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O Estado dos Dias

«O dia precedente é o mestre do dia seguinte.» - Píncaro

Brasil num clima tenso

02
Dez22
A situação no Brasil permanece tensa. Bolsonaro fechou-se em casa por 20 dias, deixando a vida política e social do país à solta. Por todo o Brasil, as manifestações pedindo uma intervenção militar não arredam pé, alimentadas e alimentando um clima de conspiração golpista que reivindica fraude eleitoral. O PL, partido de Bolsonaro, entregou um pedido de verificação dos votos, com base num estudo de uma consultora externa privada, que levanta suspeitas sobre determinadas urnas, mas apenas no segundo turno eleitoral, o que expressa uma seleção de factos para compor uma narrativa de fraude e legitimar um golpe militar, que teima em não ter lugar, graças ao bom-senso das chefias militares do país.A alienação bolsonarista é uma ferida aberta no país, enraizada nas mais variadas teorias conspiratórias, preconceitos e fobias, em nada dizendo respeito à Democracia e ao Estado de Direito. À medida que se for aproximando a tomada de posse de Lula, o clima deverá agravar-se e podemos esperar escalada de uma violência que já está no terreno, com ataques a camionistas que recusam a paralisação. O objetivo é claro: impedir Lula de tomar posse ou criar um clima de impossibilidade de governação, levando à necessidade de um regresso da ditadura militar.

Entretanto, na Europa, certos conservadores e os populistas de direita fingem não perceber que Bolsonaro é a expressão de uma vontade autoritária e teocrática para a sociedade brasileira, concentrando no combate a Lula como um combate à esquerda, apagando o evidente facto de que a sua plataforma política inclui o centro-direita.

Lula venceu, a democracia não ganhou e amanhã não sabemos se o sabiá canta.

04
Nov22

(texto escrito na alvorada da vitória)

Lula ganhou, mas não venceu. Os resultados deixam o país na mesma fissura e sem particulares hipóteses de reconciliação. É um país sem vasos comunicantes. Se o Senado é de forte expressão bolsonarista, com as presentes eleições vimos São Paulo eleger e Rio de Janeiro reeleger governadores de igual tendência, com Haddad, potencial sucessor de Lula a perder em território paulista e ficando sem capital político para o futuro.

Nas ruas a narrativa do presidente-bandido prevalece entre o eleitorado branco, evangélico e de classe média. Os casos que indiciam corrupção, formação de milícia e violação de direitos humanos na era Bolsonaro não produzem efeito de afastamento de um eleitorado arregimentado. Uma vez mais, o Brasil é uma cópia adaptada dos EUA. Mesmo Lula tendo o apoio dos evangélicos moderados e de boa parte da elite económica e empresarial, facto que inviabiliza qualquer fantasia de venezuelização do país (que nunca ocorreu), a verdade é que a batalha cultural contra o dito “marxismo cultural” em favor de uma hipermoral evangélica e dos direitos de classe alienam o eleitorado bolsonarista, o qual sobrevive bem sem Bolsonaro, já que é um produto histórico e social antigo que sempre esteve vivo no Brasil. 

Não obstante os resultados eleitorais, a situação política e social está muito longe de estar sanada. Nas ruas teremos um arregimentar das milícias populares pró-Bolsonaro e algo similar ao ataque ao Capitólio é bastante viável de acontecer. O incitamento à intervenção dos militares ganhará força e a recusa em aceitar os resultados eleitorais, com fabricação de suspeitas de fraude, fará também o seu caminho. A democracia brasileira não está minimamente a salvo e até 1 de Janeiro de 2023 muita água (e esperemos que nenhum sangue) irá correr no Brasil. 

