antissistémicos apelidados de "mito", e a figura do pai/mãe da "nação", mas jamais saindo do populismo.

Assim, embora a libertação de Lula possa levar o PT à tentação de recandidatar o ex-Presidente, tal decisão seria, a meu ver, um erro. A forma como decorreu a última campanha eleitoral com fake news, ataques de caráter, e combate cultural, em torno de uma figura sólida e institucional como Fernando Haddad, deixa antever uma campanha eleitoral difícil para Lula, especialmente porque a matéria de desacreditação de Haddad foi, precisamente, a associação direta com o anterior. É verdade que Lula ainda goza de imenso capital político, aparecendo num largo espetro social como o “pai da nação”, ao estilo populista getuliano, embora de esquerda. No entanto, uma boa parte do eleitorado conquistado por Bolsonaro foi dentro de uma onda “antipetista” representada em Lula.

Assim, o futuro da política brasileira poderá não passar pelo PT, mas antes por um movimento renovado de centro-esquerda, embora com o apoio daquele. Ou seja, o que o Brasil parece necessitar é de uma alternativa “à portuguesa”, capaz de jogar ao centro sem deixar de ter uma mão na esquerda. Isto tendo presente que o centro-direita se evaporou na “nova direita” mundial manifesta num nacionalismo económico-liberal e moral-conservador. Ninguém estaria mais qualificado para liderar esse processo que Fernando Haddad não tivesse este descapitalizado a sua imagem política nas anteriores eleições. A possibilidade avançada pela imprensa brasileira de que Haddad poderia surgir como número 2 de uma possível candidatura de Lula em 2022, deixa muito claro que Haddad se encontra excessivamente dependente de Lula e do PT. Guilherme Boulos e Ciro Gomes podem surgir como alternativas, embora lhes falte o carisma necessário para capitalizar um largo espetro eleitoral.

É, pois, previsível que o Brasil não consiga libertar-se da bipolarização PT-Nova Direita, não sendo de desconsiderar que, no quadro do populismo messiânico inscrito na cultura social e política do país, haja uma aspiração proto-religiosa de ver um combate maniqueísta entre Lula e Bolsonaro.

Micropost [53] | No país do Carnaval

Agosto 14, 2020

João Ferreira Dias

Ao que parece Bolsonaro tem aprovação recorde. O país tem, então, o presidente que merece. Um analfabeto, racista, machista, antidemocrático. Pensando bem, reflete uma parte do eleitorado. A este junta-se o eleitorado evangélico em cruzada religiosa, o eleitorado conservador que não suporta a mobilidade social, e o setor empresarial ávido da privatização de todos os recursos. Quem não percebeu o que está em causa não percebe o que se passa no Brasil. Apoiar Bolsonaro é apoiar a memória da ditadura.

O Covid de Bolsonaro

Julho 08, 2020

João Ferreira Dias

Depois de se ter recusado a apresentar resultados de testes, eis que o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, vem a público admitir ter testado positivo para Covid-19. Uma decisão oportuna -- e não menos suspeita -- que a dois tempos resolve os seus problemas imediatos relacionados à pandemia: 1) reforça a tese de "gripezinha", o que permite manter o incentivo à política de laissez faire social diante do problema de elevado contágio, 2) promove a hidroxicloroquina (porque não tendo o vírus apresenta o medicamento desacreditado como solução). Com isto adquire capital político porque reforça a sua imagem de herói diante da pandemia, aquele que sobreviveu ao (pretenso) atentando à sua vida e ainda à pandemia. Numa era de esvaziamento das ideias políticas, segue a sanfona presidencial. "Toca Wilson". 