Assim, partindo do princípio de que a situação social não entrará numa escalada de guerra civil, já que o ódio é o grande leitmotiv eleitoral no país, e que Lula da Silva tomará posse dentro do (mínimo) regular funcionamento das instituições, a democracia brasileira entrará no seu mais determinante capítulo desde o fim da ditadura. Lula precisará de (i) estabelecer acordos que lhe permitam governar, (ii) ser absolutamente impoluto, (iii) realizar uma purga à corrupção do partido, (iv) encontrar mecanismos de combate à pobreza e à violência, (v) repor os direitos das minorias entretanto suspensos, sem fazer dessa a sua pauta cultural, (vi) corrigir as assimetrias sociais e estaduais da melhor forma possível, visando um processo continuado de equilíbrio e aproximação do país, (vii) preparar a sucessão incentivando os demais partidos a encontrar quadros democráticos e qualificados que garantam uma saudável alternância política sem um enfoque populista e de guerra cultural. O desafio é hercúleo, porque o que está em causa, a partir de agora, é salvar a democracia dos seus mais terríveis fantasmas.  

[adenda: obrigado à equipa de Blogs do Sapo pelo destaque deste post]

E porque não Lula?

05
Out22
No caso do Brasil percebo (nos termos mínimos) que as pessoas de Direita votem em Bolsonaro. Na sua maioria é um voto classista, contra os avanços dos direitos laborais e a mobilidade ascendente dos mais pobres no período de Lula. É, também, um voto contra a violência e a insegurança, uma vez que em termos teóricos Bolsonaro representaria o modelo securitário (tosco, na verdade, por via do armamento geral da população). É, por fim, um voto religioso em prol de um Brasil teocrático evangélico.

Em Portugal a situação é bastante diferente. O que leva as pessoas de Direita, portuguesas, a simpatizar com um homem cujo herói é Brilhante Ustra, torturador no período da ditadura militar, alguém que defende que tal período pecou por ter morto poucas pessoas, que não tem a menor simpatia pela cultura, pela literatura, pela arte, cujo trajeto político é marcado pela total ausência de produção, que é abertamente racista, misógino e homofóbico?

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Eleições Brasileiras 2022

entre lulismo e bolsonarismo, quem perde é o Brasil

30
Set22

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quadro democrático. São outra coisa. São campo de batalha cultural entre lulismo e bolsonarismo, o que configura, desse modo, uma derrota de antemão para o Brasil, encurralado em questões de natureza pós-material. Esvaziado de um patamar de normalidade democrática, a política brasileira é apenas uma versão própria do "ar do tempo", cujo aroma é sobretudo a populismo.
De modo sistemático, o lulismo representa um misto entre a Esquerda clássica materialista que visa a transformação social por via económica, através de diferentes interpretações da luta de classes, almejando, sobretudo, o combate à pobreza num país profundamente desigual, e a Esquerda pós-material identitária urbana, voltada àquilo que a direita radical chama de «marxismo cultural», isto é, uma agenda assente numa visão da sociedade marcada por um binómio opressor/oprimido, não tanto num sentido material, embora detendo forte crítica ao capitalismo, mas numa ótica das diferentes minorias, sexuais, raciais, de género. Ou seja, a esquerda ativista.
Por seu turno, o bolsonarismo representa uma conjugação entre uma agenda económica neoliberal de privatizações, concentração no mercado, defesa dos interesses dos setores agrários e de empresas de exploração dos recursos naturais, e uma agenda também ela pós-material identitária de direita, marcada pelo conservadorismo radical evangélico, pelo securitarismo social (combate à criminalidade segundo a lógica do "bandido bom é bandido morto), pela dimensão anti-minorias, cujas queixas de discriminação são classificadas como vitimização, através de uma leitura individualista e meritocrática da sociedade, pelo combate pelos costumes expresso no anti-aborto. No fundo, trata-se de uma versão brasileira do trumpismo e da direita radical populista europeia, que conflui neoliberalismo económico, conservadorismo moral, teocracia evangélica, saudosismo autoritário (ditadura militar), classista racializada (na medida em que uma parte do seu eleitorado se revê na divisão social por via da raça, em versões modernas de uma divisão entre Casa Grande e Senzala).
Pelo meio surge um despertar da consciência política massificada que é canalizada por meio das redes sociais, canais de divulgação de fake news e radicalismo ideológico. O Brasil está numa verdadeira guerra pelo seu coração, uma vez mais. Isso explica porque a corrupção no tempo do PT de Lula é fator determinante no antipetismo, uma vez que o despertar consciente político não se acompanha de uma literacia política capaz de compreender que a corrupção é endémica e sistémica na política brasileira, não sendo uma invenção do PT. (Aliás, a família Bolsonaro está envolvida em inúmeras suspeitas de corrupção).
Assim, qualquer eleitor moderado está diante de um problema de escolha entre duas versões de messianismo político. Se é verdade que o governo de Lula foi marcado pela corrupção, não é menos verdade que foi um período de políticas públicas que resultaram em redução das assimetrias sociais, criação de novas universidades, maior mobilidade social ascendente, número recorde de jovens pobres e racializados com acesso à educação, políticas educativas voltadas para o conhecimento da história e cultura brasileira nas suas vertentes indígenas e afrodescendentes. Por seu turno, o governo de Bolsonaro não foi capaz de produzir melhorias económicas, estando associado à péssima gestão da crise pandémica da Covid-19, com o negacionismo massivo, com a reversão das políticas educativas e de proteção às minorias e aos direitos fundamentais. É um projeto político falhado que dificilmente captaria um eleitorado conservador clássico, de direita, voltado ao capitalismo, mas com um olhar social.
Seja como for, o Brasil em processo de consolidação das instituições democráticas já perdeu. Resta saber se perdendo ganha alguma capacidade de regeneração com Lula, à falta de alternativa, ou se continua a caminhar em direcção ao abismo, com a política bolsonarista de feição evangélica. E depois do horizonte curto? Onde andam os estadistas?

O fator evangélico em Bolsonaro

25
Ago22
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À proposta teórica de Max Weber de tipos de liderança, no quadro da liderança carismática, gosto de aditar uma subcategoria a de "messiânica", posto que ajuda a compreender, por exemplo, o tipo de liderança do atual presidente do Brasil, Jair Bolsonaro. Tendo tomado como foco de campanha as «guerras culturais», cujo conteúdo é pós-material, Bolsonaro fez da sua trajetória recente como político uma combinação entre os seus valores de sempre - máxime a nostalgia da ditadura militar e o seu regime de repressão política - e a agenda da Nova Direita ocidental, passada à peneira da realidade brasileira. É assim que o substrato religioso cristão, sobretudo evangélico, se torna o principal motor da sua campanha, opondo a família tradicional, a moral radical cristã, o patriotismo nacionalista, ao dito «marxismo cultural», uma classificação produzida pela direita radical ocidental a propósito de questões pós-materiais interpretadas à esquerda, na esteira da Escola de Frankfurt e sua teoria crítica, como seja a diversidade sexual e de género, o combate a estruturas racializadas das sociedades ocidentais, ao capitalismo, entre outras.
É, pois, nessa batalha pela identidade da «Nação» a partir de uma grelha evangélica teocrática, que Bolsonaro posiciona a sua força eleitoral, reconhecendo a forma como as Igrejas evangélicas conseguem arregimentar os seus fiéis e torná-los um eleitorado devoto. Ao apresentar Bolsonaro como o "ungido", o eleito para instaurar o reino de Deus no Brasil, o setor evangélico faz desta campanha uma luta entre o "bem e o mal", tornando o contexto político e social brasileiro tremendamente radicalizado e perigoso para a Democracia, cujas instituições são, ainda, frágeis.

Lula Livre, e agora?