Micropost [42] Bolsonaro

Maio 06, 2020

João Ferreira Dias

Um ignorante num lugar decisório sente-se sempre ameaçado por todos. Não sabendo como se manter e legitimar de forma democrática, ataca em todas as frentes com ofensas à dignidade alheia e ameaças às instituições democráticas. Qualquer não-alinhado é um perigo na sua paranóia. Todos os traços de personalidade autocrática estão evidentes. Na linha histórica da pessoalização do poder sul-americana, Bolsonaro espera a oportunidade para fechar o Congresso e o STF e cumprir o sonho de restaurar a ditadura militar. Ainda na segunda-feira recebeu, no Planalto, um dos homens fortes do regime militar.

Micropost [39] | Ainda Bolsonaro

Março 28, 2020

João Ferreira Dias

O presidente brasileiro vai gastar 800 mil euros numa campanha de marketing, que inclui passeatas de apoiantes, em favor do fim do isolamento social. Retomo o escrito ontem, no post infra: o cérebro de Bolsonaro está em Olavo de Carvalho, negacionista da pandemia. As políticas estão em Paulo Guedes, um ultraliberal focado no incentivo ao setor privado. A visão de sociedade conjuga estes dois fatores com a moralização evangélica. Com isto, temos uma ideia de governação em que o país não pode parar, morram quantos morrerem. Para isso, é preciso negar a pandemia e manter tudo a funcionar. Triunfalmente até ao colapso final. Será a queda de Bolsonaro, com efeito, mas também a destruição total do país. O rescaldo tratará uma escolha entre dois regressos: ao petismo ou à ditadura.

Bolsonaro: negacionismo e distopia

Março 27, 2020

João Ferreira Dias

O presidente brasileiro deu mais um passo na consumação da distopia brasileira. Ao negar categoricamente a pandemia do covid-19, apelidando-a de "gripezinha" e invertendo todas as recomendações da OMS sobre a necessidade de confinamento e distância social, incentivando a abertura das escolas, da ponte aérea e a retoma do normal funcionamento das instituições e do comércio, Bolsonaro oficializa o negacionismo embandeirado por Olavo de Carvalho, filósofo brasileiro radicado nos Estados Unidos, e tido pelo ideólogo do governo brasileiro em funções. A sua decisão comporta duas consequências de distinta natureza: uma político-ideológica e outra social. Do ponto de vista político-ideológico significa, como dito, a vitória do viés negacionista, cujos propósitos são, a bem ver, o de garantir a continuidade das instituições vitais, num país onde a taxa de mortalidade, por diferentes motivos, sempre foi elevada. Por essa razão, a relativização mascarada de negacionismo assume-se como uma estratégia sobretudo económica, procurando garantir que os setores vitais da economia brasileira continuem a funcionar: indústria agropecuária e as exportações. Ao mesmo tempo, pelas suas assimetrias sociais, económicas, demográficas e geográficas, o encerramento da rede escolar não permite a execução eficaz de alternativas como o ensino à distância. Em simultâneo, ocorre a pressão da económica e socialmente relevante rede evangélica, para quem medidas de confinamento representam o encerramento de igrejas e, com isso, uma quebra acentuada de receita oriunda das “correntes de cura”, do “dízimo” e outras formas de doação de fiéis.

Assim, com o “boi” e “Bíblia” ameaçadas, a estabilidade económica e social brasileira é colocada em causa. Convém recordar, ainda, que Bolsonaro, um saudosista da ditadura militar, sempre advogou a necessidade de redução da população brasileira, tendo sido essa, a seu ver, a maior falha do regime ditatorial brasileiro. Nas suas palavras “mataram pouco”. Ora, encurralado entre as pressões da bancada do boi e da bancada da Bíblia, Bolsonaro tem na pandemia a alternativa mais sólida ao programa falhado pela ditadura. Isto porque, em rigor, as características demográficas e geográficas brasileiras impossibilitam um policiamento eficaz do confinamento, mesmo que fossem colocados os militares na rua. Concomitantemente, a cúpula presidencial tem perfeita noção que o Brasil não possui uma rede de cuidados médicos capazes de lidar com uma onda de mortalidade ao nível italiano, tendo presente o que foi o cenário horrendo da “gripe espanhola” no Brasil em 1918, em que os corpos se acumulavam nas ruas.