12
Mar21

A libertação de Lula repõe a legalidade e o princípio do Estado de Direito, depois de um cárcere político com a conivência de um Sérgio Moro que, no engodo da ambição, acabou enganado pelo bolsonarismo. Mas e agora? É claro que uma eleição direta para o titular de um cargo político com a dimensão do Presidente da República, particularmente em regimes presidencialistas, transporta sempre uma aura de culto de personalidade. No Brasil, a situação vai além da dimensão carismática, fixando-se num plano de messianismo político evidente e pernicioso para a democracia. De Collor de Melo a Bolsonaro, de Lula a Dilma, vemos um mundo de trincheiras ideológicas, de deambulações entre líderes antissistémicos apelidados de "mito", e a figura do pai/mãe da "nação", mas jamais saindo do populismo.

Assim, embora a libertação de Lula possa levar o PT à tentação de recandidatar o ex-Presidente, tal decisão seria, a meu ver, um erro. A forma como decorreu a última campanha eleitoral com fake news, ataques de caráter, e combate cultural, em torno de uma figura sólida e institucional como Fernando Haddad, deixa antever uma campanha eleitoral difícil para Lula, especialmente porque a matéria de desacreditação de Haddad foi, precisamente, a associação direta com o anterior. É verdade que Lula ainda goza de imenso capital político, aparecendo num largo espetro social como o “pai da nação”, ao estilo populista getuliano, embora de esquerda. No entanto, uma boa parte do eleitorado conquistado por Bolsonaro foi dentro de uma onda “antipetista” representada em Lula.

Assim, o futuro da política brasileira poderá não passar pelo PT, mas antes por um movimento renovado de centro-esquerda, embora com o apoio daquele. Ou seja, o que o Brasil parece necessitar é de uma alternativa “à portuguesa”, capaz de jogar ao centro sem deixar de ter uma mão na esquerda. Isto tendo presente que o centro-direita se evaporou na “nova direita” mundial manifesta num nacionalismo económico-liberal e moral-conservador. Ninguém estaria mais qualificado para liderar esse processo que Fernando Haddad não tivesse este descapitalizado a sua imagem política nas anteriores eleições. A possibilidade avançada pela imprensa brasileira de que Haddad poderia surgir como número 2 de uma possível candidatura de Lula em 2022, deixa muito claro que Haddad se encontra excessivamente dependente de Lula e do PT. Guilherme Boulos e Ciro Gomes podem surgir como alternativas, embora lhes falte o carisma necessário para capitalizar um largo espetro eleitoral.

É, pois, previsível que o Brasil não consiga libertar-se da bipolarização PT-Nova Direita, não sendo de desconsiderar que, no quadro do populismo messiânico inscrito na cultura social e política do país, haja uma aspiração proto-religiosa de ver um combate maniqueísta entre Lula e Bolsonaro.

Bolsonaro: negacionismo e distopia

27
Mar20

O presidente brasileiro deu mais um passo na consumação da distopia brasileira. Ao negar categoricamente a pandemia do covid-19, apelidando-a de "gripezinha" e invertendo todas as recomendações da OMS sobre a necessidade de confinamento e distância social, incentivando a abertura das escolas, da ponte aérea e a retoma do normal funcionamento das instituições e do comércio, Bolsonaro oficializa o negacionismo embandeirado por Olavo de Carvalho, filósofo brasileiro radicado nos Estados Unidos, e tido pelo ideólogo do governo brasileiro em funções. A sua decisão comporta duas consequências de distinta natureza: uma político-ideológica e outra social. Do ponto de vista político-ideológico significa, como dito, a vitória do viés negacionista, cujos propósitos são, a bem ver, o de garantir a continuidade das instituições vitais, num país onde a taxa de mortalidade, por diferentes motivos, sempre foi elevada. Por essa razão, a relativização mascarada de negacionismo assume-se como uma estratégia sobretudo económica, procurando garantir que os setores vitais da economia brasileira continuem a funcionar: indústria agropecuária e as exportações. Ao mesmo tempo, pelas suas assimetrias sociais, económicas, demográficas e geográficas, o encerramento da rede escolar não permite a execução eficaz de alternativas como o ensino à distância. Em simultâneo, ocorre a pressão da económica e socialmente relevante rede evangélica, para quem medidas de confinamento representam o encerramento de igrejas e, com isso, uma quebra acentuada de receita oriunda das “correntes de cura”, do “dízimo” e outras formas de doação de fiéis.

Assim, com o “boi” e “Bíblia” ameaçadas, a estabilidade económica e social brasileira é colocada em causa. Convém recordar, ainda, que Bolsonaro, um saudosista da ditadura militar, sempre advogou a necessidade de redução da população brasileira, tendo sido essa, a seu ver, a maior falha do regime ditatorial brasileiro. Nas suas palavras “mataram pouco”. Ora, encurralado entre as pressões da bancada do boi e da bancada da Bíblia, Bolsonaro tem na pandemia a alternativa mais sólida ao programa falhado pela ditadura. Isto porque, em rigor, as características demográficas e geográficas brasileiras impossibilitam um policiamento eficaz do confinamento, mesmo que fossem colocados os militares na rua. Concomitantemente, a cúpula presidencial tem perfeita noção que o Brasil não possui uma rede de cuidados médicos capazes de lidar com uma onda de mortalidade ao nível italiano, tendo presente o que foi o cenário horrendo da “gripe espanhola” no Brasil em 1918, em que os corpos se acumulavam nas ruas.

Ora, entre um cenário de paragem económica de um país já de si numa situação instável e a ameaça do alastrar da pandemia em proporções incontroláveis, levando em conta a densidade populacional das áreas urbanas e o efeito “bola de neve” nas zonas periféricas (em particular nas “favelas”), o governo brasileiro opta por varrer o problema para debaixo do tapete, na expetativa de que, por artes mágicas, a crise passe.

Assim, ao negar a pandemia ao mesmo tempo que a sociedade e os governos estaduais vão tendo noção do problema, verifica-se um crescendo de instabilidade e desconfiança. Perante o cenário de alastramento epidemiológico, surge uma corrida aos supermercados e um açambarcamento generalizado. Quando tal fenómeno é conciliado com um atraso na resposta conjuntural, precavendo danos futuros, e sabendo que mais tarde ou mais cedo acabará por suceder uma paragem da indústria, decorrente e conjugada com a mortalidade elevada que se avizinha, compreende-se que o Brasil irá passar, muito provavelmente, por uma situação de crise de bens alimentares, incapacidade de resposta médica, inflação e caos social. Bolsonaro poderá tentar passar pelo intervalo da chuva neste cenário, imaginando-se a liderar o regresso da ditadura militar. Mas tal cenário não é garantido, haja visto que é cada vez mais evidente a irresponsabilidade das suas ações e palavras. Os escombros sociais do pós-Covid-19 poderão, em muito, recordar o cenário herdado da “gripe espanhola”. Convém recordar que no séc. XX somente a Segunda Guerra Mundial matou mais do que a “influenza”. No Brasil morreram cerca de 300 mil pessoas, entre elas o presidente, Rodrigues Alves. Convém recordar que a população brasileira, na época, rondava os 20 milhões de pessoas. Atualmente o país possui cerca de 210 milhões de pessoas. Sabendo que a taxa de mortalidade do covid-19 é superior à da “gripe espanhola”, e com uma densidade demográfica tão expressiva, é possível prever uma hecatombe sem precedentes no Brasil. A conjuntura entre terraplanismo, ultraliberalismo, radicalismo evangélico, saudosismo da ditadura e produção massiva de fake news, fermentam um cenário propício à devastação do Brasil como o conhecemos. 