Ora, entre um cenário de paragem económica de um país já de si numa situação instável e a ameaça do alastrar da pandemia em proporções incontroláveis, levando em conta a densidade populacional das áreas urbanas e o efeito “bola de neve” nas zonas periféricas (em particular nas “favelas”), o governo brasileiro opta por varrer o problema para debaixo do tapete, na expetativa de que, por artes mágicas, a crise passe.

Assim, ao negar a pandemia ao mesmo tempo que a sociedade e os governos estaduais vão tendo noção do problema, verifica-se um crescendo de instabilidade e desconfiança. Perante o cenário de alastramento epidemiológico, surge uma corrida aos supermercados e um açambarcamento generalizado. Quando tal fenómeno é conciliado com um atraso na resposta conjuntural, precavendo danos futuros, e sabendo que mais tarde ou mais cedo acabará por suceder uma paragem da indústria, decorrente e conjugada com a mortalidade elevada que se avizinha, compreende-se que o Brasil irá passar, muito provavelmente, por uma situação de crise de bens alimentares, incapacidade de resposta médica, inflação e caos social. Bolsonaro poderá tentar passar pelo intervalo da chuva neste cenário, imaginando-se a liderar o regresso da ditadura militar. Mas tal cenário não é garantido, haja visto que é cada vez mais evidente a irresponsabilidade das suas ações e palavras. Os escombros sociais do pós-Covid-19 poderão, em muito, recordar o cenário herdado da “gripe espanhola”. Convém recordar que no séc. XX somente a Segunda Guerra Mundial matou mais do que a “influenza”. No Brasil morreram cerca de 300 mil pessoas, entre elas o presidente, Rodrigues Alves. Convém recordar que a população brasileira, na época, rondava os 20 milhões de pessoas. Atualmente o país possui cerca de 210 milhões de pessoas. Sabendo que a taxa de mortalidade do covid-19 é superior à da “gripe espanhola”, e com uma densidade demográfica tão expressiva, é possível prever uma hecatombe sem precedentes no Brasil. A conjuntura entre terraplanismo, ultraliberalismo, radicalismo evangélico, saudosismo da ditadura e produção massiva de fake news, fermentam um cenário propício à devastação do Brasil como o conhecemos. 

O novo velho eleitorado

Novembro 11, 2019

João Ferreira Dias

De Bolsonaro ao Chega, de Trump ao Vox, o que procuram as pessoas que neles votam? Considerando as diferenças próprias de contexto, a verdade é que há elementos comuns entre tais eleitores que formam um continuum, um conjunto agregado de motivações partilhadas. Tratam-se de pessoas ressentidas com a marcha dos tempos, descamisados da globalização e do multiculturalismo. São pessoas arreigadas a valores morais que reclamam ser socialmente inquestionáveis. Pessoas que procuram uma materialização política dos seus próprios preconceitos, galvanizados por discursos feitos de chavões que não precisam refletir factos, basta, apenas, que se colem ao que pensam para serem elevados a proclamadores de "verdades incómodas", não se importando que para ver os seus preconceitos ampliados na esfera pública legitimem revisionismos e atropelos à Democracia.

Micropost [11]

A educação segundo Bolsonaro

Março 22, 2019

João Ferreira Dias

Tendo por base um estudo do ministro da Educação, Jair Bolsonaro afirma que as crianças apoiadas pelo Estado são menos desenvolvidas intelectualmente. Ao que parece o estudo não existe, sendo, apenas, uma metáfora para dar um ar de acuidade a uma opinião. Ora, se é verdade que o ensino público padece de vários problemas, também é verdade que as famílias apoiadas geraram uma nova classe média brasileira e uma nova geração intelectual oriunda de famílias de baixa renda, como é o caso da nova geração intelectual negra. Por outro lado, o ensino privado não garante, necessariamente, o desenvolvimento intelectual se o ambiente familiar for limitado. Basta ver que ele olhe para dentro de sua casa. 

Cólofon

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