Hillary e Lula, equívocos de timming

28
Out18

A poucas horas de vermos o Brasil se tornar um país que elegeu um presidente assumidamente homofóbico, racista, misógino e fascista, uma última consideração sobre o processo de suicídio do PT. Quando o Partido Democrata decidiu ignorar o apelo do seu eleitorado e de importantes figuras do partido, varrendo Bernie Sanders para debaixo do tapete, para apresentar Hillary Clinton como candidata a Presidente dos Estados Unidos, partiu do erróneo princípio de que o eleitorado democrata seguiria em massa a escolha. Não tomou em conta a perceção generalizada de que Hillary se apresentava como a candidata dos interesses de Wall Street, dos vícios do poder político e das suas promiscuidades com o poder económico. Em consequência disso, levou uma valente tareia, pois uma parte do seu eleitorado, confiante que uma figura como Trump jamais seria eleito, votou no atual presidente dos EUA como protesto contra o autismo do Partido Democrata. As consequências políticas foram as que conhecemos. 

Similar erro cometeu o PT. Mergulhado num clima de suspeição -- com uma imprensa que gritou os escândalos de corrupção do seus deputados e outros membros e que falou baixo da corrupção dos demais partidos --, o PT, em toda a sua arrogância de quem está no poder, insistiu em manter como candidato presidencial Lula da Silva. Ainda que esteja inocente, não é democraticamente saudável nem politicamente sustentável apresentar um candidato nestas circunstâncias. No estado atual, caberia ao PT ter apresentado desde logo Fernando Haddad como candidato e ter defendido, de forma clara e transparente, a investigação interna e a reforma partidária. Construir um novo PT em torno de Haddad, valorizando os méritos do passado e apontando o dedo e punindo os erros também, teria valido ao partido uma outra confiança popular. Os erros estratégicos pagam-se caro. E o PT sacrificou a Democracia em nome de uma dinâmica interna típica dos partidos comunistas. 

 

{originalmente em O Coletivo}

Os tais 89%: entender o eleitorado de Bolsonaro em Portugal

25
Out18

 

UM DOS FENÓMENOS SOCIAIS mais interessantes da ascensão de Bolsonaro, encontra-se na conquista quase absoluta do eleitorado emigrado para Portugal. Foram 89% dos votos. Em primeiro lugar, é preciso levar em consideração que esse eleitorado não compartilha um mesmo perfil sócio-económico, mas partilha, pelo menos, um aspeto central desencadeador do fenómeno migratório: a insegurança. Na sua esmagadora maioria, os brasileiros em Portugal realizaram a travessia do atlântico escapando ao clima de violência brutal que assola o país. Quando se leva em consideração as motivações eleitorais sabemos, até por experiência da geografia política europeia, que o fator segurança é determinante na forma como se constrói um eleitorado em torno de movimentos extremados, que manipulam o desejo quotidiano e primário por uma vida sem crime. Perante uma liberdade que é tomada como dado adquirido, a segurança torna-se o principal fator eleitoral. Um candidato que prometa acabar com o crime, num país atolado de cadáveres, é altamente sedutor. Esta narrativa ganha um contorno particular diante de uma população que vê uma brecha de possibilidade de regresso ao seu país. Aspetos ligados à perseguição política, aos abusos de poder policial, e a violenta inversão de políticas sociais não aparecem, em primeira mão, equacionados. 

Em segundo lugar, temos um eleitorado que se auto-percecionada como tendo ascendido socialmente. Tratam-se de pessoas de baixa renda, pobres, que pela experiência de emigração conseguem obter renda maior, pelo que no conjunto de tais fatores não se reconhecessem mais como parte do eleitorado tradicional petista, em contraste com familiares, amigos e vizinhos que foram deixados para trás. Eles já não são pobres, são brasileiros da europa, são "europeus" no olhar do seu grupo social de origem, e assim se reconhecem. Ao mesmo tempo, muitos deles são colhidos pelo movimento de fake news via whatsapp. 

Em terceiro lugar, temos um eleitorado recém-emigrado, uma elite económica brasileira que chega a Portugal fugida da violência. Uma elite historicamente construída no ideal da «casa grande e senzala», do fosso e da estratificação sociais, e assim ultra-conservadora que se revê numa parte significativa do discurso de Bolsonaro. Essa elite que culpa o PT pelos males do Brasil, olha para Bolsonaro como uma janela de oportunidade de regresso ao seu país, sabendo, ainda para mais, que aquele será um presidente que protegerá os interesses desse eleitorado. 

Brasil: de um novo mapa político-social a um Haddad encoberto

19
Out18

As eleições presidenciais brasileiras traçaram um novo mapa sócio-político no país. A intensa campanha anti-petista, baseada não apenas nos escândalos de corrupção, mas igualmente num elevado número do que hoje se designa por fake news, associada a um clima de medo permanente derivado do elevado crime que assola o país, permitiram a emergência de Jair Bolsonaro, um candidato cuja campanha eleitoral se baseia num discurso misógino, racista, anti-LGBT e pró-ditadura militar. O apoio declarado das principais Igrejas neopentecostais -- gerando uma onda messiânica em torno do mártir Bolsonaro -- e uma nostalgia nebulosa do período da ditadura militar, cozinharam o caldo sociológico para que Bolsonaro surgisse envolto na aura de "salvador da Pátria". O seu discurso militarizado serviu para alimentar clusters sociais tendencialmente extremistas e perigosos, que encontraram uma figura que personifica o seu ideal fascista. Ao mesmo tempo, as elites brasileiras, que viram as classes mais desfavorecidas conquistarem direitos sociais que lhes pesaram nos bolsos, equilibrando ligeiramente a balança social e permitindo uma brisa de mobilidade social, encontraram em Bolsonaro a narrativa ideal, ao anunciar o fim do 13º mês, da bolsa família, dos direitos das domésticas, do direito a férias, das cotas raciais nas universidades públicas, e outras iniciativas do governo do PT que permitiram colocar uma tábua sobre o fosso entre ricos e pobres, brancos e negros no Brasil. Todas essas iniciativas sociais foram essenciais no enfatizar de um sentimento anti-PT enquanto pretexto para uma nova velha ordenação social brasileira, historicamente demarcada entre a Casa Grande e a Senzala. Todavia, a insatisfação anti-petista é uma estratégia, uma oportunidade política que permite revitalizar aspirações ditatoriais. Isto porque, Bolsonaro não era a única alternativa a Fernando Haddad -- que estaria, por exemplo, em Ciro Gomes ou na menos popular Marina Silva --, mas era, sem dúvida, a única alternativa anti-democrática.

Portanto, não restam dúvidas do que está, efetivamente, em causa nestas eleições, as quais vêm sendo marcadas pelo histerismo que, em alguns lugares, descambou em violência, tendo ocorrido, no dia de ontem, o homicídio de um mestre de capoeira, de 63 anos, em Salvador da Bahia, depois de declarar, num bar, ter votado em Fernando Haddad. No Rio de Janeiro, em alguns locais de voto, foi montada uma coação, perfeitamente ilegal, com vista à obtenção de votos em favor de Bolsonaro. As fake news, em torno do candidato do PT multiplicaram-se. Tratam-se de casos que evidenciam um clima que faz pano de fundo de uma nova ordenação político-social brasileira. Seja qual for o próximo presidente do Brasil, o mapa ideológico brasileiro estará fortemente bipolarizado. Está, novamente, em frenética ascensão um cenário de fronteiras traçadas a linhas espessas. 

O Brasil está, hoje, dividido, não entre anti-petistas e petistas, mas entre pró-regime militar e anti-regime militar. Acautelo-me ao uso do termo fascistas, por considerar que, e em cuidada análise, uma larga maioria dos eleitores de Bolsonaro não possui o manual de informação capaz de compreender o que está em jogo com o fascismo, nem é exatamente isso que esse eleitorado deseja, mas antes um regime onde sacrifiquem a sua liberdade (da qual têm pouca consciência) para poderem usufruir de uma (falsa) sensação de segurança. 

 

Nem o PT é o Demónio, nem Haddad é Lula

A demonização do Partido dos Trabalhadores (PT) resulta de uma estratégia de concertação de forças políticas, religiosas e imprensa conservadora com vista a restauração de uma sociedade cavada num fosso étnico-cultural. Num plano das utopias políticas, o Messias Bolsonaro foi apresentado como o homem que restauraria a ordem, o progresso e a moral cristã num país onde a franja religiosa evangélica é, cada vez mais, o próprio couro cabeludo. A coincidência das agendas políticas e religiosas fecundou uma oportunidade perfeita. Justapôs-se o perigo vermelho do comunismo ao vermelho do demónio. O problema é que o PT não é o demónio. Efetivamente marcado pela corrupção e por uma ineficiente gestão de Dilma Rousseff, a era do PT foi, também, caraterizada por enormes avanços sociais e por políticas educacionais tremendas, como a bolsa família, as cotas raciais, o ensino da cultura afro-brasileira e ameríndia nas escolas, entre inúmeras outras, que permitiram o surgimento de uma geração escolarizada entre as classes historicamente desfavorecidas e um ajuste com a história brasileira varrida para debaixo do tapete sob o epíteto do branqueamento social e cultural. Evidentemente fracassado em algumas matérias, os governos do PT foram determinantes num virar de página de um Brasil economica e culturalmente racializado, em particular ao nível das instituições. Enquanto isso, nos lares mais favorecidos crescia um sentimento de insatisfação. Os episódios de manifestações nas universidades pedindo o fim das cotas raciais, sob o lema "não queremos negros aqui", foram prova declarada do que estaria em marcha. 

Ora, além da demonização do PT, a campanha pró-Bolsonaro é marcada pela coincidência entre Lula da Silva e Fernando Haddad, o candidato indicado após a exclusão do histórico líder dos Trabalhadores. Essa campanha, todavia, encontra respaldo na própria campanha do PT. Com Lula afastado judicialmente das eleições, o PT fez saber que «Haddad é Lula, e Lula é Haddad», enfatizando uma continuidade entre políticos e políticas. Aqui residiu, com efeito, uma falha por parte do PT. É que o descontentamento anti-petista figurava na figura desgastada (ainda que parcialmente de forma injusta) de Lula da Silva. O afastamento judicial do seu líder representava uma oportunidade para novas aspirações político-ideológicas. No entanto, o PT caiu nas mesmas falhas de históricos partidos da mesma natureza ideológica. Ao enfatizar as continuidades, perdeu-se a oportunidade de chamar à atenção do perfil particular de Fernando Haddad, cujo currículo científico e político são de uma evergadura moralizadora para o país: licenciado em Direito, Mestre em Economia, Doutorado em Filosofia, Professor de Ciência Política na USP. Enquanto ministro da Educação, de 2005 a 2012, foi responsável pelo FIES (Fundo de Investimento Estudantil), pelo ProUni (Programa Universidade para Todos), um programa de bolsas para os mais carenciados, e pelo reformular do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio). Entre 2013 e 2016 foi prefeito de São Paulo, tendo sido distinguido pela ONU como o melhor prefeito da América Latina. Portanto, se o PT tivesse sabido planear a sua campanha, descolando Haddad de Lula, e apresentando-o como o candidato de uma nova era do PT, neste momento estaríamos numa campanha eleitoral entre um político e académico com uma carreira invejável e um político que em 30 anos só aprovou leis que beneficiaram os deputados e propagou o ódio, sem apresentar qualquer ideia de governo. 

 

{texto originalmente publicado no blog do Centro de Estudos Internacionais (CEI-IUL) do ISCTE}